
Ep. 152 - Equilibrando Energias: o Feminino e o Masculino nas Organizações
Resumo rápido
No episódio 152 do Love the Problem, Cássia e Grazi exploram o conceito de equilíbrio entre as energias feminina (Shakti) e masculina (Shiva) nas organizações, a partir do livro Liderança Chakti. A discussão parte do contexto de crise pós-pandemia e chega à conclusão de que o modelo de poder sobre os outros gerou exaustão, ambientes tóxicos e adoecimento coletivo. O caminho proposto é a integração consciente dessas polaridades, com foco em presença, agilidade emocional e redes de proteção no trabalho, reconhecendo que o excesso de qualquer energia — masculina ou feminina — leva ao lado sombra e que o equilíbrio se dá pela dança entre os polos opostos.
Capítulos
- 00:10O funk emocional: pós-pandemia, guerras e a crise de linearidade
- 07:28O chamado do livro Liderança Chakti e a energia Shakti
- 11:46O impacto do poder sobre os outros nas organizações
- 20:18Luz e sombra: reconhecendo os desequilíbrios em cada energia
- 27:23A dança entre polaridades e a agilidade emocional
- 35:16O papel do líder e o estado de presença
- 43:22Empatia, intencionalidade e o que a máquina não substitui
Frases do episódio
O que você vai ouvir neste episódio
- O episódio explora como equilibrar esforços para promover uma cultura organizacional harmoniosa e inclusiva sem perder o foco nos resultados.
- A discussão traz como referência central as ideias do livro Liderança Shakti para transformar o ambiente corporativo tradicional.
- Graziela Merlina e Cassia Messias analisam a integração das energias feminina e masculina na gestão e no dia a dia das equipes.
- O debate destaca a importância da assertividade e da empatia na criação de ambientes corporativos mais saudáveis e eficientes.
Temas discutidos
O equilíbrio entre as energias feminina e masculina reflete diretamente na evolução da cultura organizacional e da liderança contemporânea. A integração desses conceitos permite transformar modelos de gestão rígidos em estruturas ágeis, adaptáveis e genuinamente humanas. Ao harmonizar a busca por resultados financeiros com a inclusão e o bem-estar das pessoas, os líderes conseguem criar um ambiente seguro, inovador e capaz de sustentar o crescimento do negócio a longo prazo.
Para quem é este episódio
Este episódio é direcionado a líderes de equipe, gestores de cultura organizacional e profissionais de recursos humanos. Esses perfis encontrarão no debate com Graziela Merlina e Cassia Messias insights valiosos para equilibrar bem-estar, inclusão e entrega de resultados de negócio.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
Como o equilíbrio das energias feminina e masculina impacta a cultura organizacional?
O equilíbrio dessas energias permite construir um ambiente corporativo mais inclusivo e humanizado sem comprometer a assertividade. Enquanto o aspecto feminino traz acolhimento, escuta e colaboração, o aspecto masculino agrega foco em metas e resultados. A combinação harmoniosa dessas forças gera uma cultura organizacional saudável, produtiva e sustentável para todos os colaboradores.
Qual é a principal referência teórica utilizada no debate do episódio?
O episódio fundamenta suas discussões nas ideias apresentadas no livro Liderança Shakti: O Equilíbrio do Poder Feminino e Masculino nos Negócios. As convidadas Graziela Merlina e Cassia Messias utilizam os conceitos da obra para explorar caminhos práticos de liderança, visando equilibrar o poder pessoal e organizacional na busca por um ambiente corporativo mais equilibrado.
É possível focar em inclusão sem perder o foco nos resultados do negócio?
Sim, é totalmente possível integrar inclusão e foco em resultados no ambiente de trabalho. A proposta discutida no episódio demonstra que uma cultura inclusiva e atenta ao bem-estar das pessoas fortalece a assertividade da equipe. Ao equilibrar as dimensões relacionais e de execução, a empresa consegue alcançar alta performance de forma sustentável e saudável.
Sobre este episódio
O episódio 152 do Love the Problem traz Cássia e Grazi para uma conversa profunda sobre o equilíbrio entre as energias feminina (Shakti) e masculina (Shiva) nas organizações, a partir do livro Liderança Chakti. A discussão parte do contexto de crise global pós-pandemia — guerras, colapso econômico, exaustão de saúde mental — e chega ao diagnóstico de que o modelo de poder sobre os outros, herança do patriarcado, gerou ambientes tóxicos, adoecimento coletivo e insustentabilidade. A proposta central é que cada ser humano carrega as duas energias e que o equilíbrio se dá pela dança consciente entre os polos, resgatando o lado maduro oposto quando se escorrega na sombra. O episódio detalha como reconhecer luz e sombra em cada energia, apresenta o conceito de estado de presença (comprometido por temer, defender ou promover) e propõe a agilidade emocional como habilidade central para o ambiente de trabalho. A conclusão é que nada automatizará a empatia e o olhar humano, e que resgatar a intencionalidade do cuidado com o outro é o caminho para reequilibrar organizações e sociedades.
Transcrição completa
Quando a gente fala desses temas, costumo mesclar com o tema da saúde mental, porque uso o contexto atual e todas as pressões externas que a gente está vivendo no mundo, incluindo a pós-pandemia, que em termos de prejuízo de saúde mental é comparado com a Segunda Guerra. A gente não está necessariamente dando a devida atenção para o que foi um período prolongado de isolamento social e tudo que a gente está tentando fingir volta ao normal e fingir que não aconteceu nada. E depois, em seguida, a gente está enfrentando uma guerra na Europa, crise de abastecimento de energia. Ao mesmo tempo, você ainda tem a China com problemas de lockdown em algumas situações, ainda parada, ainda está com mão de obra e algumas peças não chegam, e, em paralelo, você tem essa guerra toda financeira, essa economia em total colapso, ainda mais agora que a gente vai falar de Silicon Valley e as startups que movimentam um volume grande.
Isso tudo é o que eu chamo de funk emocional. No meio desse espaço, não tem mais linearidade no mundo. Aquele conceito do que é certo e errado que a gente tinha não serve para a gente sobreviver nesse contexto. A gente está sendo convidado a exercitar uma energia diferente, que é a de sentir. Não está escrito no manual, página tal, porque ninguém ainda viveu nada parecido com o que a gente está vivendo. Então, se alguém disser que é experiente nisso, é pura mentira. Eu posso ter experiência, pela minha idade, em situações de inflação. Eu posso tentar ajudar o pessoal do Silicon Valley nesse assunto. Mas eu nunca vivi no pós-pandemia, nunca vivi.
Tem todas essas dores do planeta, do entorno que a gente está vivendo. E que no ambiente corporativo, o que está pegando, é que a gente está tentando fazer o movimento daquele de sempre: cala a boca e rema, finge que não está acontecendo nada e volta ao normal. E isso é de matar, porque não está funcionando.
A Cássia tem mais de 20 anos na área de tecnologia e desde então vem se dedicando a essa indústria que cresce muito rápido. Nos últimos anos fez uma transição de grandes empresas, trabalhou em Microsoft, HP e TNT, para o ecossistema de startups. Nas startups foi até o nível de empreender, foi sócia de uma empresa de inteligência artificial, depois entrou para a indústria de saúde, foi CEO de uma empresa de saúde mental e nos últimos tempos está se dedicando à carreira de conselheira, investidora, mentora e seguindo na advisory, ajudando os empreendedores e executivos na área de sustentabilidade e empreendedorismo social, de onde conheceu a Grazi.
A Grazi está nesse papel de conselheira em algumas organizações, investidora em negócios que trazem impacto social, principalmente na área de educação e saúde, e também mentora de alguns empreendedores. É um momento de vida que está nascendo agora, aos 50 anos, depois de uma construção de repertório trabalhando com muitas organizações, através de projetos de consultoria, empreendendo em diversos negócios. O primeiro empreendimento foi aos 17 anos de idade e aí virou empreendedora em série, não parou mais. Toda essa experiência de empreender, de atender organizações, de trabalhar com as dores do negócio, com as dores das lideranças, constituiu um repertório que hoje ela olha e fala: como é que eu posso contribuir com gente que tá escalando negócios aí na frente. A Cássia e a Grazi se conhecem em dois conselhos, e percebem na prática, na pele, como é convivendo com homens e mulheres de conselhos, como é quando a energia feminina tá na mesa, como é quando a energia masculina tá na mesa, o que a gente precisa acessar pra equilibrar. Além dos momentos oficiais, discutem nos bastidores como podem se ajudar entre as duas a trazer esse equilíbrio pra mesa quando é necessário, quando estão realmente em tomada de decisão ou discussões mais estratégicas.
Dentro do movimento do capitalismo consciente, houve a publicação de um livro chamado Liderança Chakti, escrito pelo Raj Sisod, um dos fundadores do movimento, e Anil Mabá, que é uma atuante nessas questões do equilíbrio, da integração, da yoga como estilo de vida. Quando a Grazi tomou contato com essa obra, entendeu um chamado pra gente poder resolver os problemas de formas diferentes. Todo esse contexto de pós-pandemia, de guerras e de conflitos que a gente tá vivendo como nunca viveu antes, se a gente tentar resolver da mesma forma que resolveu até hoje, pode dar muito ruim, porque chegou onde a gente chegou. E o que é essa outra forma de resolver? É tirar um pouco da frente a história toda que a gente viveu de patriarcado, onde as energias masculinas sempre prevaleceram, e quando elas prevalecem, prevalecem tanto no lado luz quanto no lado sombra. Tanto as questões positivas quanto as não positivas atuam pra um lugar onde a gente traga outras energias pra resolver esses problemas. O primeiro lugar onde a Grazi aplicou o que estava lendo foi na sua vida pessoal, no papel de mãe. Naquele momento, mãe de adolescente, vivendo questões que nunca tinha vivido antes, porque era a primeira vez que era mãe de adolescente, num contexto socioeconômico mundial completamente diferente. E deu muito certo. Resgatou uma relação com o filho de uma forma muito poderosa. Isso fez tanto sentido que resolveu patrocinar a tradução do livro pro português, pra que ele pudesse ser publicado no Brasil e chegasse na mente e no coração de muito mais pessoas.
O fundamento principal que o livro traz é que, na filosofia hindu, quando a gente fala de energia feminina, fala de shakti, e quando fala de energia masculina, fala de shiva. O que a gente tá precisando resgatar é o shakti. O que tá adormecido, o que tá abafado, o que tá blindado, o que não tá valorizado é energia shakti. Até então a gente aprendeu a ser assertivo, a ter foco, a direcionar as tomadas de decisão, a estruturar, a ordenar. Vamos aprender também a acolher, a ser empático, a ter compaixão, a ter ambientes mais colaborativos, a ter mais abertura. E isso vem da energia shakti. O livro traz a provocação de que isso depende do indivíduo, não depende do seu cargo de liderança, não depende da sua função mãe, da sua função filho no mundo. É do indivíduo. O líder que você é é a pessoa que você é. Não tem diferença. Se a pessoa que você é conseguir equilibrar essas energias no seu exercício da liderança, isso vai estar equilibrado também. Começa fazendo a lição de casa dentro de você.
O impacto que causou nas organizações esse período onde a gente deixou essa energia Shakti adormecida pode ser resumido assim: o que a gente veio vivendo foi um modelo de exercício do poder sobre os outros e não exercício do poder com os outros. As consequências são a gente encontrar um lugar de poder pra dominar, pra mandar, pra inibir. O que a gente tem são ambientes tóxicos. Se o poder é sobre o outro, o outro não tem lugar de expressão tão legítimo. A gente é aberto a ouvir, mas até a página dois. Porque, no fundo, o que a gente quer é o mandatório de um resultado, o mandatório de uma meta que tem que ser atingida de qualquer jeito. A gente veio exercendo o poder sobre os outros, não só sobre as pessoas, sobre os recursos, sobre o planeta, sobre as relações.
Em resumo, o que isso trouxe é uma exaustão do sistema. A gente tá com dificuldade pras empresas inovarem, com dificuldade de reter colaborador. A gente não consegue criar relações duradouras com o talento e entender o que é importante pra ele. A gente tá falando numa linguagem na voz do eu, não na voz do nós. A gente não tá incluindo as pessoas. Nesse momento onde a gente tá lidando com temas como diversidade e representatividade, a gente tá sentindo que aquela energia não sabe muito bem conduzir essas transições. A gente teve muita evolução do planeta, do mundo, até chegar onde chegou, com um sistema mais agressivo, com a energia ativa de conquistar território. Só que agora a gente descobriu que foi bom, a gente construiu, mas a gente exagerou um pouco. Usou alguns recursos, incluindo os recursos humanos, de uma forma que tá dando sinais de que é insustentável. Planeta, sociedade, e aí vamos convidar essas energias novamente.
Se você voltar na história das civilizações astecas, maias, toltecas, o lugar da mulher era e sempre foi um lugar de muita sabedoria, um culto a essa energia feminina. Aparentemente, esse patriarcado e esse sistema chegou, pelo menos no nosso lado, na época da colonização espanhola, e a mulher foi pra um espaço pra trás. A mulher foi conquistando o seu espaço, mas o modelo de referência era um modelo de patriarcado, um modelo com essa energia Shiva dominante, e a mulher ia colocando esse lado Shakti meio que escondido. Quando a Cássia entrou numa empresa muito grande de tecnologia, passava crachá e dizia: quando você passa o crachá lá embaixo na catraca, você deixa a cárcer e vem trabalhar o colaborador da empresa. Os seus valores são esses aqui. E aqui não tem emoção. Só que hoje, em 2023, em pós-pandemia, a gente aprendeu que a casa e o trabalho estão juntos. Não vai dar pra usar aquela coisa autoritária só de Shiva. A gente vai ter que integrar um pouco mais dessa energia.
As gerações passadas, muitas delas nem casavam, não tinham filhos. Tinha essa dificuldade de poder conciliar, porque a gente tinha que colocar essa energia feminina mais escondida. E o que acaba acontecendo? Em estatísticas de endometriose, de cirurgias de mioma, de útero e de ovário, eles falam que 100% dos casos são o que chamam de mulheres fortes. Com essa energia desequilibrada, ou faltando integralizar a outra energia, a gente acaba adoecendo. O que acabou acontecendo foi a gente adoecer uma parcela dessas mulheres, e agora, pra cuidar, pra tratar disso, vamos resgatar essas energias que foram sempre muito bem cultivadas em povos e civilizações sábias.
Quando a gente fala de energia masculina e feminina, não tá falando de gênero, não tá falando de homem e mulher. Todo homem e toda mulher tem em si as duas energias. Essa energia feminina vem sendo abafada em todo mundo. A gente vê homens que não conseguem se expressar, que não conseguem se emocionar, não porque não se emocionam, mas porque o ambiente não permite. Várias vezes homens procuram depois pra dizer: obrigada por tocar nesse assunto, porque realmente aqui eu não posso ser sensível. Tem uma repressão que tá adoecendo todo mundo. Um executivo dizia que tinha que mentir pro grupo de futebol quando não podia ir no jogo, porque não podia falar que era pra buscar o filho na escola, senão ia sofrer muito bullying. Dizia que tinha um exame pra fazer, tinha trabalho pra fazer, mas não dizia que era pra buscar o filho na escola. Toda a energia feminina manifestada em homens ou mulheres está sendo de alguma forma reprimida. Quando a gente fala desse equilíbrio, fala de uma conquista da humanidade. A gente já teve isso muito bem representado em algum momento da nossa história. Não quer trazer o patriarcado no lugar do patriarcado, mas esse equilíbrio é possível, porque essa referência tá aí. A gente precisa resgatar.
Em que momento e como reconhecer se estou no momento luz ou sombra em cada uma dessas energias? O livro Liderança Chakti aborda da seguinte forma: a gente tem características femininas e masculinas conscientes, que são as maduras, do lado luz. E tem características inconscientes, que são as imaturas, do lado sombra. Elas aparecem sempre de licença, sem anunciar que estão aparecendo. Manter esse equilíbrio de forma consciente vai ajudar com que elas não apareçam. No lado luz da energia masculina, a gente fala de foco, assertividade, ordem, disciplina, discernimento, criar estrutura. Tudo isso é super importante e necessário. Se a gente não tiver estrutura, discernimento, assertividade, não realiza nada. É uma energia de realização muito forte. No lado luz da energia feminina, a gente fala de escuta, capacidade de empatia, trazer o colaborativo para a mesa, colaboração, exercício de gentileza, compaixão, inclusão e abertura. Se a gente só tiver a capacidade de realizar a ação, mas não tiver o acolhimento às emoções, não tiver inteligência emocional, a gente desequilibra.
O que acontece com o lado sombra? É quando a gente utiliza as características em excesso. Não é uma coisa ou outra, é uma coisa só usada em excesso. O excesso de assertividade, de ordem, de estrutura traz rigidez, arrogância, controle, agressividade, insensibilidade, necessidade de domínio. O excesso de sensibilidade, de compaixão, faz a gente ficar sentimental, dependente, carente, às vezes até vitimizada e manipuladora. Esse lugar manipulador é o excesso dessa energia feminina em ação. Quando a gente fala de equilíbrio, fala de dois equilíbrios: o equilíbrio entre o feminino e o masculino e o equilíbrio na quantidade de que você usa de cada característica, porque o excesso leva para o lado sombra.
Como é que a gente dança entre elas? Quando a gente se pergunta, no lado sombra, no lado inconsciente, no lado imaturo de alguma delas, quem me tira, quem me salva, quem me resgata, é o lado maduro da energia oposta. A gente não sai da vitimização resgatando o próprio lado feminino. Sai da vitimização resgatando o maduro do masculino. Agora eu preciso ser assertiva para deixar de ser vítima. Não sai da arrogância e da violência, que é o lado sombra do masculino, resgatando o próprio masculino. Sai desse lado sombra resgatando o que é maduro do feminino. Estou sendo arrogante demais, deixa eu usar empatia. Essa dança é entre polaridades. Equilíbrio o masculino imaturo resgatando o feminino maduro e equilibra o feminino imaturo resgatando o masculino maduro. Porque se tenta equilibrar na mesma característica, fica numa polaridade só. O convite é resgatar o outro polo, a outra polaridade.
Um exemplo pessoal: chega em casa, ganha um convite pra ir no teatro, tá super empolgada, fala pro marido: convite pro teatro, vamos! E ele fala: não tô a fim, tô cansada. A empolgação é frustrada, vai pro inconsciente, pra sombra do feminino, começa a dar de carente vítima. Poxa, mas por que você não quer ir comigo? É uma coisa que eu gosto tanto e você não tá disponível. Olha, tadinha de mim. Aí percebe que tá sendo vitimizada demais. Fala: peraí, isso não tá certo. Fui tentar equilibrar. Só que, em vez de equilibrar com o lado luz do masculino, equilibrou com o lado sombra. Fala: não, tô vitimizada demais, agora eu preciso me posicionar. E diz: tudo bem, quer saber de uma coisa? Se você não quiser ir comigo, tem quem queira, e da próxima vez eu nem convido mais. Navegou entre o masculino e o feminino? Navegou, mas no lado sombra. Foi da carente vitimizada pra arrogante cruel. A intenção é a gente se perceber escorregando nesses lados imaturos, mas poder convidar o lado maduro pra te equilibrar.
Exercitando é super possível. Imagina você líder de uma equipe. Tem gente que vai trazer muita energia feminina, tem gente que vai trazer muita energia masculina. Como lidar com alguém na equipe que é muito arrogante? O líder vai ter que puxar a energia feminina pra equilibrar. Como lidar com alguém que arruma desculpa pra tudo, nunca nada tá bom, que tá no imaturo do feminino? O líder vai ter que puxar o lado masculino pra equilibrar. É essa a dança dessas duas características, que viram quatro se a gente olhar a luz e sombra de cada uma.
O primeiro passo é tomar consciência. Passar a ter consciência de que isso existe e começar a entender o que pode fazer daqui pra frente. E uma outra coisa importante: não é uma missão solitária. É sobre conseguir, tendo consciência do que tá acontecendo, equilibrar outra pessoa, ou outras pessoas, ou um ambiente. Nós somos seres inconscientes na grande maioria do tempo. Em situação de estresse elevado, que normalmente é o que se encontra em ambiente corporativo, entra o piloto automático, o inconsciente operando a milhão. Em divã, em consultório, em situações mais controladas, é mais fácil identificar, mas na correria e no estresse do dia a dia, é muito provável que a gente escorregue. O que a gente tá entendendo hoje é que, pro ambiente de trabalho, a gente precisa praticar um conceito chamado agilidade emocional e a agilidade de integrar essas energias. A gente vai cair e tem que aceitar que vai cair. A depender de quão equilibrada a pessoa está naquele dia, vai conseguir fazer o que se propõe. Mas se teve que colocar compromissos mais cedo, tá entrando de uma reunião pra outra, não tá conseguindo equilibrar as energias, vai cair. Não tem nada de errado. O que a gente quer trazer é que o caminho é exato, mas a gente precisa ter dentro a habilidade de saber: eu caio e, como a bailarina no palco, levanto rapidamente, dou o meu melhor sorriso e começo novamente. Aceitar e entrar nessa resiliência, que é voltar ao estado original.
Além disso, a gente busca mudar um padrão comportamental. Dados de ciência comportamental, ainda poucos, mas os que existem mostram que vamos levar em torno de 30 a 45 dias de exercícios frequentes pra mudar um micro-hábito. Num espaço de trabalho onde há segurança psicológica, compondo uma equipe com diversidade e representatividade, a gente combina: eu vou ver quem me equilibra. Quando eu tô consciente, sei que ela vai me equilibrar. Vou combinar com ela o jogo: se eu passei da barreira, me ajuda aqui, me recupera. A gente quer quem nos desafie, mas cadê a tua rede de proteção? A gente precisa começar a criar rede de proteção no trabalho. Quando você escorrega, se tá todo mundo ali pra rir de você, esse ambiente não é saudável. Se quando você erra, os dedos apontam pra te julgar, isso é a toxicidade do ambiente falando. Mas se quando você erra, um feedback construtivo, carinhoso, te reequilibra, aí sim a gente tá construindo um ambiente humano que tá indo pra evolução e que possivelmente vai levar essa empresa a crescer mais rápido que o concorrente que não faz isso. O desenvolvimento humano é um verbo que faz do coletivo, que a gente conjuga com pessoas. Requer um espaço de segurança psicológica, muito autoconhecimento, muito autocuidado e leva tempo.
O ser humano não faz tudo assim nesse volume, tudo assim tão rápido. A produtividade que a gente está procurando possivelmente vai reinventar esse horário de trabalho. Eu opero muito melhor com pausas. Por que uma reunião termina e começa todas as outras? Eu sou introvertida e preciso de tempo meu. Quando fico muito em exposição, aquela energia falta. E a gente não inclui essa pessoa naturalmente no ambiente. Todo esse exercício é o que tá sendo convidado pra gente criar nova dinâmica. Nessa nova dinâmica, a gente vai conseguir fazer esse balé bonito, de dançar entre os quatro quadrantes, perceber quando cai, ter essa inteligência emocional, essa agilidade emocional, essa capacidade emocional e construir essa fortaleza de poder circular entre a energia Shiva e Shakti com equilíbrio e dançar de acordo com a música. Vai ter uma empresa, uma startup, que tá realmente acelerando, que vai requerer muita energia aditiva pra conquistar espaço. Não tem espaço pra empatia feminina? Não é verdade. Mas tem que cuidar, porque a empresa tá tentando se viabilizar. Um espaço organizacional mais maduro, que já produz lucro, que já tá gerando riqueza, vai em escalas conseguir trabalhar melhor esses quadrantes. Entender em que ambiente a gente tá, que música tá tocando, pra saber como dançar essa música.
A consciência pode ser tanto no momento em que a coisa acontece, mas pode ser muitas vezes, ou na maioria das vezes, a gente se propor a refletir depois. Talvez num momento eu não consiga ter essa consciência, mas se me proponho a entender que aquilo é importante refletir e ganhar essa consciência depois, eu posso. Voltando pro exemplo do marido, posso voltar e ter uma atitude assertiva, dizer porque aquele teatro era importante pra mim, porque era importante que ele fosse, e até procurar entender porque ele tá tão cansado. Talvez ele tivesse precisado de atenção naquele momento, mas eu consigo voltar pra essa situação porque parei pra criar essa consciência. Esse exercício da consciência é constante.
Como aumentar o nível de consciência no momento em que a coisa acontece? O Raj e a Anil, no livro, falam muito sobre estado de presença. A gente aprende a criar um estado de presença. Eles falam de três coisas que nos tiram desse estado de presença: a gente sai dele quando tem algo a temer, quando tem algo a defender, ou quando tem algo a promover. Se eu tenho algo a temer, minha cabeça tá no futuro. Tô temendo a decisão que vai ser tomada, temendo que alguém vai me cobrar de um dado que não levantei adequadamente, temendo que não vou ter o argumento pra tal coisa, temendo que isso vai implicar em mais trabalho. Minha cabeça está no futuro, naquilo que pode vir a acontecer. Saí da presença. Se eu tenho algo a defender, minha cabeça tá no passado. Tem algo que acho que vou ser cobrado, algo que aconteceu que vou ter que me justificar, ou algo que queria ter dado conta e não dei. Se minha cabeça tá procurando como vou me defender, ela tá no passado, saí da presença. E se estou querendo me promover, estou procurando achar brechas naquela situação pra mostrar como sou boa, pra enaltecer algo que fiz, pra transformar aquela oportunidade numa oportunidade de visibilidade. Portanto, não estou na presença, estou na oportunidade.
Exercitar isso: eu tô numa reunião, percebo que me desconectei, saí um pouquinho fora do prumo e da história, pergunto pra mim mesma: você tá temendo alguma coisa? Você tá precisando se defender ou você tá precisando se promover? Invariavelmente, respondo sim pra uma dessas três coisas. Quando me conscientizo disso, posso falar pra mim mesma ou pro grupo: para um pouquinho, agora eu me desconectei porque tava com a cabeça em outra situação. Perdi o que você falou, repete pra mim, por favor. Eu não tava presente o suficiente. E aí consigo resgatar. O exercício de criar a consciência no momento em que a coisa acontece está altamente relacionado com aprender a praticar presença. E aprender a praticar presença tá relacionado com ter pausas, meditar, fazer o teste do livro: tô temendo, tô defendendo, tô me promovendo nesse momento. Tá relacionado com olhar depois, o que aconteceu em determinado momento que eu não tava tão presente, tão consciente, e resgatar essas coisas pra poder aprender com elas. Praticando isso, a gente vai aumentando o nível da consciência na hora que a coisa acontece.
O líder nessa história toda pode contribuir observando a presença da sua equipe nesses momentos. Posso dizer: qual a sua opinião sobre esse assunto? Como você tá vendo essa situação agora? Porque eu tô vendo que você tá quieta, mas sei que você tem algo a falar. Pode ser que ela não esteja no estado de presença suficiente que a deixe segura pra falar. Quando eu observo o estado de presença meu e dos outros, consigo dançar melhor e aprender a dançar melhor entre esses quadrantes. Começa simples assim: estar atento, observar e praticar o estado de presença. Quando você se desconectar, pergunte pra vocês mesmos: tô temendo? Tô querendo me defender? Ou tô querendo me promover? E vai experimentando na prática.
Num ambiente de trabalho, esse cuidado é essencial. Os pontos tocam, né? Estou precisando me defender. Em ambientes que, na grande maioria, são muito competitivos, principalmente um líder, conforme a liderança vai subindo, se afunila demais. Corporações estão sempre querendo se defender de alguma coisa. Vai ter que ser um pouco compassivo, ter compaixão com o líder, porque na grande maioria das vezes eles estão se defendendo. Estou precisando me promover também. Quantas vezes você escuta do teu chefe que você não se promove, que não se autopromove? A gente puxa isso pras pessoas, que aproveitem o espaço pra se expor. Há grandes chances de cair nesse lugar. E o terceiro, temer. Se você tem um ambiente de múltiplos layoffs, de desligamentos constantes, numa economia em pressão, esses elementos vão estar presentes. Isso faz um convite pra gente praticar empatia e compaixão, porque as pessoas vão errar, porque o ambiente está empurrando a gente pra praticar coisas mais difíceis. Mais do que nunca, paciência um com o outro e humanidade. Entender que isso é só ser humano.
A maior parte do trabalho vai ser automatizada, mas nada vai conseguir automatizar a empatia, o amor e o olhar humano. Nada vai conseguir substituir essa parte humana, que é o que tá faltando nas organizações. Vem desse lugar de presença e muita intencionalidade, intencionalidade do cuidado com o outro. É o que tá faltando e que tá gerando todo esse desequilíbrio, todas essas doenças e todos esses impactos. Resgatar a energia feminina no mundo é resgatar a intencionalidade do cuidado com o outro. Porque essa intenção de cuidar dos outros é energia feminina pura. Se a gente resgatar isso, a gente resgata todo o resto. A pergunta que fica é: como anda a sua intenção, sua verdadeira intenção, sua legítima intenção de cuidar dos outros, de cuidar de quem tá com você todos os dias?
O líder que você é, a pessoa que você é. A gente lidera o tempo todo, várias coisas na vida. Não é só líder quando tem cargo de liderança. Focar na pessoa que você é é o essencial. Cuide dela. Assim como a aeromoça dispõe primeiro a máscara em você, depois em quem tá do seu lado, é sempre um convite pra olhar pro nosso desenvolvimento, pro nosso cuidado, e depois do ambiente das pessoas que estão conosco.
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