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Ep. 180 - Desafios do Empreendedorismo Negro
Ep. 180

Ep. 180 - Desafios do Empreendedorismo Negro

27 de novembro de 202300:49:23
Educação
Estratégia
Inovação

Resumo rápido

Três empreendedores negros — Rafael Ireno (BlackPapers), Dayane Almeida (Ginga Afrotech Hub) e Rafael Gomes (Fazer Orçamento) — discutem por que o empreendedorismo negro em tecnologia enfrenta barreiras estruturais de acesso a crédito, informação e rede, e como a tensão entre impacto social e sustentabilidade financeira exige um modelo que vá além da filantropia paliativa para transformar de fato a realidade econômica das comunidades negras.

Capítulos

  1. 00:14Abertura: a pergunta que guia o episódio — quem tem medo do empreendedorismo negro?
  2. 05:16Delimitando o tema: desafios do empreendedorismo negro em tecnologia
  3. 08:01Diferenças estruturais: raça, classe, gênero e acesso a recursos
  4. 12:13Histórias de origem: periferia, dupla jornada e a primeira tentativa de empreender
  5. 16:11O erro da padaria: construir antes de validar e o aprendizado no ecossistema
  6. 29:18O custo emocional do empreender e a tensão entre impacto social e lucro
  7. 39:22Filantropia versus mudança estrutural: a sustentabilidade como maior impacto

Frases do episódio

Todo empreendedorismo, ele em algum momento, ele nasce e perpassa por quem tá à frente do negócio.

06:13

empreender é um lugar de sofrimento

30:07

o maior impacto que você vai ter, é ter uma empresa que seja financeiramente sustentável, e que você consiga contratar outras pessoas negras

40:11

O que você vai ouvir neste episódio

  • Rafael Ireno compartilha a trajetória de criação da startup Black Papers e as barreiras enfrentadas no setor tecnológico.
  • Daiane Almeida aborda a aplicação de design de negócios e estratégia sob a perspectiva do empreendedorismo negro.
  • Rafael Gomes detalha os desafios técnicos e de liderança na atuação como CTO dentro da startup Fazer Orçamento.
  • O painel analisa as diferenças raciais existentes no acesso a recursos e oportunidades no ambiente de inovação.
  • A discussão apresenta caminhos práticos para impulsionar mudanças e transformar o cenário atual do ecossistema empreendedor.

Temas discutidos

A inclusão e a diversidade racial são fundamentais para construir ecossistemas de inovação e produtos mais eficientes e representativos. Ao examinar o empreendedorismo negro através das trajetórias de Rafael Ireno, Daiane Almeida e Rafael Gomes, o episódio conecta liderança e estratégia de negócios às barreiras estruturais do mercado de tecnologia. Discutir essas desigualdades permite que lideranças organizacionais e equipes de agilidade desenvolvam culturas mais inclusivas, transformando desafios em oportunidades de inovação e impacto social contínuo.

Para quem é este episódio

Este conteúdo é ideal para lideranças de tecnologia, estrategistas de negócios e empreendedores de startups. Esses profissionais encontrarão insights valiosos para promover a diversidade cultural, aprimorar a equidade nos processos de gestão e impulsionar a inovação em suas organizações.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Quais são os principais desafios enfrentados por empreendedores negros na tecnologia?

Empreendedores negros enfrentam barreiras estruturais, como maior dificuldade de acesso a capital, redes de contatos restritas e assimetria de oportunidades no mercado de inovação. No episódio, Rafael Ireno, Daiane Almeida e Rafael Gomes relatam como essas disparidades raciais impactam diretamente o desenvolvimento de negócios e o crescimento profissional na área tecnológica.

Como a estratégia e o design de negócios auxiliam no empreendedorismo negro?

A aplicação de práticas estruturadas de estratégia e design de negócios permite identificar nichos de mercado, otimizar processos e construir propostas de valor mais resilientes. A especialista Daiane Almeida demonstra como essas abordagens apoiam empreendedores a superar entraves do mercado e a criar soluções sustentáveis diante das adversidades do setor.

De que maneira as organizações podem promover a diversidade e transformar esse cenário?

As organizações podem promover a inclusão revisando processos seletivos, criando programas de mentoria e garantindo equidade em cargos de liderança técnica e executiva. Ao escutar as experiências dos convidados, a empresa pode implementar mudanças práticas que fortalecem o ecossistema de inovação e fomentam um ambiente corporativo verdadeiramente plural.

Sobre este episódio

No episódio 180 do Love the Problem, Rafael Ireno (BlackPapers), Dayane Almeida (Ginga Afrotech Hub) e Rafael Gomes (Fazer Orçamento) debatem os desafios estruturais do empreendedorismo negro em tecnologia. A conversa parte da premissa de que todo negócio reflete quem o funda, e que a diferença entre empreendedorismos não é de modelo, mas de acesso a crédito, informação e rede. Os três contam histórias paralelas de primeira tentativa fracassada — construir antes de validar — e do custo desproporcional do erro para quem vem da periferia, onde perder dez mil reais significa um ano de salário mínimo. Dayane traz a analogia da padaria versus a startup para explicar a lógica inversa de validação, e aponta que o conhecimento de como fazer um MVP é restrito a um grupo específico que não inclui a maioria das pessoas negras. Rafael Gomes reflete sobre a tensão entre a obrigação comunitária de ajudar e a necessidade de sustentar a operação, enquanto Rafael Ireno compartilha a solidão de acreditar que dá para fazer tudo sozinho. O ponto central da discussão é a inversão da pirâmide corporativa: no empreendedorismo negro, a comunidade nasce da dor e precede o produto, mas investidores que não vivenciam essa lógica não conseguem enxergar o valor. Dayane propõe que a filantropia é paliativa e que o maior impacto vem de empresas financeiramente sustentáveis que contratam pessoas negras com salário digno, gerando mudança estrutural. A conversa encerra com a convicção de que a economia brasileira foi construída sobre o trabalho gratuito de pessoas negras e que políticas públicas de acesso ao ensino superior em tecnologia são o caminho para uma transformação que não dependa da boa vontade individual.

Transcrição completa

Empreendedorismo negro é um tema bastante amplo, com diversas maneiras de atacar a pauta. O foco deste episódio são os desafios de empreendimentos negros de base tecnológica, dentro do ecossistema de startups, onde há um crescimento gigantesco, com pessoas entrando o tempo todo, tentando o tempo todo, e tecnologias possibilitando novos caminhos e ideias.

A primeira provocação é: existe uma diferença entre um empreendedorismo branco e um empreendedorismo negro? A resposta é sim. Todo empreendedorismo, em algum momento, nasce e perpassa por quem está à frente do negócio. Toda empresa tem muito dos valores, muito das crenças de quem resolve criar esse negócio. Assim como há uma diferença entre o empreendedorismo feito por pessoas não negras e pessoas negras, também é possível dizer que há uma diferença entre o empreendedorismo feito por homens e mulheres, do centro para a periferia, de países periféricos para países de centro. Há uma diferença tanto pela questão de acesso a recursos, quanto por uma questão cultural, quanto por uma questão de interesse — quais problemas esse empreendedor está disposto a resolver, quanto se aprofunda nesses problemas. Não adianta dizer que todo empreendedorismo é igual e que não faz diferença quem é o empreendedor à frente do negócio. Tanto que, na hora de fazer seleção para programas ou fundos de investimento, quem está na frente diz que o que faz a diferença é o empreendedor, não necessariamente o modelo de negócio.

Não dá para trazer o mundo de startups para além da realidade da qual a gente vive. A gente vive num mundo racista, classista e machista, e tudo isso transpassa. Quando a gente mostra a nossa cara e fala que faz algo, querendo ou não, tem que provar muito mais. Já se vê gente captando dinheiro com um PPT, sem ideia, sem nada pronto, e muitas vezes, para acessar crédito, para chegar junto e mostrar que empreende, a gente tem que se posicionar e mostrar muito mais. Acessar crédito é diferente, ter contatos é diferente. A gente tem que sair da bolha que não tem essa informação para poder acessar um lugar que não é tão confortável e provar que somos mais do que fazemos de fato. O empreendedorismo preto exige um pouco mais de força, assim como o empreendedorismo feminino e outros recortes de minorias. O contexto histórico que coloca a gente nesse lugar de diferença não pode ser ignorado, e muito passa pela educação.

Hoje, se a gente olhar, somos minoria dentro do cenário do mercado corporativo de tecnologia, que historicamente é de onde saem essas ideias, esse empreendedorismo tradicional de startup que a gente romantiza e vê nas mídias. A barreira está em que as pessoas não estão inseridas no mercado de tecnologia, mas têm uma ideia, e não sabem como pôr essa ideia em prática. É super importante a devolução das pessoas negras que estão inseridas no mercado, que têm conexão, vivência do inglês, que conseguem encarar o startupês. É incrível e, ao mesmo tempo, assustador ver pessoas incríveis com ideias que poderiam dar certo, mas nem sempre se abre o caminho. Como eu faço? Como eu dou um primeiro passo? Há até casos de aversão à tecnologia, em que a pessoa diz que é boa de falar com as pessoas, mas não curte tecnologia. O desafio de financiamento, referência, rede, networking, tudo isso é bastante importante dentro desse contexto.

A história de Rafael Gomes, CTO da Fazer Orçamento, começa na periferia da Zona Norte de São Paulo, Pirituba. Dentro de casa, a única referência de estudo era: estuda, meu filho. Não tinha muito para além disso. O irmão foi para manutenção elétrica, ele foi para a área de tecnologia, sempre gostou de mexer em videocassete, fliperão, videogame. Dez anos depois, já inserido no ambiente de tecnologia, o irmão ouviu uma oportunidade enquanto fazia conteúdo no YouTube sobre orçamento para pessoas. Foi um momento de boom dos vídeos de conteúdo, porque a galera profissional, MEI, tem muita dificuldade em construir documentos e ter um processo comercial. A provocação do irmão fez com que a ideia nascesse. A jornada foi de quatro anos de dupla jornada: trabalhava numa startup, ia de ônibus, voltava, trabalhava no escritório, voltava para casa, tomava banho, jantava e trabalhava até duas da manhã. Quando a gente fala de empreendedorismo preto, não é fácil para ninguém, mas quando vem de periferia e precisa atravessar a cidade, quando você sai de blusa de casa e no meio tem que tirar a blusa, é uma analogia de tão perto que o cara mora que não consegue ver a diferença do clima de São Paulo. Passa por muito suor, por uma jornada de vida em que você tem que atravessar a cidade, trabalhar e tocar as coisas, porque não pode deixar o ganha-pão morrer, porque não tem um tio que possa investir, não sabe como vender a ideia para captar dinheiro. As coisas acontecem de forma concomitante, tendo que tocar a família, colocar grana para dentro de casa e inventar isso. No ano em que a conversa acontece, a Fazer Orçamento conseguiu sair dos ofícios paralelos e focar cem por cento na empresa.

A história de Dayane Almeida começa em 2016, quando pensou em começar uma startup sem saber que estava começando uma startup. Vem de uma família de empreendedores — avó costureira, mãe confeiteira, irmão eletricista —, mas empreender com tecnologia era algo muito novo, não era um conhecimento difundido. Descobriu que o que queria fazer era uma startup só depois que deu errado, porque tentou montar uma startup sem saber tudo que sabia de empreendedorismo tradicional. No empreendedorismo tradicional, você vai montar uma padaria: precisa primeiro ter o espaço, contratar o padeiro, fazer todos os pães, e aí abre a padaria. Quando você empreende uma startup, o processo é totalmente inverso: você vai para o mercado vender as coisas sem ter nada, porque precisa validar se o mercado tem interesse. Como já tinha construído tudo, a hora que foi para o mercado, as pessoas disseram que não tinham interesse. Foi todo um desperdício de tempo, dinheiro, recursos e saúde emocional para montar um negócio que ninguém queria. Essa pergunta — por que ninguém queria, o que eu fiz de errado — foi o que a levou para o ecossistema de startups, onde você senta, conversa com as pessoas, pesquisa. Foi pesquisando no Google que descobriu o conceito de startup, e depois teve a oportunidade de trabalhar numa aceleradora para montar as áreas de vendas das startups, entendendo o que é produto e como um produto digital é construído.

Esse conhecimento não é encontrado de forma fácil, nem de uma forma que você consiga replicar. Você encontra muito do conhecimento do que fazer — construa um produto digital, teste o MVP, levante hipóteses, valide hipóteses —, mas como monta um MVP? Isso ninguém te conta. É muito difícil encontrar a informação detalhada e aplicável de como fazer essas coisas acontecerem. A maior parte das pessoas que se parecem com ela não tem acesso a isso. Começou a trabalhar no ecossistema de inovação em 2017 e, em quase dois anos, não encontrava pessoas que se pareciam com ela em nenhum programa. É muito comum ser a pessoa única. Quando foi trabalhar num programa para periferia, conheceu outras pessoas que estavam cometendo o mesmo erro: tentar montar negócios digitais usando a lógica de negócios tradicionais. Isso é um problema que está sendo validado. Ir para a academia pesquisar sobre isso, encontrar outras pessoas com a mesma sensação e ter a oportunidade de intraempreender um negócio com foco em apoiar esses empreendedores para quem o acesso a essa informação não chega, tem sido uma jornada muito interessante. Quem já tem acesso a esse conhecimento não teve acesso e começou a empreender agora é uma galera que já vem com esse conhecimento há mais tempo, que já teve a oportunidade de trabalhar dentro de startups, que tem amigos que empreendem, que na família já tem gente que fala sobre isso na mesa do bar, do café da manhã, do almoço, do jantar. Essas informações circulam de forma muito mais fluida do que circulam para nós.

É importante entender quais são as barreiras, mas agora é preciso conversar sobre aquilo que vai fazer com que a gente consiga estar nesse espaço de forma sustentável. Não adianta querer empreender e não ter estrutura, não ter base. Como a gente constrói esses alicerces, essas bases, para que os negócios possam de fato prosperar e se tornar grandes e relevantes? Esse é um processo bastante interessante, particularmente para Dayane, que ainda quer escrever sobre isso de forma mais estruturada. A motivação vem de um lugar muito pessoal: empreender passa pela pessoa que está à frente do negócio, e é um interesse muito pessoal de ter esse lugar e poder fomentar outras pessoas de outras caras e cores a empreenderem em tecnologia para resolver problemas que não são do interesse de muitas pessoas que hoje já estão empreendendo.

A Fazer Orçamento deu o primeiro passo dois anos antes e morreu. A gente construiu um produto digital, demorou um ano de desenvolvimento, ainda tendo a dupla jornada, dando foco também na faculdade. Ficou um ano desenvolvendo, e quando colocou o produto na rua, de uma forma muito destrambelhada, as pessoas usaram e falaram que não era muito bom. É muito adoecedor, porque quando a gente erra, erra muita coisa ao mesmo tempo. O projeto morreu. Depois que internalizou o processo de startups, viu que era um processo ágil, mudou tudo. A percepção de como as coisas tocam para além do mundo físico, a gente não tem acesso. É importante passar por isso, sendo jovem, passar por esse processo de empresa morrer sem ter nascido. O custo é enorme: Rafael perdeu dez mil reais, e era uma pessoa que recebia um salário mínimo. Em 2016, dez mil reais valia algum dinheiro. Quase um ano de trabalho jogado fora. O pessoal fala: erre rápido para aprender rápido. Mas é importante errar calculando o custo do erro, para não ficar no prejuízo. Tem um custo emocional de errar, tem a questão da excelência negra, a gente sempre é cobrado de ser o melhor, de fazer certo. A gente cresce acreditando que não pode errar, porque qualquer erro pode comprometer totalmente a nossa vida. Quando erra num negócio e perde um dinheiro importante para a família, entra numa situação muito complicada. É complexo quando a gente fala desses marcadores, não só raciais, mas também sociais, que impedem ter fôlego para construir uma coisa que faça sentido. Você está construindo um negócio que não existe, que ninguém nunca fez, vai errar no caminho, é extremamente natural, mas às vezes não tem margem emocional, financeira e de tempo para errar. Muita coisa morre no meio do caminho, a gente nem tenta, a coisa simplesmente nem nasce, porque não tem a possibilidade de errar.

A trajetória de Rafael Ireno, fundador da BlackPapers, também é parecida. Foi atleta de basquete, um dia teve uma ideia de rede social. Ninguém na casa era de tecnologia. Achei que ia juntar uma grana, contratar alguém para programar, e o dinheiro entraria. Era simples assim. E a solidão: sempre acreditando que dá para fazer um negócio sozinho, que não precisa de ninguém. Investiu tudo que tinha. Começou a falar com as pessoas, todo mundo dizia que a ideia era legal, bonitinha, mas ninguém usava. Acabou o dinheiro, e sem saber programar, não sabia o que fazer. O mais maluco é que três pessoas, de três lugares diferentes, têm a mesma história. Como compete? O público, os usuários, os consumidores, é um mercado competitivo. Quando fala de financiamento, todo mundo corre atrás da mesma sacola de dinheiro, do financiador, do VC, do banco. Quem está avaliando vai olhar a viabilidade do negócio. E nessa corrida, onde a gente começa mais para trás, como compete? Quais são os mecanismos, o que a gente precisa fazer para competir de igual para igual? Ou não é uma competição de igual para igual e a gente precisa criar outros caminhos?

Há oportunidades muito grandes dentro da periferia. Tem cabeças boas, mas sem orientação, muita ideia rolando e coisas que a galera não acessa. A empresa Na Porta, por exemplo, traz referência de endereço para pessoas da favela, dá geolocalização para uma pessoa que nem tem endereço. Se a gente traz para vários ambientes que essa galera não acessa, existem oportunidades. Não são infinitas, mas tem muita coisa para fazer. Quando se lida com produtos já consolidados, é difícil; quando é um espaço de oceano azul, com bastante oportunidade, foca-se no nicho. Quando a gente começa a fazer, quer resolver o problema do mundo, mas trazer um pontinho específico, um escopo pequeno, já é muito desafiador. A Fazer Orçamento lidava com o pequeno, com a galera que não é assistida por nada, com problema na gestão comercial. Só nisso é um universo. Tem esse repertório que vem de um lugar que a gente viu, de algumas mazelas, de coisas que acontecem no seio familiar, com amigos próximos. Tem muita oportunidade de coisas que a galera da Faria Lima não consegue enxergar ou não sabe como manusear.

Empreender não é para todo mundo, e não é para todo mundo porque tem um custo emocional muito grande. Não é todo mundo que está disponível para sofrer. Empreender passa por um lugar bem grande de sofrimento que pouca gente fala: perda de peso, perda de cabelo, sem tempo com a família, sem tempo para dormir, muita gente passa bastante tempo tentando se resolver sem time, porque não tem como pagar as pessoas. São várias questões que vão fazer você sofrer. É muito bonito quando você sai na capa do jornal, mas é um instante. Depois você volta para a vida normal. O dia a dia não é tão legal assim. Para quem está na periferia e vai empreender, é importante falar sobre como isso pode ser feito da maneira mais prática. Você quer empreender com tecnologia e tudo que conhece é que precisa de um desenvolvedor ou uma software house. Mas não necessariamente, porque existem tecnologias no-code, low-code, que você consegue construir suas coisas sem saber programar. Mas onde a gente encontra isso? Como a gente faz para acessar esse conhecimento? Tem possibilidade de trabalhar em redes em que várias pessoas têm seus próprios empreendimentos e um vai prestando serviço para o outro e a coisa cresce. Mas como a gente faz para acessar essas pessoas? Para quem está na margem, seja por marcador social, territorial ou racial, é importante levar esse conhecimento para que as pessoas possam estruturar negócios mais sólidos e com menos sofrimento.

Uma das características que se vê em vários empreendedores negros é a discussão de impacto social versus ganhar dinheiro. É uma inversão da pirâmide normal do corporativo tradicional. O corporativo nasce tentando resolver um problema específico com o objetivo de ganhar dinheiro, e conforme cresce, cria comunidade para alavancar os produtos. No empreendedorismo negro, a inversão é que de uma dor, de uma problemática de um contexto social, nascem as ideias. A galera começa a se juntar, a aquilomar, e a gente começa a construir comunidades orgânicas que vão crescendo e criando relações. E aí vem a pergunta: como transformar isso em uma empresa que gera lucro? Quando se pensa num cenário de investimento, uma pessoa que não entende ou não tem a vivência de comunidade, que vê um negócio baseado em uma comunidade de pessoas, acha que a conta não fecha. Qual é o dinheiro? Para pessoas negras que constroem negócios, balancear essas duas coisas é um baita desafio. Existe quase uma obrigação de tentar ajudar as pessoas, de salvar a comunidade, e a galera não tem grana, e você tem que cobrar, tem operação, precisa pagar operação. Às vezes a galera diz que o aplicativo tem que ser gratuito, e a pergunta é: como eu faço isso para me sustentar? Essa responsabilidade passa por passar conhecimento para a galera no geral. Existe o coração para querer ajudar toda a comunidade e existe o lance de estruturar a empresa. Não se trata de cobrar valores abusivos, mas existe um limiar que passa por um lugar de onde a gente veio. Se eu usasse o meu aplicativo, a minha tia que faz tal coisa, será que ela conseguiria usar? Será que ela conseguiria pagar? Depende muito do público que você está atingindo. Existe uma tendência muito grande de fazer os negócios e sempre olhar para a comunidade. Quando um erra, todo mundo erra, parece que está errando junto. E quando a gente cresce, parece que é um pecado ascender sem trazer os nossos. O primeiro programa de aceleração, a Black Rocks da MyT, ajudou a estruturar a empresa, mas muito do que se sentiu foi aquilombamento, de estruturar e fortalecer outras empresas pretas. Não necessariamente ela ganhou grana no final com todo mundo. É injusto passar por um processo estruturado e, ao mesmo tempo, precisar fazer grana, fazer o seu nome. Não se tem a resposta. É muito do DNA enquanto empreendedor, pela origem, pelas coisas que a gente vê. A gente está trilhando um meio, construindo um lugar mais tranquilo para os próximos, para salvar o mundo junto. Não é sobre ser capitalista, é como a gente joga melhor o jogo, sem deixar as raízes e esse sentimento de desenvolver, mas ao mesmo tempo querendo ascender, jogando de igual para igual com outras startups.

O processo de aceleração está sendo muito bom para separar as coisas que têm esse lado social, que é bem importante e existe. O mercado está se movimentando para diversidade, equidade, inclusão, e existem oportunidades para serem exploradas. Mas ainda é aquele negócio de tem pessoas que a gente precisa ajudar, que é o lance do propósito. Sempre se fala que propósito não põe dinheiro na mesa. Dayane tem uma posição diferente: as pessoas negras foram criadas em comunidade, as famílias são muito grandes, todo mundo tem muitos primos, muitos tios, e a maioria dos pais são migrantes. As pessoas negras não têm uma história única, cada um tem uma história, por mais que tenham semelhanças. É muito da cultura, da ancestralidade, fazer as coisas em grupo, em comunidade. Não se discorda de que faz sentido trabalhar junto e ajudar a comunidade. A provocação é: como você vai fazer isso? Se você der de graça, não está ajudando de fato, está resolvendo de forma paliativa. A pessoa vai continuar sem ter acesso, porque o dia que você não puder mais dar de graça, essa pessoa vai voltar exatamente para a situação em que estava antes. Como construir uma estrutura que seja capaz de suportar, ajudar a comunidade, mas que essa ajuda seja de elevar o nível econômico da comunidade? O maior impacto que você vai ter é ter uma empresa que seja financeiramente sustentável e que você consiga contratar outras pessoas negras. É muito difícil pessoas negras entrarem no mercado de tecnologia, é só olhar nos times, é só olhar na hora dos cortes para ver quem são as primeiras pessoas a serem mandadas embora. Se você é empreendedor negro, tem uma startup financeiramente sustentável, vai poder contratar essa pessoa e pagar um salário decente, e aí vai mudar a vida dela de uma forma muito mais consistente do que só dar as coisas de graça. Quando você tem uma empresa de educação e resolve fazer financiamento cruzado, para cada X alunos pagantes, dá uma bolsa para alguém em situação de vulnerabilidade social, está mudando de fato o jogo, porque está dando uma educação consistente que vai fazer a pessoa conseguir um emprego melhor e, por consequência, ter uma mudança estrutural na família. A provocação é: a gente aprendeu a fazer filantropia, a fazer coisas paliativas, mas como a gente muda de fato as estruturas? Como a gente dá acessos que são capazes de mudar a estrutura dessas pessoas? Isso também fala de políticas públicas, que vêm nesse lugar de resolver um problema estrutural que o próprio governo criou ao apoiar durante muitos anos a escravização de pessoas negras. A gente vem de uma economia baseada no trabalho gratuito, não pago, não remunerado, de pessoas negras. Muitas famílias nesse país são ricas porque tiveram muitas pessoas negras trabalhando de forma gratuita para que elas pudessem construir essa riqueza. Quando se fala de políticas públicas para resolver esse problema estrutural, e você tem pessoas negras acessando o ensino superior para aprender a lidar com tecnologia, e a partir desse acesso a pessoa monta uma empresa financeiramente sustentável que consegue contratar pessoas da comunidade pagando um salário digno, e esse salário resolve contratar uma mãe negra que é mãe solo, a diferença que você faz na vida dessa mulher, que ela consiga pagar a creche da criança, dar uma educação decente, uma qualidade de vida melhor, é dessa mudança que a gente precisa trabalhar para que ela exista. Não só a mudança da filantropia, que muitas vezes fizeram com a gente e que continuam dizendo que é o que faz sentido, que é o paliativo. Na hora que as pessoas desistirem ou cansarem de fazer a filantropia, a gente volta exatamente para o lugar onde estava. Dá para fazer diferença? Com certeza dá. Mas a gente precisa entender como e onde vai fazer a diferença, de uma forma que seja sustentável para todo mundo. Não adianta ter uma empresa em que você só trabalha de graça e aí também entra numa situação de vulnerabilidade no fim do dia. Como levar essa informação, esse acesso, para essas pessoas conhecerem, mas também se relacionarem com outros empreendedores que já fizeram, que estão fazendo, que estão passando pelas mesmas dores, pelos mesmos momentos, pelos mesmos desafios. Estar junto, com pessoas no mesmo momento, com as mesmas dificuldades, principalmente de contexto social, faz super a diferença. Falar sobre esse tema é super legal, se aprende muito, e dá um gás para continuar fazendo. Que essa mensagem chegue para outros empreendedores ou quem sonha em empreender, para que a galera consiga dar os passos.

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