
Ep. 43 - Qualidade, qualidade qualidade
Resumo rápido
Neste episódio, Samanta Cecília percorre sua trajetória por Infoglobo, Concrete, Paysertify e Pagar.me para mostrar que toda cultura de qualidade genuína nasce de problemas reais identificados no dia a dia, nunca de diretrizes impostas de cima, e defende que qualidade envolve tanto a expectativa do cliente quanto a saúde e confiança do próprio time.
Capítulos
- 04:20Qualidade como conjunto de expectativas que você não controla
- 10:38Infoglobo: uma cultura de qualidade nascida do problema real
- 20:22Concrete: de contribuidora a gestora de 50 pessoas
- 39:19Paysertify: construindo qualidade do zero numa startup
- 48:13Pagar.me e o modelo de times habilitadores
- 54:05O caso do mainframe em COBOL e a suíte de 8 horas
- 58:32Dicas práticas para quem não fala de qualidade ainda
Frases do episódio
O que você vai ouvir neste episódio
- Lula e Samanta Cicília analisam a relevância real da preocupação com qualidade durante processos de transformação digital.
- Samanta compartilha sua jornada profissional e sua experiência prática acumulada na comunidade Agile Testers.
- O debate aborda a atuação de lideranças técnicas no direcionamento da qualidade dentro de equipes de tecnologia.
- Os participantes discutem o entendimento conceitual e prático do que significa construir produtos com qualidade.
Temas discutidos
A discussão sobre qualidade conecta-se diretamente à agilidade e à cultura organizacional ao questionar se os processos de transformação digital realmente incorporam a excelência técnica desde a concepção do produto. Sob a perspectiva de liderança e educação contínua, pensar em qualidade exige uma mudança estrutural na forma como os times planejam, testam e entregam valor. Dessa forma, a qualidade deixa de ser apenas uma etapa de validação final para se tornar um elemento central de governança, eficiência operacional e evolução sustentável das empresas.
Para quem é este episódio
Este episódio é recomendado para Tech Leads, profissionais de Garantia de Qualidade (QA) e lideranças de transformação digital. Esses perfis encontrarão reflexões valiosas para estruturar práticas de qualidade eficazes e alinhar entregas técnicas aos objetivos estratégicos da organização.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
Qual é o papel da qualidade em uma transformação digital?
Em uma transformação digital, a preocupação com a qualidade deve ser genuína e integrada ao fluxo de trabalho, e não um aspecto secundário. A qualidade assegura que a modernização tecnológica e a agilidade tragam resultados consistentes, reduzindo retrabalho e garantindo que os produtos atendam de forma confiável às necessidades do negócio e dos usuários finais.
Como a trajetória em teste de software contribui para a liderança técnica?
A experiência prática em testes de software e o engajamento em comunidades como o Agile Testers desenvolvem uma visão holística do produto. Essa bagagem permite que lideranças técnicas, como Tech Leads, promovam uma cultura de prevenção de falhas, orientem a equipe no planejamento de qualidade e estabeleçam padrões elevados durante todo o ciclo de desenvolvimento.
O que significa de fato pensar em qualidade no desenvolvimento de produtos?
Pensar em qualidade significa ultrapassar a simples execução de testes no final do processo e adotar uma postura preventiva desde a concepção do produto. Envolve o alinhamento entre times técnicos e de negócio, a disseminação de boas práticas de engenharia e o comprometimento contínuo de toda a organização com entregas eficientes, estáveis e de alto valor.
Sobre este episódio
Neste episódio, Samanta Cecília, referência nacional em qualidade de software, percorre sua trajetória profissional (Infoglobo, Concrete, Paysertify e Pagar.me) para mostrar que toda cultura de qualidade genuína nasce de problemas reais identificados no dia a dia, nunca de diretrizes impostas de cima. Ela define qualidade como um conjunto de expectativas de diferentes pessoas (cliente, time, negócio) que, por natureza, não se controla totalmente, e alerta contra o erro comum de tentar resolver qualquer problema de qualidade com a mesma ferramenta genérica, sem antes investigar o problema específico do contexto.
Na Infoglobo, em 2012, ela viveu o nascimento orgânico de uma cultura de qualidade a partir da insatisfação de dois desenvolvedores com problemas em produção, evoluindo depois para DevOps ao enfrentar processos de deploy custosos e arriscados. Na Concrete, consultoria onde acompanhou o crescimento da área de QA de sete para cinquenta pessoas, aprendeu a demonstrar valor de qualidade mesmo em contextos onde clientes não o valorizavam explicitamente, e construiu uma cultura interna forte de comunidade e compartilhamento entre escritórios. Na startup Paysertify, construiu uma estrutura de qualidade do zero, reforçando que o que diferencia startups de sucesso não é fazer as coisas 'de qualquer jeito', mas justamente a qualidade pautada numa visão sistêmica do negócio.
Atualmente na Pagar.me, ela descreve o modelo de 'times habilitadores', inspirado no livro Team Topologies: especialistas em qualidade, infraestrutura e segurança que não atuam como um gate de aprovação, mas como suporte que ajuda times de produto a ganharem autonomia real, com métricas e diretrizes compartilhadas. É contado um caso vívido de um banco público brasileiro em que um time percebeu que seu verdadeiro trabalho era disseminar cultura de qualidade, não apenas melhorar uma ferramenta de teste para mainframe, em contraste com outro time que automatizou testes sem entender o problema real, resultando numa suíte que levava oito horas para rodar.
O episódio encerra com conselhos práticos: identificar problemas visíveis como retrabalho por defeitos, desconfiar de métricas de vaidade como número bruto de deploys, e reforçar que qualidade também é sobre a saúde e confiança do time, que precisa aprender a negociar e defender seus próprios requisitos como legítimos, não apenas atender pedidos externos sem questionar.
Transcrição completa
Este episódio recebe Samanta Cecília, referência nacional em qualidade de software e cocriadora do Agile Testers, para discutir por que qualidade continua sendo um assunto negligenciado mesmo num mundo cada vez mais dependente de software.
O problema de abertura é direto: apesar de o software estar por trás de praticamente tudo hoje, qualidade ainda é um tema frequentemente evitado dentro das organizações, muito mais fácil falar de fluxo, negócio ou produto do que do domínio técnico e da qualidade propriamente dita. Samanta reforça que, embora se fale mais sobre qualidade hoje do que há alguns anos, nem sempre esse interesse é genuíno. Ela define qualidade como um conjunto de atributos ligado à expectativa de diferentes pessoas, algo que, por natureza, você não controla totalmente. Isso inclui não só a expectativa do cliente final, mas também a do próprio time: um software sem cuidado com testabilidade e manutenibilidade vai gerar dificuldade constante para quem precisa dar manutenção a ele, mesmo que o cliente nunca perceba isso diretamente.
Um erro comum apontado é tentar resolver todo problema de qualidade com a mesma ferramenta genérica, 'ah, precisa fazer teste unitário', sem antes investigar qual problema específico de qualidade realmente precisa ser resolvido naquele contexto. Isso exige conhecer o usuário final, entender o negócio (inclusive questões regulatórias, que podem gerar multas se ignoradas) e considerar a saúde do próprio time, evitando cenários em que um produto de sucesso é sustentado às custas de hora extra e deploys de madrugada.
Samanta conta sua trajetória profissional em detalhe, cada etapa marcada por resolver um problema real específico. Na Infoglobo, em 2012, entrou como estagiária num time de qualidade que nasceu não de uma decisão de diretoria, mas da insatisfação de dois desenvolvedores com a quantidade de problemas em produção. O time experimentou formatos até descobrir o que funcionava, incluindo colocar profissionais de QA dentro dos times de desenvolvimento em vez de um silo isolado. Resolvido esse primeiro problema, surgiu o seguinte: o processo de deploy era caro e arriscado, exigindo janelas específicas à meia-noite. Isso a levou a se aprofundar em DevOps, aprendendo a criar pipelines e ferramentas de observabilidade, até o time conseguir sair de deploys raros e tensos para múltiplos deploys automatizados e confiáveis por dia.
Um ponto de virada pessoal veio quando o principal stakeholder do software que ela desenvolvia decidiu bloquear qualquer nova entrega em produção, com medo de quebrar algo, um sintoma claro, segundo ela, de um problema de qualidade real e não resolvido. Foi perseguindo esse tipo de problema que ela se aproximou da comunidade de testes, participando de eventos desde 2012 (incluindo o Test Day em São Paulo, onde conheceu Galani, seu parceiro no projeto Agile Testers).
Na Concrete, uma consultoria de tecnologia, Samanta viveu sua virada de contribuidora individual para gestora, acompanhando o crescimento da área de QA de cerca de sete para cinquenta pessoas espalhadas por diferentes escritórios do país. Ali ela trabalhou com Andressa Chiara (referência recorrente no podcast) e aprendeu a lidar com a natureza particular da consultoria: mesmo quando um cliente não valorizava explicitamente testes automatizados ou não incluía um perfil de QA no contrato, o time às vezes decidia investir nisso mesmo assim, não para o cliente ver, mas para a própria saúde e confiança do time em fazer mudanças com segurança, e depois usava esse resultado concreto para demonstrar valor e negociar a inclusão desse perfil em contratos futuros. Ela descreve a cultura de comunidade interna criada na Concrete: encontros regulares de capítulo de QA, conectando escritórios de diferentes cidades por videoconferência, com apresentações internas de técnicas e rotação de pessoas entre diferentes especialidades (mobile, API, web) para evitar isolamento e estagnação, mesmo estando cada QA fisicamente alocado dentro de times de clientes diferentes.
Da Concrete, Samanta foi para a Paysertify, uma startup de São Francisco com time distribuído globalmente, como Head de QA, um desafio de construir toda a estrutura de qualidade do zero, num time pequeno recém-saído da fase de validação de hipótese de produto. Ali ela teve contato direto com clientes e com todas as áreas da empresa, uma experiência que reforçou uma ideia central: o que diferencia uma startup de sucesso não é fazer as coisas 'de qualquer jeito' por conta do clima acelerado, mas justamente a qualidade do que entregam, pautada numa visão sistêmica do negócio como um todo, cliente, produto e time.
Atualmente na Pagar.me, Samanta descreve um cenário diferente: os times já se importam genuinamente com qualidade e escrevem testes automatizados por conta própria, mas falta uma estrutura que facilite e unifique esse esforço. Ela cita o livro 'Team Topologies' como referência que deu nome a um modelo que já vinha aplicando intuitivamente: em vez de um time de QA isolado que só recebe e testa demandas (criando um gargalo), ou um modelo em que cada time tem seus próprios especialistas mas ainda corre risco de silos internos, o modelo adotado na Pagar.me usa times especialistas (em qualidade, infraestrutura, segurança) que 'habilitam' outros times, não como um gate que aprova ou reprova, mas como suporte que ajuda os times de produto a ganharem autonomia real, com métricas e diretrizes compartilhadas em vez de controle centralizado. Ela compartilha, com evidente orgulho, um exemplo recente: seu time identificou e resolveu sozinho um problema sistêmico, sem qualquer intervenção direta dela, sinal, para ela, de que esse modelo de habilitação está funcionando de verdade.
É contado um caso adicional, de um grande banco público brasileiro atendido em consultoria: um time que desenvolvia ferramentas de teste automatizado para mainframe em COBOL, algo raro no mundo, ilustrando a capacidade técnica brasileira, inicialmente via seu trabalho apenas como melhorar a ferramenta em si, até perceberem, num momento de clareza coletiva, que o verdadeiro objetivo era disseminar uma cultura de qualidade, não apenas adicionar funcionalidades a um software. Em contraste, é citado outro time do mesmo contexto que automatizou testes apenas na interface, sem entender o problema real, resultando numa suíte de testes que levava oito horas para rodar, evidência de solução aplicada sem compreensão do problema original.
Para encerrar, Samanta dá conselhos práticos para quem está num contexto onde qualidade simplesmente não é pauta. Primeiro: identifique problemas visíveis, como a taxa de retrabalho gerada por defeitos que chegam ao cliente, dado que às vezes fica isolado apenas na área de atendimento, sem nunca chegar ao time de desenvolvimento. Segundo: cuidado com métricas de vaidade, fazer cinquenta deploys num dia não significa nada de bom se quarenta e nove deles forem correções emergenciais do primeiro deploy quebrado; o que importa é acompanhar quantas entregas geram problemas reais. Terceiro: reforçar que qualidade também é sobre a saúde do time, não apenas do cliente: um time sem confiança para fazer mudanças, sempre apagando incêndio, tem um problema real de qualidade que precisa ser resolvido, e parte disso envolve o próprio time aprender a negociar e defender seus requisitos como legítimos, não apenas atender pedidos externos.
Episódios relacionados
- Ep.5 - Leadership Club - Produtividade Sustentável: como a Cultura Ágil transforma pessoas e resultados
Neste episódio do Leadership Club, CFC Rezende recebe Patricia Couto, Gerente Executiva, e Caroline Crevelaro, Agile Lead, para uma conversa profunda e prática sobre um dos temas mais críticos nas organizações hoje: produtividade sustentável. Ao longo do episódio, o trio questiona a visão simplista que associa produtividade apenas a velocidade, controle ou corte de custos, e propõe um olhar mais sistêmico, que integra negócio, pessoas, cultura e processos. A conversa passa por temas como: A liderança e sua influência no sistema. Clareza e alinhamento de prioridades. Melhores formas de tomada de decisão. Papéis e responsabilidades. Métricas que importam e previsibilidade. Segurança psicológica e os riscos do microgerenciamento. Pati e Carol trazem experiências reais de transformação em grandes organizações, discutindo como métodos ágeis, design organizacional e boas escolhas de gestão podem criar ambientes mais eficientes sem sacrificar saúde, engajamento e resultados no longo prazo. O episódio também provoca reflexões atuais sobre o papel da IA na produtividade, separando hype de valor real e reforçando que tecnologia sem clareza, cultura e intenção só acelera o caos. Se você é uma liderança que quer ir além da lógica do “fazer mais com menos” e construir resultados consistentes, humanos e sustentáveis ao longo do tempo, solta o Play e vem com a gente!!
- Ep. 265 - Do Cronograma ao Roadmap: quebrando a rigidez com entregas de valor
Sabe aquela sensação de incômodo de estar sempre correndo atrás da data — e não do valor entregue? Neste episódio, gravado direto do SGRio, a Flor conversa com Lucas Freitas e Luiz Brigido sobre como mudar esse cenário. Eles compartilham uma história real de transformação: como um time conseguiu sair da rigidez do cronograma para a fluidez do roadmap. Entre dependências, entregas fatiadas e muita colaboração, eles mostram que planejar não é prever o futuro — é criar caminhos de aprendizado, confiança e entrega contínua. Um papo leve, cheio de insights e lições práticas pra quem quer entregar mais valor com menos dor de cabeça. E aí, quer transformar a realidade do seu time também? Então vem com a gente!
- Ep. 260 - Encontro de podcasters - Além da agilidade
Neste episódio, Alison Laurentino do podcast Agilizem, reuniu os podcasts mais relevantes no tema de transformação ágil no mercado, foram eles, Flor (Love the Problem), Ibson Cabral (Pipoca Ágil), André Moleiro (Wave Agile), Egídio (Agile RiseUp) e Barizon (Comunidade Ágil), para uma conversa sobre suas experiências, desafios na produção e o dia a dia de seus canais. Eles compartilharam as desafios, aprendizados, origens de seus podcasts, planos futuros e novidades. Solta o Play!
- Ep. 240 - Marketing em Movimento: A dança ágil fora da tecnologia
Neste episódio exploramos a interseção entre agilidade e marketing, com uma análise de como as práticas ágeis, tradicionalmente associadas ao setor de tecnologia, estão sendo eficazmente implementadas no domínio do marketing. Nossos especialistas, Rafaela Fonseca, Daniele Sitko e Oseias Arnaldo, compartilham suas perspectivas sobre a transformação do marketing através de metodologias ágeis. Falam também, sobre o impacto positivo da agilidade na priorização de tarefas e na obtenção de resultados mensuráveis, redefinindo o cenário de marketing . Este episódio é uma referência essencial para profissionais interessados em incorporar práticas ágeis em suas operações diárias, promovendo a eficiência e a inovação. Solta o play!