É algo difícil, mas é uma realidade. Seus times e gestores pedem um tempão para aprender a limitar a quantidade de trabalho em progresso (limitação do WIP), definem bem o portfólio de projetos, limitam a quantidade de projetos em andamento, criam regras combinadas com toda a organização para solicitar, evoluir e manter os produtos, e tudo vai bem. A gestão de projetos está linda.
Até o momento em que alguém da alta administração (diretoria, presidência, C-level ou seja lá o nome que sua organização utiliza) tem uma ideia brilhante. Seu time recorda as políticas de solicitação e a limitação do trabalho em progresso e descobre que…
A alta administração da sua organização não espera. Não importa se você tem as melhores métricas, os melhores acordos, nem os melhores sistemas. Mais cedo ou mais tarde você descobrirá que quem manda não aguarda. Não fica parado em fila e não se importa com processos. Pode ser a ideia mais estapafúrdia do planeta, mas a pessoa não irá esperar. Ela quer hoje, quer agora e quer já.
Na minha vida profissional, já passei por essa situação muitas dezenas de vezes e, no início, ficava muito, muito brabo. “Olha as nossas métricas, não tá vendo que não vai dar.”. “Putz, vai parar aquele projeto fundamental para fazer esse projeto ‘pet’ do presidente.”. Com o tempo, vêm a idade e, com a idade, a experiência. Tem coisas que são imutáveis, seja você em uma estatal, em uma startup ou na maior multinacional do mundo. O poder não espera.
Tratando projetos “perfuratrizes”
Eu não tenho uma receita de bolo, mas sigo alguns passos que costumam aliviar a pressão. O primeiro é ficar bem P da vida. Afinal, é frustrante você ter tanta informação e todas as palestras de que “jogamos juntos” e, na hora H, atropelam como se fossem um trem desgovernado.
Mas isso passa. Depois vem o passo mais importante. Tentar entender por que aquele pedido perfuratriz foi feito.
- É algo realmente importante que não estava no nosso radar?
- Algum concorrente mecheu no mercado?
- Para órgãos públicos: Algum órgão similar ao seu está fazendo algo nesse sentido? É raro, mas acontece muito o “não podemos ficar para trás”.
- O novo presidente/CEO está com a faca nos dentes para deixar a “marca” dele.
- Alguém foi contratado para resolver um problema bem específico.
Talvez você até diga assim: “1 e 2 até fazem sentido, mas os outros três são só para atender à vontade de algum poderoso”. Exatamente! É isso mesmo e isso é libertador. Muitas vezes, você estará envolvido na criação de produtos que não têm valor ou cujo valor é irrisório. Ainda digo mais: quanto maior for a organização em que você está inserido, mais fácil será esbarrar nesse tipo de projeto. Eles até costumam ganhar o nome da pessoa: Projeto do Asteovaldo, Assessor da Presidência (Se o seu nome for Asteovaldo e você for assessor de alguma presidência, não foi pessoal).
Impossibilidade de bloquear a interferência no portfólio de projetos

Eu gostaria de te dar agora uma baita aula sobre métricas, gráficos, gestão de produtos, projetos e empresas. Ia ficar um texto super bacana. Quem sabe, talvez você imprimisse ou até mesmo mandasse o link para o Asteovaldo. Sabe o que mudaria? Nada! Depois que esses projetos pessoais são criados, é mais fácil você ganhar na Mega-Sena da virada do que matá-los. Como diz o Rodrigo de Toledo: “Se, na sua empresa, as pessoas se chamam pelo sobrenome, agora não é nem o projeto do Asteovaldo. É dos Gomercindos, e o nome da família dele está em jogo” (Se o seu nome for Asteovaldo Gomercindo e você for assessor da presidência de alguma empresa, vá jogar na Mega-sena, porque, pela’mor de Deus).
Você pode mostrar números, impacto, duzentas trinta e sete ferramentas, algoritmos complexos no estilo Monte Carlo, gráficos 3D interativos. Nada adiantará. Sr. Gomercindo terá o projeto dele feito.
Necessidade de Limitação do WIP
Calma aí, minha amiga/meu amigo. Não é bem assim. Já há muitos anos que eu aceito, numa boa, interromper projetos fundamentais para atender às vontades pessoais. Porém, sempre há um custo para quem pede. O custo é decidir ou, na maioria das vezes, delegar a decisão ao seguinte questionamento: Qual projeto pararemos?
Não tem jeito. Se seus times construírem 3 projetos simultâneos, adicionar o 4º piorará o desempenho de todos. É matemático conforme já vimos no artigo “Lei de Little (Little’s Law): A Ciência por Trás de Fazer Menos e Entregar Mais“. Caso você assuma mais um projeto sem parar nenhum, todos demorarão mais para serem entregues, o que frustrará todos, inclusive o Asteovaldo. E lembre-se: esse cara não quer esperar.
O impacto da decisão
Confesso que muitas vezes, quando essas pessoas desejosas são apresentadas a essa decisão, elas travam. Contratar mais gente normalmente não é uma opção e pausar ou cancelar um projeto significa se indispor com outra pessoa da alta administração.
Em certa ocasião, participei de uma reunião com a diretoria na qual essa decisão deveria ser tomada. O número era exatamente esse. Os três times tocavam três projetos simultaneamente, e havia um Asteovaldo lá que queria o projeto dele. Coloquei na mesa a situação e perguntei: “Qual pararemos? Brother, foi uma situação com tantos olhares fulminantes, e o solicitante desejoso começou a remover a prioridade do projeto sem que ninguém fizesse nada e, no final, desistiu do projeto”. Nunca fizemos e nunca foi necessário.
O custo de não decidir
Mas você pode estar com medo e não ter acesso à diretoria e vai “entubar” o projeto novo. Tem uma frase da Andressa Chiara de que eu gosto muito:
“O conflito que você não paga hoje será a briga que você terá amanhã.”
Você não brigou com o Asteovaldo hoje e entubou o projeto dele sem falar nada com ninguém. Daqui a alguns meses, você terá que se explicar para o Asteovaldo, para todos os clientes dos outros projetos, para os seus times e seus gerentes, em uma reunião “Caracu” (marca de uma cerveja escura produzida há mais de um século), em que eles entram com a cara e você entra com o resto.
Projeto imune a cancelamento
Você parou um projeto importante e começou a construir o “sem valor”. Resista à tentação de mostrar que aquele projeto não tem valor. Afinal, se você está tendo que desenvolvê-lo, isso significa que, nesse momento, na briga pelo poder, você é menos poderoso do que o Asteovaldo e, se ele tem poder, é porque alguém concedeu. Além disso, essa pessoa avalisa o Asteovaldo. Uma falha dele certamente recairá sobre a pessoa, e ninguém quer ficar na berlinda.
Tentação da baixa qualidade
Você ficou fulo da vida, chutou as cadeiras, interrompeu um projeto fundamental e quer jogar tudo para o alto. No seu consciente você pensa: “Vou fazer qualquer porcaria e entregar qualquer coisa”.
Nunca, em nenhum momento, em tempo algum, em tempo nenhum, jamais, nenhuma vez, de jeito nenhum, em hipótese alguma, de forma alguma, faça isso.
Perceba que se você construir o melhor produto do mundo e ele for um fracasso retumbante, culpa do Asteovaldo. Agora, se você fez de qualquer jeito um produto cheio de erros, reclamações e devoluções, a culpa é sua e do seu time.
Não puxe a responsabilidade para você nem para o seu time. Faça o melhor-pior produto do mundo. Com qualidade, melhores práticas, método etc. Se for um sucesso, ótimo, todos ganham. Se for um fracasso, você avisou.
Entregável Cosmético
Também evite o famoso entregável cosmético. Parece que funciona, mas se jogar água, estraga tudo. Eu lembro que, na faculdade, tive um professor que era da Marinha. Um belo dia, o comandante responsável pela base entrou na sala e disse que concederia um prazo de 3 dias para que o meu professor e a equipe dele desenvolvessem o projeto de controle de tiro balístico das fragatas da classe Niterói. Isso porque o comandante da Marinha do Brasil faria uma visita à base daqui há três dias, e o almirante responsável pela base queria mostrar o quão eficiente era a sua gestão.
Um belo caso de entregável cosmético
Meu professor era o gerente de projetos e falou que seria impossível e que tal intento levaria meses para ser realizado. O que foi sumariamente ignorado e o prazo de três dias mantido.
No dia fatídico, apresentaram o software ao comandante da Marinha. Palavras do meu professor e não minhas:
– Membro do time: Alvo detectado, bearing 045, range de 8 milhas náuticas, velocidade de 12 nós, curso de 120. Alvo hostil confirmado. Solicito permissão para engajar com o canhão principal.
– Comandante da Marinha: Autorizado engajamento. Armas livres. Fogo à vontade no alvo designado.
– Membro 2 do time: Shoot! Shoot!
– Meu professor: Splash! Hit! Alvo atingido, fogo secundário visível.
Repetiram toda essa operação.
No final do dia, após a partida do comandante da Marinha, o comandante da base voltou à equipe do meu professor e disse: “Viu, eu sabia que vocês conseguiriam fazer em três dias.”
Meu professor, que não tinha muitas papas na língua, falou: “Comandante, esse programa só dá 3 tiros. Se ele tivesse pedido correção, teria quebrado tudo. Na verdade, é só um powerpoint glorificado”.
Acho que meu professor nunca chegou a almirante.
Minha dica para você é não faça isso. A entrega cosmética dá muita dor de cabeça logo no próximo ciclo.
O peso do passado
Lembro-me de uma vez em que participei de um projeto de controle de custos. O objetivo era realmente intrigante e, dentre as funcionalidades, estava saber quanto as unidades gastavam com luz. Não estou falando de algo macro, como: “A localidade X gasta R$ 1 milhão. Estou falando de algo micro, como: a unidade organizacional XPTO, na localidade X, gastou R$ 10k com energia elétrica. Já a XYZ gastou R$ 9.999,97. Mesmo que ambas ocupassem a mesma sala. A ideia era contabilizar tudo. Desde o salário dos profissionais até a quantidade de lâmpadas rateadas por unidades de negócio.
E sabe o que faríamos com essas informações? Absolutamente nada! Quem iria se indispor com a diretora X para dizer que as unidades dele estavam gastando muito toner de impressora. Ou falar com o diretor Y que as unidades subordinadas a ele estão gastando muita luz porque ficam trabalhando até tarde.
Assim que a pessoa que avalisava o Asteovaldo saiu, ele caiu e o projeto morreu. Na época fiquei bolado, mas como dizia Ariano Suassuna:
“Toda história que é ruim de viver é boa de contar.”
A levesa do presente com vibe coding
E o mundo mudou e, no passado, nós perdíamos realmente muito, muito tempo criando esses “projetos perfuratizes”, mas não precisamos mais. Quando tenho que fazer projetos sérios e necessários, eu e minha equipe usamos Vibe Coding. Quando precisamos atender aos perfuratrizes, utilizamos o Vibe Coding.
Se eu tivesse que criar aquele sistema de controle de custos hoje, acho que conseguiríamos construí-lo em uma semana e deixar clara a total inserventia dele.
A expectativa do futuro
Sim, esse texto é um desabafo, mas eu tenho uma esperança, um sonho: “Eu tenho um sonho de que um dia todos os projetos serão escolhidos com critérios técnicos, independentemente dos interesses pessoais, paixões ou gosto pessoal”. Enquanto esse dia não chegar, limite o WIP, pare projetos e entre na vibe (coding).
Você também não é o sabichão/sabichona
Pode ser que o projeto que você acha fundamental, importante e crucial, no fundo, seja o seu “pet project”. Ferramentas como o vibe coding rapidamente te mostrarão que, às vezes, o Asteovaldo é você.
Se quiser conhecer mais sobre Vibe Coding, dê uma olhada no nosso treinamento: Inteligência Artificial na prática: MVP em 3 dias.
