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Ep. 143 - ESG e Empresas que Curam
Ep. 143

Ep. 143 - ESG e Empresas que Curam

9 de janeiro de 202300:59:35
Cultura
Pessoas
Estratégia
Transformação

Resumo rápido

Neste episódio, Cami Licone e Grazi Melina desconstroem a sigla ESG como um filtro de investimento responsável que organiza a prestação de contas de empresas sobre capital ambiental, social e ético. A discussão percorre a evolução histórica da responsabilidade corporativa, os três C's que motivam a adoção (convicção, conveniência e coerção), a atração de talentos por propósito, a necessidade de integrar ESG à estratégia central e não a um departamento isolado, e os movimentos do Capitalismo Consciente e do Sistema B como caminhos para empresas que curam dores do mundo em vez de piorá-las.

Capítulos

  1. 00:05Apresentação das convidadas e contexto do ESG
  2. 02:17O que é ESG e que problema ele resolve
  3. 07:44Por que o ESG está em foco nos últimos anos
  4. 16:50Os três C's: convicção, conveniência e coerção
  5. 25:34Atração e retenção de talentos por propósito
  6. 45:34Estratégia, valor compartilhado e desconexão do ESG
  7. 53:48Capitalismo consciente e Sistema B

Frases do episódio

“se uma empresa não está a serviço de curar uma dor do mundo, então necessariamente ela está a serviço de piorá-la”

19:20

“não importa por qual porta entra, mas que a gente descubra qual é a porta que tá aberta pra que entre”

18:23

“a empresa tem razão social, né, a razão pela qual socialmente ela existe, então isso é desde o momento em que a empresa nasce”

06:53

O que você vai ouvir neste episódio

  • O debate aborda a importância crescente das práticas ambientais, sociais e de governança no contexto das organizações atuais.
  • Camila Luconi e Grazi analisam o conceito de empresas que curam e sua viabilidade no mercado corporativo.
  • A discussão detalha como cada indivíduo pode identificar sua parcela de contribuição para transformar a cultura organizacional.
  • As convidadas refletem sobre a conexão entre governança corporativa e a sustentabilidade das relações humanas no trabalho.
  • O episódio explora maneiras práticas de alinhar os objetivos de negócios a um impacto social e ambiental positivo.

Temas discutidos

A discussão sobre ESG e empresas que curam está diretamente conectada à liderança consciente e à evolução da cultura organizacional. Integrar pilares ambientais, sociais e de governança exige uma visão sistêmica que vá além do lucro financeiro imediato. No contexto da agilidade e da gestão, essa abordagem fortalece a transparência, estimula a responsabilidade compartilhada e promove ambientes de trabalho mais saudáveis. Assim, as organizações conseguem gerar valor sustentável para colaboradores, clientes e a sociedade como um todo.

Para quem é este episódio

Este conteúdo é ideal para líderes organizacionais que buscam transformar a cultura corporativa por meio da sustentabilidade e da governança. Também beneficia agentes de mudança, profissionais de gestão de pessoas e executivos interessados em implementar práticas de ESG e construir ambientes de trabalho focados na saúde das relações e no impacto social positivo.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

O que significa o conceito de empresas que curam discutido no episódio?

O conceito se refere a organizações que buscam gerar um impacto positivo e regenerativo na sociedade e na vida dos seus colaboradores. Em vez de focar exclusivamente nos lucros, essas empresas integram práticas sociais, ambientais e de governança para promover ambientes de trabalho saudáveis e éticos, atuando ativamente na resolução de problemas coletivos.

Como o ESG se conecta com a cultura organizacional e a liderança?

O ESG exige uma mudança profunda na mentalidade dos líderes, alinhando a tomada de decisão a valores éticos, sustentabilidade e impacto social. A liderança passa a priorizar a transparência, a governança responsável e o bem-estar das pessoas. Isso reflete diretamente na cultura organizacional, promovendo um ambiente colaborativo e comprometido com resultados sustentáveis de longo prazo.

Qual é o papel individual dos colaboradores na agenda de ESG da empresa?

Cada profissional tem um papel fundamental ao adotar atitudes alinhadas aos valores de sustentabilidade, respeito e transparência no dia a dia. A contribuição individual ocorre ao questionar processos ineficientes, promover a inclusão, cuidar das relações de trabalho e engajar-se ativamente nas iniciativas ambientais e sociais promovidas pela organização.

Sobre este episódio

O episódio 143 do Love the Problem traz Cami Licone e Grazi Melina para uma conversa densa sobre ESG e empresas que curam. A discussão percorre a evolução histórica da responsabilidade corporativa — dos direitos civis nos anos 60 ao triple bottom line em 1987 — e explica que o ESG, nascido em 2004 como filtro de investimento responsável, organiza a prestação de contas de empresas sobre capital ambiental, social e ético. Grazi apresenta os três C's (convicção, conveniência, coerção) como portas de entrada e cita Raj Sisodia: se a empresa não cura uma dor do mundo, piora-a. Cami traz exemplos práticos de intraempreendedorismo, como a certificação FSC de um fornecedor local em duas semanas e a criação da Virada Sustentável no Rio Grande do Sul. A conversa aborda a atração de talentos por propósito, a necessidade de integrar ESG à estratégia central (com os casos contrastantes da Exxon Mobil e da Health Medical Scheme Discovery), e os movimentos do Capitalismo Consciente e do Sistema B como caminhos complementares para transformar a forma de fazer negócios. O episódio encerra com a provocação de que, se a comunidade de sustentabilidade não existe, ela precisa ser criada.

Transcrição completa

O tema deste episódio é ESG e empresas que curam. Cami Licone, que atua no mundo da sustentabilidade e ESG desde 2008, trabalha com agilidade e transformação organizacional em empresas, além de ser voluntária da Net Impact e do Sistema B. Grazi Melina, com 22 anos de atuação em desenvolvimento humano e organizacional, é cofundadora do Capitalismo Consciente no Brasil e atua em desenvolvimento de empreendedores, lideranças e conselhos de empresas.

O que é ESG e que problema ele resolve

Cami conta que se deparou com o termo ESG durante sua dissertação de mestrado, quando encontrou dezenas de definições de sustentabilidade. O autor Carroll organizou a evolução histórica: nos anos 60, movimentos sociais de direitos civis e das mulheres levaram as empresas a reconhecerem a responsabilidade social corporativa; nos anos 80, vieram ética, balanço social e stakeholders; e por volta de 1987, o triple bottom line consolidou a ideia de juntar questões ambientais, sociais e econômicas para que as empresas permaneçam de pé mais tempo. As empresas não quebravam mais apenas por problemas no DRE, mas por riscos ambientais ou sociais.

Grazi complementa: uma empresa é responsável por gerar e impactar vários tipos de capital — ambiental, social, intelectual, relacional, de saúde. O ESG organiza essa visão em prestação de contas. O E abrange recursos naturais, emissões de gases de efeito estufa, eficiência energética, mudança climática e gestão de resíduos. O S trata de políticas e relações de trabalho, inclusão e diversidade, privacidade de dados e relação com a comunidade. O G é o capital ético e econômico: transparência, políticas de remuneração justas, conselhos multi-stakeholder, comitês, auditoria e rigor fiscal. A empresa tem razão social, a razão pela qual socialmente ela existe, e isso é desde o momento em que a empresa nasce.

Por que o ESG está em foco nos últimos anos

O ESG se popularizou porque os investidores colocaram a pauta na mesa. O dono do dinheiro passou a exigir que as empresas olhassem para o impacto. A urgência aparece: se o ritmo atual de implantação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 se mantiver, eles só serão atingidos em 2085. Hoje, o consumo de recursos naturais exigiria 1,7 planeta para sustentar a humanidade. Do ponto de vista social, 1% da população mundial concentra 44% da riqueza. A questão não é falta de riqueza, mas como ela é aplicada: bastaria 3% do PIB global, ou 2,5 trilhões de dólares, para resolver o gap atual.

A sigla ESG nasce do Principles for Responsible Investment, do Pacto Global e do Banco Mundial, em 2004, como um filtro de investimento responsável que leva em conta questões sociais, ambientais e de governança. A reflexão que o ESG provoca é: onde eu coloco meu dinheiro, o que ele financia, ele ajuda a criar um mundo melhor ou pelo menos um mundo menos pior?

Os três C's: convicção, conveniência e coerção

Grazi apresenta os três C's que motivam empresas a adotarem práticas ESG. Por convicção, quando o executivo entende o propósito e o coração é tocado. Por conveniência, quando a competitividade entra em jogo: atrair talentos, ser comparado favoravelmente no mercado, gerar maior atração para produtos e serviços. Por coerção, quando o banco coloca condição para liberar capital. A filosofia é: não importa por qual porta entra, mas que a gente descubra qual é a porta que tá aberta pra que entre. Uma vez dentro, os resultados falam por si e a cultura muda.

Grazi cita o professor Raj Sisodia, precursor do capitalismo consciente, que publicou o livro Empresas que Curam: se uma empresa não está a serviço de curar uma dor do mundo, então necessariamente ela está a serviço de piorá-la. A sociedade civil deposita hoje um nível de confiança na iniciativa privada que nunca depositou antes, exigindo que CEOs se posicionem sobre diversidade, corrupção e ética.

Cami relata sua experiência prática: na primeira empresa, usou o argumento de risco legal para trocar a limpeza de elevadores com estopa contaminada por panos laváveis e retornáveis. Em outro comitê, vendeu a oportunidade de eficiência com lâmpadas LED, mostrando retorno em três anos. A visão de curto prazo dos incentivos de CEO é um obstáculo, e a visão feminina de negócios, mais prolongada, é essencial para a sustentabilidade. Hoje, são as mulheres conselheiras que trazem a pauta de ESG nos conselhos.

Atração e retenção de talentos

Grazi observa que, em processos seletivos, a empresa é muito mais questionada do que o candidato. O profissional decide com consciência onde coloca sua reputação, a quem quer associar seu nome. Um CEO reconheceu com humildade que, no passado, teve orgulho de ter falido fornecedores, e hoje entende que não criar sustentabilidade na cadeia de fornecedores é impensável. Grandes empresas oferecem programas de mentoria a pequenas para que se sustentem na cadeia.

A coerência entre discurso e prática é testada em crises: o que vem primeiro, o propósito da organização ou os bolsos dos acionistas? O turnover tem custo altíssimo. Millennials e gerações seguintes, com consciência ambiental desde cedo, aceleram essa roda. Cami reconhece que ainda existe um viés elitista nos movimentos de sustentabilidade, com predominância de pessoas brancas, com estudos e que falam inglês, e defende que os movimentos precisam ser mais democráticos e plurais. No Grupo de Diversidade de sua empresa, houve um movimento de afroempreendedorismo com banquinhas no mês da Consciência Negra, e jovens buscam programas de empreendedorismo em parceria com a ONU e a Dom Cabral.

Como contribuir quando a empresa não prioriza ESG

Cami traz o exemplo de um programa de intraempreendedorismo com a Net Impact: pessoas em áreas como compras podem iniciar programas de compras sustentáveis, medir quilômetros dos fornecedores para priorizar a economia local, verificar a eficiência energética de equipamentos e garantir que fornecedores não maltratem funcionários. Ela conta que, há dez anos, queria imprimir o relatório de sustentabilidade em papel FSC, mas nenhuma gráfica no Rio Grande do Sul tinha o certificado. Em vez de buscar um fornecedor externo, ligou para a certificação FSC, explicou ao fornecedor local e, em duas semanas, ele obteve o selo e gerou negócio. O princípio é olhar para o que já se faz no escopo e nomear como ESG, internalizando na cultura.

Grazi reforça que muitas iniciativas já existem nas empresas, mas não estão nomeadas, medidas ou declaradas. Organizar e nomear essas práticas já é ESG. É importante escolher os momentos certos para tocar no assunto e ter resiliência para mantê-lo na pauta. Para quem não tem poder de decisão, comunidades de prática — redes do Sistema B, do Pacto Global, do Capitalismo Consciente — são espaços de troca onde ideias práticas surgem entre pares que lidam com as mesmas dores. O que realmente pode mudar o jogo é acesso.

Cami conta sua trajetória pessoal: em 2008, como analista júnior de finanças em uma empresa alemã, descobriu um grupo de estudos gratuito na BRH de Porto Alegre, entrou no primeiro comitê de sustentabilidade da empresa com vinte e poucos anos, e ajudou a criar a Virada Sustentável no Rio Grande do Sul. Se a comunidade não está pronta, crie.

Estratégia e criação de valor compartilhado

Cami apresenta um artigo recente de Harvard, do Kramer, que traz o elo essencial entre as metas de ESG e o desempenho financeiro. Empresas chegam a cem indicadores de ESG, mas não mexem o ponteiro porque há desconexão da estratégia. O caso da Exxon Mobil é exemplar: divulga 15 bilhões de dólares em soluções de baixo carbono, mas o faturamento com combustíveis fósseis é de 256 bilhões. A pergunta é: para onde vai o dinheiro e os esforços da empresa? O caso contrário é a Health Medical Scheme Discovery, da África do Sul, que oferece Apple Watch gratuito a clientes, faz 11 milhões de leituras de exercícios por dia e reduziu em 15% os custos médicos, aumentando a expectativa de vida. A provocação é: o ESG está na estratégia ou é um orçamentinho isolado?

Grazi conecta com a execução: mostrar valor financeiro, competitividade e eficiência é o caminho para que ESG entre na estratégia. Cita o caso da Movida, que, diante do apagão de talentos em tecnologia no país, criou uma escola para formar profissionais, priorizando mulheres negras, e reinvestiu o resultado da organização nessa formação, devolvendo à sociedade.

Capitalismo consciente e Sistema B

Grazi explica que o capitalismo consciente nasceu de uma pesquisa sobre por que determinadas empresas não precisam investir em propaganda para serem queridas e desejadas. Os quatro pilares são: propósito elevado, além do lucro; liderança consciente, que toma decisão pelo propósito; cultura consciente, que perpetua o positivo e elimina o tóxico; e orientação para stakeholders. O movimento não certifica nem dá selos, é um instituto formador. O Sistema B começa na América do Norte, quando os donos de uma empresa de artigos esportivos venderam e o novo comprador eliminou as práticas de bem. Eles criaram um movimento de advocacy e certificação, com pilares de governança, trabalhadores, comunidade, meio ambiente e clientes. O B Impact Assessment é gratuito para o diagnóstico inicial; acima de 80 pontos, a empresa pode aplicar para certificação com auditoria internacional. No Brasil, há cerca de 300 empresas B, com maior concentração no eixo Rio-São Paulo, e ao redor de 3 a 4 mil no mundo. Cami ajudou gratuitamente empresas a se tornarem B no Rio Grande do Sul, formando multiplicadores e legando o movimento para a próxima geração.

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