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Love The People - Deloise Jesus
Ep. 159

Love The People - Deloise Jesus

5 de junho de 202301:03:22
Educação
Liderança
Love The People
Pessoas

Resumo rápido

Deloíse de Jesus, nascida na Zona Leste de São Paulo, percorre uma trajetória que vai da gestão de políticas públicas na USP Leste à dedicação plena à equidade racial. Ela descreve a colonialidade como a lente que apaga a presença negra do conhecimento e da história, e defende que a equidade racial não é um tema à parte, mas a chave estruturante para entender a qualidade da educação, a segurança pública, a saúde e o investimento no Brasil. Com honestidade e vulnerabilidade, fala da dupla batalha da mulher negra: combater a opressão do sistema e, ao mesmo tempo, se perdoar pelas cobranças internalizadas. Sua mensagem central é que a humildade de reconhecer a própria ignorância diante do outro é o antídoto mais poderoso contra a colonialidade nas relações.

Capítulos

  1. 00:32Equidade racial e a colonialidade na formação
  2. 02:19Quem é Deloíse de Jesus: origem e infância na Zona Leste
  3. 04:13A criança nerd e o caminho até a USP Leste
  4. 07:02Da inocência da juventude à gestão de políticas públicas
  5. 12:04Prefeitura de São Paulo e o comitê de cotas raciais
  6. 16:32Equidade social como chamado e a descoberta da própria ignorância
  7. 46:38Educação pública e a lente da desigualdade racial

Frases do episódio

A inocência da juventude é uma coisa muito bonitinha. É uma coisa bonitinha. É fofo, né?

07:02

Eu acho que a questão da equidade social é onde tá meu coração, porque é onde eu tô vendo de forma estruturante o desafio.

16:32

Acho que a principal coisa que eu aprendi é que olhar pra equidade racial na educação pública brasileira é olhar pra qualidade da educação pública brasileira.

46:38

O que você vai ouvir neste episódio

  • Deloise Jesus relata como sua origem na zona leste de São Paulo e o ensino público moldaram sua trajetória.
  • A convidada aborda sua experiência na Prefeitura de São Paulo atuando com gestão e comissões de cotas raciais.
  • A atuação com educação integral no Instituto Natura é destacada como etapa relevante em sua carreira profissional.
  • O trabalho na Fundação Lemann abrangeu o Programa Formar e a gestão em redes e escolas públicas.
  • A discussão envolve os desafios da liderança feminina negra, imposição de limites e criação de ambientes antirracistas.

Temas discutidos

A trajetória de Deloise Jesus conecta diversidade, equidade e inclusão às práticas de gestão e liderança moderna. O debate mostra como a implementação de cotas, a promoção da igualdade racial e a valorização de lideranças femininas negras fortalecem a cultura organizacional. Em ambientes corporativos e públicos, a compreensão de letramento racial e limites interpessoais é fundamental para estruturar times diversos, alinhando governança social, transformação educacional e eficácia na gestão de pessoas.

Para quem é este episódio

Este episódio é recomendado para gestores de pessoas, lideranças corporativas e profissionais do terceiro setor que buscam implementar ações afirmativas de equidade racial. Também atende a educadores e especialistas em recursos humanos interessados em promover ambientes organizacionais inclusivos e acolhedores.

Sobre a série Love The People

Love The People traz histórias de carreira de pessoas que atuam com agilidade, produto e liderança. São conversas mais pessoais do que técnicas: transições de área, decisões difíceis, aprendizados e o que cada convidado faria diferente. Serve como referência para quem está construindo a própria trajetória profissional.

Ver todos os episódios da série Love The People

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Qual é a experiência de Deloise Jesus na gestão pública e em equidade racial?

Deloise Jesus trabalhou na Prefeitura de São Paulo em áreas de gestão e participou da comissão municipal de cotas raciais. Sua carreira abrange a gestão de projetos educacionais no terceiro setor e a atuação direta como Gerente de Impacto em Equidade Racial na Fundação Lemann, focando na transformação social e em ações afirmativas.

Como a trajetória pessoal de Deloise influenciou sua atuação profissional?

Originária da zona leste de São Paulo e estudante de escola pública, a vivência pessoal de Deloise fundamenta sua visão sobre educação e inclusão. Essa trajetória embasa seu trabalho em instituições como Instituto Natura e Fundação Lemann, impulsionando ações voltadas para o desenvolvimento de programas de impacto social sustentáveis e representativos.

Quais temas correlatos são debatidos no episódio sobre liderança e inclusão?

O episódio discute o papel das lideranças femininas negras no ambiente corporativo, a importância da Comunicação Não-Violenta e a definição de limites. Além disso, aborda como estruturar ambientes de trabalho antirracistas e como referências como o quilombismo podem funcionar como plataformas organizacionais inovadoras para gerir pessoas.

Sobre este episódio

No episódio 159 do quadro Love the People, do podcast Love the Problem, Deloíse de Fátima Bacelar de Jesus, a Delô, compartilha sua trajetória de vida e trabalho na interseção entre gestão de políticas públicas e equidade racial. Nascida na Zona Leste de São Paulo, criada pela mãe com os irmãos, Delô foi a irmã mais velha que assumiu responsabilidades cedo e encontrou na escola um refúgio. Nerd desde criança, chegou à USP Leste para estudar gestão de políticas públicas, sonhando ser ministra-chefe da Casa Civil. A jornada a levou pela pesquisa sobre poder de compra do Estado, pela Prefeitura de São Paulo, onde integrou o comitê de cotas raciais como a única liderança negra do gabinete, e pelo terceiro setor, onde criou grupos de discussão de raça e diversidade. A virada veio quando a organização em que trabalhava decidiu focar em equidade racial. Delô descreve o processo como uma descoberta de que não sabia nada: tudo que viveu e pensou foi pela lente colonial, que apaga a presença negra do conhecimento e da história. Ela fala da dupla batalha da mulher negra, da síndrome do impostor, da escuta genuína na liderança e da necessidade de rever a educação pública com a perspectiva antirracista. Sua mensagem é de que a humildade de reconhecer a própria ignorância diante do outro é o antídoto mais poderoso contra a colonialidade, e que não há nada mais revolucionário no Brasil do que uma mulher negra feliz, empregada e sentindo-se amada.

Transcrição completa

Deloíse de Fátima Bacelar de Jesus, conhecida como Delô, é uma pessoa originalmente da Zona Leste de São Paulo, nascida no hospital da cidade de Tiradentes, no Planalto. Criada pela mãe com os irmãos, foi a irmã mais velha em uma família de periferia, o que significou cuidar dos irmãos, da casa e de si mesma muito cedo. A mãe sempre a apoiou a estudar, e Delô aprendeu cedo que o tempo na escola era mais valioso do que limpar a casa. Passava horas estudando idiomas, xadrez, lógica. Era uma criança nerd a ponto de, na oitava série, o professor de matemática a chamar no canto e pedir que, quando soubesse a resposta, não respondesse todas as vezes, para dar oportunidade aos colegas de contribuir. Delô reconhece que sua autoestima era baixa e que demorou muito para aprender que importava para as pessoas, que podia chateá-las, que elas se preocupavam com o que ela falava.

Na faculdade, estudou gestão de políticas públicas na USP Leste, escolhida porque o padrinho, militar, queria que ela fosse tenente do Barro Branco, mas a FUVEST não abriu para o feminino naquele ano. Era uma jovem muito competitiva, planejadora de gincanas escolares, mobilizadora de campeonatos, socialista desde criança. Lembro-se de uma discussão na quarta série com o professor de Geografia, em que argumentava que, se cada pessoa ganhasse um salário mais parecido, todos teriam uma geladeira e haveria menos violência. No primeiro dia de aula da graduação, todos os 60 alunos responderam à pergunta da professora que estavam ali porque queriam transformar o mundo. Depois de quatro anos, descobriu que não dá para transformar o mundo, mas que se pode escolher uma causa e trabalhar por ela em diferentes formatos, transformando a si mesma.

No primeiro ano, uma professora a convidou para fazer pesquisa em equidade racial, mas Delô recusou, dizendo que queria ser ministra-chefe da Casa Civil, imaginando seu nome escrito na porta do gabinete. Naquela época, as questões raciais estavam fora do centro da política pública, então fez pesquisa sobre poder de compra do Estado, estudando como o governo, principal comprador do país, define o mercado. Fez mestrado na Federal do ABC, na segunda ou terceira turma do curso, fruto da fase de expansão das universidades. Paralelamente, escrevia artigos sobre equidade racial para blogueiras negras e participava de coletivos na faculdade.

Trabalhou um tempo em consultoria com Economia Solidária e depois foi para a Prefeitura de São Paulo, onde trabalhou com compras públicas e parcerias com o terceiro setor. Foi promovida, teve acesso a pessoas de alto escalão. Fez parte do comitê de cotas raciais da Prefeitura, como a única liderança negra do gabinete. Foi uma experiência transformadora, pois olhar para a política de cotas exige pensar sobre colorismo, branquitude e a própria identidade. Foi ali que conheceu uma mulher negra com poder, uma juíza que fazia parte da Comissão da Sociedade Civil. Depois, saiu para o terceiro setor, trabalhou com educação, visitou escolas, conversou com secretários, entendeu desafios de financiamento. Era a única ou uma das poucas colaboradoras negras na organização e ajudou a criar um grupo de discussão de raça e diversidade.

Recebeu convite para outra organização, onde trabalha até hoje, com educação, política pública e aprendizagem. A organização tomou a decisão estratégica de focar em equidade racial, impulsionada pelo conjunto de pessoas negras que a compunham. Delô lembra de ter feito, há cerca de dois anos, o exercício de parar e pensar se dava conta de trabalhar com equidade racial. Tinha medo, e hoje tem certeza de que tinha razão para ter medo, porque é muito íntimo, envolve aprendizados pessoais difíceis. Conversou com pessoas que admira. Uma lhe disse que tem um lugar e um tempo, e que, se o coração chamava, era o que já estava fazendo. Um amigo, que já fora seu chefe, disse: lembra quando você queria ser ministra-chefe da Casa Civil? Hoje, não existe uma ministra-chefe que faça bom trabalho sem entender que a desigualdade racial é o problema do Brasil. Para entender segurança pública, investimento, saúde, educação, é preciso saber liderar olhando a questão racial como estruturante. Delô aceitou e se dedicou à equidade social.

Depois de começar a trabalhar exclusivamente com equidade social, teve o privilégio de passar tempo escutando lideranças negras, de organizações negras, de movimentos negros, de territórios quilombolas e indígenas. E descobriu que não sabia nada. Desde sempre soube que era uma pessoa preta, sempre militou por equidade social, leu muito, pensou muito, criticou muito, mas não sabia de nada, porque tudo que viveu e pensou foi da lente colonial. Na escola, aprende-se sobre a Europa, sobre a Grécia, que o conhecimento vem da Grécia, e as pessoas negras só aparecem na escravização. Não se vê a contribuição delas para a matemática, para a ciência, as revoltas negras no Brasil, as lideranças negras no mundo. A colonialidade traz um padrão, seja de plantações, de fábrica, de relacionamentos, completamente oposto às civilizações não coloniais, com diferentes gêneros, jeitos de produzir, cores, tribos, culturas, idiomas. O Brasil, país colonial, só se vê como falando português, quando tem um conjunto muito grande de idiomas.

O momento de ver o mundo achando que se tem um conhecimento para ensinar ao outro é o que é mais colonial da relação. Se é uma relação, é preciso assumir a ignorância sobre o que há de diferente na outra pessoa. Não é porque ela não sabe, é porque o jeito dela de ver o mundo é diferente. Isso tem a ver com diversidade, inclusão, organizações.

Delô descreve-se como uma grande confusão feliz, numa fase em que está feliz e não há nada mais revolucionário, no contexto do Brasil e do mundo, do que ter uma mulher negra feliz, empregada, sentindo-se amada, podendo pensar o mundo, convivendo com contradições e fazendo escolhas. Se a perguntassem quem era dois anos atrás, a resposta seria completamente diferente.

Sobre mentoria, Delô faz trocas com diferentes perfis, priorizando mulheres negras e pessoas negras em geral. Nessas trocas, aparece a questão do racismo como uma dupla batalha: de um lado, batalhar contra a opressão das pessoas brancas e do sistema; do outro, se perdoar e se aceitar em relação às cobranças e injustiças colocadas dentro de si desde que se foi colocado no mundo. Uma mulher negra socializada num mundo branco, ensinada a não entrar em conflito, a não deixar a pessoa branca desconfortável, a não ser mais bonita, mais inteligente, mais capaz, também reproduz a tendência de se sentir fragilizada e de querer fazer como a pessoa branca faz, porque séculos de colonialização levam a acreditar que esse é o certo. Isso tem a ver com síndrome do impostor e segurança psicológica. Delô fala com cuidado, porque a branquitude não tem limites e tudo que puder acessar de conhecimento, simplifica e usa contra as pessoas negras, gerando a visão de responsabilizá-las ainda mais pela desigualdade.

Sobre a escuta genuína, Delô explica que o objetivo é a compreensão. É possível discordar e tomar uma decisão diferente, mas compreendendo qual era o elemento trazido pela pessoa. Isso enriquece o trabalho, fortalece a pessoa, faz com que ela se sinta pertencente, parte do processo. A escuta é assustadora porque o primeiro medo é ter que contemplar todos os pontos de vista, mas a escuta genuína não exige isso.

Sobre síndrome do impostor, Delô conta que não existe fórmula mágica. O processo de mentoria não é terapia nem coaching, é compartilhar intuição. O primeiro ponto é tirar o olhar de se ver sempre com uma falta. Olhar para o universo branco, associado no Brasil à renda, à escola particular de elite, a viagens, a idiomas, e ver isso como uma limitação própria, quando a própria existência é marcada por características que essa pessoa não tem. A resiliência de quem passou duas horas e meia de ônibus lotado, num dia de chuva, com trânsito parado, é maior. Não é romantizar o sofrimento, é olhar para a própria história e entender que ter conseguido sobreviver a tudo isso é o bastante. E se não é o bastante, a responsabilidade não é da pessoa, é da organização que não consegue acolher.

Delô conta que, numa mentoria com Bárbara Eleodoro, trabalhou limites. A terapeuta a ajudou a se permitir sentir, a não se vitimizar nem romantizar, a entender quais histórias estava se contando, se era gentil consigo mesma. Fizeram exercícios para jogar fora pensamentos negativos, focar no que quer, no dia a dia, na rotina, na vida amorosa, na vida profissional, em quem quer ter ao lado. Isso a ajudou a acreditar mais em si, a entender o que era limite e o que era limitação que podia mudar. Conforme mudou a postura, sendo mais fiel a si mesma, mais coisas surgiram na vida que tinham a ver com ela.

Sobre liderança, Delô fala que, se na relação com a pessoa há medo de que ela seja mais forte, mais inteligente, mais capaz, mais feliz, conscientemente ou não, se cometem atitudes para fazê-la se sentir mais frágil, usando o poder para se sentir maior. Isso vem de uma visão de escassez. Se se vê o mundo como maior do que a relação de trabalho, e se permite olhar para a pessoa na potência inteira, a relação muda, a capacidade de entrega muda, e a da liderança também. Criar condições para que a pessoa viva o melhor de si, garantir a escuta, perguntar o que ela quer da carreira, o que quer aprender, o que faz sentido para ela, é essencial. O valor de horizontalidade, de que todas as pessoas são uma potência, especialmente em ambiente adequado, pode parecer utopia, mas nas pequenas escolhas do dia a dia, sempre dá para ter essa intenção.

Sobre educação e desigualdade racial, Delô diz que a principal coisa que aprendeu é que olhar para a equidade racial na educação pública brasileira é olhar para a qualidade da educação pública brasileira. As crianças negras, sobretudo pretas e indígenas, são as que têm menores oportunidades de aprendizagem em todos os ciclos, as que menos concluem o ensino médio, as que mais abandonam a escola. Como não se olha para a educação com a lente das questões sociais, ignora-se a raiz do problema. A expectativa do professor é baixa, a sociedade tolera resultados ruins, o estudante não se sente confortável e abandona. Raça é o determinante para essas respostas na maioria dos casos. Se se deixa uma variável prioritária da solução, não se resolve o problema. A educação como um todo precisa ser vista com a perspectiva de equidade racial, passando por mudanças sistêmicas: formação de lideranças, treinamento sobre questões raciais, olhar para viés inconsciente, rever materiais didáticos e currículos, garantir que as pessoas negras e indígenas estejam presentes, tirando o apagamento da presença delas na produção do conhecimento, na história, em todas as disciplinas. A estratégia universalista, tratar todo mundo da mesma maneira, no contexto brasileiro extremamente racista, deixa as crianças negras para trás, porque não considera o racismo sofrido e o racismo na própria estratégia.

Delô agradece a resistência dos podcasts, linguagem com a qual se conecta muito, e convida as pessoas a enviar devolutivas pelo LinkedIn. Manda um beijo para os sobrinhos Laís, Davi e Luca, com quem está longe.

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