
Ep. 125 - Semeando novos paradigmas dentro das escolas
Resumo rápido
Andresa Morelli (Rede Aprendente) e Ximena (K21) conversam com o Panda sobre como a BNCC está deslocando a educação brasileira de um ensino por conteúdo para um ensino por competências, e o que isso tem a ver com liderança, empatia e agilidade dentro e fora da escola.
Capítulos
- 09:19O que é a BNCC e por que ela muda a cultura das escolas
- 13:23O CHA: conhecimento, habilidade e atitude por trás de toda competência
- 20:38O mapa em branco: ensinar a perguntar em vez de dar a resposta certa
- 24:41Gestão escolar, formação de professores e o problema da metodologia ativa de fachada
- 31:08Desigualdade, território e adaptação em contextos vulneráveis
- 42:22Privilégio, diversidade e empatia como competência prática
- 54:31EduScrum: do modelo submarino ao modelo golfinho de aprendizagem
Frases do episódio
O que você vai ouvir neste episódio
- Panda recebe Andrezza Amorelli e Ximena Hervier para debater a importância do tema da educação no desenvolvimento social.
- O episódio aborda caminhos práticos para levar transformação cultural e novos paradigmas diretamente para as salas de aula.
- As convidadas exploram como práticas educacionais modernas podem ser testadas e adaptadas no contexto de empresas e organizações.
- A conversa destaca a relevância de transformar pessoas para gerar impacto positivo na evolução da gestão e cultura organizacional.
Temas discutidos
A discussão sobre novos paradigmas na educação conecta-se diretamente com a evolução da cultura organizacional e da liderança contemporânea. Levar transformações para as salas de aula exige experimentação, foco em pessoas e adaptação contínua, princípios fundamentais da agilidade. Ao explorar como essas práticas funcionam no ambiente educacional, líderes e profissionais de produtos encontram paralelos valiosos para promover mudanças culturais, estimular o aprendizado contínuo e desenvolver ambientes mais colaborativos dentro de suas próprias empresas e equipes.
Para quem é este episódio
Este episódio é indicado para educadores, gestores escolares, líderes da área de pessoas e profissionais de transformação organizacional. Esses perfis encontrarão no debate ideias práticas para aplicar novos conceitos de aprendizagem, desenvolvimento humano e mudança cultural tanto em ambientes de ensino quanto em empresas.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
Como levar a transformação e novos paradigmas para dentro das salas de aula?
A transformação nas escolas ocorre por meio da experimentação de novas práticas pedagógicas e da mudança de mentalidade entre educadores. O episódio sugere introduzir abordagens focadas em pessoas e no aprendizado contínuo, adaptando conceitos modernos de gestão para a realidade das salas de aula, estimulando a colaboração e a autonomia dos estudantes.
Quais foram as convidadas e os temas centrais abordados no episódio 125?
O apresentador Panda recebeu as convidadas Andrezza Amorelli e Ximena Hervier para debater educação, pessoas e transformação. O episódio abordou a aplicação de novos paradigmas educacionais na sala de aula e de que forma essas metodologias podem ser adaptadas e experimentadas com sucesso em empresas e organizações de diversos setores.
De que forma os aprendizados da área da educação podem ser aplicados nas empresas?
As práticas e novos paradigmas vivenciados na educação servem como modelos para promover o desenvolvimento contínuo de pessoas nas organizações. Ao adotar metodologias de ensino inovadoras no contexto corporativo, lideranças conseguem criar ambientes propícios para o aprendizado, a evolução cultural e a adaptação rápida a constantes transformações de mercado.
Sobre este episódio
Este episódio do Love the Problem retoma um tema que já havia rendido uma conversa anterior sobre o futuro da educação: desta vez, o ponto de partida é a BNCC, a Base Nacional Comum Curricular, e a virada de paradigma que ela representa dentro das escolas brasileiras. Recebendo Andresa Morelli, fundadora da Rede Aprendente, que reúne mais de 400 escolas de todo o país, e Ximena, professora argentina e colaboradora da K21, a conversa parte de uma pergunta simples, "o que é a BNCC?", e vai se expandindo para conectar educação, gestão, liderança e agilidade.
A primeira grande virada explicada por Andresa é que a BNCC, diferente dos antigos Parâmetros Curriculares Nacionais, é lei, não apenas uma orientação. Isso muda a forma como as mudanças dentro da escola são justificadas: deixam de ser uma sugestão para se tornarem uma norma com força legal, o que reconfigura a cultura organizacional das instituições. E a mudança mais profunda que essa lei traz é deslocar o ensino de um modelo centrado em conteúdo, que agora é chamado de "objeto de conhecimento" e deixa de ser a parte mais importante da base, para um modelo centrado em dez competências macro, sendo quatro delas socioemocionais. Para que exista de fato uma competência, o episódio recorre à sigla CHA: conhecimento, habilidade e atitude. É possível ter conhecimento e habilidade e, mesmo assim, não desenvolver competência por falta de atitude: era como saber as regras de trânsito e como o carro funciona, mas nunca de fato dirigir.
A partir daí, a discussão migra para o papel de quem ensina. Ximena conta um exercício que aplica todo início de ano na faculdade: entrega um mapa em branco e pede que os alunos marquem os países do Oriente Médio, sem consultar o celular. O objetivo não é a resposta certa, que, aliás, varia conforme a perspectiva de quem pergunta, mas o processo de aprender a se perguntar e buscar o conhecimento por conta própria, em vez de esperar que ele seja entregue pronto por uma autoridade. Essa mudança de postura, do professor como "dono do conhecimento" para o professor como facilitador da aprendizagem, é apontada como uma das transformações mais profundas e mais difíceis do sistema educacional, porque a escola tradicionalmente formou tanto professores quanto gestores dentro da lógica de que perguntar atrapalha e quem sabe responde.
Essa lógica se replica na gestão escolar: um gestor que resolve todos os problemas no lugar dos professores impede que eles se tornem bons resolvedores de problemas, e o mesmo efeito se repete depois em sala de aula, com os próprios alunos. Formações de professores que seguem formato tradicional, mesmo quando pedem explicitamente que se "use metodologia ativa", tendem a falhar, porque um professor que nunca vivenciou aprender daquela forma dificilmente vai reproduzi-la. A saída passa por criar espaços de diálogo reais, inclusive nas reuniões de pais, que muitas vezes se tornam um embate de lados opostos quando deveriam ser um círculo formado em torno de um problema comum, com estudantes, famílias e escola sentados juntos para resolvê-lo.
O episódio também dá espaço à dimensão social da educação. A observação de um padrão no entorno de casa, crianças brancas acompanhadas por um adulto indo para a escola particular, crianças não brancas chegando em grupo, de ônibus, para a escola estadual ao lado, expõe uma desigualdade estrutural que atravessa qualquer discussão sobre inovação pedagógica. Ximena reforça esse ponto com uma história da pandemia: ao descobrir que uma aluna do interior não tinha internet nem no celular para fazer uma prova decisiva, aplicou o exame por telefone fixo, mesmo sem ser o canal formalmente previsto, porque era melhor que nada, um lembrete de que a capacidade de adaptação precisa ser proporcional à vulnerabilidade de quem se atende. Andresa, por sua vez, relata sua experiência trabalhando majoritariamente com escolas de classe A, e o esforço constante de tirar essas crianças da "bolha": passeios pela cidade escolhidos pelos próprios alunos, pagos e organizados por eles mesmos, e programas intencionais de estágio que trazem diversidade de pensamento, de moda, arte, música, teatro, design, para dentro da escola. Ela conta a história de uma estagiária moradora de uma comunidade próxima que, sem perceber, mudou a visão de mundo de uma criança pequena só por representar uma referência afetiva diferente daquela ouvida em casa, e de uma dinâmica de "corrida do privilégio" proposta pelos próprios estudantes, reunindo desde a equipe de limpeza até as famílias.
Essas experiências alimentam uma reflexão sobre empatia como competência prática, não abstrata. Das dez competências da BNCC, quatro são socioemocionais, incluindo o autoconhecimento formalmente reconhecido como competência. A explicação de empatia que mais ressoa na conversa vem de um neurocientista: empatia não é se colocar literalmente no lugar do outro, algo neurologicamente impossível, mas entender que o outro é outro, que ele chega até você com sua própria história, experiência e emoção, sem que se possa cobrar dele uma reação igual à que você teria.
O episódio se encerra com a apresentação do EduScrum por Ximena: uma metodologia criada por um professor de química holandês, Willy Wijnands, a partir de uma conversa de churrasco sobre Scrum com um vizinho engenheiro. A proposta é abandonar o modelo "submarino" de aprendizado, mergulhar fundo em conteúdo por um trimestre ou semestre inteiro e só emergir no final para descobrir se funcionou, em favor de um modelo "golfinho": ciclos curtos, iterativos e incrementais, revisados semana a semana, com alunos organizados em times por competências complementares e o professor atuando como facilitador do processo. A visão central, resumida por Ximena, é simples: o protagonista da aprendizagem é o aluno, não o professor. Como fechamento, fica a provocação de Andresa sobre personalização da aprendizagem: assim como não existe uma formação única que sirva para todos os profissionais de uma empresa, também não existe um percurso único que sirva para todos os alunos, e construir descritivos de função junto com quem ocupa o cargo, perguntando primeiro por que aquele papel importa, já mudou na prática como equipes inteiras passaram a enxergar e a assumir o próprio trabalho.
Transcrição completa
Este episódio nasce de uma conversa sobre educação: um tempo antes, o Love the Problem tinha recebido o pessoal da École Carrendeux para falar do futuro da educação, e o assunto rendeu tanto que merecia voltar. Desta vez o convite é para Andresa Morelli, fundadora da Rede Aprendente e de uma empresa de mentorias e workshops para escolas, e para Ximena, professora argentina, diretora da Faculdade de Engenharia em Rosário e colaboradora da K21, que já havia participado do podcast num episódio sobre estruturas libertadoras.
Andresa se apresenta como uma aluna do Love the Problem que hoje trabalha levando a linguagem da agilidade, da análise de dados e do mundo corporativo para dentro dos desafios da educação. À frente da Rede Aprendente, ela reúne mais de 400 escolas do Brasil inteiro para pensar juntas temas relevantes para o contexto educacional do país. Ximena, por sua vez, fala da sua paixão pelo tema: entender que educação e formação são o que leva a sociedade a um futuro melhor, seja essa educação formal ou não formal.
A conversa parte de uma sigla que se tornou o fio condutor do episódio: a BNCC, a Base Nacional Comum Curricular. Diferente dos antigos Parâmetros Curriculares Nacionais, que eram apenas uma orientação, a BNCC é lei, e por ser lei, ela se torna uma justificativa de norma dentro da cultura organizacional das escolas. As famílias, em geral, só enxergam as ferramentas que mudam nas escolas, sem entender a normativa por trás dessas mudanças, e por isso é importante trazer essa conversa para as reuniões com as famílias.
A grande virada da BNCC é sair de um ensino de conteúdo para um ensino por competências. O conteúdo, que antes era o centro de tudo (a época em que colocar a vírgula fora do lugar tirava ponto na prova), passa a ser chamado de "objeto de conhecimento" e deixa de ser a parte mais importante da base. A parte mais importante são as competências: a BNCC tem dez competências macro, além de competências e habilidades específicas por série e por segmento (educação infantil, ensino fundamental do primeiro ao nono ano, e ensino médio, este último organizado por itinerários formativos).
Para existir uma competência, são necessários três elementos, o chamado CHA: conhecimento, habilidade e atitude. É possível ter conhecimento e habilidade e, ainda assim, não ter competência, porque falta a atitude. O exemplo dado é o de dirigir: pode-se saber as leis de trânsito e como o carro funciona, mas só se desenvolve a competência quando se tem a atitude de efetivamente dirigir. O Enem, com suas dez competências macro, é um exemplo de avaliação organizada por competências, e isso importa também para quem está fora da educação: um ensino baseado só em conteúdo não garante que as pessoas cheguem preparadas às empresas.
Essa mudança de paradigma esbarra, antes de tudo, na cabeça de quem ensina. Como diz Ximena, o professor ainda ocupa, em muitos lugares, o papel de dono do conhecimento, uma posição distante e inacessível que precisa mudar. Ela conta que, na faculdade, no primeiro dia de aula, entrega aos alunos um mapa em branco e pede que marquem os países do Oriente Médio. Os alunos ficam paralisados, sem usar os celulares que têm ao lado, com medo de errar. Quando finalmente alguém pergunta se a Índia faz parte do Oriente Médio, ela vira a pergunta: Oriente Médio para quem? Para uma instituição é uma coisa, para um país é outra, para a União Europeia é outra ainda. O exercício não tem uma resposta certa fechada; o que importa é o processo de pensar, de se perguntar, de buscar o conhecimento em vez de esperar que ele seja entregue pronto.
A conclusão que se repete: o papel do professor precisa ser repensado como o de um facilitador da aprendizagem. Não é function do professor ter todas as respostas, e sim ajudar as pessoas a descobrir os caminhos até o conhecimento, uma mudança profunda, porque a escola tradicionalmente foi o lugar das respostas, não das perguntas, e quem pergunta em sala de aula costuma ser visto como quem atrapalha a aula.
Essa dinâmica se repete na gestão escolar: gestores também não passaram por uma educação baseada em perguntas, e por isso, quando alguém chega até eles, já espera receber uma resposta pronta. Um gestor que resolve todos os problemas dos professores no lugar deles impede que esses professores se tornem bons resolvedores de problemas, e, por consequência, impede que os alunos também se tornem. Formações de professores que seguem um formato tradicional, de aula expositiva, mesmo quando pedem que o professor "use metodologia ativa" em sala, tendem a fracassar: se o próprio professor nunca vivenciou aprender com metodologia ativa, dificilmente vai aplicá-la com seus alunos. A mudança passa por criar espaços de diálogo que gerem aprendizagem em equipe, inclusive nas reuniões de pais, que muitas vezes viram um embate de "lados", quando deveriam ser um círculo em torno de um problema comum a ser resolvido junto com estudantes, famílias e escola.
O episódio traz também a dimensão social e territorial da educação. Observando o entorno de casa, nota-se um padrão nítido entre a escola particular próxima, crianças brancas, cada uma acompanhada por um adulto, e a escola estadual ao lado, crianças majoritariamente não brancas, chegando em grupo, vindas do ponto de ônibus, muitas vezes com os pais já tendo saído cedo para trabalhar. Ximena reforça essa desigualdade com uma experiência da pandemia: ao perceber que uma aluna do interior não tinha internet nem no celular para fazer uma prova importante, decidiu aplicar o exame por telefone fixo, com autorização, ainda que não fosse o canal previsto, porque era melhor que nada, e a capacidade de adaptação precisa ser proporcional à vulnerabilidade da população atendida.
Andresa relata sua experiência trabalhando majoritariamente com escolas de classe A, e a preocupação constante em tirar essas crianças da bolha: levá-las para conhecer outras partes da cidade de metrô e ônibus, pagando a própria passagem, escolhendo entre diferentes destinos possíveis; criar programas intencionais de estágio que tragam diversidade de pensamento para dentro da escola, com estagiários de moda, arte, música, teatro e design. Ela conta a história de uma estagiária que morava numa comunidade próxima da escola e de um aluno pequeno que, ao repetir um comentário preconceituoso ouvido em casa, teve a chance de reformular sua visão de mundo só por ter uma referência direta e afetiva diferente daquela. Outra experiência marcante foi uma dinâmica de "corrida do privilégio" proposta pelos próprios estudantes, reunindo funcionários da limpeza, porteiros, professores, estagiários e famílias, para tornar visíveis os privilégios de cada um.
Esses exemplos alimentam uma reflexão sobre empatia, hard skills e soft skills. Das dez competências da BNCC, quatro são socioemocionais: quase metade da matriz trata de como a pessoa se relaciona consigo mesma, com o outro e com o mundo, incluindo autoconhecimento como competência formal. A explicação de empatia que mais fez sentido nessa conversa parte de um neurocientista: empatia não é se colocar literalmente no lugar do outro, porque isso é neurologicamente impossível, mas entender que o outro é outro, que ele chega até você com uma história, uma experiência e uma emoção próprias, e que não se pode cobrar que ele reaja como você reagiria.
Fechando o episódio, Ximena apresenta o EduScrum, criado por um professor de química holandês, Willy Wijnands, a partir de uma conversa de churrasco com um vizinho que trabalhava com Scrum. A ideia é trocar o modelo de "submarino", mergulhar fundo no conteúdo por um trimestre ou semestre inteiro e só emergir no final para descobrir se aprendeu ou não, pelo modelo de "golfinho": ciclos curtos, iterativos e incrementais de aprendizado, em que a cada semana fica claro o que já foi aprendido, o que falta e o que precisa ser revisado. Os alunos trabalham em times organizados por competências complementares, decidem juntos como vão abordar cada desafio de aprendizagem, e o professor assume o papel de facilitador desse ciclo, similar a um sprint. A visão central é simples: o aluno é o protagonista da própria aprendizagem, não o professor.
Como provocação final, fica o tema da personalização da aprendizagem: assim como não existe uma formação única que sirva igualmente para todos os profissionais de uma empresa, também não existe um percurso único que sirva para todos os alunos. Construir descritivos de função junto com quem ocupa o cargo, perguntando primeiro por que aquele papel é importante, antes do que ele faz, já mudou, na prática, como equipes de apoio e de limpeza em escolas passaram a enxergar o próprio trabalho, ao ponto de mudarem o nome das próprias funções e assumirem novas responsabilidades por iniciativa própria.
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