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Ep. 47 - Estratégia
Ep. 47

Ep. 47 - Estratégia

14 de dezembro de 202001:06:50
Estratégia

Resumo rápido

Neste episódio, Sandro Manteiga, Mari Zaparoli e Carlos Felipe Cardoso discutem estratégia para além do modelo clássico de Porter, usando a experiência real de reconstruir a cultura de estratégia no PagSeguro para defender que estratégia bem-feita é simples, emergente e nunca responsabilidade exclusiva da liderança, sendo, na prática, a união entre conhecimento público (práticas) e as pessoas específicas de cada organização (praticantes).

Capítulos

  1. 00:01A origem histórica da estratégia e a contribuição de Porter
  2. 14:34A cultura de estratégia sendo reconstruída no PagSeguro
  3. 19:04Por que somos treinados a resolver problemas, não a enquadrá-los
  4. 26:25Nativas digitais versus organizações tradicionais
  5. 31:29O pai da microgestão é a falta de visibilidade
  6. 33:32Prática, praticantes e praxis
  7. 56:14Senso de urgência e o efeito acelerador da pandemia

Frases do episódio

“A estratégia não é. Ela tem que ser um negócio muito simples de você explicar”

20:16

“o pai da microgestão, ou pai, a mãe, né? Ou a mãe, é a falta de visibilidade”

31:12

“quando a gente educou as pessoas como idiotas, ou a gente tentou desenhar processos para tratar as pessoas como idiotas, elas se comportam como idiotas”

40:48

O que você vai ouvir neste episódio

  • A etimologia da palavra estratégia remonta ao termo grego stratēgia, refletindo origens ligadas à liderança e ao planejamento.
  • Sandro Manteiga define a estratégia como um assunto multidimensional que demanda análise sob variadas perspectivas do negócio.
  • Os participantes debatem o papel da estratégia no alinhamento de lideranças e no direcionamento de equipes organizacionais.
  • Carlos Felippe Cardoso, Mariana Zaparolli, Sandro Manteiga e Lula analisam os desafios da formulação e execução estratégica.
  • O episódio explora diferentes abordagens para conectar os objetivos de longo prazo com o trabalho diário das equipes.

Temas discutidos

A discussão sobre estratégia conecta-se diretamente com o contexto de liderança e cultura organizacional, pois a clareza estratégica permite orientar times ágeis e de produto rumo aos mesmos objetivos. Ao tratar a estratégia sob uma perspectiva multidimensional, o episódio evidencia a necessidade de integrar planejamento, adaptabilidade e execução. Com o alinhamento promovido por líderes como Mariana Zaparolli, Carlos Felippe Cardoso e Sandro Manteiga, as empresas conseguem transformar visões abstratas em entregas contínuas de valor no mercado.

Para quem é este episódio

Este episódio é voltado para executivos, gestores de produto e líderes de agilidade que buscam compreender a estratégia a partir de múltiplas perspectivas. Esses profissionais encontrarão insights valiosos para alinhar decisões corporativas, direcionar equipes e aprimorar a capacidade de execução organizacional em ambientes complexos.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

O que é estratégia segundo o debate do episódio?

Conforme debatido no episódio por Sandro Manteiga e demais participantes, a estratégia é um assunto multidimensional originado do termo grego stratēgia. Ela não se limita a um plano rígido, mas envolve a capacidade de analisar o ambiente de negócios por diversas perspectivas para orientar decisões organizacionais.

Como as diferentes perspectivas afetam a definição de estratégia?

Avaliar a estratégia por múltiplas perspectivas permite que líderes compreendam a complexidade dos negócios e evitem visões simplistas. Com as contribuições de Carlos Felippe Cardoso, Mariana Zaparolli e Sandro Manteiga, o episódio destaca que integrar visões distintas enriquece o planejamento e facilita o alinhamento entre diferentes áreas da organização.

Quem são os participantes deste episódio sobre estratégia?

O episódio conta com a moderação de Lula e reúne Mariana Zaparolli, Carlos Felippe Cardoso (CFC) e Sandro Manteiga. Juntos, os debatedores compartilham suas experiências para explorar os múltiplos ângulos da estratégia corporativa, abordando conceitos fundamentais e a aplicação prática da liderança estratégica nas organizações.

Sobre este episódio

Neste episódio, Sandro Manteiga, Mari Zaparoli e Carlos Felipe Cardoso discutem estratégia organizacional para além do modelo clássico de posicionamento competitivo de Michael Porter, apresentando perspectivas complementares como cultura, processo empreendedor e aprendizado, muitas vezes exigindo que organizações maduras integrem várias abordagens simultaneamente, o que é chamado de ambidestria organizacional.

Uma parte central do episódio detalha a experiência real de reconstruir a cultura de estratégia do PagSeguro a partir de 2015: um processo de facilitação dentro da própria diretoria concluiu que estratégia não é simplesmente um roadmap, repetido ciclicamente enquanto a empresa crescia de 200 para 3.000 pessoas. É discutido o conceito de 'estratégia tarefeira', quando um discurso bem-intencionado se transforma, na prática, em mais tarefas desconectadas de propósito, além da dificuldade real de enquadrar corretamente um problema. É citado o livro 'Good Strategy, Bad Strategy', de Richard Rumelt: boa estratégia é simples o suficiente para ser explicada sem dezenas de slides.

O episódio compara empresas nativas digitais e organizações tradicionais, revelando diferenças reais (como a 'esquizofrenia organizacional' de querer ser digital mas tratar tecnologia como custo) e semelhanças curiosas: comando e controle aparece em ambos os contextos, mas por gatilhos diferentes: desconfiança histórica versus dificuldade de fundadores em largar o controle conforme a complexidade cresce. É cunhada a frase 'o pai da microgestão é a falta de visibilidade', e apresentado o arcabouço sociológico de prática, praticantes e praxis para explicar por que agilidade nunca se manifesta de forma idêntica entre organizações diferentes.

É defendido que estratégia não deveria ser responsabilidade exclusiva da liderança, mas uma prática coletiva alimentada por informação fluindo livremente, com liderança genuinamente disposta a mudar de ideia diante de novos dados. A metáfora de organizações como sistemas sociais, em vez de máquinas, é proposta como caminho para superar a incoerência entre práticas de agilidade importadas e o resto do sistema organizacional. O episódio encerra citando o conceito de senso de urgência de John Kotter, e observando como a pandemia acelerou esse despertar em organizações que ainda resistiam à necessidade de se adaptar, com os pontos centrais resumidos pelo apresentador: estratégia bem-feita é simples, emerge da união entre prática e praticantes, e é responsabilidade coletiva, não apenas da liderança.

Transcrição completa

Este episódio recebe Sandro Manteiga, ex-diretor do PagSeguro e hoje COO no PicPay, Mari Zaparoli, que atua com estratégia numa grande consultoria internacional, e Carlos Felipe Cardoso (CFC), para discutir o que realmente significa estratégia organizacional.

Sandro abre contextualizando a origem histórica da 'indústria da estratégia' como se conhece hoje: ela nasceu nos Estados Unidos a partir da década de 1960, num contexto de mercados mais estáveis, sem tecnologia digital nem a velocidade de mudança atual. Na década de 1980, Michael Porter, economista de Harvard, trouxe uma contribuição central, mas parcial: por ser economista, e não gestor de organizações, ele aplicou sua compreensão de funcionamento de mercados à estratégia empresarial, resultando em ferramentas como a análise das cinco forças e a ideia de estratégias genéricas (menor custo ou diferenciação de valor). Essa é, porém, apenas uma entre várias perspectivas possíveis sobre um tema multidimensional.

Sandro apresenta outras lentes para pensar estratégia: como cultura (que explica por que transformações organizacionais são tão difíceis: cultura existe justamente para dar estabilidade e previsibilidade); como processo empreendedor (a dinâmica de startups voltadas à inovação); e como aprendizado, associada a Henry Mintzberg. Organizações mais maduras precisam, muitas vezes, integrar múltiplas dessas abordagens simultaneamente, o que ele chama de ambidestria organizacional: ser, ao mesmo tempo, inovadora e operacionalmente eficiente num mercado já estabelecido.

Uma parte central do episódio detalha a experiência real de CFC e Sandro reformulando a cultura de estratégia dentro do PagSeguro, a partir de 2015. CFC conta que ele e um colega chegaram à empresa com nomes de área pouco populares, 'governança' e 'controladoria', carregando conotação burocrática imediata, e tiveram que reconquistar credibilidade explicando, desde o primeiro workshop, que problema real estavam ali para resolver. Um padrão se repetia: ao final de cada workshop, alguém sempre perguntava se CFC sabia qual era, de fato, a estratégia do PagSeguro, porque ninguém mais sabia dizer. Sandro conduziu, então, um processo de facilitação dentro da própria diretoria, incluindo um exercício de 'é, não é, faz, não faz' sobre o conceito de estratégia, chegando à conclusão coletiva de que estratégia não é simplesmente um roadmap nem uma lista fixa de passos, mas sim um processo de digestão conceitual necessário mesmo entre a alta liderança, antes de qualquer ferramenta (como OKRs) fazer sentido.

É discutido o conceito de 'estratégia tarefeira': quando um discurso de estratégia, mesmo bem-intencionado, na prática apenas gera mais tarefas desconectadas de um propósito maior. É levantado um ponto importante de humildade: ocupar um cargo de C-level não confere automaticamente a capacidade de enquadrar corretamente um problema; quem está no topo de uma organização, ironicamente, costuma estar mais distante da realidade operacional do dia a dia.

Sandro aprofunda por que o 'framing' do problema, o diagnóstico correto da situação, é, em sua experiência, a etapa mais difícil de qualquer discussão estratégica, muito mais do que a etapa analítica propriamente dita. Ele conecta isso à formação educacional tradicional: somos treinados desde a escola a resolver problemas já dados, sendo até punidos quando resolvemos de forma diferente da esperada pelo professor, mas a vida real raramente apresenta problemas já bem definidos. É citado o livro 'Good Strategy, Bad Strategy', de Richard Rumelt: uma boa estratégia deve ser simples o suficiente para ser explicada sem dezenas de slides; se são necessários, é sinal de que a essência do problema não foi verdadeiramente compreendida.

Uma reflexão importante compara empresas nativas digitais e organizações tradicionais e centenárias. Diferenças reais existem: empresas tradicionais frequentemente vivem uma 'esquizofrenia organizacional': querer ser mais digital e ágil, mas tratar tecnologia como centro de custo a ser minimizado e terceirizado. Empresas nativas digitais, por crescerem num ambiente de teste e aprendizado constante, tendem a ter mais disposição natural para revisitar suas próprias premissas estratégicas conforme a realidade muda. Mas há semelhanças curiosas: comando e controle aparece em ambos os contextos, só que por gatilhos diferentes: em empresas tradicionais, por desconfiança histórica em relação aos trabalhadores; em startups em fase de scale-up, por dificuldade dos próprios fundadores de largar o controle direto conforme a complexidade cresce, muitas vezes sem perceberem a necessidade de trazer pessoas com conhecimentos complementares aos seus.

É cunhada uma frase memorável: 'o pai da microgestão é a falta de visibilidade'. À medida que uma organização cresce, líderes perdem a visão direta que tinham quando eram menores, e reagem tentando recriar essa visibilidade à força, o que geralmente piora a situação em vez de resolvê-la. Isso conecta a uma ideia de 'Reinventando as Organizações', de Frederic Laloux: a maturidade da liderança limita a maturidade possível da própria organização.

Sandro apresenta um arcabouço sociológico, as 'teorias da prática', para entender por que agilidade nunca se manifesta de forma idêntica entre organizações diferentes: existe a prática (o conhecimento público, como Scrum ou Kanban), existem os praticantes (as pessoas específicas de cada organização), e a junção real entre os dois, no dia a dia, é chamada de praxis, o que explica por que copiar práticas de uma empresa para outra sem considerar quem são os praticantes locais tende a fracassar.

Sandro alerta também que velocidade não é sinônimo de agilidade, e que 'falhar rápido' precisa ser tratado com cuidado: alguns contextos comportam mais margem de erro do que outros, especialmente quando a experiência do usuário está em jogo. Ele defende que estratégia não deveria ser responsabilidade exclusiva da liderança: dado o nível de complexidade do mundo atual, a organização precisa desenvolver uma prática coletiva de estratégia, com informação fluindo livremente e liderança genuinamente disposta a mudar de ideia diante de novos dados.

Mari complementa com uma citação do livro 'A Empresa Conectada', de David Gray: quando se trata as pessoas como idiotas em processos organizacionais, elas passam a se comportar como idiotas, um paralelo direto com práticas hierárquicas que ensinam colaboradores a nunca questionar decisões de líderes. Ela também traz um exemplo vívido da pandemia: estratégias cuidadosamente desenhadas por anos foram desmontadas pela realidade da Covid-19, e as organizações que responderam melhor foram justamente as que deram voz genuína às pessoas na ponta, em vez de tentar abafar a incerteza.

É discutida a metáfora de organizações como sistemas sociais (em vez de máquinas): entender que organizações são pessoas se relacionando com pessoas, incluindo os próprios clientes, muda fundamentalmente como se pensa liderança: o papel de quem lidera passa a ser fazer as perguntas certas e cuidar da coerência entre práticas, incentivos e comportamentos, em vez de ditar respostas prontas num quadro branco. Um erro comum apontado é importar apenas as práticas visíveis de agilidade (cerimônias, quadros) sem revisitar a coerência do resto do sistema organizacional, gerando exatamente a 'esquizofrenia organizacional' mencionada antes.

Mari compartilha sua própria transição para uma grande consultoria internacional, entrando com humildade sobre o quanto desconhecia daquele novo ambiente, e observa como mesmo uma organização extremamente sólida e coerente em suas práticas internas está, hoje, revisitando pilares fundamentais de como pensa a resolução de problemas para seus clientes, num movimento de agilidade organizacional interno. CFC observa que essa disposição de trazer pessoas com experiências diferentes para dentro de consultorias tradicionais é, em si, parte da resposta ao desafio de manter coerência de práticas.

Sandro cita Kotter e o conceito de senso de urgência como catalisador essencial de mudança organizacional, e observa que a pandemia funcionou, de forma perversa, como um acelerador desse senso de urgência para empresas que ainda não haviam despertado para a necessidade de se adaptar. Ele descreve uma evolução real: as conversas sobre agilidade deixaram de partir de 'deixa eu te convencer que isso funciona' para 'onde, na minha organização, isso realmente faz sentido', um sinal de amadurecimento coletivo do mercado brasileiro sobre o tema.

Para encerrar, em vez de pedir dicas finais aos convidados, o apresentador resume os próprios aprendizados do episódio: estratégia bem-feita é explicável de forma simples porque resulta de uma observação sintética da realidade, não da soma mecânica de partes; ela é a união entre prática e praticantes (praxis); não é responsabilidade exclusiva da liderança, mas de uma corresponsabilidade coletiva alimentada por informação fluindo livremente; e a pergunta mais importante para qualquer pessoa ouvindo é: o que você pode fazer, no seu dia a dia, para co-construir essa estratégia, dado que toda organização é, no fundo, um sistema social, e toda a lógica organizacional formal é apenas uma abstração sobre esse sistema.

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