O mito do time de alta performance

Quase toda organização quer um time de alta performance. A expressão aparece em apresentações, planos estratégicos e discursos de liderança como se fosse um objetivo claro e universal. Mas, na prática, ela costuma esconder uma expectativa irreal: a ideia de que basta montar as pessoas certas, adotar uma metodologia moderna e cobrar resultados para que a performance apareça.

O problema é que os times não performam isoladamente. Sistemas performam.

Um time pode ser experiente, comprometido e tecnicamente excelente e, ainda assim, entregar pouco valor. Não por falta de esforço, mas porque está inserido em um sistema que gera atrasos, ruídos e desperdícios o tempo todo. Excesso de dependências externas, aprovações em cadeia, mudanças constantes de prioridade e políticas não declaradas acabam determinando o ritmo real do trabalho muito mais do que a capacidade do time.

Esses obstáculos raramente estão visíveis. Eles aparecem como filas ocultas, tarefas “em espera eterna”, decisões que nunca chegam ou prioridades que mudam sem explicação. O trabalho não flui, mas o sistema insiste em medir desempenho individual, velocidade e esforço, como se o problema estivesse nas pessoas.

Performance é uma questão ambiental

Quando se fala em alta performance, quase nunca se fala sobre o ambiente que a torna possível. Pouco se discute como o trabalho chega ao time, quem decide o que é prioridade, quantas iniciativas estão abertas ao mesmo tempo ou por quanto tempo o trabalho fica parado, aguardando alguém fora do time agir. Esses fatores, invisíveis no dia a dia, são os verdadeiros limitadores do desempenho.

É aqui que entra o papel real da liderança.

Liderar times de alta performance não é cobrar mais, motivar mais ou contratar “melhores talentos”. É desenhar e cuidar do sistema em que esses times operam. É tornar explícitas as políticas, reduzir dependências desnecessárias, limitar o trabalho em progresso (Work in Progress – WIP)  e criar condições para que o fluxo ocorra de forma previsível e sustentável.

Enquanto a conversa permanecer centrada apenas no time, o mito persiste. A verdadeira mudança começa quando a organização aceita olhar para o sistema e assumir que a performance não é um atributo de pessoas excepcionais, mas o resultado de escolhas estruturais bem feitas.

Lembre-se: os melhores jogadores do mundo não performam como tal em clubes mediocres.

Avelino Ferreira Gomes Filho
Sobre o autor

Avelino Ferreira Gomes Filho

Trainer na K21

Avelino Ferreira é formado e mestre em Ciência da Computação. Teve uma longa trajetória na TI, começando como programador e chegando a gestor de diversos times de criação de produtos digitais. Conheceu e começou a adotar as melhores prática de de Métodos Ágeis em 2008. Desde então, se dedica a auxiliar outras empresas na construção da cultura ágil. Atualmente, é Consultor e Trainer na K21

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