
Ep. 265 - Do Cronograma ao Roadmap: quebrando a rigidez com entregas de valor
Resumo rápido
Em um projeto de migração de ERP com múltiplos times e alta dependência, a equipe substituiu o Gantt tradicional por uma visão de roadmap fatiada em releases, renomeou times por carros para quebrar silos de especialidade e mudou a pergunta central de 'quando entregamos tudo?' para 'o que cabe nesta data?'. A jornada de seis meses transformou a comunicação técnica em linguagem de negócio, gerou confiança no cliente e revelou que a mudança de cronograma para roadmap é, antes de tudo, uma mudança cultural.
Capítulos
- 01:58O case: do cronograma ao roadmap em uma migração de ERP
- 03:41Cronograma vs Roadmap: o que muda na prática
- 07:29A jornada da mudança e a recepção dos times
- 10:46Impactos da transição para a visão de roadmap
- 13:20Times por carros e a pergunta 'o que cabe nesta data?'
- 18:10A perspectiva do PO e do PM na nova cadência
- 23:40Perguntas do público, Miro e encerramento
Frases do episódio
“A gente fala review, API, tabela do banco de dados, isso, aquilo, XPTO, essa é uma linguagem que em time de negócio, eles vão procurar outra coisa para fazer na hora que a gente estiver fazendo esse tipo de report.”
12:29
“não é sobre fazer o que dá para fazer, é sobre fazer a próxima coisa que tem que ser feita.”
21:09
“A segunda coisa, que também parece simples, mas que eu acho que é muito importante, foi a gente não dizia mais quando a gente entregava. A gente dizia o que cabia até naquela data.”
15:15
O que você vai ouvir neste episódio
- A transição de cronogramas fixos para roadmaps dinâmicos foca na entrega contínua de valor em vez de prazos engessados.
- Lucas Freitas e Luiz Brigido compartilham aprendizados práticos obtidos durante um processo real de transformação cultural em suas equipes.
- O fatiamento adequado das entregas ajuda a mitigar riscos e permite obter aprendizados rápidos ao longo do desenvolvimento.
- A gestão eficiente de dependências entre times é essencial para manter a fluidez do trabalho e evitar gargalos operacionais.
- O planejamento deve ser encarado como um instrumento de aprendizado e construção de confiança, não como uma previsão exata.
Temas discutidos
O episódio aborda a mudança de mentalidade necessária para migrar da rigidez dos cronogramas tradicionais para roadmaps adaptativos, um tema central na agilidade e na gestão de produtos moderna. Essa transformação exige que lideranças e equipes organizem o trabalho em entregas fatiadas, gerenciando dependências com transparência e colaboração. Ao redefinir o planejamento como uma ferramenta contínua de aprendizado e geração de confiança, as organizações conseguem evoluir a cultura interna, focando no valor entregue em vez de no simples cumprimento de datas fixas.
Para quem é este episódio
Este conteúdo é indicado para gerentes de produto, agilistas e líderes que enfrentam a rigidez de cronogramas tradicionais. Profissionais envolvidos na transformação organizacional de suas empresas também se beneficiam dos relatos práticos sobre como alinhar fatiamento de entregas, gestão de dependências e previsibilidade baseada em valor.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
Qual é a principal diferença entre um cronograma tradicional e um roadmap focado em valor?
O cronograma tradicional busca prever datas e entregas exatas em um cenário rígido, assumindo a falsa premissa de previsibilidade perfeita. Já o roadmap focado em valor funciona como um guia adaptativo e um instrumento de aprendizado contínuo, permitindo ajustar o percurso conforme novas informações surgem e garantir entregas frequentes de relevância.
Como lidar com dependências entre equipes na transição para um roadmap adaptativo?
Para gerenciar dependências sem perder a flexibilidade, as equipes precisam promover a colaboração constante e fatiar o trabalho em entregas menores. Essa abordagem permite identificar e resolver bloqueios antecipadamente, reduzindo o impacto no fluxo geral e garantindo que os times continuem entregando valor incremental de forma mais autônoma e coordenada.
Por que o fatiamento de entregas é importante para quebrar a rigidez dos prazos?
O fatiamento decompõe iniciativas grandes em partes menores e funcionais, acelerando os ciclos de feedback e reduzindo riscos. Ao realizar entregas frequentes, o time ganha flexibilidade para ajustar rumos com base no aprendizado real, construindo confiança com os stakeholders sem ficar refém de promessas de longo prazo em cronogramas estáticos.
Sobre este episódio
Este episódio do Love the Problem traz o case real de Lucas e Brigido, apresentado no SG Rio / Agile Brasil, sobre a transição de um projeto de migração de ERP de um modelo de cronograma (Gantt) para um roadmap fatiado em releases. A jornada de seis meses revelou que o Gantt escondia dependências críticas entre times de especialidade, gerando a ilusão de progresso (tudo verde, 97% concluído) sem clareza sobre o valor entregue. A solução passou por três etapas: visão de fluxo (lado a lado dos times), visão de release (fatiamento do valor) e a mudança cultural de comunicação técnica para linguagem de negócio. Duas intervenções simples mas impactantes — renomear times por carros para quebrar silos e trocar a pergunta 'quando entregamos?' por 'o que cabe nesta data?' — redefiniram a governança. O Miro foi usado como ferramenta de impacto visual para explicitar dependências, enquanto o Jira permanecia como sistema de trabalho. O resultado foi maior confiança do cliente, entregas incrementais de valor e uma cultura de experimentação contínua, com o princípio de que não se trata de fazer o que dá, mas de fazer a próxima coisa mais importante.
Transcrição completa
Lucas, consultor especialista na Nower e instrutor na K21, e Brigido, Product Manager com sete anos de experiência na área de produtos em uma empresa de locação de veículos, compartilham o case prático de como saíram de uma visão de cronograma para uma visão de roadmap em um projeto de migração de ERP. A história foi apresentada no SG Rio, junto com o Agile Brasil, e levou seis meses para chegar a um formato funcional de roadmap, com muitas dores aprendidas e superadas ao longo do caminho.
O contexto era uma migração de ERP com vários times envolvidos, mexendo no core da operação da empresa, automatizando processos que em alguns setores eram manuais, como planilhas. A primeira perspectiva para gerir o projeto era o Gantt, a visão de cronograma tradicional, com a leitura de quando a gente vai chegar. O modelo de projeto só acontecia lá: verde, melancia, tudo verde, todo mundo trabalhando, 75%, 97,2%, tudo pertinho de entregar. Mas no final das contas estava cheio de dependências, cheio de problemas para resolver até atingir a data. O cronograma do Gantt não trabalha com dependências, e era esse o principal problema.
Um dos problemas maiores era trabalhar com a famosa data muro, uma data alvo que a gente precisa perseguir. Geralmente, quando se tem uma data muro, se tem pelo menos um objetivo muito grande para ser alcançado nessa data. O problema maior era: o que de fato a gente estava entregando durante esse período? Em alguns meses de projeto, o que de fato a gente ia entregar nessa data muro? Como a gente ia olhar para o valor do negócio que estava sendo entregue nesse período? Outro problema era a falta de comunicação clara com a área de negócios, a área cliente, com uma comunicação mais voltada para o técnico em vez de uma linguagem de negócio durante as reuniões de follow-up do projeto.
A mudança de recepção das pessoas foi positiva. A área cliente comprou a ideia de fazer o acompanhamento voltado para o valor a ser entregue, não tanto a data. Essa parceria gerou engajamento dos times de desenvolvimento junto à área cliente, de entender que até tal dia a gente consegue não talvez entregar o todo, mas entregar uma pequena partezinha que já entrega um pedacinho daquele valor. A visão de roadmap foi fatiada em releases, onde pequenas entregas durante a release já entregavam nem que seja um percentual de valor para a área de negócio, gerando um efeito positivo de confiança de que em algum momento a entrega do valor aconteceria.
O primeiro passo após sair da visão de cronograma foi colocar todos os times numa visão de fluxo, organizados lado a lado. Nesse momento, os times ainda estavam organizados por especialidade: um time de faturamento, um time de contrato, e assim por diante. Quando colocados na perspectiva de fluxo, percebeu-se alta dependência: times terminavam coisas, mas a dependência ainda estava no backlog de outro time, sendo desenvolvida ou no começo de outro time. Também se identificou um desbalanceamento de atividade: times super lotados de trabalho ao lado de times com pouquíssima coisa no backlog, gerando a apreensão de quando o backlog acabasse, o que fazer.
O próximo salto foi sair da visão de fluxo e começar a trabalhar por uma perspectiva de release, a visão de fato de roadmap. A delimitação de objetivos nas releases permitiu que os times, apesar de ainda terem suas dinâmicas de backlog, deixassem de usar o time específico para uma skill e passassem a trabalhar no contexto global do projeto, do valor total. Os times não se apegavam mais ao seu silo. Com a release bem estabelecida, com o valor esperado da entrega em fatias menores, não existia mais o Big Bang, existiam pequenas entregas através de uma release, e os times começaram a medir os esforços direcionados a esses pequenos objetivos.
Duas mexidas simples, mas extremamente impactantes, foram decisivas. A primeira: mudar times de especialidade para que operassem pela visão da release. Para isso, criaram times representados por carros: o time Gol, o time Kombi, e por aí vai. Os times tinham o nome de carros para que entendessem que estavam ali para entregar o ERP, o projeto maior, e não necessariamente trabalhar só por um escopo. O impacto imediato foi que os POs, ao invés de chegar na coordenação dizendo que não dava, chegavam dizendo preciso de ajuda. Com isso, era possível distribuir o backlog do PO sobrecarregado para outros times, equilibrando a carga e minimizando as dependências. A segunda mexida: não dizer mais quando a gente entregava, mas o que cabia até naquela data. A data é extremamente importante, traz segurança, conforto e previsibilidade para o stakeholder. O que não pode acontecer é querer tudo nessa data. A pergunta que mudou foi: o que cabe nessa data?
A comunicação com a área de negócio mudou radicalmente. Em vez de falar review, API, tabela do banco de dados, a linguagem passou a ser: nesta release você vai conseguir fazer uma ação na sua tela, você tira um relatório que vai trazer o volume de X coisas que você fez naquela atividade. A área de negócio passou a entender que, daqui a 15 dias, vai tirar o seu relatório, independentemente de quantas APIs por trás. A confiança de que não ia ter naquele momento, mas que em algum momento aquela funcionalidade seria entregue, tornou o processo mais saudável tanto para o time de desenvolvimento quanto para a área de negócio.
Havia flexibilidade nas datas. A gente podia mexer, atrasar um pouco, jogar um pouco mais para frente, para ver com o cliente o que era importante para ele usar naquele momento. Se o Z não der para entrar na data, mas o cliente precisa do Z, a data ia um pouco mais para frente, porque não adianta entregar só XYZ sem o Z se isso não vai funcionar para a operação. O cliente passou a entender essa transparência e a jogar no mesmo time, trazendo a visão de priorização: de cinco funcionalidades, o que é mais importante agora. A frase que guiava o trabalho era: não é sobre fazer o que dá para fazer, é sobre fazer a próxima coisa que tem que ser feita. Às vezes ela é complexa, e se for, a gente fatia. Nem tudo vai dar para fatiar muito fino, e tudo bem.
A perspectiva do PO e do PM nesse cenário era de uma cadência mais saudável das entregas, com o que perseguir no alto nível e no baixo nível. As semanais com a área cliente ficaram mais saudáveis, com mais visibilidade e confiança. A expectativa de será que eu vou ter na data que eu quero deixou de existir, substituída por o que vai ser entregue naquela release, com fatias menores, escopo bem definido e valor esperado.
Sobre a autonomia na priorização: a área cliente, na época, estava um pouco sem processos sistêmicos para basear e evoluir o negócio. Para o time de desenvolvimento e os Product Owners, foi mais fácil sair de um completo zero para um. Eles tinham autonomia para decidir, pois à medida que faziam entrevistas com as áreas de negócio, entendiam a necessidade, transcreviam para uma linguagem mais técnica junto ao time de desenvolvimento e definiam entre eles as soluções voltadas para o sistema. A área cliente precisou se adaptar ao novo formato, saindo de uma planilha de Excel para um processo automatizado no sistema.
Para a gestão visual do trabalho, usaram o Miro. O Jira continha toda a informação, mas era difícil gerar impacto visual com a quantidade de dependências. O Miro servia para que as pessoas da empresa sentissem a dor, percebessem a quantidade de dependência, visualizassem o volume de coisa quase terminando mas não terminando por causa de dependências para trás. Era um jogo combinado: colocar no Miro para dar visibilidade e gerar impacto, mas voltar para o Jira, onde os times trabalhavam. O retrabalho de copiar do Jira e colar no Miro era necessário para gerar o impacto visual e tomar decisões. Se você não está vendo o problema, às vezes precisa deixá-lo explícito. A visão de fluxo para os times não era um problema, pois já funcionava no Jira. O que precisava ser discutido era a visão de negócio, a perspectiva de roadmap.
O ponto alto da apresentação foi o impacto visual e a questão cultural da mudança. O feedback das pessoas no evento elogiou o material, a apresentação e a condução. O aprendizado central é que o modelo apresentado não é um destino final, mas um processo contínuo de experimentação, aprendizado e evolução. A complexidade aumentou, entraram mais times e mais contextos, e a governança precisou ser ajustada. As mudanças sutis, como fazer os times trabalharem pela unidade maior, pelo senso de entrega de valor para a organização e não só para a sua especialidade, foram o que mais impactou as pessoas.
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