Projetos com Agilidade teriam 268% mais chance de falhar. Será verdade? 

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A polêmica da semana é sobre o suspeitíssimo “estudo” afirmando que projetos com Agilidade teriam 268% mais chance de falhar.  Muito rapidamente os cavaleiros do apocalipse já se apropriaram do conteúdo para poder dizer que já sabiam! Claro que esse tipo de artigo provoca mais desinformação do que qualquer coisa, então vamos colocar as coisas em pratos limpos aqui.

O artigo teve uma intenção e viés de promover um novo método, e naturalmente usou como “isca” e viés de comparação um inimigo que ganhou muita notoriedade nos últimos anos. A tal “agilidade” (a letra minúscula têm um super motivo!).

Olhando mais de perto o tal estudo, o primeiro ponto que chama muito à atenção é que o artigo define que FALHA é quando um projeto atrasa. Ou seja, o estudo parte do ponto de vista de projetos feitos em modelo sugerido pela empresa que criou o “estudo”, onde tempo, custo e escopo são fixos, previsíveis e, como já sabemos há décadas, muito difíceis de acertar. Entendemos o porquê de avanços em produtos e serviços ainda serem tratados como projetos, pois existem amarras orçamentárias em muitas empresas. Mas o sucesso ou insucesso de um projeto está há muito tempo longe de ser apenas uma entrega na data. 

Preocupação do Passado em Gestão de Projetos

A Agilidade trouxe uma visão centrada no cliente, onde o objetivo é a criação e entrega de valor real antecipada e contínua. Porém, do ponto de vista mais tradicional, muitas vezes o conceito é confundido com anarquia, bagunça ou mesmo com a total falta de planejamento. Nada disso é verdade, mas esses argumentos anti-agilidade não são nada novos. No 7th Annual State of Agile Development Survey (7ª Pesquisa do Estado do Ágil) da VersionOne em 2012, um slide já chamava a atenção listando as “críticas” mais frequentes ao Agile:

Parte do relatório do 7th State of Agile Survey sobre projetos ágeis. Explicado no decorrer do texto.
Maiores preocupações para adotar Métodos Ágeis

No top 5 temos: falta de planejamento prévio (34%), perda de controle para gestão (31%), oposição da gestão (31%), falta de documentação (26%) e falta de previsibilidade (24%). Ou seja, todas preocupações 100% oriundas do pensamento tradicional ainda baseado no modelo cascata.

O “estudo”

De fato, o estudo que tomou repentinamente a internet esses dias passa pelo mesmo tipo de argumentação, e o pior, o faz com o único propósito de vender sua ferramenta chamada “Impact Engineering” da Engprax. Era um clickbait (isca de cliques), e muita gente caiu nele. Seja para corroborar ou discordar da informação.

A pesquisa foi feita com exatamente 600 engenheiros de software, porém todos clientes de uma única empresa de consultoria. Desses 119 afirmaram ter fracasso em projetos. Os tais 268% são baseados nessas 119 respostas. O critério utilizado para sucesso ou fracasso é entregar todo escopo no prazo. O fator que 97% dos entrevistados consideravam ser o mais importante. Seja sincero, de todos os critérios possíveis como: Satisfação do Cliente, Receita, Redução de Custos, Redução de Churn, Frequência de entrega, complexidade de manutenção etc. Realmente entregar todo o escopo no prazo é o preferido entre 97% das pessoas? Isso já levanta muitos questionamentos. O estudo conclui que se a tal ferramenta for utilizada poderia impactar a indústria de software em US$130 bilhões só nos EUA e £7 bilhões no Reino Unido.

Agilidade de Verdade

A Agilidade como discutimos e praticamos hoje mudou bastante desde sua concepção: deixou de ser algo praticamente exclusivo para uso em desenvolvimento de software, ganhou a maioridade e tornou-se uma forma de pensar que a gente já consegue encontrar traços em quase todas as organizações. Verdade que as camadas mais altas de gestão ainda precisam entender melhor sobre o tema, assim como as Gestão de Pessoas (RH) precisam levar pro seu dia a dia também, mas a Agilidade chegou a praticamente todos os lugares e isso também traz problemas.

Entretanto, é necessário que muitas pessoas e organização que dizem adotar agilidade, saiam da Agilidade “cosmética” (aquela da boca pra fora, onde times e organizações adotam os termos, as ferramentas mas a forma de pensar continua a mesma) e passem a agilidade verdadeira. Todo conceito quando alcança a maioridade, ou seja, quando se torna popular, acaba sendo de alguma forma desvirtuado.

Quais os Critérios Adequados para Avaliar Projetos, Produtos ou Serviços

Passamos por uma onda de achar que Agilidade era algo fofinho, com foco em retrospectivas divertidas e lúdicas e com isso o real objetivo de gerar vantagem competitiva para os clientes acabou ficando um pouco em segundo plano. Passamos pelo ciclo da agilidade mista com o tradicional e hoje o foco da agilidade está em construir produtos que de fato entreguem valor para o cliente, para a empresa e para as pessoas. O que nós chamamos de movimentar as 4 Áreas de Domínio da Agilidade.

4 Áreas de Domínio da Agilidade para projetos, produtos e serviços
As 4 Áreas de Domínio da Agilidade

Sucesso ou fracasso de iniciativas deveriam ser medidas olhando para os quatro domínios. O critério utilizado pelo tal estudo olhou apenas para um tópico dentro de uma das áreas (Tempo na Organizacional). Ignorou os critérios que são mais importantes como receita com o produto e satisfação do cliente.

Alguns disseram até que Agilidade tinha morrido, mas ela continua viva e forte, afinal, o mundo não está voltando a ser estático e sim ficando mais dinâmico. Inteligência artificial já é uma realidade que está mudando o mundo como conhecemos. Ser Ágil é acima de tudo ser adaptável e não há nada mais importante nos dias de hoje.

Cuidado com notícias sensacionalistas, posts polêmicos demais e pesquisas falsas. infelizmente numa era em que cliques valem mais do que conteúdo de verdade, tem muita coisa ruim por aí. 

Querendo bater um papo sobre o tema, não perca tempo: manda um alô aqui pra gente no LinkedIn. Sempre bom conversar.

Sobre o autor(a)

Co-fundador, Consultor na Nower e Trainer na K21

Marcos Garrido, co-fundador da K21, é Certified Enterprise Coach (CEC), Certified Scrum Trainer (CST) e Certified Team Coach (CTC), fazendo parte do seleto grupo no mundo que possuem as três certificações mais importantes da Scrum Alliance. Com grande atuação internacional, possui larga experiência em Transformação Digital e Gestão de Produtos.

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