
Ep. 94 - Caí de paraquedas na liderança, e agora?
Resumo rápido
Léo (Aerolitos, editor do Love the Problem), Mariana Graff e os hosts Lula e Panda comparam trajetórias opostas rumo à liderança, um que fugiu dela até ser "obrigado" a assumi-la como fundador, e outros que sempre lideraram naturalmente, para discutir a diferença entre liderar e gerir, o princípio de Peter, o risco do "idiota brilhante" e como construir sistemas e restrições saudáveis em vez de microgerenciar pessoas.
Capítulos
- 07:07Apresentação do tema: cair de paraquedas na liderança
- 09:19A trajetória de Léo: de tester avesso à liderança a CEO da Aerolitos
- 15:24A trajetória de Mari Graff: uma liderança presente desde a infância
- 18:44A trajetória de Lula: fugindo de um modelo de liderança tóxico
- 24:31Liderança x gestão: princípio de Peter e o "idiota brilhante"
- 36:15Léo como gestor: flexibilidade, delegação e sistemas na Aerolitos
- 57:20Criatividade, automação e conselhos para quem está começando
Frases do episódio
O que você vai ouvir neste episódio
- A liderança emergente surge frequentemente em momentos de transição sem um preparo formal prévio da pessoa liderança.
- Assumir um papel de gestão exige lidar com a insegurança inicial e desenvolver novos comportamentos de liderança.
- A decisão de aceitar uma oportunidade de liderança envolve avaliar os desafios e encarar a responsabilidade do cargo.
- Mariana Graf e Leonardo Amaro compartilham experiências reais sobre o início da trajetória no comando de equipes.
Temas discutidos
A transição para papéis de liderança é um momento crítico para a cultura organizacional e a gestão de pessoas. No contexto de ambientes ágeis, a liderança emergente exige que novos líderes reaprendam sua forma de atuar, saindo da execução técnica para focar no desenvolvimento de pessoas e facilitação do trabalho em equipe. Discutir a insegurança inicial e os passos práticos desse processo fortalece a formação de lideranças mais empáticas, preparadas para sustentar transformações contínuas nas organizações.
Para quem é este episódio
Este conteúdo destina-se a profissionais promovidos recentemente a cargos de gestão, especialistas técnicos considerando a migração para posições de liderança e gestores de pessoas responsáveis por apoiar o desenvolvimento de novos líderes emergentes dentro de suas organizações.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
O que caracteriza a liderança emergente discutida no episódio?
A liderança emergente ocorre quando um profissional assume a função de líder por necessidade ou oportunidade da organização, frequentemente sem ter passado por uma preparação prévia formal. O episódio aborda como essa transição acontece na vida real, destacando os sentimentos e responsabilidades que surgem ao assumir a liderança de uma equipe sem um planejamento extenso.
Como lidar com a insegurança ao assumir um cargo de liderança?
É comum sentir insegurança ao assumir a liderança sem se considerar totalmente preparado. O episódio discute a importância de aceitar a oportunidade mesmo com incertezas, focando em entender o novo papel, buscar apoio na equipe e encarar o início da gestão como um processo contínuo de aprendizado prático no cotidiano de liderar pessoas.
Quais são os primeiros passos para quem se tornou líder recentemente?
Para iniciar a trajetória na liderança, o profissional deve compreender sua nova responsabilidade em relação ao time e alinhar expectativas. Os convidados compartilham a relevância de encarar a transição com transparência, reconhecer a necessidade de aprender novas competências e dar início à construção de um relacionamento de confiança com a equipe liderada.
Sobre este episódio
Neste episódio do Love the Problem, o podcast oficial da K21, os hosts Lula e Panda recebem duas pessoas com relações muito diferentes com a liderança: Léo, CEO da Aerolitos, empresa de edição inteligente de podcasts responsável pela edição do próprio Love the Problem, e Mariana Graff, gestora de agilidade que já havia participado do primeiro episódio do programa, sobre OKRs.
A conversa parte de duas trajetórias opostas. Léo conta que, até 2019, trabalhava como QA/testador em uma grande empresa de Blumenau e evitou ativamente assumir cargos de liderança, mesmo sendo o próximo da lista para virar coordenador. Ele "fugia como o diabo foge da cruz" da liderança, até ser convidado a se retirar da empresa, em parte porque havia se tornado o "evangelista de podcast" interno. Fundou a Aerolitos, e à medida que sua agenda de edição encheu, precisou contratar Bárbara, depois Dinho e, mais recentemente, uma terceira pessoa para vídeo. Foi assim que, pela primeira vez, se viu obrigado a liderar uma equipe, o que ele descreve como "cair de paraquedas na liderança".
Mari Graff, por outro lado, sempre foi a "líder da turma" desde a infância, organizando brincadeiras e decidindo o que o grupo faria. Mesmo assim, demorou para descobrir sua vocação profissional: trabalha há vinte anos, mas há sete ou oito no que realmente gosta. Fez pós-graduação em gestão estratégica de pessoas, entrou na Thaler como People, depois seguiu como agile coach, passou pelo PagSeguro e hoje lidera duas áreas em sua empresa atual. Lula, um dos hosts, se identifica mais com a trajetória de Mari: sempre tomou a frente informalmente, inclusive virando capitão de um time de rugby logo na segunda temporada jogando. Mas reconhece que, na indústria em que trabalhou, cresceu rápido por dominar sozinho uma expertise técnica, o que misturou liderança e gestão sem que ele percebesse. Ele viu de perto um modelo de liderança tóxico e sentiu síndrome do impostor por não se ver representado em cargos altos. Decidiu parar de trabalhar por um ano e, desde então, nunca mais assumiu um cargo de gestão formal; hoje está na K21, empresa horizontal e sem chefes.
A partir dessas histórias, a conversa migra para a distinção entre liderar e gerir. Mari traz o princípio de Peter: em hierarquias baseadas em mérito técnico, as pessoas tendem a ser promovidas até atingir seu nível de incompetência, porque a competência que trouxe alguém até ali nem sempre é a exigida no cargo seguinte. Lula conecta essa ideia ao risco do "idiota brilhante", alguém tecnicamente excelente, mas incapaz de se relacionar bem, e relembra que, na empresa em que trabalhava, era o único com aquele domínio técnico, sem qualquer disputa. Mari detalha sua própria visão prática: como gestora, ela responde por obrigações formais (ponto, aprovações, avaliação de desempenho), mas isso é trabalho de gestão, não de liderança. Liderança, para ela, é apoiar o desenvolvimento do time e organizar o trabalho para gerar resultado, coisas que podem (e devem, na sua visão) ser compartilhadas por todo o time, e não centralizadas apenas em quem tem o cargo.
Léo então descreve como tenta exercer a liderança na prática: buscando ser o mais flexível possível, recusando pedidos de permissão para folgas e viagens, e rejeitando reuniões matinais só para checar se alguém "acordou para trabalhar". Ao mesmo tempo, ele lida sozinho com toda a parte financeira e administrativa da microempresa, o que o fez perceber que, sendo fundador, gestão do trabalho, gestão da empresa e gestão de pessoas ficam todas concentradas nele, tornando a liderança mais difícil de sustentar sozinho. Um ponto central da conversa é a delegação: quando repassa a edição de um podcast para Bárbara ou Dinho, cada um desenvolve seu próprio estilo: o Dinho, por exemplo, criou uma linguagem de edição própria para o Pontos e Elefantes, diferente da do Love the Problem, mas coerente com aquele projeto. O feedback vindo diretamente da ponta foi essencial para esse desenvolvimento. No caso do próprio Love the Problem, o time descreve como construiu um sistema de trabalho que flui sem controle constante, o oposto do microgerenciamento, e os hosts concordam que gerir sistemas, e não pessoas diretamente, é a habilidade que costuma faltar a quem assume um cargo de gestão. Léo também admite que ainda edita pessoalmente alguns podcasts, incluindo o próprio Love the Problem, por gostar demais do conteúdo, temendo cair no ciclo de frustração de quem, ao virar gestor, deixa de fazer o que ama.
Sobre gerir times diversos, Mari descreve seu time atual de agilidade, que reúne pessoas de idades, origens e trajetórias muito diferentes. Para ela, gestão de pessoas não deveria ser responsabilidade exclusiva de quem tem o cargo formal: one-on-ones, feedback e conversas de carreira podem ser compartilhados por todo o time. O conceito central que ela traz é o de restrições: nem liberdade total, que pode ser desesperadora para quem começa, nem controle excessivo, que sufoca a criatividade, e sim o nível certo de restrição, que permite às pessoas atingirem um estado de flow. Ela conecta essa ideia ao próprio conceito de "edição inteligente" da Aerolitos, que dá espaço criativo a Léo sem deixá-lo entediado nem ansioso diante de excesso de opções. Léo complementa falando sobre como mantém a criatividade num trabalho repetitivo, precisando "virar uma chave" mental para cada podcast diferente que edita, e sobre os limites atuais da automação nesse tipo de trabalho criativo.
Ao serem perguntados sobre conselhos para quem está entrando em um cargo de liderança ou se preparando para isso, Léo recomenda "meter a cara", estudar e deixar o aprendizado vir naturalmente à medida que se entende para onde se quer ir, e revela que está prestes a começar sua primeira mentoria não remunerada, ensinando uma mulher negra a editar podcasts. Mari complementa citando uma reflexão de Brené Brown de que estudar liderança é sempre mais fácil do que praticá-la, reforçando a importância de conhecer o próprio estilo de gestão, ouvir as expectativas de quem é liderado e revisar constantemente os processos de trabalho conforme o time cresce e muda, um processo que, segundo os hosts, nunca termina.
Transcrição completa
Este episódio foi sugestão do próprio Léo, editor de áudio do Love the Problem e CEO da Aerolitos, empresa de edição inteligente de podcasts. Léo edita o Love the Problem desde os primeiros episódios e já ouviu o podcast inteiro, do primeiro ao xadrez corporativo, e foi convidado a vir contar sua experiência com liderança. Junto com ele está Mariana Graff, gestora de agilidade, que já havia participado do primeiro episódio do podcast, sobre OKRs.
Léo conta que, até 2019, trabalhava em uma grande empresa de Blumenau como QA, testador, e que chegou a ser o mais antigo da área de testes. Quando supervisores e coordenadores começaram a sair ou a subir de cargo, ele virou o próximo da lista para assumir a liderança, e fez de tudo para fugir disso. "Eu não quero ser líder, não quero lidar, deixa eu testar aqui", ele resume. Ao mesmo tempo, tornou-se o "evangelista de podcast" da empresa, até ficar óbvio que precisava seguir por esse caminho, e acabou sendo convidado a se retirar. Fundou a Aerolitos, e à medida que a agenda de edição encheu, precisou contratar: primeiro a Bárbara, depois o Dinho, e mais recentemente uma terceira pessoa para vídeo. Foi aí que caiu de paraquedas na liderança de fato, precisando gerenciar pessoas, fugir do microgerenciamento (que sempre o irritou como funcionário) e aprender a engajar o time sem virar o chefe que ele mesmo não queria ter.
A trajetória de Mari Graff é bem diferente. Ela conta que sempre foi a "líder da turma" desde criança: quem organizava a brincadeira, decidia qual filme assistir e foi oradora da formatura da faculdade. Mesmo assim, demorou para descobrir o que queria fazer profissionalmente: trabalha há 20 anos, mas há sete ou oito no que realmente gosta. Fez uma pós-graduação em gestão estratégica de pessoas, entrou na Thaler como People pela primeira vez, depois seguiu como agile coach, mudou-se para São Paulo, foi assumindo áreas de gestão e hoje lidera duas áreas em sua empresa atual, com passagem pelo PagSeguro no meio do caminho. "Não foi um caminho do tipo cheguei aqui e agora o que eu faço", ela diz: foi um processo de estudo e preparação constante.
Lula, um dos anfitriões, se identifica mais com a história da Graf: também tomava a frente informalmente, definindo regras de brincadeiras e jogos na infância. Já adulto, virou capitão de time de rugby na segunda temporada jogando. Mas ele também reconhece que, na indústria onde trabalhou, cresceu rápido por ser o único com domínio técnico sobre a expertise da empresa, o que misturou liderança com gestão de um jeito que ele reproduzia sem perceber. Viu de perto um modelo de liderança tóxico, com cobranças desproporcionais e ausência de segurança psicológica, e não queria repetir esse padrão com seus liderados. Também notou que não havia ninguém parecido com ele em posições de liderança, o que trazia uma sensação de síndrome do impostor, sentindo que precisaria "colocar cada vez mais máscara" para subir de cargo. Decidiu, então, parar de trabalhar por um ano, e desde então nunca mais assumiu um cargo de gestão. Hoje ele está na K21, uma empresa que se propõe horizontal, sem chefes formais.
A conversa chega então à diferença entre liderança e gestão. Mari lembra do princípio de Peter: numa hierarquia, todo funcionário tende a ser promovido até atingir seu nível de incompetência, porque critérios técnicos acabam levando pessoas para cargos de gestão que pouco têm a ver com a competência que as trouxe até ali. Lula relaciona isso ao risco do "idiota brilhante", alguém tecnicamente excelente, mas incapaz de se relacionar bem com as pessoas, e reconhece que, na empresa onde trabalhava, era praticamente o único com aquele domínio técnico, sem disputa alguma. Mari resume sua visão prática de gestão: como gestora, ela responde por obrigações formais (bater ponto, aprovar horas, avaliação de desempenho), mas isso é trabalho de gestão, não de liderança. O trabalho de liderança, para ela, é ajudar o time a se organizar, apoiar o desenvolvimento das pessoas e sustentar os resultados, mesmo sendo, no fim, o time inteiro quem faz o trabalho acontecer.
Léo então descreve como tenta liderar a Aerolitos: tentando ser o mais flexível possível, sem exigir pedidos de permissão para folgas ou viagens, e recusando reuniões marcadas de manhã cedo só para checar se alguém "acordou para trabalhar", algo que despreza mesmo em equipe remota. Ao mesmo tempo, ele carrega sozinho toda a parte financeira e administrativa de uma microempresa: notas fiscais, parte contábil, tudo o que numa empresa grande fica disperso entre vários departamentos. Isso o levou a perceber que, sendo o fundador, gestão do trabalho, gestão da empresa e gestão de pessoas ficam todas concentradas nele, o que torna a liderança mais complexa de sustentar sozinho.
Um ponto central da conversa é a delegação e a construção de sistemas. Léo explica que, quando repassa um podcast para Bárbara ou Dinho editarem, cada um desenvolve seu próprio estilo: o Dinho, por exemplo, criou uma linguagem de edição para o Pontos e Elefantes diferente da do Love the Problem, mas que combina com a proposta daquele podcast. O feedback vindo da ponta, dos próprios criadores dos podcasts, foi essencial para esse desenvolvimento. No caso do próprio Love the Problem, o time (Lula, Panda e Bruno como podcasters) construiu um sistema de trabalho que flui sem que ninguém precise ficar controlando o passo a passo, o oposto do microgerenciamento. Para os hosts, gerir sistemas, e não pessoas diretamente, é a habilidade que costuma faltar a quem assume um cargo de gestão.
Léo também admite que ainda edita pessoalmente alguns podcasts, incluindo o próprio Love the Problem, mesmo sabendo que poderia repassar a tarefa: gosta demais do conteúdo para abrir mão dele, e teme cair no ciclo de frustração de quem, ao assumir a gestão, deixa de fazer o que ama.
Sobre gerir times diversos, Mari conta que seu time de agilidade hoje reúne pessoas de origens, idades e trajetórias muito diferentes, de uma jovem aprendiz de 16 anos a colegas de outros estados e países. Para ela, gestão de pessoas não deveria ser responsabilidade só de quem tem o cargo de gestor: one-on-ones, feedback e conversas sobre carreira podem (e devem) ser compartilhados entre todo o time. O conceito central que ela traz é o de restrições: nem liberdade total (que pode ser desesperadora para quem está começando) nem controle excessivo (microgestão), e sim o nível apropriado de restrição, que permite às pessoas encontrarem um estado de flow. Ela conecta essa ideia ao próprio conceito de "edição inteligente" da Aerolitos: dar espaço de criatividade a Léo sem deixá-lo nem entediado nem ansioso diante de excesso de possibilidades.
Léo fala também sobre como mantém a criatividade fazendo um trabalho repetitivo: antes de editar cada podcast, ele precisa "virar uma chave" mental, mudando de assunto, de agilidade para agronegócio, por exemplo, para entrar no tom certo de cada projeto. Ele reconhece que, apesar da possibilidade de automação chegar à edição de podcasts, ainda existe um trabalho criativo por trás que as pessoas preferem delegar a alguém do que fazer sozinhas.
Perguntado sobre conselhos para quem está entrando em um cargo de gestão ou se preparando para a liderança, Léo diz que é preciso "meter a cara", estudar e deixar o aprendizado vir naturalmente conforme se entende para onde se quer ir, e conta que está prestes a começar sua primeira mentoria não remunerada, ensinando uma mulher negra a editar podcasts. Mari complementa citando uma reflexão de Brené Brown: estudar liderança é sempre mais fácil do que praticá-la. Ela reforça a importância de entender que tipo de profissional se quer ser, aplicar pequenos aprendizados no dia a dia e ouvir o que as pessoas esperam, já que nem todo mundo reage bem ao mesmo estilo de gestão. Léo reconhece que, ao assumir a Aerolitos com um time novo, que não o conhece há anos como os antigos colegas, precisou pausar e explicar os conceitos por trás de suas decisões, algo que antes era natural para ele. Os hosts concluem que esse é um processo contínuo: conforme o time cresce e novas pessoas entram, é preciso revisar constantemente os fluxos de trabalho e a forma como a liderança é exercida.
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