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Ep. 88 - Não existe demanda técnica! Existe demanda de produto!
Ep. 88

Ep. 88 - Não existe demanda técnica! Existe demanda de produto!

27 de setembro de 202100:47:05
Pessoas
Product Management

Resumo rápido

Neste episódio do Love the Problem, o apresentador recebe Rodrigo Martins (Zé) e Mari Barcelos para defender a tese de que não existe demanda puramente técnica, toda mudança que passa por um time só se justifica pelo valor que gera para quem usa o produto, e a separação histórica entre negócio e tecnologia se resolve com comunicação, visão sistêmica e empatia entre as disciplinas.

Capítulos

  1. 00:07A origem do debate: o duelo "ditadura do técnico vs. ditadura do negócio" no Agile Brasil 2017
  2. 04:39Zé explica por que toda demanda é, no fundo, demanda de produto
  3. 10:03A teoria dos Olons de Ken Wilber e a visão sistêmica das partes e do todo
  4. 13:04Da planning que discutia o todo à planning fragmentada em "planning 1" e "planning 2"
  5. 19:49Raízes históricas: os 4Ps de Kotler, o Manifesto Ágil e a ascensão do mercado de tecnologia
  6. 22:51O case do refactoring de oito meses sem visibilidade para o produto
  7. 32:02O rio da K21, o profissional T e os quatro domínios da agilidade como saída dos silos

Frases do episódio

“melhora a vida das pessoas, é demanda de produto”

04:39

“Um Olon é uma parte que é um todo também”

10:55

“Então fazia oito meses que a pessoa de produtos não fazia ideia do que tava acontecendo ali.”

24:29

O que você vai ouvir neste episódio

  • Lula recebe Rodrigo Martins e Mariany Barcellos para discutir a falsa separação entre demandas técnicas e de negócio.
  • A conexão direta entre tecnologia e estratégia de negócios evita o desalinhamento nas entregas de equipes de produto.
  • Priorizar demandas técnicas como parte da visão de produto garante maior sustentabilidade ao código e aos processos internos.
  • O alinhamento contínuo entre profissionais de tecnologia e gestão de produto fortalece a colaboração e a entrega de valor.
  • Tratar melhoria técnica como demanda de produto ajuda organizações a alcançarem resultados mais previsíveis e consistentes.

Temas discutidos

O episódio explora a necessidade de integrar tecnologia e estratégia de produto dentro do contexto da agilidade organizacional. Tratar melhorias técnicas como parte do escopo de produto exige mudanças na cultura da empresa, promovendo colaboração próxima entre desenvolvedores, lideranças e gestores de produto. Esse alinhamento reduz silos organizacionais, melhora a comunicação interna e garante que decisões arquiteturais e operacionais suportem diretamente os objetivos de negócio e as necessidades reais das pessoas usuárias.

Para quem é este episódio

Este conteúdo é ideal para gerentes de produto, lideranças técnicas e pessoas desenvolvedoras que buscam alinhar melhorias de tecnologia aos objetivos de negócio. Também beneficia profissionais de agilidade que trabalham facilitando a colaboração e a remoção de silos entre equipes de engenharia e gestão de produtos.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Por que é importante integrar demandas técnicas à visão de produto?

Integrar demandas técnicas à visão de produto garante que sustentabilidade do sistema e valor de negócio sejam priorizados em conjunto. Quando a tecnologia é tratada de forma isolada, a empresa corre o risco de acumular débitos técnicos ou entregar funcionalidades que não se sustentam no longo prazo, comprometendo os resultados organizacionais.

Como alinhar as expectativas entre as equipes de tecnologia e de produto?

O alinhamento ocorre quando desenvolvedores e gestores de produto compartilham os mesmos objetivos de negócio. Promover discussões conjuntas sobre impacto, riscos e viabilidade técnica desde o início do planejamento ajuda a transformar necessidades de infraestrutura e arquitetura em entregas de valor percebidas diretamente pelas pessoas usuárias do produto.

Qual o impacto de separar demandas de negócio e demandas técnicas nas empresas?

A separação cria silos operacionais, atritos entre equipes e priorizações conflitantes. Quando a área de tecnologia trabalha sem conexão com os objetivos de produto, o desenvolvimento perde foco no cliente final. Da mesma forma, ignorar a necessidade técnica gera instabilidade e dificulta a evolução contínua da solução no mercado.

Sobre este episódio

O episódio 88 do Love the Problem retoma um debate antigo do apresentador: em 2017, no Agile Brasil, ele participou de um duelo de palco sobre "a ditadura do técnico" contra "a ditadura do negócio", um duelo do qual, segundo ele mesmo, ninguém realmente saiu vencedor. Quatro anos depois, o tema volta sob um título mais afiado: Não Existe Demanda Técnica. Para discutir isso, o programa reúne duas perspectivas complementares: Rodrigo Martins (Zé), vindo do universo de produto e agilidade organizacional, e Mari Barcelos, engenheira que atualmente trabalha no PagSeguro, empresa onde, segundo ela, essa mesma tensão entre engenharia e produto já foi enfrentada lado a lado com a K21, em uma época em que os dois times sequer sentavam no mesmo andar.

A tese central, apresentada por Zé, é simples e provocadora: nenhuma mudança dentro de um produto se justifica por si só. Uma pessoa usando um aplicativo nunca vai comemorar uma migração de banco de dados, vai comemorar o aplicativo ter ficado mais rápido ou mais fácil de usar. Por isso, toda mudança técnica só tem sentido pelo que ela melhora na experiência de quem usa o produto, e chamá-la de "demanda técnica", como se fosse algo à parte, sem relação direta com o negócio, é o que abre espaço para o surgimento de silos: produto não prioriza porque não tem prazo, tecnologia não dá prazo porque não tem critério claro, e o burburinho entre disciplinas cresce.

Mari concorda que o racha existe, mas o atribui, na prática do dia a dia, menos a uma rivalidade real e mais a uma simples falta de comunicação: mudanças de engenharia feitas sem avisar o produto, pedidos de produto feitos sem explicar prazos. Quando alguém quer melhorar a velocidade de um app e outra pessoa quer lançar um recurso novo, as duas coisas podem, e deveriam, andar juntas, desde que haja conversa e tradução mútua do porquê de cada entrega.

Essa hipótese de comunicação ganha uma camada teórica quando o apresentador traz a teoria dos Olons, de Ken Wilber: cada parte é também um todo, e cada todo é também parte de algo maior; uma célula é um todo, mas parte de um órgão; um órgão é um todo, mas parte de um corpo. Da mesma forma, nem a engenharia nem a "demanda técnica" deveriam ser vistas como um todo fechado em si mesmo; ambas são partes de algo maior, que é o produto. Para o apresentador, é justamente essa falta de visão sistêmica que alimenta o gap de comunicação identificado por Mari.

A conversa então busca uma explicação histórica para essa fragmentação. O apresentador lembra que a cerimônia de planning provavelmente nasceu como um espaço para discutir o todo do time, e hoje virou um espaço fragmentado entre "planning 1" (negócio) e "planning 2" (parte técnica), reproduzindo o próprio silo criticado. Zé recorre aos 4Ps do marketing de Kotler para argumentar que a separação entre produção e o restante da cadeia de valor já vem de décadas atrás, quando a produção era tratada como commodity previsível; o desenvolvimento de produto nasceu como disciplina de marketing e, mais tarde, o Manifesto Ágil tentou reaproximar essas partes, defendendo que o resultado só aparece quando tudo é visto como um todo. Ainda assim, cerca de dez anos atrás as plannings ainda funcionavam como "o evento do dia", com tempo protegido para o time inteiro refinar e colaborar, algo que, segundo Mari, foi se perdendo com o hábito de levar notebooks para as reuniões e, depois, com a pandemia e a hiperdisponibilidade digital, transformando parte do time em "tarefeiros" que executam sem perguntar o porquê.

O apresentador soma três hipóteses para essa separação histórica: a falta de diversidade de formação entre os signatários do Manifesto Ágil (majoritariamente vindos da engenharia); o aquecimento recente do mercado de tecnologia, que deu mais prestígio a se apresentar como "desenvolvedor" do que como "alguém de produto"; e, citando o livro de Donald Reinertsen sobre fluxo no desenvolvimento de produto, a ideia de que a área ainda opera sob um paradigma tão ultrapassado quanto o da manufatura antes do Lean, separando produção de entrega.

Para tornar o problema concreto, o apresentador conta um caso real, mantido em sigilo por confidencialidade: ao entrar em um time de um produto historicamente muito usado, perguntou o que estava sendo feito no ciclo e ouviu "estamos refatorando", sem roadmap, sem prazo, e sem que o PO soubesse exatamente o que vinha sendo feito havia oito meses. Nesse período, a engenharia seguia satisfeita implementando tecnologia nova, e o produto esperava "sua vez" de retomar o discovery, sem que nenhum dos dois enxergasse o todo, um retrato do clássico diagrama em que o produto fica "no meio" entre negócio, experiência e tecnologia, correndo o risco de virar apenas gestor de conflitos entre as outras áreas.

A segunda metade do episódio se volta para soluções práticas. Mari defende que a engenharia hoje quer, além de programar, construir coisas que as pessoas realmente usem, e pode ajudar o produto trazendo dados de comportamento do usuário; na prática dela, revezar reuniões, sincronizar semanalmente e compartilhar o mesmo quadro com sua parceira de produto evita que alguém fique perdido "no meio". O apresentador propõe olhar para o fluxo completo de desenvolvimento, o "rio" da K21, do discovery ao pós-entrega, em vez do quadro simplista "a fazer, fazendo, feito", e tratar qualquer item que entra nesse fluxo, técnico ou não, como demanda de produto, sempre explicitando que risco ele mitiga ou que valor agrega. Mari reforça que fechar esse silo exige empatia prática: engenharia participando de reuniões de roadmap, produto participando de post-mortems técnicos. O apresentador acrescenta que colaboração não é passiva, exige convidar ativamente o outro lado para a conversa e tornar explícitos os acordos entre disciplinas, até o ponto em que rotular algo como "80% negócio, 20% técnico" deixa de fazer sentido, porque tudo deveria, no fim, resolver um problema real de alguém.

O episódio fecha citando dois temas que os convidados sugerem para conversas futuras: o profissional em formato T, que soma uma especialidade profunda a um conhecimento superficial em várias outras áreas, como contraponto ao profissional em formato I, especialista único; e o modelo dos quatro domínios da agilidade da própria K21, organizacional, cultural, técnico e de negócios, com Mari destacando que o domínio técnico também muda de significado conforme a altitude de análise (do código ao nível estratégico, onde a tecnologia se torna força motriz do próprio negócio) e que o domínio cultural é tão decisivo quanto os outros dois. Mari encerra observando que, quanto mais sênior um profissional se torna, seja de engenharia ou de produto, menos ele executa diretamente (código ou histórias de usuário) e mais ele conecta pessoas, traduz contextos e cria ambiente para que outros também consigam fazer o seu trabalho. O apresentador resume o episódio dizendo que "Não Existe Demanda Técnica" ganha, ao final, um sentido mais amplo: trabalhar com mais empatia e colaboração, olhando para o mesmo objetivo em comum, sem treta desnecessária, e que o conflito, quando surgir, deve ser resolvido de forma construtiva, com políticas e acordos explícitos entre as disciplinas.

Transcrição completa

Tudo começou em 2017, no Agile Brasil, em Belém do Pará, quando o apresentador e uma pessoa identificada como CFC fizeram uma palestra em formato de duelo: "a ditadura do técnico" contra "a ditadura do negócio". Ninguém venceu de verdade aquele duelo, e quatro anos depois o tema volta ao podcast sob um novo título, mais provocador: Não Existe Demanda Técnica.

Para discutir o assunto, o programa recebe Rodrigo Martins, o Zé, que traz a perspectiva de produto e agilidade organizacional, e Mari Barcelos, que traz a perspectiva de engenharia, hoje trabalhando no PagSeguro, empresa com a qual a K21 tem uma relação de anos. Zé já adianta o resumo do duelo antigo: quando negócio e tecnologia não trabalham alinhados, é muito provável que o resultado não seja atingido, todo mundo perde. Mari lembra que essa tensão foi uma das primeiras "tretas" que ela viveu justamente ao lado da K21, lá no PagSeguro: a engenharia sentava em um andar, o produto sentava em outro, e para achar o PO era preciso subir e descer de elevador ou escada, não havia sequer uma ferramenta de comunicação como o Slack para facilitar isso.

Zé começa a destrinchar o problema: dentro de qualquer empresa há pessoas de engenharia, produto, marketing, design, jurídico, financeiro, todas voltadas para o mesmo objetivo. Se algo que está sendo feito não traz benefício nenhum, por que estaria sendo feito? Ele descreve uma cena comum no mercado: a área de produto diz que não priorizou porque não recebeu estimativa e prazo da tecnologia; a tecnologia diz que não deu prazo porque produto não escreveu critérios claros; e aí começa o burburinho entre disciplinas que gera silos. Mas quando alguém está usando um aplicativo, não vai comentar "nossa, que bom esse roadmap técnico, migraram a rota do banco de dados", vai dizer "nossa, carregou muito mais rápido" ou "consegui fazer isso com muito mais facilidade". Qualquer mudança técnica, seja rota de banco de dados ou outra coisa qualquer, só se justifica pelo que melhora na vida de quem usa o produto, por isso, para Zé, não existe demanda técnica: o que existe é demanda de produto.

Zé completa com uma observação sobre a separação que ainda existe hoje: seu Instagram é seguido por uma galera de agilidade e produto, seu Twitter por uma galera de desenvolvimento de software, duas tribos diferentes. Ele pergunta a Mari se ela ainda percebe esse racha no dia a dia das empresas e de onde ele pode ter vindo.

Mari não sabe apontar a origem, mas confirma que o problema existe. Do lado da engenharia, é comum fazer alterações sem comunicar a área de produto, e o PO acabar encontrando mudanças que não entende. Do lado do produto, é comum chegar com um pedido sem informar quanto tempo ele deve levar. Na visão dela, existe menos uma rixa de verdade e mais uma falta de comunicação: quando alguém quer melhorar a velocidade da aplicação e outra pessoa quer lançar um menu novo, as duas coisas podem andar juntas, basta conversar, traduzir o que cada mudança técnica representa e explicar por que cada entrega de produto importa. No fim, cada lado tende a olhar só para o próprio painel, engenharia olhando gráficos de performance, produto olhando roadmap, quando, na prática, é a junção dos dois que produz o resultado final.

O apresentador conecta essa hipótese de comunicação a uma referência do autor Ken Wilber, já citada antes no podcast Pontos e Elefantes e no episódio sobre pensamento sistêmico do Love the Problem: a teoria dos Olons. Um Olon é uma parte que também é um todo, uma célula é um todo em si mesma, mas também é parte de um órgão; um órgão é um todo em si, mas também parte de um corpo; o corpo é um todo, mas parte de algo maior, como a sociedade, e assim por diante. Da mesma forma, a engenharia não deveria se ver apenas como um todo fechado em si mesma, mas como parte de algo maior, que é o produto, e uma "demanda técnica" também não é um todo isolado, é parte do produto. O gap de comunicação, sugere o apresentador, vem justamente dessa falta de visão mais sistêmica e ampla.

Isso leva à pergunta: em que momento isso já foi diferente? O apresentador lembra que a cerimônia de planning, no Scrum, provavelmente nasceu como um espaço para discutir o todo, e hoje virou um espaço em que cada disciplina discute só a sua parte, inclusive existe o hábito, em muitos times, de dividir a reunião em "planning 1" (negócio) e "planning 2" (técnica, quebrada em tasks), o que já denuncia a própria separação que o episódio critica.

Zé responde que sim, já foi diferente, e recorre a uma explicação histórica: a sociedade se move em pêndulos. Ele lembra os 4Ps do marketing de Kotler, produto, preço, praça, promoção, e nota que, quando a produção era tratada como commodity, previsível e escalável, ela foi tirada do centro dessa cadeia, separando-se do restante. O desenvolvimento de produto surgiu como disciplina de marketing há cerca de 40 anos, desgrudado da produção enquanto bem comum, e foi o Manifesto Ágil que tentou trazer essa produção de volta para perto do negócio, defendendo que as coisas só se resolvem quando vistas como um todo. Zé lembra que, uns dez anos atrás, quando começou a trabalhar com Scrum, a planning ainda era "o evento do dia": não havia agenda lotada de 15 reuniões; o PO conseguia refinar com folga e trazer o time inteiro para colaborar, porque o tempo, hoje o recurso mais escasso, era protegido para esse propósito.

Mari concorda e acrescenta a pandemia como fator de piora: antes, era preciso reservar uma sala física para se reunir; depois, as pessoas passaram a levar o notebook para a planning e fazer outra coisa durante a reunião; a pandemia, somada a outras prioridades concorrentes, fez o time perder o hábito de sentar, focar e perguntar se o que estava sendo feito fazia sentido, e assim as pessoas foram virando "tarefeiras", executando sem entender o porquê.

O apresentador propõe duas hipóteses históricas complementares. A primeira: os signatários do Manifesto Ágil, nomes como Kent Beck, Martin Fowler, Uncle Bob, Andy Hunt e Dave Thomas, vieram quase todos de um perfil de engenharia, sem diversidade de competências; mesmo tentando pregar o trabalho conjunto, a rixa entre disciplinas já existia antes do próprio Manifesto. A segunda, mais recente: o mercado de tecnologia "estourou", aprender a programar praticamente garante emprego, e a disputa por profissionais de engenharia deu um certo prestígio a se apresentar como "desenvolvedor" em vez de "alguém de produto", o que na prática contraria a essência de colaboração e foco no cliente que o próprio Manifesto defende. Ele soma ainda uma terceira hipótese, citando o livro "The Principles of Product Development Flow", de Donald Reinertsen: o desenvolvimento de produto ainda operaria sob um paradigma tão equivocado quanto o da manufatura antes do Lean, separando produção de entrega.

Para ilustrar como esse paradigma aparece na prática, o apresentador conta um caso real (sem revelar o produto, por acordo de confidencialidade, mas descrito como um produto historicamente muito usado desde os primórdios da internet): ao chegar em um time e perguntar o que estava sendo feito naquele ciclo, a resposta foi "estamos refatorando". Perguntado sobre o roadmap e o prazo previsto, o PO admitiu não ter nenhum roadmap, porque o refactoring já estava rolando havia oito meses sem que ele soubesse exatamente o que estava sendo feito. Nesse período, a engenharia seguia feliz implementando tecnologia nova, e o produto esperava "a hora" de retomar o discovery, e nenhum dos dois lados enxergava o todo. O apresentador relaciona isso ao clássico diagrama em que produto fica na intersecção entre negócio, experiência e tecnologia: colocar a pessoa de produto "no meio" muitas vezes a transforma em gestora de conflitos entre as outras disciplinas, em vez de dona de uma visão de conjunto.

Mari traz a resposta pelo lado da engenharia: hoje engenheiros não querem só programar, querem construir coisas que as pessoas realmente usem, e podem ajudar bastante a área de produto trazendo dados, por onde o usuário navega, onde ele desiste, o que ele mais acessa. Na prática dela, hoje, ela e sua parceira de produto revezam reuniões, se encontram semanalmente, compartilham o mesmo quadro e caminham para o mesmo objetivo, sem que o produto fique perdido "no meio", sem saber para onde ir.

Isso conecta com uma pergunta feita ao vivo por uma espectadora no Instagram sobre como acabar com esses silos. O apresentador retoma uma ideia que já queria trazer: expandir a visão do fluxo do time para além do clássico quadro "a fazer, fazendo, feito", porque, ao olhar dentro de cada cartão desse fluxo, aparecem tarefas muito diferentes (uma reunião, uma descoberta, um refactoring) que não conversam diretamente com o resultado que se quer entregar, reforçando o comportamento "tarefeiro". A proposta é olhar para o fluxo completo de desenvolvimento do produto, o "rio" da K21, que contempla tanto o upstream de descoberta quanto o downstream até depois da entrega, e entender que qualquer coisa que entra nesse rio é demanda de produto: mesmo uma refatoração de módulo só se justifica pelo risco que mitiga ou pelo valor que agrega, e esse raciocínio deveria estar sempre explícito.

Mari reforça que fechar esse silo passa por empatia na prática: uma pessoa de engenharia participar de uma reunião de roadmap para entender a cobrança que o produto sofre, uma pessoa de produto participar de um post-mortem depois de uma crise técnica para entender a realidade do outro lado. Entender a realidade alheia é o que faz cada lado aceitar por que algo precisa entrar no roadmap, seja demanda "técnica" ou não. O apresentador complementa que colaboração não é só esperar que o outro resolva por você, é também convidar ativamente para a conversa, revisitar acordos e tornar explícitas as políticas de como o trabalho passa de uma disciplina para outra. Feito isso, deixa de ser necessário até classificar o que é "demanda de negócio" e o que é "demanda técnica": tudo deveria resolver um problema de negócio ou de quem usa o produto: se algo não melhora nada, está sendo feito por capricho, ou porque ninguém perguntou qual problema aquilo resolveria, Love the Problem.

Antes de encerrar, o grupo cita duas ideias para episódios futuros que atravessam toda a conversa. A primeira é o profissional em formato T: diferente do profissional em formato I, especialista profundo em um único assunto, o profissional T tem uma especialidade, mas também conhecimento superficial em várias outras áreas, considerado hoje um perfil essencial para quebrar silos. A segunda é o modelo dos quatro domínios da agilidade, criado pela própria K21: organizacional, cultural, técnico e de negócios, como uma "criatura de quatro patas" que não anda bem se só algumas pernas se movem. Mari acrescenta que o domínio técnico também tem diferentes altitudes: no nível do código, "técnico" já significa dinheiro para a empresa; em um nível mais alto, é sobre coordenar sistemas de forma sistêmica; e no nível mais estratégico, a tecnologia se torna a própria força motriz do negócio, ou seja, o técnico também vira negócio. Ela destaca ainda que o domínio cultural é tão importante quanto os outros dois: a própria forma de pensar produto, e a própria forma de pensar tecnologia como um produto final, já são, em si, uma cultura.

O apresentador nota que, embora a conversa esteja focada em produtos digitais, o mesmo raciocínio vale para qualquer tipo de desenvolvimento de produto ou serviço, construção civil, logística marítima, pequenos negócios. Mari fecha com uma observação sobre maturidade: quanto mais sênior um desenvolvedor se torna, menos ele efetivamente escreve código, passa a ser a pessoa que conecta as pontas, conversa com todo mundo e traduz negócio para tecnologia; da mesma forma, quanto mais sênior uma pessoa de produto se torna, menos ela mesma escreve histórias de usuário, e mais ela cria o ambiente e mentora outras pessoas para que consigam escrever as suas.

Ao encerrar, o apresentador resume que "Não Existe Demanda Técnica" ganha, ao final da conversa, um sentido mais completo: trabalhar com mais empatia e colaboração, olhando para o mesmo objetivo em comum, sem treta desnecessária, e que o conflito, quando existe, deve ser resolvido de forma construtiva, com políticas e acordos explícitos entre as disciplinas.

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