
Ep. 210 - Lições de um negócio sustentável: Cultura de experimentação e adaptabilidade
Resumo rápido
Bruno Multedo e Rodrigo Thiem, cofundadores da Let's Fly, contam como construíram um negócio sustentável a partir da mosca-soldado-negra, transformando resíduo orgânico em proteína e adubo. A história revela como cultura de experimentação, OKRs desde o dia zero, feedback 360 e um modelo de desenvolvimento de pessoas com 16 dimensões de avaliação criaram uma empresa de 14 pessoas que prioriza aprendizado contínuo, fatiamento estratégico e impacto socioambiental real.
Capítulos
- 03:56A origem da Let's Fly: de uma descoberta na África do Sul a um negócio no Rio de Janeiro
- 07:29O modelo de negócio: transformando resíduo orgânico em proteína e adubo
- 11:31Fatiamento estratégico: por que começar pelo mercado animal
- 15:30OKRs e estruturação da gestão desde o dia zero
- 32:20Cultura de experimentação: rodadas de teste, queimas e aprendizado
- 44:36Cultura de feedback e o modelo de desenvolvimento de pessoas
- 56:43Encerramento: impacto, inspiração e reflexões finais
Frases do episódio
“em outras palavras, o que a gente faz é pegar todo o resto de comida que iria para o aterro sanitário ou o lixão, destruir o planeta, e a gente transforma esses restos de comida em comida novamente e em adubo para a agricultura.”
07:29
“Estamos em uma fase mesmo de investimento, de experimentação, de não ter tanta eficiência assim. A gente é eficiente em aprender a operação.”
38:40
“O número mágico aí é o um. É que dá um. Essa conta. Que é exatamente a visão de fora e a mesma visão de dentro.”
55:02
O que você vai ouvir neste episódio
- Maira Flor e Fernanda Magalhães debatem como encorajar um ambiente seguro para testar hipóteses na organização.
- Bruno Multedo e Rodrigo Timm compartilham os aprendizados práticos da Lets Fly na construção de um negócio resiliente.
- O painel apresenta estratégias para adaptar produtos e serviços de acordo com as constantes transformações do mercado.
- A importância da liderança na promoção de uma cultura corporativa voltada à experimentação e inovação contínua.
- Práticas operacionais e financeiras que ajudam empresas a manterem a sustentabilidade em prazos mais longos.
Temas discutidos
O episódio conecta temas centrais da agilidade e gestão de produtos, como a adaptabilidade e a experimentação, à construção de uma cultura organizacional sustentável. Ao discutir como líderes podem incentivar testes constantes e responder a mudanças do mercado, o debate reforça a importância de alinhar estratégia, pessoas e finanças. Os exemplos práticos mostram que a capacidade de adaptação contínua e a resiliência são fundamentais para empresas que buscam manter a relevância no longo prazo.
Para quem é este episódio
Este conteúdo é direcionado a empreendedores, líderes empresariais e gestores de produtos que buscam transformar suas organizações. Ele beneficia profissionais interessados em implementar uma cultura de experimentação, aumentar a capacidade de adaptação às mudanças de mercado e construir modelos de negócios sustentáveis e resilientes a longo prazo.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
Como incentivar uma cultura de experimentação dentro da empresa?
Para incentivar a experimentação, as organizações precisam criar um ambiente em que o teste de hipóteses seja encorajado e valorizado pelas lideranças. Isso envolve dar espaço para aprendizados práticos, alinhar a gestão às mudanças de mercado e permitir que as equipes adaptem processos e produtos com rapidez para atender melhor às necessidades dos clientes.
Qual é o papel da adaptabilidade na sustentabilidade de um negócio?
A adaptabilidade permite que as empresas reajam com rapidez às novas demandas dos clientes e às transformações do mercado. Em vez de manter planos rígidos, negócios sustentáveis utilizam a capacidade de adaptação contínua para ajustar suas estratégias, fortalecendo a resiliência da organização a longo prazo e garantindo a continuidade das operações.
Quais aprendizados práticos da Lets Fly foram destacados no episódio?
O episódio destaca a experiência da Lets Fly na aplicação de estratégias de experimentação e adaptabilidade para construir um modelo de negócio resiliente. Os executivos Bruno Multedo e Rodrigo Timm mostram como o alinhamento entre finanças, liderança e gestão de pessoas ajuda a empresa a responder rapidamente aos desafios do mercado.
Sobre este episódio
Neste episódio 210 do Love the Problem, Bruno Multedo e Rodrigo Thiem, cofundadores da Let's Fly, compartilham a história de uma empresa que transforma resíduo orgânico em proteína de inseto e adubo, com propósito de combate à fome e regeneração ambiental. A conversa revela como uma cultura de experimentação radical, aliada a OKRs desde a fundação, feedback 360 e um modelo de desenvolvimento de pessoas com 16 dimensões de avaliação, constrói uma organização de 14 pessoas que prioriza aprendizado contínuo sobre eficiência imediata. A narrativa passa pelo fatiamento estratégico de um problema sistêmico (fome e desnutrição) para uma fatia viável (alimentação animal), pela construção de um time multidisciplinar complementar, pelas rodadas de teste de secagem e processamento que queimaram produção mas geraram conhecimento, e pela filosofia de que ser eficiente em aprender é mais valioso que ser eficiente em produzir na fase inicial. O episódio é um case vivo de adaptabilidade, liderança situacional e sistema complexo adaptativo aplicado à gestão de uma startup em construção.
Transcrição completa
A Let's Fly é uma empresa fundada em maio de 2021, mas surgiu antes disso como um projeto do cofundador Marcos Rangel, que descobriu na África do Sul a primeira empresa do mundo a trabalhar com insetos. A ideia central é utilizar a mosca-soldado-negra, ou BSF (Black Soldier Fly), como ferramenta de compostagem mais eficiente que a compostagem tradicional. Marcos já possuía a Vide Verde, uma empresa de coleta de resíduos orgânicos no Rio de Janeiro que coleta 100 toneladas por dia há 17 anos, e enxergou a oportunidade de gerar ainda mais valor ao negócio. Bruno Multedo, com 15 anos de experiência corporativa, foi convidado a se juntar ao projeto após visitar a produção em Cachoeiras de Macacu e enxergar as possibilidades de impacto: combate à fome e regeneração ambiental. O propósito da Let's Fly é pegar o resíduo orgânico que iria para aterros sanitários e transformá-lo em proteína de alta qualidade e adubo para a agricultura. A larva da mosca-soldado-negra se alimenta de resíduo orgânico de forma super eficiente, e o resíduo do processo é um adubo chamado frass. A larva é composta basicamente de proteína e gordura da mais alta qualidade. Hoje a empresa começa pela alimentação animal, pois a barreira psicológica envolvendo insetos é infinitamente menor nesse segmento, mas a visão de longo prazo é chegar à alimentação humana. A decisão de começar pelo mercado animal foi um processo de fatiamento estratégico. A primeira pergunta foi: como chegar até a visão de longo prazo? A barreira psicológica é enorme para humanos, mas quase inexistente para peixes, animais exóticos, répteis e pequenos mamíferos. No mercado pet, embora haja barreira, é possível extrair informação de qualidade sobre o comportamento humano em relação a produtos originados de inseto e antecipar estratégias de quebra de barreira. A empresa começou com quatro pessoas e desde a largada estabeleceu OKRs como ferramenta de planejamento, estruturação, priorização e foco. O grande risco de quem começa do zero é querer preencher todos os espaços ao mesmo tempo. Os OKRs criam um ambiente de reunião de planejamento estratégico com espaço de voz para todos, definindo quatro objetivos por trimestre conectados à visão de longo prazo. A medição é feita com indicadores que trazem noção de realidade, mas sem cair na armadilha de medir tudo. O que deve ser medido de verdade é uma fração da verdade que permite tomar decisões. A empresa hoje tem 14 pessoas e os canais de comunicação são transparentes. Sobre a implementação de OKRs, Bruno relatou que foi mais fácil na Let's Fly do que no mundo corporativo, onde as pessoas já viviam um modelo tradicional. A liderança foi fundamental no início, com o papel de explicar a técnica, engajar as pessoas e comprar o engajamento com o modelo proposto. A empresa não começou com um modelo de gestão completo, mas com um simples OKR, tirando a pressão do time. Sobre medição, Bruno destaca que KPI não necessariamente tem que ser um número objetivo. Quando 14 pessoas avaliam subjetivamente algo, o resultado coletivo se aproxima da realidade objetiva. Ao final de um trimestre, analisar o que foi feito e o que não foi feito já é uma medição. O que é fundamental é entender profundamente a operação, o que leva meses ou até um ano. Não adianta pular etapas nem buscar sistemas complexos desde o início: começa no papel, depois em uma planilha, e só quando a operação já é gerenciável faz sentido adquirir um sistema. A cultura de experimentação é central na Let's Fly. O time é multidisciplinar: os quatro primeiros sócios são complementares, e cada um dos 14 membros traz um elemento técnico que o outro não tem. O primeiro contratado foi Diego, biólogo PhD que trabalha com mosca-soldado há 15 anos, um dos maiores especialistas do mundo. A empresa passou por rodadas de teste de secagem com máquinas diferentes, temperaturas diferentes, escalas diferentes. Já queimaram muita larva e perderam produção, mas a visão é que estão em fase de investimento e experimentação, sendo eficientes em aprender a operação. O padrão de trabalho é: pensar no problema, levantar opções de solução boas o suficiente, agir, ver o que deu certo e o que não deu, e iterar. A empresa usa resíduos orgânicos que iam destruir o planeta, gerando impacto socioambiental real. Sobre feedback, a Let's Fly testou vários modelos: feedback mensal individual, feedback por escrito, feedback 360. O que melhor funcionou foi o 360 graus, onde todo mundo fala com todo mundo em um processo de duas horas, com as pessoas se olhando nos olhos, se abraçando, chorando e agradecendo. O feedback é entendido como ferramenta de moldar comportamentos dentro de um sistema complexo adaptativo. O feedback positivo reforça o comportamento, o negativo pede mudança. A soma das visões subjetivas de várias pessoas se aproxima da realidade de verdade. A partir disso, foi criado o modelo de desenvolvimento de pessoas da Let's Fly, que avalia 16 verticais, das quais apenas quatro se relacionam com performance objetiva. As demais são subjetivas: autodesenvolvimento, formação de cultura, liderança sistêmica. Cada pessoa recebe no mínimo cinco avaliações, sendo uma delas autoavaliação. O indicador de confiança-humildade compara a nota que a pessoa se deu versus a média das notas que todos deram. Quando a autoavaliação está muito acima da média, a pessoa precisa refletir; quando está muito abaixo, precisa ousar mais. O resultado prático é profundo: pessoas que nunca liam um livro na vida passaram a ler um por mês, pessoas que não faziam terapia começaram, pessoas que não sabiam ler e escrever direito voltaram para a escola. A performance vem das pessoas, e se não se olha para as pessoas, não se olha para nada. A Let's Fly tem parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde foram desenvolvidas teses de mestrado, doutorado e graduação com produtos derivados da larva. A empresa participou de eventos como Rio Nova e Web Summit, onde centenas de pessoas experimentaram a larva desidratada e a maioria saiu dizendo que era melhor do que esperava. O valor de inspiração é um dos pilares da companhia: compartilhar experiências e conhecimento para que outras empresas também evoluam. Se não houver aprendizado, não há razão para estar ali.
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