
Ep. 159 - Comunicação Assertiva: do Individuo à Cultura
Resumo rápido
Neste episódio, Dani Privot e Renata Kurtz desconstroem a ideia de que assertividade é apenas falar bem ou ser objetivo. A partir de definições que vão de 1949 ao século XXI, mostram que ser assertivo é uma competência comunicativa que integra autoconhecimento, empatia, autorregulação emocional e cuidado com o outro. A conversa desloca o peso do indivíduo para o sistema: lideranças precisam criar espaços seguros, estimular a divergência e modelar coerência entre discurso e prática. Práticas concretas como a pausa transicional e a técnica P.A.R.A.R. são apresentadas como ferramentas de regulação emocional, e a comunicação não violenta surge como caminho para a expressão autêntica. O episódio fecha com a reflexão sobre justiça e poder: garantir tempo e voz a quem historicamente tem menos espaço é condição para uma assertividade real.
Capítulos
- 03:36O que é ser assertivo: da definição de 1949 ao século XXI
- 08:52Prática diária e a falácia do curso que resolve
- 12:49Assertividade na liderança e segurança psicológica
- 21:50A pausa transicional: parar entre contextos
- 28:22A técnica P.A.R.A.R. para regulação emocional
- 42:04Impactos da pandemia e a coerência entre discurso e prática
- 50:24Diferenças de poder, justiça e espaço de fala
Frases do episódio
O que você vai ouvir neste episódio
- Dani Prevot e Renata Kurtz discutem como a comunicação assertiva depende da combinação entre iniciativa individual e segurança psicológica.
- A construção de um ambiente seguro é essencial para permitir trocas transparentes e empáticas entre os colaboradores das equipes.
- A evolução da comunicação individual exige prática diária, empatia ativa e alinhamento contínuo entre os membros da organização.
- O episódio estabelece conexões entre comunicação não violenta, inteligência emocional no trabalho e o desenvolvimento da liderança consciente.
Temas discutidos
A comunicação assertiva e empática é um pilar fundamental para a liderança e a transformação da cultura organizacional em ambientes ágeis. O diálogo transparente e seguro viabiliza a facilitação de processos, o alinhamento de expectativas e a gestão eficaz de pessoas. Quando os indivíduos desenvolvem a inteligência emocional e a capacidade de se expressar sem violência, as equipes ganham maturidade para resolver conflitos de forma colaborativa, fortalecendo a confiança mútua e impulsionando a eficiência dos times de produto.
Para quem é este episódio
Este conteúdo é destinado a líderes, facilitadores e profissionais de recursos humanos ou gestão de pessoas. O episódio oferece valor significativo para quem busca aprimorar o diálogo em suas equipes, promover um ambiente de trabalho com segurança psicológica e transformar padrões interpessoais dentro do contexto organizacional.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
Como equilibrar o esforço individual e o papel da cultura na comunicação assertiva?
A comunicação assertiva exige um movimento duplo nas organizações. No nível individual, os profissionais precisam praticar a autoconsciência, a empatia e a escuta ativa no dia a dia. Ao mesmo tempo, a cultura e a liderança devem fornecer sustentação, criando canais abertos e garantindo segurança psicológica para que a expressão transparente aconteça sem represálias.
Qual é a relação entre segurança psicológica e comunicação empática no trabalho?
A segurança psicológica cria as condições necessárias para que os colaboradores se posicionem sem medo de vulnerabilidade ou julgamento negativo. Em um ambiente protegido, a comunicação empática e assertiva prospera, pois as pessoas se sentem encorajadas a compartilhar feedbacks honestos, admitir erros e colaborar na resolução de problemas complexos de forma construtiva.
De que forma a inteligência emocional e a CNV apoiam o desenvolvimento de lideranças?
A inteligência emocional permite que os líderes reconheçam e gerenciem suas próprias emoções diante de situações desafiadoras. Aliada aos princípios da Comunicação Não Violenta (CNV), essa habilidade ajuda os gestores a expressarem necessidades e limites com clareza, escutarem suas equipes com empatia e conduzirem conversas difíceis mantendo a coesão e o respeito organizacional.
Sobre este episódio
O episódio 159 do Love the Problem traz Dani Privot e Renata Kurtz para uma conversa profunda sobre comunicação assertiva, desmistificando o conceito que o mercado reduziu a oratória e objetividade. A partir de uma revisão histórica das definições, de 1949 ao século XXI, as convidadas mostram que assertividade é uma competência comunicativa que integra autoconhecimento, empatia, autorregulação emocional e cuidado com o outro. A conversa desloca o foco do indivíduo para o sistema: a falácia de colocar toda a responsabilidade na pessoa é perversa, porque a segurança psicológica é construída pela liderança e pelo ambiente. Renata apresenta a pausa transicional e a técnica P.A.R.A.R. como ferramentas práticas de regulação emocional, enquanto Dani conecta a comunicação não violenta como caminho para a expressão autêntica. O episódio também aborda a neurociência por trás da autorregulação, os impactos da pandemia na capacidade de comunicação, a importância da coerência entre discurso e prática na liderança e a necessidade de justiça nas relações de poder, garantindo espaço e voz a quem historicamente tem menos privilégio. O tom é acolhedor e prático, com a convicção de que a assertividade é um processo contínuo, co-construído, que floresce em ambientes seguros e que começa pela autenticidade de cada pessoa.
Transcrição completa
Hoje a gente vai falar de comunicação. A gente tem visto muito no mercado, muitos cursos sobre comunicação assertiva, e a gente percebe nas pessoas uma necessidade muito grande de aprender e ser compreendido. Para falar sobre isso, eu chamei duas pessoas que entendem muito sobre o assunto: a Dani Privot, consultora e treinadora da K21, que desde 2016 vem no caminho de compreender a comunicação com base na comunicação não violenta, e desde 2020 ajuda equipes e lideranças a se comunicarem melhor; e a Renata Kurtz, psicóloga com mestrado e doutorado em administração, que nos últimos anos tem trabalhado com comunicação não violenta, mindfulness, teoria U e Lego Serious Play como práticas efetivas para mudança em organizações.
Primeiro, eu queria dar mais clareza, desmistificar essa palavra que está sendo tão falada. O que é ser assertivo? O que é me comunicar de forma assertiva? Eu tenho um vício de professora: quando estuda um tema, vai direto para as definições. E me surpreendeu muito quando a primeira referência que encontrei foi de 1949, de um trabalho do Andrew Salter, dizendo que a capacidade de expressar os seus sentimentos, desejos e necessidades de forma aberta e espontânea, o que impacta a autorealização e o contato com outras pessoas. Não precisava nem atualizar essa definição. Eu tenho uma definição de cuidado de si, tenho um cuidado com o outro, concomitantemente, e tem sentimentos e necessidades. Isso traz um desafio gigante, porque está na definição expressar sentimentos e necessidades, e aí a pergunta é: como é que eu vou expressar uma coisa que primeiro eu preciso aprender a identificar?
Continuando na linha do tempo, aparece a expressão verbal dos sentimentos, depois, nos anos 70, vira uma competência social. Cuidar do bem-estar e não ultrapassar os próprios limites, afirmação dos próprios direitos, expressão dos pensamentos, sentimentos e crenças de maneira direta, honesta e apropriada, de modo que não viole o direito de outras pessoas. Quando a gente vem para o século XXI, as definições mais recentes trazem uma repaginada: é uma atitude de consideração, respeito e defesa de si mesmo e do outro, um relacionamento de forma construtiva. Surge a palavra empatia. É uma resposta comportamental de autoexpressão empática, em que está presente uma baixa ativação ansiosa. Ouço, em outras palavras, uma certa equanimidade, uma certa capacidade de autorregulação, de corregulação, diante dos sentimentos que podem estar presentes. Mais recentemente, diz respeito à capacidade de dizer não, de manter o não, de lidar com pressão, e defender-se em situações de injustiça, buscando restabelecer uma norma que, quando rompida, causa algum tipo de prejuízo à pessoa ou ao grupo, quando um contrato, quer seja explícito ou não, é desrespeitado.
Se eu fosse sintetizar, é sim uma competência comunicativa, envolve o verbal e o não verbal, envolve lidar com o impacto da nossa expressão, de como chega na outra pessoa, envolve também uma certa escolha consciente que abre espaço para uma resposta consciente no lugar da reatividade.
Faz sentido, mas eu confesso que essa palavra, conforme você foi trazendo o significado, eu fiquei: é muita coisa para uma palavra só. Como é que eu faço então, para ser assertiva? Não é um curso que vai me resolver, vai ser uma vida inteira. Porque para mim a assertividade tinha esse lugar de eu conseguir me expressar bem, de forma clara, se respeitando o outro, de ser objetivo, não ser prolixo, dizer aquilo que eu quero e aquilo que eu não quero, sem machucar o outro. Assertividade não é grosseria. E aí, conforme você foi falando, eu fiquei pensando: eu que me achava uma pessoa assertiva?
Me vem muito o uso da palavra assertividade como uma cobrança: você precisa ser mais assertiva. E quando você fala que não é um curso que vai resolver, eu penso que o curso pode ajudar a estimular a gente a praticar. O que resolve é a prática, uma prática diária. Se alguém me ensinar a escovar os dentes, pode ser que isso não resolva toda a minha saúde dental a vida inteira. Eu vou precisar escovar os dentes diariamente. Mas se ninguém me ensinar, eu vou ter que aprender sozinha, é mais árdua, pode ser que eu tenha mais cárie. Então o curso pode ensinar a prática, e a nossa parte é praticar.
Eu fiquei bastante surpresa de ouvir o conceito, como ele é realmente mais abrangente. Na minha experiência, treinamentos e cursos de comunicação linkados à palavra assertividade vêm muito ligados a um conceito de oratória, de como falar melhor, como me posicionar melhor, fazer melhores apresentações. O que me surpreendeu é que já embutido na palavra assertividade vem todo esse conceito maior: não é só o ato de expressar, mas é o ato de expressar e lidar com o fato de se a outra pessoa me compreendeu ou não, como ressoou com ela, a expressão cuidadosa e a expressão com um olhar também para o outro. Já é um olhar empático. Se a gente traz uma expressão assertiva, ela já é necessariamente empática, a gente não precisaria juntar esses dois conceitos. Tem um lugar que eu gosto bastante, que é o trabalho da Kim Scott, executiva da Google e da Apple, que desenvolveu o Radical Candor, que aqui no Brasil é chamado de empatia assertiva. O nome também junta esses dois conceitos. Ela traz que você precisa ser verdadeiro na relação que você tem com as pessoas que são lideradas.
Fiquei refletindo sobre a importância de ser assertiva: eu preciso também ser autêntica e entender exatamente o que eu gostaria de comunicar, o que eu gostaria de expressar. E quando a gente vem da linha da comunicação não violenta, o primeiro passo que a gente aprende é: o que exatamente você quer comunicar? O que está vivo dentro de você? É um olhar para dentro.
Nas práticas, tanto pessoais quanto de ensino, o que eu fico pensando seria fantástico se eu já tivesse uma base de dados interna, um algoritmo interno que me acessasse facilmente, que me permitisse acessar facilmente o que eu poderia fazer, o que eu quero, para que eu pudesse expressar objetivamente. Só que tem uma caminhada da gente descobrir efetivamente o que a gente quer, e o risco da gente repetir aquilo que a gente acredita que quer, ou aquilo que de fato a gente precisa no dia a dia do trabalho. Uma coisa que eu escuto bastante é: o cliente não sabe pedir, ou essa outra pessoa não sabe pedir. Aí eu falo: não, não é que ele não saiba pedir, ele está escondendo, enterrado, e você vai ter muito trabalho para descobrir. É que ele também não faz parte da mesma sociedade que eu, e provavelmente a gente não sabe expressar em palavras com essa objetividade que o outro gostaria de receber.
Por que que isso acontece? Será que as pessoas se sentem seguras psicologicamente para se expressar, mesmo que elas saibam o que elas querem? Um trabalho de liderança e de gestão é tornar seguro esse espaço de fala, esse espaço de discordância. A comunicação é uma ferramenta da gestão. Como é que a liderança pode tornar seguro esse espaço de fala? Se não for seguro falar, eu não vou falar. Eu vou cuidar de mim, vou cuidar do meu emprego, vou cuidar da permanência da minha posição. E como é que eu sei que é seguro falar? Eu não sei, porque isso não é cognitivo, eu sinto, porque isso é afetivo. Se o meu corpo tiver uma trava, uma contratura, talvez eu não expresse. São dois desafios para o indivíduo: um é o saber, ter um processo de autoconhecimento disponível para saber exatamente o que eu quero e expressar aquilo objetivamente. O outro é me sentir segura e confiante de que falar não vai implicar numa retaliação, numa consequência desagradável para mim.
Numa gestão que pense sobre isso, eu posso sugerir o tema da democracia profunda, que é um curso de liderança sobre como as lideranças tornam seguro o espaço para todas as vozes, inclusive as vozes dissonantes, as vozes divergentes. O primeiro passo seria criar ambientes em que é seguro poder se expressar autenticamente. E isso é em pequenos passos, sem ondas. Não é de uma hora para outra, por uma diretriz organizacional. Isso é co-construído nas relações, porque envolve o sentir, o afetivo, não só o racional, o cognitivo. A gente tem que fazer a parte das pessoas. A minha parte eu tenho que fazer muito bem, mas eu não posso fazer a minha e a do outro. Conforme eu vou desempenhando muito bem a minha, se o outro for se sentindo confortável, ele vem também co-construindo junto essa relação. É trabalhoso, mas é cada vez mais necessário.
Como a gente faz então para ser mais assertivo? É preciso olhar para dentro, me conhecer, que já é um lugar um pouco de privilégio. Nem sempre todo mundo consegue parar, fazer uma terapia, o tempo, às vezes as pessoas estão afogadas. Quando você traz no lugar da gestão, do ambiente de trabalho, você vê que é um problema mais sistêmico. A maior alavanca é a gestão, quem tem mais poder. Eu gosto dessa visão porque tira um pouco o peso de só o indivíduo ter que se virar. É uma falácia perversa colocar só nas costas do indivíduo, porque é mais confortável para depois a gente cobrar resultado. Mas eu, gestora, também sou cobrada. Sobre o sistêmico, é muito importante estimular essa divergência na equipe. Como é que as pessoas vão acreditar que é seguro ser assertivo? Se não for seguro e ainda assim eu me expressar, eu posso ganhar a fama de que sou sincericida, de que sou aquele cara que falou, eu sou assim mesmo, ame-me ou deixe-me. A gestão pode estimular a divergência. A gente está numa reunião, algumas ideias já foram lançadas, e a gente conhece os fenômenos que acontecem em equipe, como a conformidade social, aquela pressão para todo mundo pensar de uma forma semelhante, sufocar as opiniões dissonantes. A gente pode estimular exatamente o contrário: eu estou ouvindo que essas sugestões foram dadas, quem tem alguma sugestão diferente para dar? Se eu tenho uma sugestão muito diferente que está viva querendo falar, eu posso dar a minha sugestão completamente diferente e eu não vou ser punido por isso. A gente sugere e é acolhido, isso vai estimulando outras pessoas também a se expressarem autenticamente. É um processo.
Nossa pergunta de tem alguém com um ponto de vista diferente é muito poderosa. A liderança e os agentes de transformação, seja agile coach, scrum master, product owner, se estiver num ponto de facilitação de uma reunião, pode utilizar. Eu queria trazer uma prática que eu faço que é mais assertiva, que eu aprendi no mindfulness, que é a prática da pausa transicional. A pausa transicional é um convite para a gente parar dois a três minutos entre um contexto e outro, e parar e me perceber como é que eu estou me sentindo. Acabei de sair de uma reunião discutindo orçamento, vou entrar numa reunião para discutir como a gente vai atender melhor o próximo cliente. São coisas totalmente diferentes, só que muitas vezes a gente emenda, emenda, emenda. E esse mundo interno está tão arrotado que muito provavelmente eu não vou ser assertiva na minha comunicação, porque eu não tenho tanta quantidade de informações do que venho antes. Esse exercício da pausa transicional, que eu aprendi com a Tamara Russell, traz um lugar muito bacana: se permitir parar, respirar e pensar como é que eu estou chegando, o que tem dentro de mim. Eu estou aqui cheia de dúvidas sobre como a gente vai fazer o orçamento. Será que eu posso pegar essas dúvidas e falar para elas: deixa aqui no cantinho, eu falo com você daqui a pouco. A segunda pergunta interna é: qual é o meu objetivo agora? O que eu gostaria? Eu gosto de perguntar para as pessoas nas reuniões, principalmente com cliente: o que é sucesso para você? O que seria sucesso para esse encontro? E quando eu pergunto para mim mesma, o que seria sucesso para mim, eu começo a me permitir me conectar com esse lugar mais da assertividade. O próximo passo que a Tamara Russell traz é: que inteligência minha eu quero chamar para me ajudar a atingir esse meu objetivo, esse meu sucesso? Eu quero convidar minha inteligência afetiva, minha inteligência emocional, minha inteligência racional, prática, eu quero convidar minha paciência. Nesse exercício, eu me conecto, diminuo os ruídos, internos e externos, conecto com o lugar de clareza, de sentido, de propósito, de sucesso. E de quebra eu gosto muito dessa sensação de quais são minhas habilidades, as minhas forças, a minha competência, para me trazer essa segurança de estar nesse lugar. Quando eu sou líder de algum contexto, eu começo perguntando para as pessoas para ajudá-las a se conectarem com esse critério: o que é sucesso para você nesse nosso encontro, nesse nosso processo?
Me veio uma frase que eu escutei uma vez, que eu não faço ideia de quem seja, que é que a sua cura é a cura do mundo. Quando eu me conecto, quando eu me curo, quando eu sou autêntica, eu acho que de alguma forma eu consigo curar quem está à minha volta. Eu acredito muito nesse lugar de nada é por acaso. Ir lá fazer uma pergunta quando eu estou com medo, mas ainda assim eu quero ser autêntica, quero ser fiel a mim mesma, é um exemplo para os demais. Quanto mais autêntico eu sou, quanto mais fiel eu sou a mim mesma, mais eu estarei em contextos que precisam de quem eu sou, porque mais esses contextos vão aparecer na minha vida. A gente poder ser quem a gente já é, sem a intenção de ser diferente, já é um lugar de cura.
Vou compartilhar mais uma prática que diz respeito à regulação emocional. Na assertividade tem as caixinhas: passivo, agressivo, assertivo. A assertividade está no caminho do meio, que é a zona de bem-estar, a zona de conexão da assertividade com a sua autenticidade, com os seus sentimentos, suas necessidades. A metáfora é a metáfora de um foguinho, uma fogueirinha que mantém o meu corpo vivo. Só que às vezes, por causa dos gatilhos externos, dos estímulos externos que fazem parte da nossa vida diária, são incontroláveis, essa fogueirinha vai para a zona alta e incendeia a floresta, faz um processo de combustão, e aí vai para a reatividade, o comportamento agressivo. Ou às vezes os estímulos fazem com que a minha fogueirinha vá para a zona baixa e congela o foguinho, a minha energia interna, vai para uma depressão, uma retração no comportamento, uma forma de fuga, que a gente chama de comportamento passivo. Como é que a gente consegue desenvolver essa equanimidade, essa capacidade de, quando eu reconheço que eu fui para a zona alta ou para a zona baixa, voltar para a zona de bem-estar? Uma técnica que eu uso muito, que também aprendi no mindfulness, é a técnica P.A.R.A.R. Eu coloquei em cinco post-its no espelho do meu quarto, estão até hoje lá, já dobrando, mas não tem problema. A gente escreve uma letra em cada post-it: P-A-R-A-R. Sentiu que foi para a zona alta ou que foi para a zona baixa? A temperatura tá subindo, tá esfriando? P, primeiro P: pare onde você estiver. Eu faço muito a técnica P.A.R.A.R. no banheiro, no trabalho, subiu a temperatura, com licença, só um minutinho. A primeira coisa é interromper aquele fluxo. Primeiro A: aprecie o que está acontecendo agora. Pra quem já assistiu ao podcast de empatia e comunicação não violenta, autoempatia: o que é que eu tô sentindo? Quais são os meus sentimentos agora, quais são as minhas necessidades agora? E se não der para chegar nas necessidades, pelo menos os sentimentos: eu tô agitada, eu tô nervosa, tô engatilhada, tô querendo apertar o pescoço da pessoa. Nomear isso ajuda, colocar em palavras ajuda. Primeiro R: respire. Faça duas a três respirações com consciência. Inspirando, sabendo que eu estou inspirando, expirando, sabendo que eu estou expirando, umas três vezes, sem comandar o ritmo da respiração, no ritmo que tiver. Se a respiração estiver curta, curta. Por que que isso é curativo? Porque quando eu falo essas palavrinhas, eu integro corpo e mente. O corpo tá ali onde eu estiver, mas a mente tá lá estrangulando o pescoço do sujeito. Quando eu falo inspirando, sabendo que eu estou inspirando, o corpo tá inspirando e a mente tá integrada a esse corpo. Quando a gente integra, a gente economiza energia, para de dispersar, e a gente tem maior potencial de escolha de onde eu quero colocar a minha energia nesse momento presente. Segundo A: amplie a sua consciência para fora de você. O que está acontecendo fora de você? Muitas vezes é empatia com o outro. O outro que tá lá sendo o foco do meu estrangulamento de pescoço, o que que ele tá sentindo? Ele também tá nervoso, agitado, com medo, pressionado? O que que tá acontecendo com essa pessoa, com esse ambiente? Às vezes não é só a pessoa, às vezes é um grupo, às vezes é uma equipe. E aí o último R é responda conscientemente. Aí eu já tenho quatro passos nessa pausa para trocar a reatividade inicial por uma escolha consciente. O que que você quer fazer? Como é que eu quero agir, me comportar com escolha nessa situação e não só com reatividade? Aí a gente sai do banheiro e volta pro ambiente já com uma outra experiência interna, com mais espaço pra expressar autenticamente, pra ser assertivo, pra ser mais objetivo, pra ser mais coerente com a nossa autenticidade. Não é sobre ganhar do outro.
Eu tenho uma filha que hoje tem 17 anos, na pandemia 14, e eu falava, eu convido de vez em quando a minha filha pra fazer uma prática de mindfulness com a mamãe. Um dia ela vai lá no espelho do meu quarto e tira uma foto da técnica P.A.R.A.R. A professora tá perguntando o que a gente tá fazendo na pandemia pra cuidar da gente, e ela lembrou da técnica P.A.R.A.R. Eu nem sabia que aquilo lá no espelho também era compartilhado por outras pessoas. Recomendo que vocês coloquem em um lugar visível, que pode beneficiar mais pessoas, no trabalho, naquele quadro branco de linguagem visual, vai que alguém passe e lê.
Eu gosto bastante que o Daniel Goleman traz essa visão, aprofundando o entendimento da neurociência. Quando a gente controla ou respira conscientemente, a gente sai do estado de excitação do nervo simpático, a reação de luta e fuga, a reatividade, para ir para a excitação parasimpática, que é o módulo de calma, de recuperação. A gente precisa aprender a lidar com a nossa própria biologia para sermos assertivos. Existe uma ressonância interna, biológica, neurológica, que é importante a gente aprender a ter esses mecanismos de autorregulação. É uma coisa recente da gente estar aprendendo enquanto humanidade. O modelo de inteligência emocional do Daniel Goleman começa com o lugar da autoconsciência para desenvolver a autogestão, para melhorar a empatia, a consciência pessoal e gestão de relacionamentos. Tem essas quatro dimensões que começam do lugar de eu me conhecer, me entender e conseguir trazer um pouquinho melhor o que eu gostaria, e aí conectando com a nossa inteligência interpessoal, quais espaços e oportunidades a gente também tá fazendo, criando dentro do nosso espaço de trabalho para sermos mais assertivos.
Eu tô muito feliz que hoje, na nossa base curricular nacional, existem as competências socioemocionais entrando no currículo das escolas. Eu tô torcendo muito para que os profissionais consigam educar as nossas crianças para que elas tenham esse lugar de assertividade, de inteligência emocional, de empatia. Mas nós que estamos aqui hoje e que não aprendemos, eu acho que o maior espaço de troca e interação é no ambiente profissional. É muito importante para as organizações, para as lideranças, gestores, cuidarem disso. Eu fico muito animada em convidar as pessoas a entrarem nesse lugar de vamos praticar, vamos praticar e ver como que isso ressoa e nos ajuda.
Você trouxe a neurociência, que é uma das minhas paixões também. Eu gosto de falar sobre o sentir. Uma frase do Antônio Damasio: nós não somos máquinas pensantes que sentem, nós somos máquinas sentientes que pensam. Abrir esse espaço não é só para quando a gente quer aumentar a produtividade da inteligência emocional, é olhar também pras causas. O que que impede a gente de ser assertivo? Não é o que que eu preciso aprender para ser assertivo. Talvez a gente já nasça assertivo. Eu olho pra uma criança, a criança é tão espontânea, autêntica, clara no que ela quer, clara no que ela não quer. Então talvez seja o que que nesse ambiente esteja desfavorecendo a autenticidade, a honestidade, a objetividade, a assertividade. Eu me lembrei de um estudo de um aluno meu recente, sob os impactos da pandemia. Esse tema ainda vai ficar com consequências durante um tempo, porque o home office, a fronteira da vida pessoal e da vida profissional, são assuntos que não acabaram com a vacina. Veio muito sobre impactos na saúde mental, sobre a carga de trabalho, sobre ansiedade, sobre falta de clareza nos papéis. São aspectos da gestão, não só sobre a carga de trabalho de tarefas especificamente, mas o uso intenso da tecnologia, muitas horas de tela. Pode ser que tudo isso também cause um impacto que me leva a ser menos assertiva, mais reativa, talvez porque eu estou querendo cuidar da minha segurança no trabalho.
Como é que também não é só falar, não é só o gestor falar: ah, aqui portas abertas. Eu me lembro daquela época, RH, portas abertas. Não é só uma gestão portas abertas que vocês podem falar tudo. Eu não tenho nem tempo para falar, porque eu estou tão sobrecarregado com tanto trabalho que eu até quero falar, mas não dá tempo. Me lembro daquela coisa dos espaços de descompressão que tem nas organizações, mas não dá tempo de usar. Não é só dizer para as pessoas que elas podem falar, porque aqui é um ambiente seguro, eu quero te ouvir. Mas como é que está o dia a dia do trabalho? Está um dia a dia também que é humanizado, que também cuida desse espaço de saúde e de bem-estar das pessoas, porque a gente sente, não é só o que a gente ouve, é o que a gente sente.
Eu queria juntar com uma frase que eu ouvi da coordenadora da escola quando a minha filha entrou na escolinha, na reunião de pais: os nossos filhos não nos ouvem, eles nos veem. E aí eu pensei, já trabalhava com gestão, a mesma coisa com as equipes: nossos funcionários não nos ouvem, eles nos veem. É a coisa do discurso, da liderança autêntica, da coerência entre o discurso e a prática. O que as pessoas da nossa equipe nos veem fazer? É sobre como é que eu cuido efetivamente daquele bem-estar e daquela segurança no relacionamento, mesmo que eu fale a respeito.
Esse é um lugar que a Kim Scott traz no livro de empatia assertiva: antes de oferecer feedback, peça, receba. Antes de você trazer: oi, tudo bem? Qual é o seu critério de sucesso pra essa reunião? É totalmente diferente de: oi gente, bom dia, tô aqui, chamei vocês pra essa reunião, o meu critério de sucesso é esse, esse é o meu objetivo aqui. Eu queria ouvir de cada um de vocês. A importância da liderança como exemplo. Porque senão vulnerabilidade vira papo de Brené Brown: aqui na minha equipe eu não quero ninguém vulnerável. Fica no discurso, mas não fica na prática. A gente podendo expressar, começando pela gente, a gente também encoraja as pessoas a também expressarem. Porque aquilo, a gente pode não querer ver ou não querer ouvir, mas está nas pessoas. Não é porque eu não quero ver ou não quero ouvir que aquilo vai desaparecer.
Eu queria trazer um case meu, de um espaço de construção aqui dentro da K21. Um dos líderes da K21 estava conversando comigo, ele gostaria de ouvir, e eu trouxe pra ele: eu acho que eu estou precisando de mais clareza. E eu achei que eu estava sendo super assertiva. Ele me ouviu, fez uma série de ações, compartilhou não só pra mim, mas pra toda organização, na nossa comunicação oficial, e trouxe as métricas principais. E aí quando eu li aquele e-mail e ouvi ele falando: o que você achou? Foi uma iniciativa pra gente trazer mais clareza. Daí eu olhei pra ele e me dei conta: nossa, não era a clareza que eu precisava. Na verdade eu queria uma direção. Tá bom, agora eu sei os dados de onde a gente está, mas na verdade eu queria saber qual que seria a nossa ambição, qual que seria o nosso norte. E eu precisei desse processo todo. Mesmo com esse espaço de troca, onde o meu líder se permitiu, ele abriu essa oportunidade, eu trouxe, e eu me percebi: eu não fui tão assertiva assim, porque eu também não sabia efetivamente o que eu estava precisando. É uma coisa que vai florescendo, vai se construindo, vai se aumentando, e à medida que a gente vai entendendo, a gente vai construindo as soluções pra gente chegar onde a gente quer, pra sermos mais assertivos, tanto na comunicação, quanto nas nossas ações, práticas, tanto individuais quanto organizacionais.
Primeiro, eu preciso talvez compreender melhor o que eu gostaria. A comunicação não violenta, pra mim é ainda o processo, a gente chama de processo de linguagem, que ajuda muito a melhorar a assertividade, porque nos convida em primeiro lugar a fazer essa reflexão interna: o que que eu tô observando, o que que eu sinto em relação a isso, o que tem dentro de mim, as necessidades, meus valores, o que que tá presente, e o que que eu gostaria de pedir pra conectar com isso. É o que muitas vezes as pessoas conhecem como as quatro etapas da CNV, uma parte bem simplificada da comunicação não violenta, mas já ajuda demais. E uma coisa que me vem é como eu consigo fazer esse exercício cada vez mais, me permitindo com esse olhar gentil, esse olhar empático pra mim mesma, pra eu também sair daquele lugar de tenho que ser assertiva porque afinal eu sou uma profissional, sou uma mulher adulta, e conectar com: eu gostaria muito de ampliar os espaços de diálogo, de troca, de compreensão, de realização. Trazer os benefícios do que a gente gostaria de viver com a assertividade, me conectar com essa energia de construção do que a gente gostaria a partir disso.
Eu tenho um pedido: é também da gente levar em consideração, quando a gente tá entendendo a assertividade, as diferenças de poder, as questões assimétricas, e a gente garantir mais tempo pra quem tem menos privilégio nas relações de poder nas equipes, nos grupos e na sociedade. Porque se a gente realmente quiser autenticidade, assertividade, a gente precisa garantir esse espaço seguro também pras pessoas que não têm historicamente, ou na organização ou na sociedade, segurança pra se expressar. Um exemplo prático que eu aprendi como aluna: a gente vai fazer uma reunião e a gente tem três pessoas. Como é que a gente vai dividir o tempo de fala? Talvez não seja três minutos pra cada uma. Talvez as pessoas que têm mais posição, mais privilégio, tenham menos tempo de fala. Se o que eu quero é estimular uma segurança psicológica e uma assertividade pra quem historicamente não tem muita voz e muito espaço pra falar também. A mudança que a gente quer fazer no mundo começa das nossas decisões entre nós. A gente não precisa só perguntar, a gente precisa querer ouvir, dar mais espaço pras pessoas falarem também. Olhe o que vier.
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Conectando estratégia e execução em contextos complexos: Como garantir que uma estratégia realmente chegue até a operação em grandes organizações? Neste episódio do Love the Problem, Rafinha recebe Natasha Ribeiro, Fernanda Magalhães e Allan Hoepers, consultores da Nower, para uma conversa franca sobre gestão de resultados, governança e o uso de OKRs em empresas de grande porte. A partir de experiências reais com clientes e transformações organizacionais, eles discutem como alinhar estratégia e execução, evitando o clássico “telefone sem fio” corporativo. O papo passa por temas como: Os principais desafios de desdobrar a estratégia até os times; O papel da liderança na comunicação e no aprendizado organizacional; Como construir processos e governança vivas, que sustentem o ciclo de resultados; A conexão entre OKR e gestão da mudança, com base no modelo ADKAR. Mais do que implantar frameworks, o episódio provoca uma reflexão sobre consciência, desejo e aprendizado contínuo como motores para transformar a cultura e alcançar resultados reais. Quer aprofundar nesse assunto com a gente? Então aperte o play!
- Ep. 281 - Gestão de pessoas baseada em dados: como dar bons feedbacks e desenvolver seu time sem deixar de fazer uma gestão humanizada?
No episódio #281 do Love the Problem, Rafaela Fonseca recebe Felipe Azevedo, CEO da LG lugar de gente, e Daniella Prevot, consultora estratégica e trainer na Nower, para uma conversa sobre um dos grandes desafios das organizações: como usar dados na gestão de pessoas sem perder o lado humano. Ao longo do papo, eles abordam como sair de uma cultura baseada em achismos para decisões mais orientadas por dados, o papel de People Analytics no dia a dia das lideranças e como isso pode impactar diretamente feedbacks, desenvolvimento e engajamento dos times. Também falam sobre a importância do timing e da frequência dos feedbacks, os riscos de depender apenas da tecnologia e como equilibrar dados, contexto e relações humanas para uma gestão mais efetiva. Um episódio para quem quer tomar decisões mais assertivas e pragmáticas sobre pessoas — sem abrir mão da empatia e da conexão no dia a dia.
- Ep.7 - Leadership Club - Liderança, autonomia e as armadilhas do ego
Neste episódio do Leadership Club, CFC recebe Saturno de Souza, Diretor de Educação Corporativa no Grupo Smartfit, para uma conversa liderança e autonomia. A partir da sua trajetória, que começa no esporte e chega à liderança dentro do grupo Smart Fit, Saturno compartilha como o desenvolvimento de líderes passa, inevitavelmente, por autoconhecimento, sair da zona de conforto e mudanças de papel. Eles falam sobre: • A transição de especialista para líder — e por que esse é o ponto onde mais gente falha. • Os principais arquétipos de liderança (especialista, facilitador, autocrático, democrático e treinador). • O impacto do ego, do medo e da busca por status nas decisões de liderança. • Como o aprendizado real acontece a partir do desconforto. • A importância de visão sistêmica para líderes mais seniores. • O papel do interesse coletivo versus o interesse individual dentro dos times. Essa é uma conversa sobre liderança real: aquela que depende menos de técnica isolada e mais da capacidade de entender pessoas, contexto e impacto no todo. Quer se aprofundar em como ser uma liderança que dá autonomia com responsabilidade? Então dê o play e vem com a gente!