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Love The People - Ceci Fernandes
Ep. 149

Love The People - Ceci Fernandes

6 de março de 202300:52:49
Agilidade
Facilitação
Love The People
Pessoas

Resumo rápido

Ceci Fernandes, referência em agilidade no Brasil, compartilha sua trajetória desde o Fórum de Software Livre até liderar a área de agilidade no Nubank, e revela como a confiança vem de aceitar que errar faz parte, como a comunidade é o espaço mais generoso que existe, e como a herança multicultural de sua família — brasileira, japonesa, negra e indígena — moldou seu comportamento e sua identidade. Um episódio sobre vulnerabilidade, pertencimento e a coragem de ser autêntica.

Capítulos

  1. 00:00Confiança e a arte de errar diferente
  2. 02:01Quem é Ceci Fernandes: a mini-bio
  3. 04:48Da Caelum ao Nubank: trajetória em agilidade
  4. 15:49Vinho, séries e a vida fora do trabalho
  5. 30:51Comunidade, generosidade e pertencimento
  6. 36:22Origens familiares e identidade multirracial
  7. 45:34Quebra-gelo: amor por São Paulo e o dia a dia

Frases do episódio

É a empatia com a vulnerabilidade da gente falar aos pessoas o que não funcionou, junto com a gente oferecer uma outra coisa que pra gente funcionou, pra você, né?

00:44

Eu sou líder das agilistas, me lembro hoje em dia.

02:01

o que eu gosto muito da comunidade é a generosidade que a gente vê em volta

30:51

O que você vai ouvir neste episódio

  • A trajetória de Ceci Fernandes, migrando da engenharia de software para a liderança de times ágeis no Nubank.
  • A importância de vivenciar os princípios e valores ágeis além das ferramentas e processos metodológicos nas empresas.
  • O papel estratégico da facilitação e da mentoria de pessoas para o desenvolvimento de equipes de alta performance.
  • A contribuição direta da atuação na organização de eventos como a Agile Brazil para fortalecer a comunidade.
  • Estratégias de liderança focadas em pessoas e no diálogo contínuo para impulsionar a agilidade organizacional no setor financeiro.

Temas discutidos

O episódio conecta a evolução da carreira técnica à liderança de pessoas, reforçando que a agilidade sustentável é fundamentada em princípios e valores humanos. Ao discutir a transição da engenharia de software para a gestão de agilistas, o tema evidencia como práticas de facilitação e mentoria fortalecem a cultura organizacional. Além disso, destaca a importância da participação ativa na comunidade ágil para promover o aprendizado contínuo e o aprimoramento das equipes.

Para quem é este episódio

Este conteúdo é indicado para agilistas, líderes de engenharia e gestores de pessoas que buscam aprimorar suas práticas de facilitação. Profissionais que desejam transicionar da área técnica para papéis de liderança ou se engajar na comunidade de agilidade também se beneficiam das experiências compartilhadas.

Sobre a série Love The People

Love The People traz histórias de carreira de pessoas que atuam com agilidade, produto e liderança. São conversas mais pessoais do que técnicas: transições de área, decisões difíceis, aprendizados e o que cada convidado faria diferente. Serve como referência para quem está construindo a própria trajetória profissional.

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Perguntas que este episódio ajuda a responder

Qual é o papel dos princípios e valores na aplicação prática da agilidade?

Os princípios e valores fundamentam a agilidade para além de metodologias ou ferramentas rígidas. No episódio, ressalta-se que focar em pessoas, mentoria e diálogo constante permite adaptar processos às necessidades reais dos times. Essa abordagem orientada a valores ajuda na construção de ambientes colaborativos e no desenvolvimento contínuo de equipes no contexto organizacional.

Como transicionar de uma carreira técnica em engenharia para a liderança de agilistas?

A transição exige migrar o foco da escrita de código para o desenvolvimento de pessoas e a facilitação de processos. Ceci Fernandes exemplifica como a bagagem em engenharia de software contribui para entender os desafios técnicos das equipes, permitindo atuar de forma mais empática e eficiente na mentoria de agilistas e na liderança organizacional.

De que forma a participação na comunidade fortalece a atuação do agilista?

Engajar-se em eventos e comunidades como a Agile Brazil permite a troca constante de experiências, o aprendizado prático com pares e a expansão de repertório. Essa conexão com outros profissionais apoia o desenvolvimento de habilidades de facilitação e mentoria, além de fortalecer a cultura ágil dentro e fora das empresas.

Sobre este episódio

Neste episódio 149 do Love the Problem, Ceci Fernandes — referência em agilidade no Brasil, ex-Caelum, ex-ThoughtWorks e líder da área de agilidade no Nubank — abre uma conversa íntima sobre confiança, comunidade e identidade. Ela conta que a base de sua segurança em público vem de uma frase da mãe: 'erra, mas erra diferente'. Sua trajetória profissional começou no Fórum de Software Livre em Porto Alegre, passou por 9 anos e meio na Caelum (onde aprendeu XP, Scrum, DevOps e Culture Hacking), dois anos na ThoughtWorks e, desde 2018, no Nubank, onde construiu a área de agilidade a partir da aquisição da P-Tec e do Easy Invest. Além da carreira, Ceci revela uma vida pessoal rica: vinho como ritual de fim de dia, séries que provocam reflexão, doramas coreanos, dança de salão, violão e uma cozinha de 20 minutos. A conversa aprofunda a ideia de que comunidades são espaços de generosidade radical, onde a empatia com a vulnerabilidade permite que as pessoas compartilhem o que não funcionou e ofereçam o que funcionou, sem expectativa. Ela também compartilha a descoberta de que sua herança japonesa, por parte do pai, moldou comportamentos que ela não reconhecia — horror ao desperdício, jeito brincalhão, trabalho de pernas cruzadas — o que a levou a se autodescrever como 'mulher branco-asiática'. Um episódio sobre a coragem de ser autêntica, de errar em público e de pertencer.

Transcrição completa

Em casa, minha mãe falava isso pra mim desde muito, muito, muito pequena, que é tipo, erra, mas erra diferente. Só não repete o erro. Mas assim, é erra, não tem problema errar. Erra diferente. A minha casa é muito representativa de mim. Os vinhos estão aqui embaixo à esquerda, o violão tá em cima, à esquerda também. E aí tem meus Harry Potter, todos ali em cima. Eu fui líder dos news posters do beco diagonal ponto com ponto BR lá atrás, quando eu tinha uma equipe de voluntários. Na época do colegial, a gente chegava em casa, fazia a tradução das notícias que saíram no dia sobre o Harry Potter e postava com um comentário nosso a respeito do que a gente achou daquele negócio. Eu tenho meus quadrinhos aqui, o Sandman e o V de Vingança, do meu lado. E a minha casa aqui, ela é muito representativa de mim. É a empatia com a vulnerabilidade da gente falar às pessoas o que não funcionou, junto com a gente oferecer uma outra coisa que pra gente funcionou, pra você, se você quiser tentar, toma aqui. E sem a expectativa de que você vai realmente fazer aquele negócio. É todo um, numa frasezinha que você troca com alguém ali dentro da comunidade, você consegue passar por essas quatro coisas que são muito preciosas ali.

Quem é Ceci Fernandes? Essa é a versão mini-bio da coisa. Eu sou líder das agilistas, me lembro hoje em dia. E você me encontra por aí em corredor de evento de comunidade. Você me encontra por aí com uma taça de vinho na mão. E você me encontra por aí conversando com pessoas ali e tudo mais. Ou então, infelizmente, depois da pandemia, sentado na frente da TV assistindo algum seriado. Então eu acho que eu sou essa pessoa ali. E organizando a JAI Brasil, que é também uma coisa que eu faço faz muitos anos. E continuo nessa toada doida ali. É, principalmente é isso hoje em dia.

Quando eu comecei a trabalhar com agilidade, eu não lembro quando foi, mas não foi tanto tempo assim, porque eu acho que você trabalha com agilidade muito mais tempo que eu. E aí, eu comecei a trabalhar com agilidade, eu ganhei os ingressos, me incentivaram a assistir, acho que foi o TDC em São Paulo. E era ali perto do Hospital das Clínicas. E fui assistir. E aí você palestrou. E aí eu lembro de ficar muito admirada, não só com o conteúdo, mas o quanto você interagia com as pessoas, o quanto aquilo parecia natural pra você, de falar em público. Pra mim, meu Deus, gravar podcast agora eu já acostumei, falar assim no YouTube, beleza, eu tô aqui falando pra minha apresentação e vendo as suas carinhas, mas ainda me dá um nervoso. Quando eu estou lá, tem 300 pessoas me ouvindo, eu falo, não. Que nem aquele meetup que a gente foi do Mulheres das Vistas, tinha mais 100 pessoas. Tava meio nervosa, mas ok. Mas se eu tiver que levantar, pegar o microfone e subir no palco, nossa. Um piriri desgraçado. Pra mim é o contrário. Eu fico muito mais nervosa nesse setting aqui de fazer um podcast, de conversar, de estar gravando e tudo mais, do que eu fico subindo no palco e falando, na JAI Brasil eu falava de código de conduta pra mil pessoas. Tranquilaça fazendo isso. Mas é por causa do tempo de instrutora. Eu fui instrutora pela Caelon por quase 10 anos, 9 anos e meio. E eu fui instrutora por 8 desses anos aí.

Como é que foi até você chegar onde você tá agora? Profissionalmente, eu, lá na sétima série, decidi, não sei se lá que razão nessa vida, que eu queria fazer computação. Vários nomes, teve processamento de dados, análise de sistemas, mas eu queria fazer alguma coisa com essa computação, sentar e escrever umas coisas. Eu falava ali na sétima série que eu queria trabalhar na Macromídia, porque o Flash era incrível na época. É uma ideia de idade pra gente. Não tem o que fazer. E aí eu fui nessa brincadeira ali, e acabei entrando num colegial que era já bem voltado pra preparação pra vestibular e fazer ciência da computação na USP. Aí, no primeiro ano, eu conheci os meus veteranos que me adotaram. Eram três pessoas que continuam meus amigos ali. A Cris Sato, que me conheceu na época do colegial ainda. Ela que me apresentou pra essa galera, me convenceu a ir pra essa faculdade especificamente. E o Corbucci e a Mariana Bravo. O Corbucci e a Mariana Bravo são pessoas que fizeram a organização da primeira JAI Brasil. Então, são pessoas que estavam envolvidas na comunidade de AIO desde muito cedo. E como muita gente que entrou na comunidade de AIO desde muito cedo, vieram do movimento de software livre. A faculdade fazia aí o Fórum Internacional de Software Livre lá em Porto Alegre. A gente pegava um ônibus aqui e descia até Porto Alegre. Demorava qualquer coisa entre 16 e 24 horas pra gente chegar lá. E aí, lá eu conheci o Gui Silveira, que é um dos donos da Caelum. A Caelum, agora todo mundo conhece por Alura. Mas, por conta de a gente ter topado um desafio de programação lá dentro, estar sentado e tudo mais, a gente chamou atenção ali. Um grupinho de estagiários ali. Ou de futuros estagiários. Então, ele falou, ah, vamos lá conversar se você está já na Caelum. E aí, foi esse caminho doido ali, saindo do Fórum Internacional de Software Livre. Acabei começando a estagiar na Caelum. Na Caelum, eu entrei pra desenvolver software internamente. Era uma empresa de treinamento. E aí, eu fiz de tudo. Comecei desenvolvendo software. Sempre de forma ágil. Escrevendo teste, refatorando. A gente sentava pra fazer programação pareada. Tinha um impostor de código. Todas aquelas coisas que a gente fala até hoje pras pessoas que precisam fazer. Eu já fazia desde ali numa viagem de desenvolvimento de software. E a gente começou a usar... Eu falo isso sempre, eu acho que toda vez que eu encontro o Lula, é a que a gente acaba falando que a gente é filho de XP. A gente começou a aprender agilidade por XP. E por práticas técnicas de programação mesmo. E aí, isso é 2007. A gente estava fazendo as coisas com XP. A gente resolveu conhecer esse negócio de Scrum. Então, no final de 2007, a gente começou a mexer com um pouco de Scrum, fazer automação e tudo mais. Depois veio essa chamada de DevOps. Aquele negócio de automação que a gente fazia pra botar as coisas no ar. Daí eu fiz todos os papéis. Fui Tracker de XP. Fui Scrum Master. Fui PO. Todas as coisas podiam ser feitas ali. Comecei a fazer Culture Hacking dentro da Caelon. Dava aula. Era consultora. Primeiro de software. Depois de agilidade. A gente criou o Sistema de Agilidade. Nove anos e meio. Tempo pra caramba de fazer um monte de coisa. E aí eu saí de lá. E aí eu tinha que escolher o que eu ia fazer. Eu conectada com a agilidade já era certo. Já estava bem imersa na comunidade desde 2010. Quando eu fui revisora da JAI Brasil. Lá em Porto Alegre, a primeira. Primeira nos moldes atuais. E queria continuar nisso. Mas tinha várias opções. Você pode ser Agile Coach voltado mais pro processo. Você pode ir mais pra área de engenharia. Você pode ir mais pra área de pessoas. Tinha bem essa divisão naquele momento. E aí, olhando em volta, me pareceu fazer muito sentido voltar pra parte técnica. Porque é onde eu tava vendo o maior gap, maior falta de profissionais. E aí eu fui trabalhar na ThoughtWorks como consultora de software. Entrei falando pra eles: vou passar dois anos aqui, porque eu quero me sentir competente tecnicamente. Aí eles falaram: beleza. Acho que eles não acreditaram. Deu dois anos. Quarto ali no Nubank. Eu tava entrando nessa hora de sair de Tech Lead da ThoughtWorks pra outro lugar. Era ou pra fora do Brasil ou pro Nubank. Sou cliente do Nubank desde sempre. É chato falar isso, mas do Dream Team que a gente teve na Caelum, teve uma época específica que era um time espetacular de pessoas. E dois terços daquele time trabalhavam no Nubank. E a gente ia almoçar às vezes. E alguém falava toda vez pra mim: e aí, quando é que você vai vir trabalhar com a gente? E aí, em 2018, final de 2018, bati na porta. Eles falaram: e aí, vocês ainda querem que eu trabalhe com vocês? É sério? Vamos. Aí a gente fez o processo lá e entrei pra gerir engenheiros. Não tinha as listas ainda no Nubank. Todo mundo era agilista. Isso é conhecimento de agilidade e tudo mais. É esperado de qualquer pessoa. Então, a gente não tinha uma área de agilidade. E aí, com a empresa crescendo, as complicações com as dependências entre áreas estavam ficando cada vez maiores. Aí começou a fazer mais sentido. A gente teve agilistas. A gente contratou primeiro consultoria da P-Tec. E aí foi tão bom que a gente comprou a empresa. A gente adquiriu a P-Tec. E o primeiro grupo de agilistas era agilistas da P-Tec e eu. E aí, um ano e pouco depois, a gente comprou o Easy Invest. E o nosso grupo de agilistas dobrou. E tá bem parecido com a formação atual ainda dele. Que é a galera que veio da P-Tec, a galera que veio do Easy Invest, algumas pessoas fizeram transferência lateral dentro do Nubank mesmo. E agora que a gente tem uma contratação de fora, o Panda, que já é famoso aqui nessas bandas, e a gente vai começar a olhar mais pra fora.

Eu tava até falando do jeito que você fala. Sempre me admirou a segurança com a qual você se comunica. E é muito interessante. Enquanto você foi falando da sua experiência, foi me caindo essa ficha. Não sei se tem também esse lugar pessoal seu de me parecer uma pessoa bem segura. Mas desse lugar de como é importante a gente ter experiência, ter ferramenta, ter repertório pra se sentir mais segura. Porque às vezes eu fico num lugar de autocobrança. Nossa, eu queria ser foda, que nem essas pessoas que eu admiro. Mas é, é todo um caminho. Eu gosto muito de ouvir você falar. A gente teve alguns encontros ali, em podcast, em conferência. Eu acho que as coisas que você fala fazem muito sentido. Você estrutura elas de uma forma bacana. Eu escolho te ouvir falar. Mas eu acho que a gente acaba passando isso quando a gente vai falando mais e mais com as pessoas. O treinamento de dar aula na Caelon ajudou muito. Tinha toda uma técnica de didática. Você aprendia, de fato, a falar e olhar pras pessoas e puxar elas pra dentro do papo. Era parte do treinamento. Mas eu acho que a resposta de se eu sou uma pessoa confiante, eu acho que eu sou mesmo. E isso vem de tá tudo bem de errar. Minha mãe falava isso pra mim desde muito, muito, muito pequena, que é, tipo, erra, mas erra diferente. Só não repete o erro. Mas, assim, é, erra. Não tem problema errar. Erra diferente. Então, eu acho que a confiança vem muito de um lugar de que eu vou falar besteira às vezes. Eu vou tá errada. Mas tá tudo bem. Depois eu chego lá e falo: gente, eu falei besteira agora há pouco. Aprendi um negócio novo. Olha só que legal. E aí a gente segue em frente com a vida. Mas é isso. E o que eu não tenho muito ligado aqui, e que eu percebo em várias pessoas e até tenho que ajudar elas a diminuírem o volume dentro da própria cabeça, é isso do: aí se eu falar besteira. Se você falar besteira, fala besteira. Tá tudo bem. Acho que essa é a fonte da percepção de confiança. Às vezes é o melhor que deu. Ontem eu tava falando com uma mentora minha e ela falou: o que você viveu foi o suficiente. Agora desapega. Desapega e vamos seguir. Ela falou: o que você ganha ficando apegada a isso que você viveu? Seja um erro e tal. Eu fiquei: nossa, para. Quanto tapa. Para com isso. Mas foi muito bom. Foram boas reflexões de o que eu ganho me prendendo ao medo de errar, o que eu ganho me libertando disso também. E botar a nossa autenticidade pro mundo também. Eu fico muito nesse lugar de: o que é único meu e que eu posso dividir? O que o meu coração me pede pra pôr pra fora? Então eu tento pensar nisso. Ah, todo mundo já falou e eu não tenho nada a contribuir. Eu normalmente tento ficar quieta. Mas se me veio, eu tô num lugar muito mais de confiança do meu corpo, do meu instinto, do meu coração. De falar: ah, eu senti de falar isso. Pode ser que nem conecte. E às vezes até me embanano. Mas eu vou lá e boto pra fora. Mas ainda me dá um nervoso de errar. Ainda me pega, lógico. Mas é músculo também. Acho que a gente já parte de um lugar melhor. E eu acho que esse daí eu consigo enxergar em várias pessoas, da disposição pra estar errado. Acho que tem uma diferença entre a gente estar disposto a estar errado e a gente estar confortável em estar errado em público. Mas eu acho que essa disposição é uma coisa que eu vejo muito mais gente do que eu vejo o conforto. Mudar a disposição pra estar errado é mais difícil. Mudar o conforto é basicamente prática.

Me conta um pouquinho, quem é a Ceci fora do trabalho? Ah, por um bom tempo ela foi inexistente, olha que coisa mais absurda. Foi também papo de terapia. Logo no começo, quando eu comecei a fazer terapia, a terapeuta falou: se não existisse trabalho no mundo, não tem mais trabalho, acabou. O que você ia estar fazendo? Brasil incrível. Aí ela olhou pra mim e falou: então é trabalho. Então, eu acho que fora do ambiente de trabalho, você vai me encontrar muito frequentemente com o vinho na mão. O vinho pra mim, eu não sei qualificar, eu não sei as coisas todas de enólogo. Eu bebo, eu gosto de beber vinho, eu bebo vinho. Eu sei os que eu gosto, eu sei os que eu não gosto. Não necessariamente eu sei dizer porquê. E às vezes, eu tenho, no Vivino, faz tempo que eu parei de registrar direitinho, mas eu registrava uma vez cada vinho que eu tomava. E se eu tomei duas vezes o mesmo vinho, eu não registrava a segunda vez. E eu tenho uns 400 e parar ali. Então, com esse tipo de prática, chega uma hora que você consegue reconhecer umas coisas. Mas eu não vou ser a pessoa que vai sentar no teu lado e falar: nossa, mas esse vinho aqui tem aroma de não sei o que, tem tânino. Esse aqui eu gosto. E boa. Eu tenho muita dificuldade de escolher. Aí eu vou no mercado, eu fico olhando, eu pensando, não precisa ser o mais caro. Às vezes eu também não vou comprar o mais baratinho. Aí eu vou vendo a embalagem, aí eu vou lendo atrás. Aí eu sei que eu gosto do vinho que não me pega muito aqui nessa região, perto do maxilar, que não é muito ácido. Mas também que não é um vinho doce. Eu gosto do semi-seco. Aí eu fico, meu Deus, será que esse aqui vai me amarrar a boca? É o máximo que eu sei. Mas a gente vai partindo bem. E eu não bebo muito também. Eu tenho a minha tosse de vinho com frequência. Inclusive, seis e pouco da tarde, se eu ainda tô trabalhando, tô trabalhando com a tosse de vinho do meu lado. Mas ela é o meu marcador de fim de dia produtivo. Então, quando eu tô bem, aí eu tenho vontade de tomar um vinho uma hora. E assim, que é a hora de começar a desligar do mundo do trabalho e começar a conectar com o resto das coisas. E aí, fora do trabalho, durante a pandemia, eu assisti muita série. Muita série, muitas coisas ali. E eu sou uma pessoa estranha que ainda tem TV a cabo. O que usa ela, né? Então, eu boto no Universal Channel e fico assistindo série depois de série, depois de série. Que tipo de série que você gosta? Eu gosto de séries que me fazem pensar, basicamente. E não aquela coisa de puzzle. Não é a vibe Lost da vida. Minha série é tipo aquela série que acontece uma coisa nela e eu falo: puts, eu acho que eu precisava pensar nisso na minha vida. E aí, eu vou parar pra considerar, ver em que momentos que eu passei por uma situação parecida. Como é que eu reagi naquele ponto ali e tudo mais. Então, às vezes, eu até desconecto do que tá acontecendo no episódio. Porque aconteceu uma coisinha e eu vou longe da minha cabeça. Gosto muito de pular de assunto pra assunto dentro da minha cabeça. De me perguntar: nossa, essa palavra vem da onde? Pessoa completamente doida que vai estudar etimologia de palavras. Às vezes, só porque eu fiquei na curiosidade de que mas por que essa palavra é assim? Tem um nome de uma série que você acompanha faz mais tempo? Special Victims Unit. Ela é tensa. Tem que estar com o estômago. Mas uma série tipo Netflix que eu gostei bastante, ela foi cancelada, mas ela volta ainda. D.O.A. Gostei bastante. Gostei de pensar ela na segunda temporada. De cinco ou seis. Que ela já tem a história completa e tudo mais. É dirigida por uma mulher, que é a atriz principal também. E ela e o marido escreveram o roteiro. Tem bastante coisa legal ali. Eu gosto muito de documentário. De qualquer coisa. De qualquer coisa é essa vida. Quando tá passando na TV, eu até paro e assisto. Mas no Netflix, não é uma coisa que eu costumo selecionar pra assistir. Porque eu fico dizendo: ah, eu vou assistir, eu tenho até pouco tempo, deixa eu assistir essa série aqui. No meu caso, eu gosto de assistir série que me deixa mais leve. Porque eu acho que eu sou uma pessoa muito mental. Só que eu sou aquele mental que problematiza. Sempre aquele negócio que eu preciso resolver, que eu preciso, aquele negócio do detalhista. Pra não, pra dar certo. Então eu termino o dia muito cansada. E aí eu gosto de assistir série leves. Eu tô assistindo vários doramas. Drama coreano. Eu me tornei quem eu mais temia. Mas é mó legal. Nem todo dorama é sobre amor. Mas a maioria é. Um que não é sobre amor chama Tomorrow. É sobre prevenção de casos de suicídio. É bom, é legal. Mas ele é uma novela. Ele não é um documentário. Mas ele traz alguns temas polêmicos da Coreia. E a Coreia é um lugar que não gosta de discutir coisa polêmica. Então foi uma série que eu falei: mas é bonitinha, é fofinha, é estilo drama coreano. Mas eu me tornei a pessoa que assiste drama coreano.

Eu tenho violão, eu fazia aula de canto até ano passado, então o violão é mais acompanhamento pra voz. E o meu brinquedo novo é tô tentando aprender a tocar um assalto, que é um instrumento de percussão. Mas não dá pra ouvir, tô tentando aprender. É uma brincadeirinha que eu tô tentando pra movimentar também um pouquinho as mãos. E música é uma coisa que eu gosto muito, muito, muito. Então vira e mexe eu tô aqui pensando numa música e tudo mais, também paro pra pensar no que a pessoa que escreveu aquela música quis dizer naquele momento. Canto música muito mais pela letra do que pelo ritmo. Tem essa relação bem forte com música. E é uma pena que a pessoa que tá no podcast não consegue ver, mas eu fico olhando em volta porque a minha casa é muito representativa de mim. Os vinhos tão aqui embaixo à esquerda, o violão tá em cima à esquerda também, e eu tenho meus Harry Potters todos ali em cima. Ah, tu é fã do Harry Potter? Eu fui líder dos news posters do beco diagonal ponto com ponto BR lá atrás, quando eu tinha uma equipe de voluntários. Na época do colegial, a gente chegava em casa, fazia a tradução das notícias que saíram no dia sobre o Harry Potter e postava com um comentário nosso a respeito do que a gente achou daquele negócio. Aí eu tenho meus quadrinhos aqui, o Sandman e V de Vingança do meu lado. E a minha casa aqui, ela é muito representativa de mim. Até teve uma vez que a gente fez na pandemia uma brincadeira com os agilistas do meu time, que era todo mundo tirar foto da própria geladeira aberta, e a gente fazia o de quem é essa geladeira e o julgamento da geladeira alheia. O que tem nessa geladeira? Tem Yakult, tem vinho, adoro Yakult. Apesar de eu gostar muito de vinho, eu não tenho madega porque eu não gosto de ventoinhas. O barulho da ventoinha. Então, sempre tem vinho, sempre tem Yakult, tem legumes para yakisoba. Eu nunca faço yakisoba, mas eu gosto desses legumes e almoço eles. E é ridículo que a gente já compra ele já cortado, já lavado, você só vira aquele negócio junto com o alho numa panela e resolve em 5 minutos e o almoço tá feito. Manteiga, aí coisas variam um pouco o resto, mas sempre tem água, vinho, Yakult, sempre tem Yakult, vinho e legumes para yakisoba. O pessoal adivinhou tranquilamente, mas o que te entregou deve ter sido o Yakult, acho que todo mundo que fazia reunião comigo às 10 da manhã me via tomando Yakult e o vinho das 6 da tarde todo mundo via também. Eu entro na cozinha e saio, gosto de cozinhar, mas eu entro na cozinha e saio em 20 minutos. É o objetivo é sempre sair da cozinha em 20 minutos. Então, eu tenho dito para as pessoas que eu não gosto de cozinhar, mas eu não sei se eu não gosto de cozinhar ou se eu não gosto de demorar para cozinhar. Porque quando eu vou cozinhar, talvez seja um erro meu, eu já estou com fome. Então, eu não vou fazer um negócio que demora uma hora e meia para ser feito. Isso não sou eu. Meu negócio, joga na panela, ligou e eu ainda sou a pessoa que gosta de jogar as coisas no forno, na panela de pressão, deixo lá e falo: Alex, me lembra daqui a 5 minutos para voltar. E vou ver TV. Esse processo de cozinhar mais lento eu até curto quando tem alguém comigo. Então, um dia eu liguei para uma amiga minha, eu estava sozinha e fiz um video call com ela e fiquei cozinhando. Então, meu prazer não está no cozinhar em si, mas o resultado final eu curto quando fica gostoso. Mas eu normalmente compro muita marmita congelada, salada, e aí eu faço a salada, esquento a marmita, está bonitinha e aí fim de semana eu cozinho uma coisa ou outra. Mas se eu tiver que cozinhar, 10, 15 minutos na cozinha e acabou. E dá para fazer tanta coisa gostosa em 10, 15 minutos na cozinha. Mas aí eu já compro coisa tudo picada, os legumes picados, os molhos prontos. Eu tenho vergonha, mas eu compro até kiwi já cortado. As pessoas que olham no mercado e falam: nossa, mas quem é que tem preguiça de cortar o kiwi? Se eu não comprar ele cortado, eu sei que eu não vou comer ele. Então, é o que é, aceitei o fato. E vou. Eu sou meio assim também, tem que ser uma coisa fácil. Por exemplo, manga, manga eu cortei picado, mas se eu tiver que abrir, cortar a manga, eu vou comer meia manga só, aí o restante vai estragar na geladeira porque eu vou esquecer de comer o resto. Então compra só um potinho pequeno. Qual é o problema? Produção de lixo, aí amigos, lavem o potinho e põe para reciclar se vocês puderem. É o que eu faço, inclusive, todas as coisas vão sendo lavadas e recicladas. É o que dá para fazer nesse momento porque senão a produção de lixo é uma loucura também.

Você falou de música e que gosta muito das letras. Você se conecta mais pela letra. Tem uma coisa que você não escuta? Não tem coisas que eu não escuto, mas eu acho que é mais com relação à letra também. Tem letras ofensivas, letras que colocam pessoas para baixo. Tem muito da desculpa estigmatizar, mas é na minha experiência de olhar para as letras ali, tem muito sertanejo que pelo amor de Deus não dá, é inaceitável. Eu começo a ouvir, eu fico irritadíssima com a música e aí eu desligo ela, vou fazer qualquer outra coisa. Normalmente eu boto outra música em cima para eu apagar aquele negócio na minha cabeça. Mas é muito mais conexão com a letra mesmo. Acho que não é de um ritmo especificamente, mas certamente tem alguns estilos que são complicados. E aí às vezes a música até a gente gosta e acha bonitinha, mas eu parei para ler a letra, fiquei chocadíssima com a letra e falei: ok, não gosto mais dessa música agora. Esses dias eu fui no churrasco e começou a tocar Elche, porque quando eu era adolescente eu escutava, dançava e tal. E aí você começa a prestar atenção na letra e você fala: como é que eu sobrevivi aos anos 90, 2000? Aquela coisa louca. Mas sabe que essas aí, elas são ruins, são ruins. Mas a gente quando era criança, adolescente, a gente não tinha a malícia necessária para a gente conseguir entender. Precisava de uma certa malícia para entender. Hoje em dia tem umas músicas que elas são explícitas, elas são literalmente explícitas, você não precisa ter malícia nenhuma, você só ouve de palavra por palavra, você sabe o que está sendo dito ali. É mais complicado. Essas eu também não curto. Não, Deus, por favor, não.

Eu quero retomar aqui o tema comunidade. Você falou do AIO Brasil, sei que você até hoje participa da organização. Queria entender como está hoje para você a sua relação com as comunidades, o que faz você ainda ser apaixonada por elas. Eu acho que eu estou numa baixa na real de aparecer e ir nos meetups, nas comunidades e tal. Ainda estou me recuperando um pouquinho da comunidade. Mas eu acho que é uma boa coisa da reclusão que a pandemia impôs na gente. Passei muito tempo na minha casa sozinha durante a pandemia. Então até eu olho hoje em dia para os meetups e falo: 50 pessoas em uma sala, será que eu quero fazer isso? Atrás de mim tem uma máscara ainda que me viraram na porta, que eu uso. Eu desço o elevador de máscara até hoje. Essas coisas assim que estão mais complicadas. Mas o que eu gosto muito da comunidade é a generosidade que a gente vê em volta. Às vezes você está com um probleminha ali que você não sabe muito bem como resolver, você começa a conversar com alguém e a pessoa fala: ah, eu acho que eu passei por isso uma vez também, putz, foi uma droga aqui. E aí já tem esse ponto da empatia que normalmente é seguido por: a gente entrou isso aqui, isso aqui não funcionou, mas aí a gente fez essa outra coisa aqui e parece que deu certo pra gente. Então é a empatia com a vulnerabilidade da gente falar uns para os outros o que não funcionou, junto com a gente oferecer uma outra coisa que pra gente funcionou, pra você, se você quiser tentar, toma aqui. E sem a expectativa de que você vai realmente fazer aquele negócio. É todo um, numa frasezinha que você troca com alguém ali dentro da comunidade, você consegue passar por essas quatro coisas que são muito preciosas ali. Então a generosidade é bem incrível dentro desse ambiente. E eu sou cliente de comunidade, eu vim de lá, comecei ali na comunidade de software livre, aí fui pra comunidade ágil. E eu acho que tem muitas das coisas que eu acabei desenvolvendo que foram por causa da comunidade. Inclusive, uma colocação ou outra, uma coisa ou outra. Acho legal também ressaltar que as comunidades, elas não precisam ser só nesses eventos. Acho que esses eventos são muito legais pra você conhecer pessoas de outras realidades, de outras empresas e tal. Mas até dentro da sua própria empresa você pode criar a tua comunidade, de boas práticas, de conversa. Eu lembro que quando eu tava lá na Paga, a gente tinha a nossa comunidade de agilidade, tinha uma de teste, tinha uma comunidade só de mulheres, só de mulheres da Paga. Então a gente foi criando a autonomia que a gente tinha pra sentar e discutir o que a gente queria discutir. E aí tinha muito esse ponto de empatia de tô passando por esse problema, as pessoas, puta, já passei, não passei, o que vocês fizeram, as pessoas pensarem junto em soluções. E acho que me trouxe muitos amigos que ficaram que até hoje eu converso. Não é todo dia, mas assim, esses dias que eu fui no churrasco, eu fui com o pessoal da Paga que eu não vejo há três anos, por causa da pandemia também. Era a mesma coisa, tinha dev, tinha gente que já foi agilista, tinha gente que já tinha sido gerente, tudo lá bebendo, comendo, conversando, falando de tudo um pouco. Então me permitiu expandir esse círculo social também. Acho que o trabalho também teve, e essas comunidades têm um pouco desse lugar social e de pertencimento que eu acho que é necessário pras pessoas. Eu tenho a maior parte dos meus amigos que eu vejo com frequência são pessoas que eu não conheci por causa da comunidade mesmo, e aí viraram amigos e a gente continua se vendo, se falando e tudo mais. E é aquela pessoa que às vezes você olha alguma coisa na rua e fala: putz, essa pessoa aqui ia gostar disso daqui. Pra mim acho que esse é o marcador de amigos, pessoas que às vezes uma coisinha pequena me evoca o pensamento daquela pessoa e é um pensamento querido.

Não tem bastante também comunidades internas. A gente tem as guildas, que são de coisas mais relacionadas ao trabalho. Tem a guilda de documentação e engenharia que a galera quer falar como é que a gente vai fazer isso melhor. Tem grupos de afinidade, você falou das mulheres, a gente tem cinco grupos de afinidade principais no Nubank e a gente tem conversas bem diferentes. Tem os grupos de afinidade das pessoas que fazem parte do grupo e tem os grupos de aliados daquele grupo subapresentado também. E a outra coisa que eu gosto muito é que a gente tem os canais de nananã anônimos. Então tipo, quando eu era tech manager, tinha tech managers anônimos, que era a galera que a gente ia almoçar junto e abrir o coração e falar das frustrações da semana. Era no Slack, quando você manda mensagem e sai anônimo. É na vibe alcoólicos anônimos, um grupo de apoio pra você conseguir manter bem encaminhado numa direção ali. Então tipo, tinha tech managers anônimos. Essa semana e essas semanas que teve performance cycle, eu faço um trabalho lá que chama cross calibration, não vou nem explicar porque é um trabalho necessário, complicado de explicar, bem pesado pra fazer, acontece tudo em uma semana e meia. E aí eu montei um cross calibration anônimos ali. E aí é a coisa, às vezes ficam muito frustrados com uma coisa, se tem onde você colocar a mensagem falando: eu não acredito que eu tô ouvindo esse negócio aqui. Ou então: gente, olha só que negócio legal que aconteceu aqui. É o grupo seguro pra você falar as coisas que você tem na sua cabeça e você sabe que você vai ter um acolhimento bom ali dentro. Um grupo já nasce com esse propósito do acolhimento.

Você falou que ficou em casa na pandemia. Queria entender um pouquinho desse seu. Onde você mora, você tá em São Paulo, onde você tá, se tu é de São Paulo. Contar um pouquinho da origem da tua família. Posso. Então eu sou nascida e criada em São Paulo, adoro a cidade, gosto muito daqui. E eu vivi a maior parte da minha vida no Jabaquara, perto da divisa de Ademo. E aí eu fui morar um pouquinho ali na Augusta, literalmente na Augusta, que é o melhor lugar dessa cidade inteirinho. É um lugar onde se vê livros muito diferentes, interagindo e se respeitando profundamente e convivendo no mesmo espaço apertado. É incrível, adoro a Augusta. E aí na pandemia acabei vindo pra Vila Mariana, que é onde eu moro hoje. Então eu tô no meu apartamento aqui e passo uma boa parte do tempo ainda aqui, mas agora a gente tá podendo ir pro escritório. Você faz um agendamento pelo calendário ali e vai pro escritório quando você quiser. Então normalmente eu tenho ido três vezes por semana pro escritório. Eu adoro trabalhar no escritório. Sou doida de trabalhar no escritório. Eu gosto muito de não lavar a louça no meu almoço. Pra não ter que lavar a louça. Na questão de origem, eu sou mestiça. Acho que a gente usa assim ainda hoje. Meu pai é brasileiro, família brasileira, acho que a melhor forma de explicar é brasileiro, que vem de todo lugar e tudo mais. E a família da minha mãe é o lado japonês da família. O meu bisavô por parte de mãe chegou no Brasil no segundo navio que veio e aí eles foram pra lavoura e tudo mais, na região de Veracruz e tal. Minha avó é que veio pra São Paulo. E essa minha avó é a minha avó que passou minha infância comigo, que me criou. É meio errado falar que me criou, porque meus pais me criaram, mas ela que passava a maior parte da semana comigo. Meus pais trabalhavam, os dois, eles trabalhavam do outro lado da cidade, então era muitas horas de eu e minha avó. Minha avó trabalhava ainda na época, ela era costureira. E a minha avó foi a razão pela qual eu não fui morar fora. Entre a TW e o Nubank, eu escolhi ficar no Nubank porque ela tava bem velhinha. Eu resolvi ficar e aproveitar os últimos anos dela por aqui. A família da minha mãe eu sei que tem negros, portugueses e índios. Então a minha mãe é uma mulher negra do cabelo liso, por exemplo. E meu pai vem da família japonesa também, então meus avós vieram também trabalharam na roça. Que meu pai diz na roça. Mas meus pais conheceram em São Paulo. Só que eles não falam muito das histórias. E aí, acho que é legal a gente entender um pouco de onde a gente veio, as histórias das nossas famílias. Eu acho que eu acredito nisso, mas eu sou uma pessoa meio abraçadora de árvores. Eu acho que a gente nos nossos dias carrega um pouco das histórias da nossa família, e parte do nosso comportamento e das nossas predisposições pra mim vem também desse lugar. Então entender mais desse passado, honrar esse passado não quer dizer que eu preciso repeti-lo. Isso quer dizer que eu tomo consciência, eu respeito e aí eu sigo em frente, diferente ou não. Então quanto mais eu tomo consciência disso, mais também eu me aceito como eu sou. Esses dias eu tava vendo os vídeos que eu te falei que eu comecei a ver drama coreano e aí no meu Instagram de repente o Instagram começou a me mostrar vários conteúdos de lá. E eu comecei a ver alguns atores e cantores se comportando de uma maneira muito parecida que minha família se comporta. Olha, porque eu nunca fui muito conectada com os avós da minha mãe, os pais da minha mãe não conheci, eles faleceram antes de eu nascer. E fui pouco conectada com a minha avó materna até conheci, vivia um pouco com ela nas minhas férias, mas não era meu Deus como eu vivia com a minha avó. E aí eu fui vendo comportamentos muito parecidos. Eu fiquei pensando: será que os asiáticos se comportam assim? Será que eu me comporto assim por causa disso? Eu nunca tinha me tocado que o jeito que eu me comporto tem muita influência da parte oriental do meu pai. Eu achei muito louco porque eu estou em um outro país com uma outra cultura e eu cresci com outras crianças que não tinham nada a ver com a cultura asiática. Mas pega, né? Muito, muito. Eu fiquei muito abismada. E aí isso me ajudou muito no lugar de aceitação, porque às vezes eu me criticava porque eu tenho um jeito meio brincalhão de ser. E aí eu ficava vendo os homens lá grandão, brincalhão e às vezes até carinhosos uns com os outros. Então tá tudo bem, se eles são, eu também posso. E isso é. Eu achei bem bonito o que você falou, acho que faz bastante sentido. A gente traz alguma coisa com a gente ali, às vezes é de genética até, tem comprovação disso. Eu fui fazendo aqueles exames que você manda, eles te falam de onde veio essa família, vários marcadores genéticos e tal. Achei muito divertido. Fiz eu, minha mãe e meu pai, várias loterias genéticas. Inclusive minha mãe tava bom, meu pai não tava tão bom, meu foi bom, ganhei a loteria. Mas isso que você falou achei bem bonito, inclusive porque é um processo mesmo da gente se enxergar como uma pessoa multirracial. Que no final das contas tanto a sua família quanto a minha, a minha por parte de pai e a sua por parte de mãe, é bem misturada. Tem pessoas negras, tem pessoas indígenas, tem pessoas que vieram de vários lugares do mundo e tudo mais. Eu me reconheci muito nisso que você falou. É só o gênero dos pais ser trocado ali na história. Mas por exemplo, eu me chamava de, quando eu ia me fazer a autodescrição ali dentro de uma reunião e tudo mais, eu falava: eu sou uma mulher branca, porque entendendo ali basicamente tenho os privilégios de ser uma mulher branca. E aí em algum momento me caiu essa ficha assim, tipo, não, acho que tem várias coisas que eu faço que são de origem oriental de alguma forma que tem a ver com a minha avó que fez uma parte muito grande da minha criação e tudo mais. Horrorizada com desperdício, sabe, você falou da meia manga que se traga na geladeira, eu sinto toda dor, porque é isso, vem daí, vem desse lugar. Enfim, outras coisas ali. E aí em algum momento desse ano, desse último semestre, eu fui me apresentar pra um grupo ali, junto com a Prisouza que fez a primeira palestra no JAI Brasil, outro no JAI Brasil anterior, falando sobre No Blacks, e eu falei que eu sou uma mulher branco-asiática. E aí ela me mandou uma mensagem na hora emocionada: com você fazendo isso, que ela percebeu essa mudança pequenininha acontecendo ali. Mas foi uma mudança que foi bem significativa. Que bonito. Você falou desse negócio de se reconhecer asiática, vamos criar o grupo Asiáticos Anônimos. Mas tem bastante gente, inclusive influencers e tal, que falam dessa influência. Eu vi um vídeo assim, diga que você é asiático sem saber que você é asiático, e era um vídeo da Coreia. E aí o menino tava, primeiro de, aí nas cruzadas, vocês não tão me vendo, mas eu normalmente trabalho de perna cruzada. Eu não trabalho com as pernas pra baixo, eu tô com elas cruzadas nesse momento. Inclusive eu também. Exatamente. Aí o Mauro deixou a comida cair na mesa, ele pegou rapidinho pra comer, porque esse negócio de desperdício é muito verdade. Desperdiçar comida? Você tá louco? Tem que comer até o final. Nossa senhora, depois no prato, termina de comer.

Vamos pro nosso finalzinho. A pergunta que me veio aqui é: o que você ama sobre a sua cidade? Nossa, eu amo que as coisas acontecem em todo lugar e o tempo todo. Eu sei que parece besteira quando as pessoas falam assim: ah, eu posso pedir, sei lá, comida alemã, as quatro pra amanhã. Mas eu sou literalmente essa pessoa. Eu sou uma pessoa extremamente noturna, que usa a cidade em horários bizarros e a cidade me atende nos horários bizarros que eu uso ela. E a outra coisa que eu acho é a coisa que eu falei sobre a Augusta, é uma quantidade de cultura e pessoas muito diferentes e pessoas que provavelmente em outros lugares do mundo, em outras até cidades aqui dentro do Brasil não se encontram, mas que nesses lugares onde eu escolho conviver aqui dentro de São Paulo elas estão juntas, elas interagem e elas estão em paz. Acho que essa é a coisa que eu acho muito bonita a respeito de São Paulo. O que vai ser a primeira coisa que você vai fazer depois do trabalho hoje? Vou na casa de um grupo de amigos, depois eu vou sair pra dançar e eu faço dança de salão. E aí eu gosto muito de samba de gafieira e hoje é a noite de, porque eu sou bem jovem, vocês separaram, eu vejo novela coreana, eu danço boleros. Então vai ser hoje a noite de boleros e samba de gafieira. Coisa bem de gente jovem, só que não. É isso que eu vou fazer hoje. E você? Eu vou tentar ir pra academia. É bom que eu fale assim de voz alta, porque aí depois eu fico com vergonha de mim. O compromisso. Mas eu fiz dança de salão quando eu era criança e eu adorava. Gafieira também é complexo, é difícil, mas é legal, é divertido. Gente, façam. É muito legal. O que você criou hoje? Nossa, eu criei os três documentos hoje já com você, eles sempre me geraram valor. Então eu não tô considerando muito eles. Não, você criou um episódio incrível do Love the People, do Love the Problem. É isso? Eu não tinha muito tempo. Muito bom. Qual foi o seu ponto alto de hoje? Nossa, meu ponto alto de hoje, acho que foi essa call. Acho que foi essa call com certeza. Eu gosto do que eu faço, mas eu tenho um lugar, acho que forte, de autocobrança. E quando as coisas não saem eu tendo a me frustrar. Normal, só que às vezes essa frustração ela me cansa. Eu vou ficando frustrada, eu vou ficando cansada. Então ter esse lugar de conexão me reabastece. Eu sou uma pessoa extrovertida, então eu me preencho de energia quando eu me conecto num certo nível de profundidade também. Quando eu só brinco no rato, beleza, mas eu gosto desse lugar de profundidade também. Então acho que meu ponto alto do dia é esse. Muito bom. Que honra. Quer mais uma? A frase é complete: eu me sinto super maravilhosa quando... Três pontinhos. Nossa, meio raro me sentir super maravilhosa. Eu acho que eu me sinto super maravilhosa quando eu faço uma palestra muito boa e eu saio do palco com aquela sensação de que eu entreguei exatamente a mensagem que era pra eu ter entregue. Acho que essa é a. Eu me sinto mesmo, me dá uma bela de uma subida de moral. Então tipo, aquela mensagem, aquela coisa central, aquela ali, as pessoas entenderam. Pode ter doído, mas elas entenderam. Nossa, eu também te imaginei quando eu perguntei palestrando. Eu gosto muito de te ver palestrando e dá pra ver a energia e o amor que você tá entregando ali. E a verdade com a qual você tá se comunicando, dá pra ver que aquilo é verdade pra você. Isso é muito bom. Ai gente, tô muito feliz de ter te recebido. Obrigada pelo convite. Obrigada, sempre fui sua fã, agora você sabe. E muito, muito honrada. Quer passar um recado final aí pra galera? Não acho que eu vou agradecer pra galera que ficou até aqui ouvindo a gente. E é bem diferente mesmo esse formato de falar um pouco sobre a pessoa mesmo e tal. Achei bem bacana, bem na onda de desmistificar, que as pessoas, nossa, parece que a pessoa só trabalha e tal. Não, a gente faz outras coisas também. Então achei bem legal. E agradecer você, na verdade, pelo convite, pelo papo. Foi um papo muito gostoso mesmo. E eu também tô saindo energizada daqui hoje. Ai que bom. Obrigada, pessoal.

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