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Ep. 87 - Product Market Fit
Ep. 87

Ep. 87 - Product Market Fit

20 de setembro de 202101:08:42
Carreira
Pessoas
Product Management

Resumo rápido

Luiz Felipe Carvalho (professor da PUC-Rio e fundador da Trampolim e da NG Cash) e Magno (K21) discutem o que é Product Market Fit, por que escalar antes da hora é perigoso e como crescimento, engajamento e receita ajudam a reconhecer, na prática, quando um negócio encontrou seu modelo recorrente e escalável.

Capítulos

  1. 05:58Qual problema o Product Market Fit resolve
  2. 09:24Definição de startup segundo Steve Blank e origem do Lean Startup
  3. 10:52O que é Product Market Fit: evidências de tração e a visão de Marc Andreessen
  4. 19:45O risco da escala prematura e o valor de falhar rápido e barato
  5. 27:42A trajetória da Trampolim: do B2B e B2C simultâneos ao split via M&A
  6. 41:23NG Cash e os três pilares de métricas: crescimento, engajamento e receita
  7. 58:15Outcomes over outputs, valor entregue e mensagens finais sobre ouvir o cliente

Frases do episódio

Startups são organizações temporárias

09:24

Fail Fast, Fail Cheap

18:49

Escuta o cliente. Isso é muito difícil de fazer.

01:02:52

O que você vai ouvir neste episódio

  • Guga Moser, Magno de Santana e Luis Felipe Carvalho discutem a relevância do Product Market Fit para empresas digitais.
  • O episódio explica como encontrar a aderência do produto no mercado sustenta o crescimento do negócio a longo prazo.
  • A conversa aborda desafios enfrentados por profissionais no início da jornada em gestão de produtos e negócios digitais.
  • Os participantes exploram o impacto direto da validação de mercado na competitividade e expansão das empresas no setor.

Temas discutidos

O conceito de Product Market Fit é central para a gestão de produtos, pois conecta a estratégia de negócios ao atendimento real das necessidades do cliente. No ambiente de agilidade e transformação digital, garantir que uma solução encontre seu espaço no mercado evita o desperdício de recursos e direciona os esforços de desenvolvimento. Além disso, essa compreensão fortalece a liderança técnica e cultural, permitindo que equipes multifuncionais alinhem entregas de valor contínuas aos objetivos sustentáveis da organização no mercado.

Para quem é este episódio

Este conteúdo é ideal para Product Managers iniciantes que buscam consolidar conceitos fundamentais da área. Também beneficia empreendedores e líderes digitais focados na expansão de negócios, além de profissionais de agilidade que desejam alinhar o desenvolvimento de software às demandas reais do mercado.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

O que é Product Market Fit e qual a sua importância?

Product Market Fit representa o estágio em que um produto satisfaz com sucesso uma demanda real e significativa de um mercado específico. Sua importância reside em garantir que os recursos da empresa sejam investidos em uma solução viável, permitindo o crescimento sustentável do negócio e o aumento da competitividade perante os concorrentes no ambiente digital.

Por que profissionais em início de carreira devem entender Product Market Fit?

Compreender o Product Market Fit ajuda profissionais iniciantes a tomar decisões baseadas em valor real e dados concretos, em vez de suposições. Esse conhecimento evita o foco exclusivo em funcionalidades operacionais sem aderência de mercado, permitindo uma atuação mais estratégica na gestão de produtos e acelerando a evolução da carreira em empresas de tecnologia e inovação.

Como o Product Market Fit se relaciona com a expansão de um negócio?

A expansão de um negócio exige que a empresa atinja primeiro o Product Market Fit, pois tentar escalar um produto sem aderência comprovada ao mercado pode causar grandes prejuízos financeiros. Quando o produto encontra seu espaço ideal, o processo de escalabilidade torna-se mais seguro, previsível e eficiente, garantindo relevância contínua no mercado competitivo.

Sobre este episódio

Neste episódio do Love the Problem, Guga Moser recebe Luiz Felipe Carvalho, professor de empreendedorismo da PUC-Rio e fundador das fintechs Trampolim e NG Cash, e Magno, Product Expert da K21, para uma conversa aprofundada sobre Product Market Fit (PMF).

Luiz abre situando o Product Market Fit dentro do processo empreendedor mais amplo: toda jornada começa com uma visão, que se transforma em modelo de negócio e, se validado, evolui para uma inovação de fato difundida. Ele recorre à definição clássica de Steve Blank - de quem foi aluno indireto de inspiração, já que Blank também formou Eric Ries, criador do Lean Startup - para descrever startup como uma organização temporária feita para aprender qual modelo de negócio é recorrente e escalável. É justamente esse ponto de descoberta que se chama Product Market Fit. Luiz cita Ash Maurya (autor de Running Lean) e sua ideia de caminhar do "plano A" ao "plano que funciona", e traz a definição de Marc Andreessen: PMF é algo que se sente mais do que se mede com precisão, seja pela ausência de sinais (pouco valor percebido, boca a boca fraco, crescimento lento) ou pela presença deles (demanda que supera a capacidade de atendimento, imprensa ligando, contratações aceleradas).

Uma das imagens mais fortes do episódio é a comparação de Luiz entre atingir o Product Market Fit e se vestir aos poucos - primeiro o chapéu, depois a camisa, até sentir que "está vestido" por completo. Magno complementa com a definição mais direta usada por investidores de venture capital: você sabe que chegou lá quando não consegue mais dar conta da demanda. Os dois também diferenciam esse estágio do problem-solution fit, etapa anterior em que se valida apenas que existe um problema real sendo resolvido, sem ainda comprovar que o cliente paga com satisfação.

A conversa dedica boa parte do tempo ao risco de escalar antes da hora - o que Magno chama de "escala prematura". Luiz defende que falhar deveria ser normal e até celebrado quando acontece rápido e barato, citando o lema "Fail Fast, Fail Cheap" do Lean Startup e ilustrando com a história de um ex-aluno que fechou sua startup, a Go Books, ao perceber falta de tração real, mesmo parecendo um sucesso vista de fora. Ele separa claramente falhar o modelo de negócio de falhar a visão - usando o círculo dourado de Simon Sinek, o "why" pode sobreviver a pivôs de modelo -, e usa isso para explicar por que grandes empresas costumam errar ao tentar fomentar inovação interna: injetam dinheiro e direcionamento demais em vez de deixar as iniciativas morrerem rápido quando não funcionam, como faz o modelo de aceleradoras no estilo Y Combinator.

Boa parte do episódio é dedicada ao relato pessoal de Luiz sobre a Trampolim, fintech de Banking as a Service fundada em 2018/2019 com apoio do Instituto Gênesis da PUC-Rio, aproveitando uma regulação do Banco Central que abriu espaço para instituições de pagamento fora do sistema bancário tradicional. Entre 2019 e 2020, a empresa testou paralelamente um protótipo B2C de conta digital para a geração Z, em parceria com o influenciador digital Mário Augusto, e um modelo B2B que decolou de forma inesperada após uma parceria com a Mastercard virar nota de imprensa e atrair outras empresas interessadas em criar suas próprias contas digitais. Quando o modelo B2C também explodiu, após ser anunciado publicamente pelos influenciadores em agosto de 2020, a Trampolim se viu com dois negócios mostrando tração simultânea - situação que ela resolveu de um jeito pouco convencional: separando-se em duas empresas, com o B2B seguindo para um processo de fusão e aquisição e o B2C virando spin-off, hoje conhecido como NG Cash. Luiz é honesto ao dizer que esse movimento só foi viável porque havia vários sócios-empreendedores com afinidade natural por cada lado do negócio, e reconhece que, sem essa condição, o caminho racional teria sido focar no B2B, por ser menos arriscado.

A NG Cash, hoje com cerca de 26 pessoas e mais de meio milhão de contas abertas, ainda está, nas palavras de Luiz, "se vestindo" de Product Market Fit - com desafios abertos em ativação de usuários, usabilidade e monetização. É nesse ponto que Magno introduz um framework de métricas de produto centrado em três pilares que precisam estar equilibrados: crescimento, engajamento e receita. Segundo ele, sentir o Product Market Fit é perceber esses três pilares girando ao mesmo tempo, com dificuldade de atender à demanda gerada. Luiz confirma esse acompanhamento na prática, citando a máxima "what you measure is what you get" e descrevendo como o ciclo PDCA gira muito mais rápido em startups digitais - às vezes em um único dia. Ele também explica que, apesar de os três pilares precisarem caminhar juntos, é preciso escolher um deles para puxar a estratégia em cada momento; a NG Cash optou por priorizar receita, escolha pouco comum no segmento.

O episódio fecha com uma reflexão sobre valor: Luiz propõe uma equação de bom negócio em que o valor percebido pelo cliente, o preço capturado e o custo do serviço devem estar bem distantes entre si, criando um "buffer" saudável; quando esses pontos se aproximam demais, o cliente fica na iminência de trocar de fornecedor assim que aparecer alternativa, o que se manifesta como churn alto. Magno conecta essa ideia à citação de Josh Seiden (Outcomes Over Outputs): gerenciar apenas entregas ou apenas métricas macro de negócio não é suficiente - o ideal é gerenciar resultados, ou seja, os comportamentos específicos que o time provoca no cliente e que efetivamente sustentam crescimento, engajamento e receita. As mensagens finais reforçam esse espírito: Magno destaca a importância de entender fundamentos e ter intenção clara em vez de buscar fórmulas mágicas, e Luiz encerra recomendando o livro Moments of Truth, de Jan Carlzon, e o hábito atribuído a Jeff Bezos de reservar uma cadeira vazia para representar o cliente em toda reunião de decisão - um lembrete simples, mas difícil de praticar, de que ouvir o cliente é a moeda de troca mais importante de qualquer negócio.

Transcrição completa

Neste episódio do Love the Problem, o tema é Product Market Fit, um conceito central para quem cria produtos, serviços ou empresas, seja dentro de grandes organizações, seja empreendendo do zero. Para conversar sobre isso, Guga Moser recebe dois convidados: Luiz Felipe Carvalho, professor de empreendedorismo da PUC-Rio há mais de 15 anos e fundador da fintech Trampolim e, mais recentemente, da NG Cash, e Magno, Product Expert da K21.

Luiz abre explicando o processo empreendedor de forma ampla: tudo nasce de uma visão de uma pessoa ou de um grupo, que se transforma em uma oportunidade e em um modelo de negócio. Esse modelo pode ou não dar certo; se der sinais de que está funcionando, a empresa cresce e embarca mais pessoas até o ponto em que a mudança de comportamento que ela provoca se torna, de fato, uma inovação difundida. Depois disso surge outro desafio, o de sustentar essa inovação ao longo do tempo, mas o foco da conversa é a fase inicial dessa jornada, a fase da startup.

Para definir startup, Luiz recorre a Steve Blank, professor que foi empreendedor, passou por Berkeley e por Stanford e é autor de The Four Steps to the Epiphany, obra que deu origem ao Lean Startup. Luiz conta que Eric Ries, criador do Lean Startup, foi aluno de Steve Blank: buscou investimento com ele, que topou investir sob a condição de que Ries assistisse às suas aulas sobre Customer Development. Foi ali que Ries uniu esses conceitos a ideias de Lean Manufacturing e do método Toyota para criar o Lean Startup. Segundo Blank, startups são organizações temporárias projetadas para encontrar ou descobrir um modelo de negócio recorrente e escalável. Não é uma questão de a empresa ser "descolada" ou ligada a tecnologia: startup é uma organização feita para aprender, e o que ela precisa aprender é justamente qual modelo de negócio funciona.

É aí que entra o Product Market Fit: o momento em que a startup encontra esse modelo de negócio que funciona. Luiz cita Ash Maurya, autor de Running Lean, que descreve o percurso do "plano A" (o plano inicial, criado logo após a visão) até o "plano que funciona". Uma startup precisa estar disposta a trocar elementos fundamentais do seu modelo de negócio, mesmo que isso signifique sacrificar marca ou até clientes conquistados no início, em troca de aprendizado e validação. Quando esse modelo começa a aparecer, surgem as chamadas evidências de tração. Luiz traz a definição de Marc Andreessen, criador do Netscape e fundador da gestora de venture capital Andreessen Horowitz: é difícil definir precisamente o que é Product Market Fit, mas dá para sentir quando ele não está acontecendo: os clientes não percebem valor, o boca a boca não acontece, o uso não cresce rápido, a imprensa não dá atenção, o ciclo de vendas é lento. E dá para sentir o oposto também: quando o market fit está acontecendo, os clientes compram o mais rápido que conseguem, o crescimento de usuários dispara, os servidores precisam ser ampliados constantemente, o dinheiro entra na conta, é preciso contratar mais gente e a imprensa liga atrás de entrevista.

Luiz relaciona essa descrição à própria experiência: na primeira empresa que fundou, a Trampolim, sentiu esse encaixe de forma explosiva e rápida; na segunda, a NG Cash, ainda está na busca por ele, já com algumas evidências de tração, mas sem ter chegado lá por completo. Para ele, Product Market Fit não é um instante binário de "chegou ou não chegou", e sim um espectro: você vai se vestindo dele aos poucos, peça por peça, até sentir que está plenamente vestido. Magno complementa com uma definição mais direta usada por investidores de venture capital: você sabe que encontrou o Product Market Fit quando não consegue dar conta da demanda pelo seu produto. Antes disso, é provável que você ainda esteja no chamado problem-solution fit, tentando validar se resolve um problema real, sem ainda ter comprovado que existe mercado e negócio recorrente e escalável em torno disso.

Luiz situa esses conceitos dentro do modelo de Customer Development de Steve Blank, de quatro etapas, no qual o Product Market Fit fica bem no meio, entre a criação da empresa e a validação de mercado. Ele cita o Airbnb como exemplo: Brian Chesky e Joe Gebbia testaram e falharam várias vezes até encontrar o modelo correto em São Francisco e Los Angeles; só depois de atingir o market fit é que fez sentido escalar, replicando o modelo para outras regiões e países. O problema, segundo Luiz, é que muita gente tenta escalar antes de atingir esse ponto, tentando crescer um modelo de negócio que ainda não provou que funciona, o que é puro desperdício de energia e dinheiro.

Isso leva à discussão sobre falhar rápido. Luiz argumenta que falhar deveria ser normal para quem empreende: startups, em sua maioria, deveriam mesmo fechar, porque isso significa que o processo de validação funcionou. O erro está em tentar manter viva artificialmente uma empresa que já deu sinais de que não vai para frente. Ele cita o lema do Lean Startup de Eric Ries, "Fail Fast, Fail Cheap": se o negócio não é bom, que a falha seja rápida e barata, preservando o recurso mais escasso, que é o tempo, para tentar de novo com o aprendizado acumulado. Como ilustração, Luiz conta a história de um ex-aluno que fundou a Go Books, um serviço de aluguel de livros que parecia, de fora, estar indo muito bem, mas que o fundador decidiu fechar ao perceber que não havia tração real, decisão que foi mal compreendida por quem via só a superfície.

Luiz também traça uma diferença importante entre falhar o modelo de negócio e falhar a visão: usando o círculo dourado de Simon Sinek (why, how, what), o "why", o propósito, não precisa morrer quando um modelo de negócio específico não funciona; ele pode assumir outras formas. Esse é, para ele, um ponto que empresas grandes que tentam fomentar empreendedorismo internamente costumam ignorar: o empreendedor toma decisões mais por instinto, quase como arte, enquanto a corporação tende a querer injetar dinheiro e direcionar demais, o que "mata" o processo de aprendizado ágil. Ele cita a Y Combinator como contraponto ao modelo de incubadora tradicional: em vez de proteger e reter só quem está indo bem, a aceleradora funciona como um cilindro por onde todo o grupo passa rapidamente, e tanto empresas que morrem quanto as que sobrevivem seguem adiante sem problema.

Guga conecta essa lógica ao ambiente corporativo: mesmo produtos e negócios que já passaram pelo Product Market Fit em algum momento podem gerar apego institucional quando a empresa decide investir em novas frentes só porque tem estrutura e recursos disponíveis, sem repetir a validação necessária. Ele cita uma frase de Ash Maurya: focar em escalar um produto antes de demonstrar tração inicial é a melhor forma de desperdício que existe.

A conversa então se volta para a trajetória da Trampolim, empresa de Banking as a Service (BaaS) fundada por Luiz e outros sócios a partir de conversas em 2018 na PUC-Rio, com apoio do Instituto Gênesis, incubadora com mais de 200 empresas apoiadas desde 1997. A oportunidade nasceu em meio a uma regulação do Banco Central de meados dos anos 2010 que abriu espaço para instituições de pagamento fora do sistema financeiro tradicional, dando origem a contas digitais como Nubank e Mercado Pago. Luiz reforça, citando novamente Marc Andreessen, que entre equipe, modelo de negócio, ideia, vendas e mercado, o mercado é o fator mais importante, e o setor financeiro, em plena transformação digital e historicamente concentrado em poucos bancos, era um mercado especialmente favorável para empreender.

Entre 2019 e 2020, a Trampolim testou dois produtos ao mesmo tempo: um protótipo de conta digital voltada à geração Z, em parceria com o ex-aluno e influenciador digital Mário Augusto, testado em validações informais dentro da própria PUC; e, paralelamente, um modelo B2B de Banking as a Service. O B2B decolou de forma inesperada depois que um acordo com a Mastercard para lançar o MVP da conta digital virou nota de imprensa, atraindo outras empresas interessadas em criar suas próprias contas digitais usando a infraestrutura da Trampolim. Ao mesmo tempo, o modelo B2C também foi testado, discretamente, até que em agosto de 2020 os influenciadores anunciaram publicamente a conta para seus seguidores, gerando uma adesão explosiva. A empresa se viu, então, com dois modelos de negócio distintos mostrando tração simultaneamente.

Esse cenário levou a um movimento pouco comum: em vez de escolher um único caminho, a Trampolim se dividiu. O negócio B2B seguiu para um processo de fusão e aquisição, já que exigia uma estrutura regulatória pesada demais para tocar sozinho; o B2C virou um spin-off liderado por Luiz e Mário, que deu origem à NG Cash. Luiz explica que esse split só foi possível porque a empresa nasceu com vários sócios-empreendedores, cada um com afinidade natural por um dos dois lados do negócio, o que tornou a divisão mais orgânica, ainda que o processo de governança em torno do M&A não tenha sido simples. Ele reconhece que, se não houvesse essa configuração de múltiplos sócios, a decisão racional teria sido focar no B2B, por ser um caminho de tração mais rápida e menos arriscado; o B2C exige investimento pesado em aquisição de usuários, com custo afundado alto e retorno incerto. Luiz também credita parte do sucesso a "sorte" ligada a estar no lugar certo, na hora certa, com apoio de catalisadores como o selo de credibilidade da parceria com Mastercard/Edenred, o programa de aceleração BNDES Garage e o próprio ecossistema da PUC.

Hoje a NG Cash, fundada formalmente em fevereiro, tem cerca de 26 pessoas e já passou de meio milhão de contas abertas, mas Luiz é claro: ainda não colocaram "a roupa inteira" do Product Market Fit, há desafios em aberto de ativação de usuário, usabilidade e modelo de monetização.

A partir daí, Magno traz a discussão para métricas de produto, propondo três pilares que precisam estar equilibrados para se sentir o Product Market Fit: crescimento, engajamento e receita. Quando esses três pilares estão girando ao mesmo tempo e você começa a ter dificuldade para atender a demanda, é sinal de que encontrou um negócio recorrente e escalável. Luiz confirma que, na prática, a NG Cash acompanha esses números diariamente com uma equipe dedicada, puxando dados de ferramentas como Metabase e Google Analytics, e cita a máxima "what you measure is what you get" de um antigo professor de estratégia. Ele descreve como, em startups digitais, o ciclo PDCA (planejar, executar, checar, agir) gira muito mais rápido do que em empresas tradicionais, às vezes em um único dia.

Luiz acrescenta que, embora os três pilares precisem caminhar juntos, é preciso escolher qual deles vai puxar a estratégia em um determinado momento. A NG Cash optou por priorizar receita, uma escolha menos comum no segmento, inspirada por uma escola de empreendedores conectada à tradição do Garantia/Leblon. Isso não significa abandonar crescimento e engajamento, mas definir prioridade em cada fase.

A conversa também distingue problem-solution fit de Product Market Fit: o primeiro comprova que você resolve um problema real de alguém; o segundo é o momento em que a pessoa está disposta a "tirar dinheiro do bolso" e pagar por isso, e ainda sair satisfeita, porque, como Guga observa, é possível arrancar dinheiro do cliente sem que ele realmente goste do produto. Luiz apresenta então uma equação de bom negócio: existe um valor entregue, intangível, percebido pelo cliente; existe um preço, que é o valor capturado; e existe um custo. Quanto mais distantes esses três pontos estiverem entre si, custo baixo, preço no meio, valor percebido lá em cima, melhor o negócio, porque sobra "buffer" para os dois lados. Quando esses pontos estão muito próximos, ou o valor entregue é baixo, o cliente fica na iminência de trocar de fornecedor assim que aparecer alternativa, e isso se manifesta como churn alto. Negócios que entregam muito valor tendem a ter churn baixo.

Para fechar essa parte, Magno traz uma citação de Josh Seiden, autor de Outcomes Over Outputs: gerenciar entregas (o que o time está fazendo) é um problema, porque nem toda entrega gera valor; da mesma forma, gerenciar apenas métricas macro de negócio, como crescimento, engajamento e receita, pode ser estratégico demais e pouco específico para orientar o time no dia a dia. O ideal é gerenciar resultados: comportamentos específicos que o time provoca no cliente, que são o que efetivamente direciona os resultados de negócio e dá autonomia ao time para achar a melhor solução. No fim, Product Market Fit é justamente a capacidade de um time de gerar, de forma consistente, os comportamentos no cliente que fazem a marca crescer, engajar e faturar, com o cliente pagando feliz pelo que recebe.

Encerrando o episódio, Magno resume a mensagem central: entender os fundamentos importa mais do que buscar fórmulas mágicas; funis e táticas mudam de negócio para negócio, mas ter intenção clara e uma visão que inspira as pessoas, validada por experimentos rápidos, é o que sustenta qualquer trajetória. Luiz fecha com um recado que considera óbvio, mas difícil de praticar no dia a dia: ouça o cliente. Ele recomenda o livro Moments of Truth, de Jan Carlzon, ex-CEO da Scandinavian Airlines System, que reergueu a companhia nos anos 80 ao focar nos pontos de contato com o cliente, e lembra do hábito atribuído a Jeff Bezos de deixar uma cadeira vazia nas reuniões, representando o cliente, como lembrete constante de para quem a empresa realmente trabalha.

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