
Ep. 100 - Love the People (Visibilidade e TRANSformação)
Resumo rápido
No episódio 100, Lula recebe Bernardo Gonzales, primeira pessoa trans a participar do Love the Problem em dois anos de podcast, para discutir pontos cegos de representatividade, o conceito de integralidade e como transformar o discurso corporativo de diversidade em mudança estrutural real, e não apenas em confete de marca.
Capítulos
- 02:22Os critérios do episódio 100 e o ponto cego do Love the Problem
- 06:46Bernardo Gonzales: identidade transmasculina e as histórias de Bianca e Bernardo
- 17:58Integralidade, violência e o processo pessoal da transição
- 31:26Racismo, transfobia e a pressão de ser impecável no trabalho
- 40:39O medo de virar token e a estratégia do cavalo de Troia
- 56:23Diversidade é confete? Capitalismo, marca e o papel do Estado
- 01:03:37Diversidade como mudança estrutural: o caso da rampa que faltava
Frases do episódio
O que você vai ouvir neste episódio
- A celebração do centésimo episódio enfatiza o papel central das pessoas na evolução de estratégias de negócios.
- Bernardo Gonzales debate a necessidade de dar visibilidade a temas de diversidade e inclusão dentro das organizações.
- Os participantes analisam a relação entre mudança cultural contínua e o desenvolvimento de ambientes de trabalho mais humanos.
- O episódio aborda como a educação e a conscientização apoiam transformações organizacionais profundas e sustentáveis.
- Panda, Lula e Bernardo discutem experiências práticas de liderança focadas no acolhimento e na valorização dos indivíduos.
Temas discutidos
A transformação organizacional efetiva exige olhar para além de processos e ferramentas, colocando as pessoas no centro das iniciativas de agilidade e liderança. O episódio conecta diversidade, visibilidade e inclusão ao fortalecimento da cultura corporativa e ao alinhamento estratégico. Ao promover um ambiente inclusivo e educacional, as empresas capacitam suas equipes para lidar com mudanças complexas, gerando valor sustentável e construindo lideranças mais empáticas, conscientes e preparadas para os desafios do mercado atual.
Para quem é este episódio
Este episódio é ideal para lideranças executivas, agentes de transformação e profissionais de recursos humanos que buscam promover diversidade, visibilidade e inclusão em suas equipes. Gestores interessados em evoluir a cultura organizacional a partir de uma perspectiva mais humana também encontram insights valiosos nesta discussão.
Sobre a série Love The People
Love The People traz histórias de carreira de pessoas que atuam com agilidade, produto e liderança. São conversas mais pessoais do que técnicas: transições de área, decisões difíceis, aprendizados e o que cada convidado faria diferente. Serve como referência para quem está construindo a própria trajetória profissional.
Ver todos os episódios da série Love The PeoplePerguntas que este episódio ajuda a responder
Por que as pessoas são fundamentais nos processos de transformação organizacional?
As pessoas sustentam qualquer mudança de processos ou tecnologias nas empresas. Focar no fator humano garante que a cultura organizacional evolua de maneira orgânica e sustentável. Quando os colaboradores se sentem valorizados e integrados à estratégia da empresa, o engajamento aumenta e a implementação de práticas ágeis e transformadoras torna-se mais eficaz e duradoura.
Como a visibilidade e a inclusão impactam a cultura de uma empresa?
A promoção da visibilidade e da inclusão assegura que diferentes perspectivas sejam acolhidas no ambiente corporativo. Isso fortalece a segurança psicológica, incentiva a inovação e melhora a tomada de decisão em todos os níveis. Ambientes diversos e inclusivos refletem a pluralidade da sociedade, tornando a cultura organizacional mais justa, empática e alinhada aos objetivos estratégicos do negócio.
Qual é o papel da liderança na criação de ambientes inclusivos?
Lideranças têm a responsabilidade de criar espaços onde a diversidade seja respeitada e promovida ativamente. Isso envolve escuta atenta, revisão constante de viéses e incentivo à educação continuada sobre inclusão. Líderes comprometidos com as pessoas utilizam a empatia como ferramenta de gestão, estabelecendo relações de confiança que facilitam o desenvolvimento profissional de toda a equipe.
Sobre este episódio
O episódio 100 do Love the Problem é construído como um episódio comemorativo que expõe, em vez de esconder, uma lacuna do próprio podcast. Lula abre relembrando os critérios históricos para escolher convidados, o 'critério do coração' e o interesse pelo tema, e apresenta um terceiro critério, motivado por uma pergunta antiga de uma ouvinte, Cindy, sobre a pouca presença feminina no programa. A partir dessa autocrítica, ele chega a um ponto cego mais recente: em cem episódios e dois anos de podcast, nenhum convidado havia se apresentado publicamente como pessoa trans. É esse reconhecimento que traz Bernardo Gonzales, colega de K21, para a conversa.
Bernardo se apresenta como pessoa transmasculina, não como homem, explicando que carrega duas histórias que coexistem: Bianca, quem ele foi por 25 anos, e Bernardo, identidade construída ao longo da transição. A partir daí, a conversa desenvolve o conceito de 'integralidade', emprestado do livro Reinventar as Organizações, de Frederico Laloux, e conectado ao 'ponto cego' de Otto Scharmer e ao pensamento sistêmico de Peter Senge: a ideia de que pessoas e organizações não avançam negando o que já são, mas reconhecendo e integrando suas partes, incluindo as incoerências e os erros. Bernardo usa a metáfora de um rio que corre sozinho, com vazão própria, para falar do tempo não linear da própria transição, incluindo os dois anos que esperou antes de iniciar o uso de hormônios.
O grupo também aborda como o peso de 'provar-se' recai sobre corpos fora do padrão: Lula compartilha sua experiência como homem negro cobrando de si mesmo excelência acadêmica ainda criança, e Bernardo descreve como, antes da transição, era seguido na rua com medo de violência, enquanto hoje, lido socialmente como homem branco cis hétero, circula com um conforto que ele mesmo reconhece como estrutura frágil e passível de ser rompida a qualquer momento.
Um dos eixos mais diretos do episódio é a tokenização: Bernardo se declara um 'token consciente', ciente de que empresas e pessoas podem usá-lo como símbolo de diversidade, mas escolhe aceitar esse lugar como estratégia, um 'cavalo de Troia' que, uma vez dentro da estrutura, pode produzir mudanças que a organização não previu. Ele relaciona essa postura à ideia de não operar pela raiva nem pela necessidade de aprovação, e sim pela consciência de que a mudança acontece através da negociação e da ocupação de espaços de poder.
Na parte final, a conversa questiona se a diversidade corporativa não passa de 'confete': pautas movidas por vantagem de marca e lucratividade, não por compromisso real com justiça social, com exemplos como campanhas publicitárias de bancos e a comercialização da Parada do Orgulho LGBT+. Bernardo argumenta que parte da responsabilidade por garantir direitos deveria ser do Estado, que hoje a transfere às empresas. Ele fecha com um exemplo concreto vivido na K21: um treinamento de RH ágil em que o tema diversidade, inserido de forma recorrente e sutil, levou uma participante a questionar, meses depois, por que a escola do filho não tinha rampa nem elevador, sinal, para Bernardo, de que a diversidade não é uma ação isolada, mas uma lente que, uma vez aprendida, muda permanentemente a forma de enxergar o mundo, como aprender a ler ou se tornar ágil.
Transcrição completa
Eu abri aqui a introdução ao nosso convidado de hoje pra esse episódio tão especial que é o episódio 100 falando sobre os critérios pra gente convidar pessoas pra estar aqui no Love the Problem, certo? Primeiro critério, quem ouve aí já sabe que é o critério do coração.
Que toquem o coração de quem tá aqui. O critério do coração funciona também indiretamente, certo? Então se, sei lá, a pessoa que tá aqui com a gente hoje tivesse alguém querido também, podia trazer e bora gravar. O segundo critério que a gente tem são as pessoas que estão aqui gostarem muito do tema sobre o qual a gente tá falando. E o terceiro critério, que é o que eu não trouxe aqui nas prévias antes da gente começar a gravar hoje, é o critério com o qual eu queria começar esse episódio número 100.
Critério. A Cindy, que é ouvinte do Love the Problem, desde os primórdios do Love the Problem, ouvinte, assim, assídua, frequente e tal, beijo, Cindy. Quando eu fui lá pro episódio 15, 20, assim, há 200 anos atrás, não, há um ano e meio atrás, mais ou menos, a Cindy falou, Lula, por que tem tão pouca mulher no Love the Problem? Foi isso que ela falou. E eu falei, pô, cagada, né? Cagada, eu falei, simplesmente, desculpa, Cindy, foi mal. Mas falar foi mal não é suficiente, né? Tem o tweet do Mano Brown mesmo, virou até meme, né? Depois que inventaram a desculpa, ninguém mais sofreu na vida, né? Só que, pra não ficar só na desculpa, eu falei, Cindy, a gente tá instituindo, então, uma política aqui no Love the Problem, que em cada episódio a gente quer ter uma voz feminina também, certo?
Então, a gente tenta seguir essa política. Desde o episódio 20 e poucos, assim, foi quando a Cindy trouxe isso, a gente for nessa política, acho que só uma vez, que ia gravar eu, tio e alguém, e aí essa pessoa não conseguiu ir, e o tio, alguns episódios aí, sabe, Deus, qual é, ouvintes aí, que lembraram em qualquer episódio, me ajudem, a gente segue essa política. Qual que é o problema? O problema, eu vou dizer, depois que o Léo soltar a vinheta. Solta a vinheta, Léo!
Dado tudo isso que a gente falou, então, na introdução, vou trazer aqui qual que é o problema desse critério. O problema desse critério é que esse ano, eu, lendo Otto Scharmer, inclusive tá na minha mesa aqui, Otto Scharmer, livro da Teoria U, aqui, logo nos primeiros capítulos, ele traz um conceito que é o ponto cego. Então ele fala que a gente tá olhando tão fixamente pro que é tangível, pro que a gente vê, pro que a gente observa no dia a dia, que a gente não enxerga outras coisas que estão ao redor. Então, quando a gente concebeu essa política de ter pelo menos a voz feminina, a gente conseguiu diminuir um pouco o nosso ponto cego, quanto à questão da presença feminina, do próprio feminismo no Love the Problem, mas o nosso ponto cego, ele sempre vai existir, sempre vai ter algum outro ponto cego.
E aí, esse ano, 2021, eu tive a oportunidade de abrir minha cabeça e conhecer muita coisa profunda, conectada com a nossa sociedade e conectada com o trabalho que a gente faz na K21, ou o trabalho que a gente faz quando se propõe a transformar empresas, a transformar essa sociedade do trabalho, mas que, geralmente, pra maioria das pessoas, passa em branco, fica invisível, né? Some. Que é, a partir do momento que eu falo de voz feminina e masculina, eu tô traçando uma binariedade, eu tô traçando dois polos e duas opções que excluem qualquer outro ser que não seja uma voz masculina, ou que não seja uma voz feminina, ou que não seja isso, ou não seja aquilo. Então, é um pensamento, em algum nível, até que dogmático. O que me abriu os olhos pra isso foi ter a oportunidade de trabalhar na K21 e agradeço muito a Samira, que foi quem convidou essa pessoa pra estar na K21 com a gente.
Foi trabalhar na K21 com o Bernardo. Então, temos aqui Bernardo Gonzales, Bernardo Gonzales presente aqui com a gente. Bem -vindo, Bernardo Gonzales, ao Love the Problem. Faz o nome!
Muito bom, muito bom. Bem -vindo, Bernardo. E eu queria que você já puxasse, eu não vou nem te apresentar, eu queria que você já puxasse a partir da braba que eu lancei aqui logo na introdução. Uma braba. Qual é que é? Porque a gente tá falando de transformação, né? O título desse episódio é Love the People, né? Que, no final, tudo que a gente fala, desde o primeiro episódio, é sobre pessoas. No final, por mais que a gente fale de sistemas, por mais que a gente fale sobre pessoas, a K21 é uma empresa que tem no seu propósito transformar pessoas e organizações. Como que isso se conecta, tudo que você vem mostrando pra gente, na K21 e no mundo, assim, sobre esses pontos cegos dessa binaridade do mundo, de ou é masculino, é feminino, ou é isso, é aquilo, ou tá aqui, ou tá lá, ou tá nessa caixa, ou tá naquela outra.
Vou me apresentar, porque eu acho que essa apresentação, ela dá conta um pouco disso que você tá falando aí. Eu sou o Bernardo, eu me reconheço como uma pessoa transmasculina, o que significa dizer que eu não sou um homem, né? Então, estejam atentos aí, não me identifico como um homem. E, se eu me reconheço como um homem, eu acho que é ocupar, de alguma maneira, isso não é regra geral, tá? Como em nenhum outro movimento, como em nenhuma outra minoria, as pessoas têm compreensões diferentes sobre a sua própria identidade, eu acho que faz parte desse processo, né? Mas, a minha identidade é uma mistura, né? Esse não ser homem, justamente porque eu carrego uma outra identidade, carreguei uma outra identidade durante 25 anos, que era a Bianca, que é a pessoa que eu fui antes de me tornar Bernardo.
E acho que essas duas identidades compõem isso que eu tô chamando de transmasculinidade pra mim, né? E a exclusiva do Bernardo e da Bianca, justamente porque não dá pra apagar, né? Essa tentativa de apagar essa história que você teve só porque agora você tem barba, né? Que nasce em função de injetar testosterona e que você muda seus documentos, você não altera essa realidade material de ter sido essas duas pessoas, né? E a outra parte disso é que, o que me faz, inclusive, não me identificar como um homem, é que eu não tenho um órgão genital, entendido como masculino, e isso faz com que a minha vivência seja totalmente diferente de um homem cisgênero, heterossexual, né? E que tem uma vivência única, exclusiva, se a gente pudesse dizer ali, um fluxo, né?
Um fluxo único, e o meu fluxo é de dois caminhos, sempre, e eu sempre vou retomar a Bianca, vou sempre falar da perspectiva do Bernardo, e essas duas coisas vão estar sempre coexistindo, né? O que me questiona, inclusive, é essa ideia de unicidade da individualidade que a gente tem, né? A gente dá a entender, que o nome de uma pessoa é uma única coisa que vai evoluindo, né? Como se fosse Pokémon, assim, né? Tipo, ah, melhorou, melhorou, melhorou, ganhou um monte de sabedoria, e aí chegou nesse combo que a gente conhece. E eu tô questionando, inclusive, trazendo essas duas figuras pra cá, pra gente trazer um outro conceito, que é subjetivo, mas que é de manada, essa possibilidade da gente ser muitas coisas ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo ser uma só que representa essa manada, sabe?
Então, acho que eu começaria por aí, pra questionar mesmo vocês, né? Desse ponto cego que você falou, Lula, de caramba, né? Cadê as pessoas trans no Love the Problem? Cadê? Cadê essas pessoas? Por que essas pessoas não estão entre nós? Eu acho que é esse ponto cego e, ao mesmo tempo, essa ideia que a gente fica corroborando, sem saber, de que só existem homens e mulheres quando existe uma porrada de coisa entre essas duas coisas, e que a própria ideia de homem e mulher a gente deveria tensionar, né? E começar a produzir outras coisas no lugar disso, porque é cansativo, a gente entende a materialidade e as diferenças que se prostam diante disso, mas, ao mesmo tempo, o que a gente consegue colocar no lugar que faz com que a vida das mulheres seja digna e elas sejam respeitadas e tenham todos os seus direitos respeitados, mas que a gente não fique só nessas duas bolinhas, porque daí a gente não resolve todos os problemas, sabe?
Gente, eu tô vendo aqui a Andressa Chiari, ela vai se identificar. Eu aqui, eu sou um meme, neste momento, eu sou um meme, que é como vim parar aqui, Deus, eu só tenho seis anos. E o que que eu tô fazendo nessa discussão aqui? Essa é uma profundidade de uma parada em que eu falo, tipo, gente, e agora? Eu, né? Porque, enquanto a gente tava conversando antes, eu trouxe pro B a parada de eu estar numa posição em que as minhas características, aquilo que eu me identifico, me colocam numa posição de privilégio frente a muitas das coisas que a gente vive na nossa sociedade, assim, né? Então, eu, um homem cis, branco, hétero, cristão, de classe média alta, tipo, carrego comigo toda uma estrutura que a gente, que me proporciona vários privilégios, né?
E que, muitas vezes, enquanto o B tava falando aqui agora, eu fiquei pensando nessa palavra, assim, que é, tipo, só um padrão, né? Só que é um padrão definido por quem, né? Um padrão que não é a representação de fato do que a gente vive. Não é uma representação de toda a complexidade da nossa sociedade, de todas as vivências que todo mundo carrega entre si, assim, dentro de si, né? Ele é um olhar do tipo, beleza, a pessoa que está representando uma posição de privilégio, mas não necessariamente o padrão do que a gente vive, né? A gente vive numa riqueza de complexidade e tudo mais que é essencial pra nossa vida e a gente precisa valorizar isso. Então, por isso, eu gostei muito do começo, do nome do episódio de hoje, que a gente trouxe essa comparação do Love the Problem pra Love the People, né?
Porque eu acho que é esse começo consciente que a gente gostaria de trazer nesse episódio aqui. Pra que a gente possa olhar pra isso, olhar pra essa complexidade, essa riqueza de diversidade que a gente tem com esse carinho, com esse amor, assim. Love the People. Ame as vivências, seja ela o mais diferente da sua. Isso, eu acho que é muito louco você trazer isso, Panda, e vou colocar isso aqui. Isso não significa um esvaziamento que a gente sabe que a direita se usa muitas vezes desse, ah, e as pessoas, as pessoas são todas iguais, e produz coisas do tipo que vai seguir nos esmagando, né? Quando a gente pensa na própria Constituição Federal que coloca lá todos são iguais perante a lei, todos têm direito ao trabalho, etc, etc, é aquela igualdade da falácia, né?
A falácia da igualdade, aliás, que a gente esvazia o discurso, fala somos todos pessoas, e permite com que as várias atrocidades sigam acontecendo, né? Não é isso que a gente tá defendendo aqui, o que a gente tá defendendo é justamente isso, da gente precisa olhar pra especificidade das pessoas, e é a especificidade das pessoas que vai produzir, talvez, outras narrativas e a conclusão de que a gente tem que fazer diferente a depender da especificidade da pessoa, né? Como aqui no episódio de hoje, a gente não trouxe uma mulher, mas a gente tá entendendo que a gente tem uma diversidade aqui a partir das vivências de quem somos, né? E inclui você, Panda, no sentido de você é um homem branco, cis, heterossexual, etc, etc, o que não impede você de ter seu lugar de fala sobre eles, na real, saca?
Você não precisa ficar aqui se justificando o tempo inteiro ou se estigmatizando por ser você quem você é, mas discutir profundamente o significado de todas essas coisas e falar, vamos falar sobre branquitude, vamos falar sobre as questões de classismo, as questões da cisgeneridade, as questões das masculinidades, né? No sentido da gente provocar esse seu lugar, porque não significa que você não possa falar, mas falar a partir do lugar que você vive, né? Você sabe que tem um ponto, Ber, que enquanto você e o Panda falavam, que me pegou muito, que o Panda falou, tipo, putz, eu tô aqui e só tenho seis anos, mas na verdade, pra quem ouve o Love the Problem, assim, há muito tempo, né? A gente tá aqui num episódio comemorativo, né? Episódio 100, dois anos de Love the Problem, né?
A gente fez, sabe que uma das principais referências, acho que a maior, assim, o livro mais referenciado do Love the Problem, se eu perguntar aqui, a galera que tá no chat já sabe, tá sacando a cartelinha já pra marcar no bingo aí, é o Reinventar as Organizações. É o Federico Lallou, isso é conhecido por todo mundo que ouve o Love the Problem há bastante tempo. E quando eu ouço vocês, no final o que eu tô ouvindo é a integralidade. É esse conceito que o Federico Lallou traz no livro, que conecta muito bem com o próprio Otto Scharmer, com o Teoria U, aqui, que conecta com outra palavra que o Panda trouxe logo no começo, que é complexidade. O prefácio do Teoria U, ele é o prefácio do Peter Senge, aliás, como que fala, Panda? Como que você fala?
Você fala Peter Senge? Peter Senge? Eu não falo porque eu não li o livro, né? Eu nunca cito.
Tem dessas também, né? Isso pode acontecer. É uma boa opção, é uma boa opção.
O prefácio desse livro que o Panda não leu, né? Do autor desse livro. Aliás, tá aqui, ó, autor de A Revolução Decisiva, o livro que eu conheço, o Peter Senge, mas que a gente fala sobre sistemas complexos, a gente fala sobre complexidade, fala sobre pensamento sistêmico, aí eu nunca leio, mas tá na prateleira. Tá aí, bonitinho, a quinta disciplina do Peter Senge. Mas a gente fala sobre pensamento sistêmico, né? Que é a gente enxergar o todo mais do que simplesmente as partes. E aí, o que eu mais ouço de prejudicial pra isso tudo que a gente tá trazendo é essa análise das partes, né? Quando eu falo de caixas, quando eu trago as duas caixas, né? Masculina e feminina aqui e ali, a gente tá falando de partes. E a gente tá tentando otimizar partes.
Tem uma pergunta que rolou aqui no chat, né? Perguntando se isso, se esse tipo de... A única coisa que a gente tá comentando aqui são armadilhas do próprio sistema capitalista. Assim, lendo o Reino das Organizações, lendo o Frederico Lallou, eu consegui ter um insight, assim, interessante, que é um negócio que eu e o Bernardo, a gente conversa frequentemente, que é a gente não vai conseguir conectar as partes e conectar o todo se a gente não incluir o que a gente já tem. Então, eu não acho, e aí é um posicionamento muito meu pessoal, mas eu não acho que a gente negando o que a gente tem hoje que a gente vai conseguir transcender. Eu acho que a gente entendendo o que a gente tem hoje, entendendo como esse sistema complexo, né? E aí passa por esse sistema capitalista que a gente tem hoje, como esse sistema complexo funciona.
A partir disso, a gente enxergar as sombras dele, que é o que o Lallou fala, ou se o Lallou não fala, pelo menos a Carol Serpejante me ensina muito e fala sempre, que é enxergar as sombras, né? Aonde mora a sombra disso? E o que a gente tá aqui tratando nesse episódio são as sombras disso, porque se a gente não pegar essa sombra e a gente não topar esse desafio, né? Não entrar nesse desafio e falar, putz, beleza, a gente vai conectar com o todo, a gente vai conseguir melhorar o todo, a gente vai ficar cada um otimizando sua parte. E aí cada um otimizando sua parte é otimização local. A gente não quer otimização local. E trazer o Bernardo pra cá acho que pra mim é muito simbólico por isso, porque hoje eu me sinto muito conectado com o Bernardo e junto com o Bernardo a gente tá conectado no todo.
Com a K21 a gente vai se conectando no todo e a conexão vai acontecendo muito além de simplesmente o nosso contexto, né? O Love the Pro, ele chega no ouvido de cada pessoa que dá o play ali no Spotify, que dá o play ali no YouTube. E a gente tá conectando, né? São conexões, são conexões e aí eu queria perguntar pro Bernardo muito essa perspectiva que eu queria trazer pra mesa aqui, Ber, essa perspectiva da integralidade, porque eu conto história sobre integralidade, eu falo, putz, eu descobri a integralidade e antes eu era Luiz Rodrigues que trabalhava pra banco, camiseta social, pá, eu tô petinho não sei o que, e hoje eu sou lula, eu tô aqui de dread e trabalho com a camiseta que eu quero, né? Camiseta que eu quero e pá, dos fãs e tal. Como te bate esse lance de integralidade, Ber?
Dado toda a sua experiência assim, nessa conexão com o todo que não é um todo amigável, né? Que não é um todo tranquilo que não é um todo saudável, assim como que se dá essa sua conexão com o todo essa conexão de você com você mesmo e de você com o outro? Eu acho que ela se dá desse jeito que é muito atravessamento pela violência né? Porque começa muito cedo esse processo eu acho que pra todos nós, na real, né? Que a gente tá, de alguma maneira, perseguindo essa ficção, né? Porque por mais também que o panda se coloque nesse lugar eu sou um homem, branco, privilegiado, etc, etc ele também tá submetido à lógica de ficar perseguindo um ideal ficcional, né? O ideal do homem que é uma ficção. Tudo é uma ficção nesse sentido. E aí o gênero é uma ficção, né?
E aí o que acontece, o que aconteceu comigo pelo menos, que eu imagino que acontece com todas as pessoas são atravessamentos de muita violência que vão interrompendo essas partes, né? Interrompendo esses processos que não fosse essa violência, não fosse esse atravessamento brusco, talvez a reprodução da integralidade se daria de outra forma, né? Então eu precisei, por exemplo descobrir os percursos da Bianca, né? Os percursos de ser entendida como sapatão desde sempre, porque eu nunca performei a feminilidade padrão, né? Que é também esse ideal único que fica sendo perseguido por muitas mulheres e que atravessa todas as mulheres e que nos atravessa o tempo todo, né? Tanto o ficcional masculino como o ficcional feminino atravessa a gente de várias formas A Bianca precisou descobrir uma série de coisas sobre ser sapatão, sobre reconhecer essa integralidade e sofrer também várias perdas durante o processo até que finalmente, tipo, e com muita dificuldade, tá?
Não é que é um processo assim, também linear, ele não se dá de forma linear, ele é uma espiral mesmo, né? E aí o Bernardo aparece como essa figura que de alguma maneira também reivindica alguma coisa, reivindica uma parte que faltava, né? Bem nesse rolê da parte que falta e ao mesmo tempo nesse processo de reivindicação começa a se questionar se ele era legítimo o suficiente, né? Durante um pedaço da minha transição, fiquei ali questionando muita coisa se eu tinha feito a coisa certa, porque você tá rimando contra uma maré tão forte, tão forte e o nosso nome, né? Essa coisa que você fala, né? O seu nome, você é o Lula, como eu era a Bianca passa a ser uma coisa muito importante, né? Quando eu assumi o Bernardo e as pessoas começavam a me chamar de Bernardo, eu fiquei tipo, meu, que bosta foi que eu fiz no meio do caminho?
O que que aconteceu aqui? Por que que eu fiz isso? Meu Deus, que surto, que pane coletivo assim, sabe? Porque eu não tinha significado no mundo, né? A existência do Bernardo era só um nome e aí que eu passei a reconhecer a importância de alguma maneira, de reconhecer essa história que passou e construir passo a passo, paulatinamente, o Bernardo, né? E conectando essas partes que faltavam e de conectar no sentido de, não sei se exatamente a conexão de todas essas partes vai produzir o todo, porque eu acho que o todo também é produto desse processo de conexão, mas ao mesmo tempo de ir se percebendo à medida que conecta e produzindo naturalmente outra coisa, eu acho que é por aí, assim, sabe? E aí, essa figuração que as pessoas veem hoje de quem é o Bernardo é muito isso, assim, é muito de todos esses processos, de muita violência, mas também de muitas narrativas de alegria, assim, porque as pessoas trans não são só feitas de dor, né?
A gente também passa por muitas coisas positivas e bonitas, esse processo de se autodescobrir, esse processo de caraca, velho, eu não gosto disso, eu gosto daquilo, a ideia de amor próprio também, eu acho que é um negócio muito interessante também quando a gente coloca isso pro jogo e que as pessoas trans necessariamente vão precisar passar por esse processo como, eu acho que todas as outras deveriam passar, porque a gente passa por tanta violência, tanta violência que ou só sobra você fazendo uma outra leitura de você, ou então o mundo vai desmagar de fato, assim, sabe? E aí é um processo de muito amor, de muita compreensão de si mesmo e de que no final tá tudo bem, assim, sabe? Tipo, o que não deu certo tá tudo bem, o que deu certo tá tudo bem, e é o teu processo, ele é único, ele é exclusivo, e eu gosto muito de lembrar de um livro, né, que fala sobre terapia também, mas ele tem um nome que me conecta muito com essa ideia do que é o Bernardo, né?
Que é se o rio, ele corre sozinho, né? Às vezes a gente fica nesse processo de apressar o rio, e o rio tem um processo único, exclusivo ali de quantidade, de vazão, né? Ora ele tá com uma vazão menor, ora ele tá com uma vazão enorme, é rápido, é demorado, né? Quando a gente pensa na cachoeira, assim, tá lá sem vazão nenhuma, de repente em segundos o negócio tá inundado e tal, e eu acho que a gente é muito isso, assim, o processo de integralidade me parece, me atravessa desse jeito, sabe? De ser muitas coisas e ao mesmo tempo ter noção dessa unicidade, é isso que compõe o Bernardo, sabe? Acho que é por aí, assim, que eu pensaria nessa ideia. Muito lindo isso, B. E essa parada pra mim, me toca pessoalmente pelo fato de que essas violências surgem ali pra deslegitimar, né?
Aquilo que você se identifica, e como esse processo como ele é só, ele é tão duro porque ele é de fora, né? Ele é de fora pra noção que as pessoas têm sobre o que significa a sua identidade. Porque a gente fala de integralidade aqui, quando o Lula fala, eu me conecto muito com esse discurso parecido com o dele, mas a gente tá falando de uma coisa de dentro, uma coisa interna. Não mudou muito, pra mim especialmente, pro Lula mais do que eu, né? Porque a gente tem essas diferenças específicas, né? Como um homem negro que se apresenta com o dread ou sem o dread, faz muita diferença. Eu, se eu raspar o meu cabelo, deixar o meu cabelo crescer, como homem branco, pouca coisa muda da leitura das outras pessoas pra mim. Porque a gente fala muito dessa parada de integralidade, desse olhar pra dentro, desse processo de me conhecer e me reconhecer.
Mas existe essa ficção, vou aproveitar essa expressão, que é o que as outras pessoas entendem sobre a gente. Porque elas se relacionam não com o que a gente é, elas se relacionam com a ideia que elas têm de quem a gente é. E aí, existe um espaço maluco, né? Pra um monte de interpretação e pra um monte de coisa que leva pra lugares extremos, né? Dessas conversas, assim. Então, toda vez, por isso que eu falei, meu Deus, o que eu tô fazendo aqui, eu só tenho seis anos, que é essa parada do tipo, eu quero chegar nessa conversa, eu quero estar com vocês aqui, pra que isso, de fato, me faça ser uma pessoa que tenha uma capacidade de me aproximar mais do verdadeiro íntimo das pessoas. Não que a minha leitura seja totalmente enviesada por tudo aquilo que a construção social me legitimou.
Que, no meu caso, é me legitimou, né? Então, eu olho praquilo como esse padrão falso que não existe, assim. Então, aquilo, eu acabo reproduzindo todos esses discursos porque eles me legitimam e daí eu, opa, beleza. Então, esse é o normal, esse é o padrão, né? E é muito doido, porque as pessoas se relacionam não com o meu ser integral e não com vocês, com os seres integrais de vocês, mas o que as pessoas constroem de ideia de vocês e de mim. E essa, pra mim, é uma parada que é um ponto -chave, que eu acho que seria muito legal se a gente pudesse explorar um pouquinho também aqui, porque tudo que acontece na nossa sociedade, a gente fala muito de dinâmica do trabalho aqui, né? Se as empresas são recortes de uma sociedade totalmente enviesada, quiçá dentro do dia -a -dia, né?
As famílias, dos outros grupos sociais, assim, né? São todos eles com posições diferentes, cheias de vieses completamente diferentes, né? A gente vive nessa ilusão da relação que a gente constrói de ideal do outro, né? Pra mim, eu acho que seria uma coisa muito legal se a gente pudesse falar sobre isso, assim. O que a gente constrói de qual é a nossa relação com o que a gente construiu do que seria a outra pessoa. Sim. Eu, nossa, fiquei lembrando uma coisa, Panda, quando você falou, quando eu tava... Eu sou professor de formação, né? A gente acabou não falando essa parte do currículo, que eu acho ótimo, porque essa coisa de ficar dando o currículo das pessoas é um chatice sem fim, né? Mas quem quiser ver, tá em k21.link love the problem, tá lá o card do Bernardo.
Deixem feedbacks pra ele, inclusive. Se quiser, é. A gente ainda tem que lidar com essa coisa, mas eu testo trazer currículo, as coisas que você já fez na vida, porque dá a sensação que... Dá uma sensação de importância também ficcional, assim, sabe? Porque, não, né? Ninguém é importante, a gente é um grãozinho minúsculo diante da complexidade desse universo, que é o que a gente conhece, porque podem existir outros universos possíveis, né? Mas você foi falando, eu fui lembrando de uma história muito interessante, e que eu acho que conecta muito com esse papo da integralidade, que é quando eu tava lá no comecinho da transição, né? E eu demorei um tempo pra começar a usar a testosterona, é porque eu queria entender mesmo isso, né? Eu já tinha assumido uma identidade, assim, quase que repentina, que era uma coisa que faltava e eu precisava muito, aí eu passei por esse processo de, tipo, putz, meu, fiz merda, e agora como é que eu volto atrás?
Como é que eu volto a ser a Bianca e tal? E eu precisava só desse processo mesmo, de esperar o tempo acontecer, porque naturalmente o Bernardo ia nascer, né? Acho que o processo de transição das pessoas é... Eu tava, de alguma maneira, ilutado por ter perdido a Bianca e muito renovado por ter gerido o Bernardo, assim, né? Tipo, de ter tido esse processo de gerar a mim mesmo, assim, né? Negócio super... Louco de dizer, mas é exatamente isso que aconteceu. A identidade se deu desse processo e eu acho que esse processo... Eu tava meio que marinheiro de primeira viagem, assim, do tipo, nunca tinha gerido uma identidade, nunca tinha gestado uma identidade, eu tava meio que confuso ali no processo, bem tenso, né? E aí eu resolvi esperar pelo menos ali uns dois anos pra começar a usar o hormônio, porque eu não tinha certeza de muitas coisas, então eu resolvi esperar.
Foi uma coisa muito pessoal minha, né? E aí nesse processo de transição, né? Eu tinha uma cara de Bianca sapatão, né? E todo mundo reconhecia sapatão, e aí eu tava trabalhando numa empresa e a pessoa chegou assim pra mim, uma pessoa super querida, né? Amável, assim, ela chegou super naquele processo de me acolher, assim, tal, e ela chegou e falou assim, você é A, e aí soltou o A, assim, sabe? E eu falei, eu sou o Bernardo. E aí a pessoa ficou com uma cara desse tamanho, assim, tipo, puta, mano, que horror e tal, não sei o quê. E aí ficou um climão, né? O meu inteiro foi esse climão, e eu senti nesse climão, e ela sentindo esse climão e tal. Aí no final ela teve a coragem, assim, que eu acho que é um processo de coragem, né? Eu tava numa posição muito inferior a dela, ela era cliente da empresa, e aí eu tava tentando pensar um jeito de, bolar um jeito de explicar pra ela, né?
Que tava tudo bem, mas que de algum jeito, pra ela se rever, se revisitar, nesse sentido de, não vai identificando as pessoas antes de elas dizerem que elas são, porque você pode quebrar a cara, né? E aí não vai ser gostoso pra você, mas eu tava nesse processo de como dizer isso pra uma pessoa que é entendida dentro de uma empresa como cliente, né? E que é aquela coisa que a gente aprende a vida inteira, né? O cliente tem que tá certo. E eu numa posição tipo, completamente ali, vulnerável, né? Sem nenhuma segurança psicológica pra abordar esse assunto, e aí ela teve a coragem, pra gente falar, putz, ali, acho que eu errei, né? E me desculpa, a gente fica, acho que foi bom pra mim ter passado por isso, porque agora eu não vou fazer mais isso, e me desculpa e tal.
E eu acho que, conter essa história no final das contas, pra dizer que a integralidade também é um processo em que a gente tem que habitar os nossos desconfortos, e habitar as nossas incoerências, e habitar os nossos erros, assim, porque a gente tem uma dificuldade enorme de fazer isso, porque também é vendido nesse processo ficcional e padronizado, de que a gente é sempre perfeito, né? De que a gente só é permitido errar, quando a gente tá ali na escola, e a gente faz algumas coisas, e nem tanto, né? Porque o erro não é bem -vindo. Depois que a gente sai da escola que a gente tá trabalhando, o erro é quase uma coisa, assim, que não existe. E eu tenho pra mim que, ou a gente habita esse desconforto, e começa a habitar a dificuldade que é errar, ou então também a gente nunca vai conseguir conectar essa integralidade de forma potente, né?
Porque é assumir que você vai ser incoerente, a gente é produto da incoerente, e aí trazendo o Paulo Freire pra brincadeira aqui também, é isso, a gente é ser humano incompleto, né? A gente sempre vai ter um grau de incompletude muito grande, e tem que lidar com isso, a gente não tem o que fazer. Porque a gente é imperfeito, e seremos imperfeitos, buscando a perfeição ou não, seremos imperfeitos, e quanto mais perfeito a gente se pretende, mais incompleto a gente se apresenta, né? E é, acho que, o momento que eu de alguma maneira conseguir me conectar com essa incoerência, e habitar essa incoerência, assim, de não ver problema nisso, e de ser questionado nisso, e tá tudo bem no final, sabe? O mundo ainda te cobra, Ber, dessa perfeição, é...
Porque, o que eu penso, né? Vou trazer minha experiência, é um paralelo, mas felizmente é um paralelo que hoje já tá até muito mais confortável pra mim. O paralelo que eu faço é, eu, enquanto uma pessoa negra, eu, quando eu tava na escola, assim, acho que isso eu nunca falei nem um love the problem, né? Quase um papo intimista aqui, como se fosse ouvir só nas três, assim, né? Como se eu tivesse ouvido. Mas quando eu tava na escola, eu lembro que eu me cobrava muito forte, Ber, porque eu estudei em escola particular, assim, né? Com bolsa uma boa parte do tempo, mas escola particular. Então era eu e um monte de gente branca, assim, né? Esse é o padrão aqui do Brasil. Eu lembro que eu me cobrava, falando tipo, beleza, eu sou pessoa negra aqui, né?
E eu ouvia isso, né? Das outras crianças, né? E racismo, assim, explícito e tal. Mas eu falava, mas eu vou ser mais inteligente que todos. Assim, eu vou, eu vou, eu vou. Você vai ver, assim, tipo, eu vou estudar pra caralho aqui, minhas notas vão ser altas pra porra, eu vou fazer acontecer. Isso gera uma pressão absurda, né? Você criança tentando entender, adolescente, por aí vai. E hoje eu ainda sinto resquícios um pouco disso, me sinto muito mais livre, né? Muito mais tranquilo, assim. Acho que o ambiente que você tá, o contexto que você tá faz muita diferença. Felizmente hoje, na K21, eu tenho um contexto que me permite estar numa posição de vulnerabilidade, né? Então, o que eu não sei, eu não sei. Não vale a pena mesmo. Pô, se alguém falar alguma coisa, eu pergunto, o que que é isso?
Me explica, não sei. E, beleza. Pô, não, isso daí eu não vou estudar. Nem me interessa estudar, tipo, se eu precisar eu te chamo, sabe? Mas você sente que a sociedade, porque, assim, a questão da negritude, ela tá muito mais latente hoje, né? Assim, tem o caso lá da moça daquele grande banco que fez IPO recentemente, que tava lá no Roda Viva, pisou na bola, bum, né? Tipo, dia seguinte tava sendo cobrada. E o mais engraçado é que ela nem sabe, tipo, na hora, assim, você vê que ela nem percebeu que pisou na bola, mas no dia seguinte tava lá, tipo, todo o peso social em cima dela e uma cobrança interna até vindo ali, que agora se manifesta de uma forma bem bonita. Ainda capitaneada pelo mercado, assim, e beleza, né? A sociedade que a gente vive.
Mas já tem o peso da cobrança, né? Eu não me sinto só, né? Eu não me sinto, nesse movimento do tipo, não é mais o Lula tendo que ser isso, ser aquilo, estudar isso, estudar aquilo, parecer isso ou parecer aquilo, né? Tem todo movimento, né? A conexão tá gerada. Pra você, como que funciona essa pressão da sociedade e essa pressão de você com você mesmo, dado o contexto em que em 100 episódios de Love the Problem, esse é o primeiro que tem uma pessoa trans, sabe? Essa invisibilidade, esse ponto cego que opera na maioria das empresas e ainda com uma resistência gigante, assim. Como que você sente esse peso, assim, no seu dia a dia? Nossa, ele é uma coisa brutal mesmo, né? Porque você trouxe esse exemplo da escola e eu acho que eu me sinto um pouco assim também, Lula.
Porque a gente tem que sempre, é muito humano brau, né? Pra você ser preto, você tem que ser 5, 6 mil vezes melhor. E pra ser trans é o mesmo processo, né? A gente também tem que ficar provando o tempo inteiro e aí a gente descobre essa estrutura como, muitas vezes, nossa, tipo, você fala super bem, né? Tipo, isso acontece invariavelmente, assim, caraca, você fala muito bem, né? Como se fosse uma grande novidade pessoas trans falando bem, né? E eu acho que as pessoas nem se percebem fazendo isso, mas elas fazem isso o tempo todo, né? E que reforça esse estigma de que, tipo, ah, a gente tá, as pessoas estão acostumadas a ver, ouvir e saber de estatística que as pessoas trans estão submetidas a muita vulnerabilidade, o que não deixa de ser mentira, mas esse estereótipo que a gente fica perseguindo de que todas as pessoas trans só tem narrativas de dor, só tem coisas ruins ou negativas pra contar, é também parte desse processo que vai contar quem são as pessoas trans, né?
E aí, por outro lado, eu acho que isso é uma coisa, né? De ficar tentando sempre escapar de operar pela raiva mesmo, né? Que você tem do sistema e que você fala, meu, eu quero ser muito melhor que isso, mas tem uma cólera ali também de você querer operar dessa forma, né? E que não é saudável pra você, principalmente, porque o sentimento, ele é sempre compartilhado com o mundo, mas ele tá sempre conectado com você, né? Então, essa raiva é sempre compartilhada. Você não consegue deslocar ela de você e jogar ela pro mundo, assim. Você tá sentindo ela e ela vai te esmagar hora mais, hora menos, né? E acho que muito do meu processo também de me tornar outra pessoa, né? E me transformar também nesse sentido, vem desse lugar de, tipo, eu não preciso operar assim, eu não preciso provar nada pra ninguém, nem pra mim mesmo, muitas vezes, né?
Eu preciso estar aqui, vivendo o mundo, fazendo o que eu dou conta de fazer e porque, acho que a K -21 me trouxe essa perspectiva, né? Não conectada desse jeito, mas o melhor que você pode fazer é o que você tá fazendo aqui agora. E amanhã pode ser que você faça diferente, mas hoje é o seu melhor, hoje é a melhor versão que você entrega de você mesmo, sabe? E é muito bonito pra mim fazer isso porque, justamente, eu acho que tira um pouco dessa cobrança, né? E, por outro lado, eu acho que aí eu tenho um viés de militância também de trazer isso e é um cuidado que eu sempre tenho de que, como a gente tá num mundo de muitas vaidades, né? E de muito ego, ser o primeiro do Love the Problem, que é uma pessoa trans, ele não deveria ser entendido como esse pioneirismo, mas como uma denúncia.
É muito triste, né? Que em 100 episódios a gente tenha a primeira pessoa participando publicamente, né? Uma pessoa trans, porque é aquela coisa também, né? É a primeira pessoa pública que a gente acha que é trans, porque a gente não sabe. Das outras pessoas que passaram por aqui, se elas são cis ou não, né? Pode ser que não, né? Ela só não anunciou isso. E por alguma razão também não se anuncia. Mas eu acho que muito mais do que essa ideia de abrir fronteiras, né? De ser pioneiro de alguma coisa, porque eu sempre desconfio de pioneirismos de todos os jeitos, né? Porque eu acho que é isso, assim. Não sei o que veio antes de mim pra me identificar como pioneiro. Mas uma denúncia do tipo, por que será que essas pessoas antes de mim não estão se anunciando trans, se é que elas são?
E por que será que isso tá acontecendo só agora, né? O que faz com que esse movimento social e uma e um conteúdo de ponta aqui, né? Se a gente for parar pra pensar, se são pessoas que estão transformando o mundo, o que faz com que vocês que estão super atentos a isso não tenham pensado nisso antes, né? Que caminhos é esse que a gente tá desbravando ou tentando entender aqui pra transformar o mundo e incluir mais pessoas? Que até agora, até o 100 não aconteceu, né? Então acho que é assim que me atravessa essa pressão e é assim que eu prefiro ler, porque o contrário também é isso, é puro ego e pura vaidade, né? Daí eu colocar lá na minha bio que eu sou o primeiro pessoa trans, primeiro trans masculino a participar de um episódio do Love the Problem, sabe?
E não é por aí que a gente tem que ir. Eu vejo esse movimento acontecendo o tempo inteiro quando, por exemplo, a gente tem candidaturas de pessoas trans, né? Ao invés de ir pro lugar da denúncia e pro lugar do tipo que isso tá acontecendo nesse movimento, a gente prefere exaltar e super exaltar aquela individualidade, né? E eu tenho muitos problemas com individualidade, porque eu acho que ninguém é nada sozinho, né? A gente não aprende nada sozinho, a gente não faz nada sozinho, a gente não é nada sozinho. A gente é porque nós somos, né? E aí faço uma menção muito importante, é uma figura excepcional que nós perdemos ontem, Bell Hooks, não sei quem conhece, mas é uma mulher que vai trazer a potência da coletividade, vai trazer a potência, uma mulher preta, né?
Feminista, lésbica, que vai trazer a potência da coletividade e da gente estar integrado um com o outro, né? A partir desse sentimento do coração, desse sentimento que não é só sentimento, é ação, né? Quando a gente se propõe a se organizar aqui a partir do nosso coração, a partir desse sentimento, a gente tá produzindo ação no mundo e transformando o mundo a partir dessa perspectiva aqui que a gente tá criando, saca? E nada mais honesto e generoso que a gente considerar todas as pessoas que vieram antes da gente, né? E aí pra fechar, acho que tem uma frase muito bonita que é, eu só vejo mais longe porque eu tô sobre os ombros de pessoas gigantes que vieram antes de mim, né? Então eu não tô vendo mais longe porque eu sou gênio, porque eu sou isso, eu sou aquilo, mas porque eu tô ancorado ou ancorada por essas pessoas que vieram antes de mim e que foram gigantes, né?
Bem, esses dois pontos que você trouxe pra mim, acho que são importantes a gente comentar aqui, esse lugar da denúncia e o desconforto, né? Eu acho que o Lula abriu esse episódio falando de um olhar de consciência sobre o desconforto que surgiu e que a gente abraçou esse desconforto e essa denúncia, né? Quando a Cindy levanta a bandeira, mesmo ela sendo nossa amiga e falando isso com todo jeitinho, né? Tá aqui o negócio, essa é a denúncia, né? E aí, o que a gente vai fazer com isso? A gente podia simplesmente pegar o discurso hegemônico do padrão e esconder isso e esquecer que a gente não sabe lidar com isso? Ou a gente pode pegar esse desconforto e tornar esse desconforto uma alavanca pra gente falar disso abertamente, né? E aqui eu acho que nós da K21 nunca nos permitimos nos abrir pra esse desconforto até um pouco tempo atrás.
Existe aquela aquela insegurança de, beleza, eu vou falar de um tema agora, mas eu tenho telhado de vidro, né? E eu não sei lidar com o desconforto de aceitar e ter que admitir isso, simplesmente. Que é tipo, sim, a gente não sabia falar sobre isso até a chegada do Bernardo, até a criação do nosso grupo de diversidade lá dentro da K21. O começo dessa conversa lá no Telegram que tinha um grupinho, um punhado de pessoas e que agora já tem um grupo mais ativo e que faz esse desconforto se manter ativo no nosso dia a dia, assim, né? E é assim, pra mim, essa é uma característica bem evidente do desconforto. E foi assim que eu pedi pra você, né? A gente, antes de começar aqui, eu falei pro bebê, eu vou falar alguma merda, com certeza. Eu sei que a minha vivência não me permite ter, sei lá, um conhecimento sei lá, uma...
vivência, de fato, eu acho que é a palavra, né? A minha vivência não me permite ter uma conversa com vocês em que a gente eu vou poder me identificar com alguns pontos que vocês vão trazerem, que vocês podem trazer aqui. E isso vai me gerar um baita desconforto. E o que eu faço com ele? Eu ignoro e me fecho no meu padrão ou eu simplesmente abro meu coração e falo, beleza, eu faço parte da estrutura que causa isso e que esse desconforto é a oportunidade que eu tenho de transcender nesse ponto. Eu como indivíduo e nós como organizações, assim, né? Então, acho que talvez a parada do desconforto seja um convite pras organizações que estão ouvindo, as pessoas que representam qualquer tipo de organização que estão ouvindo, que é tipo traga o desconforto, né?
A gente fala tanto de botar o bode na sala, a gente fala tanto de ter conversas sinceras e tudo mais, e o desconforto vai fazer parte disso. E a gente vai ter que, em algum momento, sei lá, chorar junto e saber, eu não sei. Aceita o desafio, né? Eu não sei o que fazer com isso, mas eu não vou ignorar que esse desafio existe, né? Eu vou tentar descobrir na jornada algum caminho pra fazer isso acontecer. Inclusive, Panda, quem opta hoje, né? E a gente tá falando das organizações hoje. Quem opta hoje por não topar esse desafio ativamente, vai, em algum momento, passivamente ter que lidar com ele. E você vai estar muito mais despreparado. Porque o mundo tá mudando, né? O mundo tá indo. Exemplo aqui que eu falei da diretora de um grande banco que tava no meio do Roda Vivo.
Por que ela teve que lidar com esse desafio ali naquele momento? Porque ela não topou antes o suficiente pra conseguir aprender a tempo pra estar preparada. Então, se level, por exemplo, que ouve o love the problem, né? Média gestão, alta gestão. Quem tem algum tipo de poder dentro da organização, ou você topa o desafio de passar por esse desconforto agora ativamente, conscientemente, pedindo licença como o Panda faz, como eu faço. Ou você vai ser pego de surpresa em algum momento e vai sair merda. Porque eu não tô preparado, sabe? Eu descobri esse ponto cego há um ano e meio atrás, sei lá, sabe? Pouquíssimo tempo atrás. Mas aí, falando sobre desafios, aproveitando o gancho aqui, tem um desafio, Ber, que eu já conversei com você, mas não tava gravando, né?
Como tá gravando agora, eu quero trazer pra mesa que é um negócio que eu sempre tive muito pavor, assim. Eu sempre tive muito medo, que é com essas questões sociais ficando mais latente nesse mundo complexo que tá mudando e cada vez mais diverso, né? Diversidade é uma bandeira que, sei lá, cada empresa tá colocando ali, né? Ninguém quer ser visto como uma empresa não diversa e tal. Um efeito, um efeito disso, do qual eu sempre tive muito medo, é o que a galera chama de tokenização. Token, token, né? De ser token. O que é ser token? É você ser transformado em um ativo ali que pode ser exposto, né? Então, por exemplo, se o Lula começa a trabalhar em uma empresa que não tem nenhuma pessoa negra e que tá começando a trabalhar com essa diversidade, é muito fácil deles falarem, puta, ó, temos uma pessoa negra, o Lula é...
E aí já ouviu uns termos, tipo, ó, o Lula é... Não foi comigo, né? Felizmente, mas, pô, tal pessoa é o negro, dá a empresa X. Eu falo, eita, porra, voltou o tempo da escravidão agora? A empresa comprou a pessoa, sabe? Missou até, tipo, puta, pesadão. E aí, por conta disso, eu sempre tive muito medo, assim, de ser usado como token, né? Acho que isso passa na cabeça de qualquer pessoa que não pertença a essa norma, né? Que é esse padrão que o Panda trouxe aqui, que na verdade não é um padrão, né? É uma imposição do poder na sociedade. Eu sempre tive muito pavor disso. É um discurso, né? É um discurso. É um discurso de dominação, né? Assim, no final. Eu, enquanto uma pessoa negra, né? Penso nisso e, cara, a situação tá muito mais latente as discussões sobre isso.
Você, enquanto uma pessoa trans, inclusive, botar o bode na sala aqui, né? Você é uma pessoa trans que tá sendo convidada pra esse episódio, esse 10º episódio e tal, por ser uma pessoa trans e trazer suas experiências e tal. Como você lida com esse negócio de ser transformado em um ativo, né? Se transformado em, pô, só uma pessoa trans com quem eu aprendo e pá e tudo mais. Como que você lida com isso no dia a dia? Porque tem as duas perspectivas. Você tem a perspectiva eu com medo de sofrer, só que eu da perspectiva de eu fazendo também, né? Ali do outro lado, né? Como você lida com isso, com essa questão? Bora. Isso é um assunto puta polêmico, né? Mas eu acho que a gente tem que enfrentar esses assuntos polêmicos aí. Primeiro é dizer que nem toda pessoa tem compreensão disso, assim, né?
E o que, tudo bem, né? A pessoa não tem compreensão. Às vezes a ignorância é uma dádiva, né? Às vezes a gente não saber faz com que as coisas fiquem um pouco mais razoáveis, assim, pra pessoa. Porque o fato dela não pensar sobre aquilo, tipo, ah, né? Aquela coisa, não tô vendo, tipo, foda -se, né? E isso acontece muito, né? E eu acho que numa sociedade capitalista, numa estrutura social que a gente tá vivendo, em que a diversidade tá ganhando cada vez mais repercussão, e ela não ganha uma repercussão porque as pessoas estão interessadas em justiça social ou redistribuição econômica ou social, sabe? A gente entende que a diversidade hoje estão nas empresas porque ela tem se tornado um elemento de lucratividade, um elemento de vantagem competitiva.
Então não nos enganemos, né? Não vamos achar que o mundo tá ficando florido e tá ficando maravilhoso. Por que não, né? Então quando eu vejo, por exemplo, o cara trans fazendo um comercial pro Bradesco, eu fico, tipo, me perguntando o que aquele fulano tá fazendo lá, apesar de achar que ele é digno, né? De tá fazendo aquele trabalho. Quando o banco é isso, né? Ele persegue as pessoas negras dentro dos seus estabelecimentos e tá lá cooptando essa pauta através de uma pessoa trans. Tá vendendo a diversidade quando a gente sabe que é uma estrutura que é feita pra produzir racismo, né? E aí eu fico me perguntando nesse processo todo. E, como eu disse, né? A ignorância às vezes vai se manifestar dessa forma. E a verdade, Lula, é que a gente tá sempre sendo usado como token, né?
Eu sei que eu sou um token. Eu sou consciente. Eu acho que é um outro ponto que a gente tem que trazer. Que é, a gente tem que ser tokens conscientes. Tipo, se é através do token que você vai pagar os seus boletos e que essa redistribuição de renda vai se dar, beleza, vou topar esse desafio. E vou funcionar, inclusive, como um cavalo de Troia. Me contrata aí pra você ver o que que acontece. Quando você vê, eu entrei pela sua janela, tomei e você nem viu, parceiro. É isso, assim, sabe? Tomei e você nem viu. Então, beleza, eu tô consciente de que você vai me usar como uma pessoa trans que tá dentro da sua organização e pode usar, mas quando você perceber, eu já te dei uma volta e você nem viu assim, sacou? E é nesse sentido que eu acho que tem muita gente token sendo usada por pessoas brancas, por pessoas cisgênero, por pessoas classe média, com essa perspectiva.
O que que eu posso fazer aqui sendo usado como token que vai fazer com que a distribuição de renda aconteça, com que esse lucro que essa empresa tá produzindo seja efetivamente disparado na ponta e a gente transformar algumas vidas ali diante desse uso mesmo do token? Porque outra alternativa, eu não sei se é possível, assim. Eu tinha há muitos anos atrás a ideia de que a gente ia transformar o mundo e que ia fazer a revolução e essa revolução era uma revolução muito simples também e muito colérica, né? Eu, por mim, colocava todos os homens brancos na parede, matava todo mundo e vamos fazer a sociedade de novo, né? Só que isso não resolve nada. Por quê não resolve nada? Porque a gente é ser humano, né? A gente traz um monte de besteira e não significa que os homens brancos não podem ser nossos aliados, assim, porque eu acho que a gente tem que ter as nossas pessoas aliadas e nossas pessoas de estimação mesmo, né?
O mesmo processo que ele faz com a gente, a gente pode fazer com eles. Eu tenho vários tokens homens brancos que eu uso invariavelmente, porque eu sei que às vezes ele vai ser minha porta de entrada pra várias coisas então eu vou lá nele mesmo e vou falar, e aí? Agora você vai ter que ser um aliado, porque né? Você não quer ser aliado? Então vamos usar essa palavra do jeito que ela deveria ser usada, né? E aí pede dinheiro, e aí pede, sim, influência, pede contatos, né? É de dar a volta do tipo, ah, você tá me usando, eu vou te usar também, e aí pelo menos a relação está explícita, né? Já que você quer ser o aliado e eu sou só a pessoa trans de estimação, então você também é a minha pessoa cis de estimação e vamos construir esse negócio aqui, porque é sempre um processo de negociação, né, Lula?
Dentro de um sistema capitalista a gente tá sempre em negociação, a gente tá sempre estabelecendo negociações. A questão é, que tipo de negociação você faz? Você faz uma negociação em que você vai ser exposto e vai ser, e ficar exposto ou só exposto, não vai expor outra pessoa ou você faz uma negociação em que essa pessoa é convidada a ser exposta também, porque daí eu acho que a gente muda um pouco a figura, a gente muda um pouco o cenário, e é como eu tenho trabalhado hoje, assim, né? Então eu tenho boas relações com muitas pessoas e admito, inclusive, que as pessoas falem milhares de bobagens e tudo bem, partindo desse pressuposto de que eu vou falar assim, ó, isso aqui é uma bobagem, deixa eu te explicar aqui mais ou menos porque isso é uma bobagem, mas assim, vida que segue, você continua sendo essa pessoa, não vai precisar se estigmatizar, né, se chicotear, eu sou uma péssima pessoa, eu sou horrorosa, eu sou horroroso, não, velho, você cometeu um erro aqui, foi corrigido, espero que se você cometer de novo tenha alguém pra te corrigir, e vida que segue, né?
Porque também, se a gente fica caindo nesse limbo da fragilidade, tudo vai ser um tema frágil, tudo vai ser um drama, tipo, é complicado, entende? E eu acho que às vezes a gente cai num limbo também, e incorre em erros, porque a gente tem mesmo essa dificuldade de imaturidade mesmo, né, sabedoria pra lidar com os temas e entender que não é pessoal, né, a gente tá falando sempre de estrutura, não é sobre a individualidade do panda, a individualidade do pula, a gente tá sempre falando de estrutura, e se a gente tá falando de estrutura, não tem sentido você trazer suas questões individuais pro jogo, né, não tem como você ficar se tratando individualmente quando a gente tá sempre falando de estrutura, e é esse meu ponto, assim, porque quando a gente tá falando de estrutura não tem espaço pra fragilidade nem culpa, né, porque a culpa é essa coisa cristã, essa coisa meio chatinha, que aí a gente tem que ficar acolhendo a pessoa, porque a pessoa começa a chorar, aí você faz o quê, né, continua massacrando a pessoa?
Não, você vai acolher, né, mas quando a gente sai desse lugar da culpa e trata a nossa culpa lá na terapia, porque é o lugar onde ela deveria ser tratada, não em discussões políticas, não em discussões em que a gente tá tentando transformar as pessoas, a gente tem potência, a gente tem insumo pra conseguir transformar de fato, sabe, e o que eu sinto muitas vezes é que a gente não tem essa maturidade, não tem essa dinâmica mesmo de tratar essas questões, né, e aí a gente sempre esbarra naquilo que a gente acha que a gente sabe, sempre esbarra num lugar perigoso, muitas vezes de um tá falando sobre estrutura, o outro tá falando sobre individualidade, e aí não dá match, né, aí não produz nada, produz só a gente se engalfinhando e porque não tá com o objetivo compartilhado, aprendi isso esses dias e tô nessa pegada aí, tipo, cara, o nosso objetivo compartilhado é transformar o mundo?
Então tá, então a gente vai colocar algumas questões aqui pra jogo, entenda você ou não, e leve suas culpas lá pra terapia, não fique se estigmatizando aqui por ser você quem você é, porque isso é improdutivo pra todo mundo, né, quando você assume o que você é o que você é, e mesmo se você for um homem branco, cis, heterossexual, fale a partir dessa perspectiva, fale como é ser um homem branco, cis, heterossexual e o privilégio que você goza, como eu, por exemplo e eu vou tangibilizar um pouco pra gente entender essa brincadeira, né, antes da transição e antes de ter esse estereótipo, né, pra vocês não acharem também que eu não me farto muitas vezes desse estereótipo, né, da ficção, antes da transição o que acontecia comigo é que invariavelmente eu era seguida, né, e fui seguido assim, ainda ali no comecinho da transição fui seguido muitas vezes, né, pra um único objetivo, né, o negócio se chama estupro corretivo, acham, né, no mundo como parte dessa ficção, de que me corrigir enquanto sapatão é eu precisar conhecer um homem de verdade, aí, né e aí é o que a gente vai conhecer no mundo como estupro corretivo, fui seguido inúmeras vezes, então a rua, pra mim, embora eu não sofra mais disso, sempre foi um lugar muito violento, que eu ficava sempre muito atenta muito assim, né, tipo, meu, o que que tá me olhando o que que tá me olhando, o que que tá me olhando, quase num esquema meio persecutório, sabe, mas com um mecanismo de defesa, atualmente isso não acontece mais, e é curioso que não aconteça, porque hoje eu sou lido como um homem branco cis hétero, então eu ando na rua com um conforto implacável, assim, nada me acontece Lula, absolutamente nada me acontece né, e é sempre até uma segunda página, como se eu tivesse uma mochilinha que eu tô ali é, mochilinha do homem branco cis heterossexual acionada só que se, é uma estrutura muito frágil também, né, eu tô na rua ali, aí eu faço essa postura mesmo, viu gente, eu uso dessa estrutura, porque eu não quero ser violentado não quero que nada me aconteça, né, e aí é um momento que eu uso isso e vida que segue, mas por outro lado, se esse sistema de conforto é abalado de alguma forma, aí eu volto a estar em risco, então se alguém põe a mão aqui no meu peito e vê que tem uma faixa e questiona isso aí eu voltei pra esse lugar de língua e esse lugar de extrema insegurança, porque eu não tô eu abalei a estrutura, né, o que vai acontecer é o cara vai falar, vai olhar pra mim e falar meu, você tá me enganando, e aí aquela cólera cresce, né, e se fomenta, e aí a gente não sabe mais o que pode acontecer, mas trouxe essa situação pra gente tangibilizar então eu sei que muito do que é Bernardo hoje é se valer dessa condições de privilégio, né, não é negar a minha branquitude, não é negar esse lugar de ser lido muitas vezes como homem, ao contrário, é usar isso contra esse sistema e de alguma forma produzir esse cavalo de Troia aí, do tipo, ó tô aqui dentro e vou te tomar, você nem vai ver e é isso, vai ser nosso de alguma forma saca, no sentido de, não que tem uma divisão entre nós e eles, mas a gente vai tomar essa estrutura a nosso favor e tentar derrubá -la pra produzir outra coisa melhor no lugar, assim, porque de fato isso não tá funcionando pra todas as pessoas e se não tá funcionando pra alguém, significa que não funciona e que a gente precisa construir outra coisa no lugar, ponto final, não tem discussão, sabe?
Isso pra mim, B essa parada que você falou, conecta de novo com aquele negócio do desconforto, né, o momento em que eu saio do meu lugar privilegiado e toda estrutura que me fortalece, né, nessa estrutura corrompida que a gente tem, a partir do momento em que eu sinto desconforto, é o que pode gerar o gatilho pra mim tomar ações conscientes pra tentar apoiar na resolução de algumas dessas coisas, né, porque eu nessa minha vivência isso não aparece a partir do momento em que eu aceito esse desconforto e aqui eu volto pro chamado desconforto pras pessoas e pras organizações pra trazerem pessoas com vivências diferentes da sua pra sua roda, pra sua conversa pra ouvir essas pessoas, exatamente pra que você pegue esse desconforto como uma alavanca, uma alavanca pra fazer a transformação de fato, se a gente tá aqui pra falar de transformação essa transformação tem que ser motivada por algum lugar, e que esse desconforto seja o sinal que você precisa pra encontrar uma oportunidade do seu ponto de do seu lugar de privilégio mudar essa estrutura porque é a estrutura, não tem jeito né, B?
O B trouxe nesse finalzinho exatamente isso, é a estrutura, não tem como negar isso então o que a gente faz? Fazer um curso de hacking cultural pra fazer alguma coisa sobre ah, como a gente trabalha aqui? Não, vamos fazer um hacking cultural pra dar voz pras pessoas que precisam de voz, sabe? Pra ceder o espaço, se eu como homem branco preciso subir no palco, que seja pra ceder o microfone pra alguém entende? Se é pra garantir que essa estrutura vai ser derrubada dessa forma, assim E é muito louco o Panda também, de tipo até tô te interrompendo, mas por um motivo muito específico, não significa também que a gente deva ser endeusado, porque isso eu vejo acontecendo também, aí eu viro a pessoa nossa, tô no topo, assim, sou a pessoa mais perfeita do planeta, me colocam no pedestal sem nem eu ter pedido, né?
Porque a gente não tá acostumado a lidar com horizontalidade entender elos, entender que nós todos fazemos parte do mesmo elo e que a gente tá conectado, querendo a gente ou não, né? E aí o que vai acontecer é o contrário, de achar que as pessoas trans não erram, que a gente precisa ter cuidado pra falar com as pessoas trans pra elas não se sentirem ofendidas, coloca a gente num lugar de fragilidade que é péssimo também e que não produz mudança, né? Porque se toda hora eu preciso ter cuidado pra falar com alguém do tipo, ah, eu não quero maltratar essa pessoa, beleza, você pode falar isso com ela, mas isso impede que a gente cresça junto, né? Porque se eu deixo você desconfortável, Panda, pra você falar comigo, eu já tô impedindo que você fale, eu estou de alguma maneira criando uma barreira que você vai ter sempre tipo, ah, ah, ah, aí quando você fala pra mim assim, tipo, Bernardo, eu vou falar uma bosta, beleza, tamo bem assim?
Tamo bem assim se você falar uma bosta, eu falo, ó, Panda, é uma bosta, e vamos seguir em frente e você não precisa se sentir fragilizado com isso falou uma bosta, puta, falei uma bosta, bora pro próximo passo, né? Que é não falar mais a bosta saca? É isso, é isso e eu acho que esse protagonismo consciente, B, consciente dos meus privilégios, que é um ponto interessante aqui, que é a parada do tipo, eu vou falar uma bosta, e eu vou aprender com essa bosta sem precisar ficar aqui, nossa Bernardo, por favor, me ensine todas as coisas que eu não sei, porque eu não sei nada disso e daí isso não motivar a transformação em mim e no que eu consigo atingir, o que tá no meu entorno, assim, né? Porque a partir do momento que eu digo assim, beleza, eu vou falar uma bosta, então B, só me avisa a bosta que eu falar, porque daí eu não preciso ter esse momento tipo, me conta tudo, B, todas as coisas, porque eu não vou ter as suas vivências, eu não vou te colocar nessa posição de professor que você já é um baita professor, inclusive mas ficar usando isso de apoio né?
Tipo, ah, assim, eu não vou falar disso porque o B, eu ainda não aprendi isso, eu vou lá conversar com o B primeiro daí eu vou aprender pra depois fazer alguma coisa, não bota a cara, bota a cara no sol sabe? Tipo, que eu possa falar pro panda de ontem, falar, nossa, cara, você falou uma cagada ontem, mas hoje você já aprendeu outra coisa você já tá no outro caminho, você já pode influenciar e ajudar, derrubar a parte dessa estrutura de uma forma diferente hoje, assim, né? E amanhã vai ser melhor, cara, e tipo essa vivência vai ser, né? Eu vou aprender conforme a coisa vai acontecendo né? Eu não vou deixar, eu vou gerar inação por não conhecimento ou por uma fragilidade minha de enfrentar o desconforto, sabe que eu acho? E é isso, é bom.
Eu preciso dizer que esse é um resumo muito bom de 99 episódios do Love the Problem, sabe? É muito aspecto, é desde o aspecto de vulnerabilidade, comunicação não violenta é liderança espiritual, né? Um belo capítulo, tem esses aspectos mais subjetivos que a gente traz em muito episódio tem o aspecto mais objetivo, que é o próprio aspecto financeiro da coisa e como fazer a coisa crescer rita de todos, que é o aspecto sistêmico né? Assim, no final, esse lance que o Bernardo trouxe de não procurar culpados específicos pra massacrar e tal e muito mais entender as estruturas que levam a isso, é pensamento sistêmico purinho, purinho, assim isso daí é frase de Donella Meadows assim, é pensamento sistêmico quem pensa sistemicamente não vai procurar culpado, vai procurar as alavancas que a gente precisa mudar pra começar a mudar a estrutura, essas alavancas no final são políticas, né?
Mudança de políticas mudança do sistema pro sistema começar a fluir rumo ao novo propósito, sendo que propósito é o que o sistema faz, né? E não o que ele deveria fazer teoricamente, e eu já vou emendar isso no ponto que a atenção criativa acho que o Panda chegou uma hora aí a falar do tipo, putz, tem que ter uma provocação que te mostre que o ideal é diferente do atual, né? Tem que ter essa diferença e isso é o que a gente define como atenção criativa, que é o que puxa a realidade atual pro futuro que a gente deseja e aí a gente teve aqui no chat uma pergunta da Jéssica que é, e essas esses movimentos de diversidade Beren, é uma pergunta espinhosa, tá? Esses movimentos de diversidade que eles são muito mais confete né? E acho que o mercado tem muito esse poder, né?
Até que ponto diversidade não vira não é confete? E aí já vou contextualizar um pouco mais porque, a meu ver, talvez a tensão que tá puxando o assunto talvez não seja a mesma tensão que te puxa nesse assunto, né? A mesma tensão que me puxa, que puxa o Panda né? Então, e essa diversidade que surge como contexto de empresas baseadas em tensões muito mais ligadas, muito, muito mais ligadas diretamente à marca, à exposição de marca, do que em políticas reais e de alteração das estruturas de poder as estruturas que dominam o funcionamento desse sistema assim, como que você enxerga isso? E eu sei que a questão é espinhosa, porque a gente também não quer atirar nas iniciativas de diversidade, né? Cair nesses espaços de julgamento acho que também é perigoso, mas eu queria te ouvir, assim.
Primeira coisa que eu acho que sempre vai ser confete, e porque esse papel da diversidade não deveria estar na mão das organizações, e sim do Estado, né? Que não cumpre esse papel. E a gente sempre esquece de olhar pro Estado, né? O tempo todo a gente tá fazendo esse processo de entender que é o Estado que não tá dando conta desse processo todo. Não que ele deveria fazer isso sozinho, mas ele tá se propondo outra coisa e jogando muitas vezes a responsabilidade nas organizações, quando na verdade isso tá um pouco equivocado, né? É como se a gente bem aquelas ações que são importantes, mas que a gente sabe que são problemáticas, do tipo questões que aconteceram na Vale, Mariana, né? Todas essas questões que aconteceram. Quem se organizou pra resolver muitas vezes ali o problema local das pessoas foram outras pessoas, quando na verdade era o Estado quem deveria estar dando essa resposta, né?
E a gente fica ali tão de mãos atadas, né? E claro, o Estado vai dar outras respostas, mas a primeira instância, quem sempre aparece, não é o Estado. E eu acho que a gente não pode perder isso de vista, né? Eu, por exemplo, não acredito no Estado, eu acho que o Estado, ele deveria ficar cada vez mais proposto na sua fragilidade, porque ele é um sistema completamente frágil, não funciona pras pessoas, né? E me parece que quanto mais frágil ele fica, mais a gente se propõe a pensar outra coisa no lugar. Então, nesse sentido, a gente acho que a gente deveria olhar pra esse cenário dessa forma, do tipo, por que a gente não tá olhando pro Estado? Por que ele continua nesse limbo que ele tá há tantos anos e a gente tá colocando cada vez mais a responsabilidade na mão, não dá pra ler, Lula, o que tá escrito aí?
Transcender e incluir, né? Transcender e incluir. É isso, assim, o Estado, ele tá tentando cumprir uma função muito importante e a gente tá cada vez mais cobrando isso das organizações, o que eu não acho um problema, mas o problema é, parece, a gente só começar a cobrar as organizações e esquecer que isso também deveria ser papel do Estado, né? O Estado faz isso de um jeito muito precário, é só pra tapar buraco, né? E se a gente tivesse os dois atuando com mais potência, a gente não estaria vivendo esse cenário que a gente tá vivendo, né? E, nesse sentido, acho que as organizações vão ser sempre confete, gente, porque o capitalismo é um grande confete, né? Ele não... O que que é a parada gay, né, gente? Vocês acham... A gente não pode acreditar que a parada gay é uma expressão máxima de como as pessoas são aceitas, inclusas.
Não, gente, a parada gay só acontece, ela só tem esse tamanho, ela só tem apoio, porque ela gera milhões e... bilhões e bilhões de dinheiro pra Prefeitura de São Paulo, gente, né? Não é porque de repente a Prefeitura entendeu, ou o Dória, ou quem quer que seja, entendeu que, nossa, a diversidade é algo importante. Ao contrário, né? Ele não tá nem aí pra isso, o que ele tá interessado é nesse dinheiro rosa, e se esse dinheiro rosa tá entrando, pouco importa se ele é rosa, se ele é azul, se ele é amarelo, foda -se, assim, é bem nesse sentido, o dinheiro tá entrando, né? Pro capitalismo não importa a cor desse dinheiro, e às vezes a gente esquece que a gente tá dentro desse sistema e esse sistema é a grande... o nosso grande B.O., né? O nosso grande B.O.
é esse, é ele que produz essas diferenças, é ele que produz essas nuances todas, é ele quem vai esvaziar todos os discursos, é ele quem vai trazer uma ideia de igualdade que só privilegia os mesmos de sempre, é ele quem vai dar essa noção de que a gente precisa ocupar algum topo, quando na verdade é o topo quem deveria ser destruído, porque a gente não precisa disputar o topo, a gente não deveria estar disputando o topo, né? Mas o capitalismo fica fomentando isso daí, fomentando a meritocracia, fomentando que é as nossas individualidades que vão ser preponderantes a qualquer estrutura sistêmica, então acho que a gente tem que olhar pra isso com a perversidade que isso merece, assim, né? Porque é um sistema que se reinventa o tempo inteiro, e é uma máquina que tá muito bem azeitada, né?
Quando você inova e a gente perdeu o bonde, né? E ela já comprou a gente e a gente fala, nossa, que legal, e a gente esquece de olhar pra outras coisas, né? Então eu sou o cara que vai sempre olhar pra essas estruturas. O que eu acho também é que, muito na pegada do Tolkien, assim, deixa o confete vir, gente, quanto mais confete, melhor, né? E o lance é, a gente não tá inconsciente diante desse confete, assim, de entender que esse confete vai nos beneficiar ali momentaneamente, mas é que essa é a entrada que vai precisar produzir a mudança estrutural, né? Então a gente tem que tá consciente de não desmaiar, a gente tem que ser inconforme, sempre ser bem inconformado diante do sistema, porque ele nunca vai, ele nunca vai dar o que a gente precisa, né?
A gente que vai ter que tomar de assalto, né? Ele sempre, o que ele concede pra gente são pequenas partes que ele entende ali que não vai danificar o todo, e a gente tem que pegar essas pequenas partes também, porque não adianta essa rebeldia do tipo, não quero essa parte, vamos tomar esses pedaços que estão sendo dados, mas a partir do momento que a gente tá pegando esses pedaços, é contaminar todo o resto, né? Então tem eu gosto de contar aqui, sobre a K21, inclusive, não sei se a Fer tá aí, a Fernanda Magalhães, eu gosto muito de contar essa história, porque a gente foi fazer um treinamento, né? Eu fui participar, na verdade, de um treinamento de RH ágil, e aí, por eu tá lá, né? Acho que o Bocater, a Fê ali, tinha uma outra pessoa também que tava trabalhando na WBank, a Laide, e aí a gente começou a falar sobre diversidade porque esse tema começou a surgir, assim, não é uma estrutura ali do treinamento de RH ágil, mas, como a gente tava ali naquela sessão, o Bocater aprovou a oportunidade e falou, dá um espaço aqui pra vocês falarem sobre isso e tal.
E aí o feedback que a gente recebeu foi que, e de pessoas que não estavam esperando isso, né? Porque não foi programado, obviamente, é de que a gente perdeu muito tempo falando sobre diversidade, né? E aí eu fiquei com essa informação aqui na cabeça, caraca, né? Como que a pessoa consegue fazer uma desconexão tão grande de RH, que tá falando de pessoas, né? De gente, e achar que a diversidade é uma perca de tempo, né? E aí a gente ficou, eu e a Laide, lá se batendo, pensando, foi pra casa com esse engodo, né? Porque é um engodo muito grande, você ouviu isso, como vários outros são, né? E voltamos com uma proposta do tipo, não vamos deixar de falar, né? Porque talvez a ideia, né? Se fossem outras pessoas, talvez, ah, não, vamos colocar isso dentro do armário, vamos parar de falar sobre isso, vamos criar um treinamento só de diversidade, né?
Ao contrário, a gente não criou um treinamento de diversidade, mas diluiu, pulverizou o negócio ali, né? Pra que as pessoas não percebessem mais. E aí deu super certo. E eu fui na Fernanda, e a ideia, a história é justamente essa, né? A gente foi conversando com a Fernanda, explicando pra ela qual era o movimento, fazendo ela entender, a gente pegou um bumerangue que tem aqui na K21, que é de uma coisa muito específica pra diversidade, começou a soltá -la nos decks, né? Muito sutilmente, assim, né? Pra ela lembrar de falar, pra ela lembrar de ter uma outra postura, de falar de outro jeito. E aí, quando não, ela me trouxe um relato que pra mim é isso, assim, é quando a gente dá um match, sabe? Ela falou assim, nossa, B, depois de ter essas conversas com vocês e tal, eu tava numa semana, inclusive, quando a gente conversou, de precisar fechar a escola pro meu filho, né?
Mudar meu filho de escola e tal. E o filho dela nem é uma pessoa que tem nenhuma demanda específica, né? Mas ela se deu conta que a escola que ela tava vendo pro filho dela não tinha sequer um elevador ou uma rampa. E aí ela questionou e falou assim, puxa, porque nessa escola não tem uma rampa, não tem um elevador, né? Como é que fica pessoas que tem uma mobilidade outra, né? Não digo nem reduzida, é uma outra mobilidade, né? Que a gente tem a sensação de falar que ou é deficiência ou é mobilidade reduzida, o que eu acho uma puta bobagem, né? Porque não é que alguém tem uma mobilidade reduzida ou uma deficiência, né? É a gente que não consegue lidar com essa diferença e fica inventando esses homens porco, né? Um homem porco. Ninguém tem uma mobilidade reduzida, né?
As pessoas têm outra mobilidade. Você é que tá reduzido na sua concepção de mobilidade, né? Mas enfim. E aí ela perguntou isso pra diretora e a diretora ficou com aquela cara amarela, né? De tipo ah, nunca tinha pensado sobre isso e tal. Então é isso, assim, a diversidade pra mim não é um conjunto de ações ou confete. É a gente conseguir fazer com que as pessoas passem a operar de outra forma, tenham um outro mindset. Acho que aí conecta muito com a agilidade, porque é isso, né? A agilidade não é o Kamban, não é o Schoolmaster, você ter um squad e falar, puta, a gente é ágil, né? E eu tô aqui só reproduzindo, tá, gente? Porque eu não sei muito de agilidade. Mas a diversidade funciona no mesmo percurso. A diversidade não é ter uma política pra inclusão de pessoas negras, sei lá, né?
Um banco XYZ ter uma puta ação pra contratar pessoas negras não significa que aquele espaço é diverso, né? Porque se você tem esse montão de pessoas negras aí dentro da sua instituição, mas em algum outro momento você vai lá e só apresenta a galera branca, né? No momento do ápice, né? Do topo, só tem gente branca, então você não entendeu o recado, você não entendeu nada, né? Você não entendeu absolutamente nada. E a gente não cumpriu a nossa tarefa que é entender esse mecanismo de operar, assim. Por que ali não aparecem pessoas negras? Ah, agora vamos fazer uma ação pra contratar pessoas negras e tirar uma foto bonitinha? Pô, a gente também não cumpriu o nosso processo, né? Cumprir o nosso processo é fazer com que as pessoas em todo lugar, em qualquer circunstância que elas estejam, elas estejam pensando a partir de uma diversidade, né?
Como aprender a ler. Quem aprende a ler, né? Eu trago muito esse exemplo, entendendo que, né? Vão existir pessoas que vão desaprender a ler porque passam por, sei lá, circunstâncias de um acidente, aconteceu alguma coisa no processo da pessoa que ela desaprendeu a ler. Mas a partir do momento que você aprende a ler, não tem mais como desaprender. Diversidade é muito nessa pegada. Se você aprendeu a ler, não é que você vai fechar o olho e, putz, não quero mais ler, não. Você vai ler tudo, né? Você vai ver tudo. Diversidade é assim. Se você aprendeu a operar com essa perspectiva e com essa lente, não dá mais pra voltar atrás. Não dá pra ser, como é que vocês costumam falar, não dá pra ser ex -agilista. Não dá pra ser ex -diversidade. É a mesma coisa, sabe?
E não é a ação, não é o confete em si. O confete em si é esse lugar onde a gente abriu a porta, mano. Abriu a fronteira, agora é a gente, entendeu? E aí a gente toma e ensina essas coisas nesse sentido de quanto mais a gente estiver do nosso lado, menos a gente tem a favor dessa estrutura, né? E porque a estrutura são as pessoas, não é que a estrutura é uma entidade, um éter, né? Que tá ali operando, maquiando a gente, né? Meio que bonequinhos. Não. A gente é a estrutura. E se a gente é a estrutura, a gente precisa mudar a nossa estrutura, mudar o nosso repertório, a forma como a gente enxerga, a forma como a gente tá fazendo. E aí sim, a gente vai ter uma outra operação social acontecendo em uma outra sociedade, um outro projeto de mundo, né?
A partir das pessoas. Que episódio. É isso. E que o Love the Problem seja o espaço pra isso, né? Total. Que seja a porta que tá aberta pra isso. Porque a gente, de fato, acredita nessa transformação.
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