Os 9 princípios do Usage-Driven Development (UDD)

O Usage-Driven Development (UDD) não é uma metodologia cheia de cerimônias e artefatos. É o nosso jeito, aqui na Nower/K21, de pensar produto na era da Inteligência Artificial (IA). E, como todo jeito de pensar, ele se sustenta em princípios, sendo 9 no total. Cada um deles nasceu da prática, construindo e ajudando a construir produtos, e, no último ano e meio, usando IA como parceira criativa no dia a dia.

Vou explicar cada um deles, como eu explico quando estou sentado ao lado de alguém, ajudando a pensar.

1. Uso Define o Produto

Esse é o princípio central. Tudo gira em torno dele. A ideia é simples: o uso real revela o próximo problema a resolver. Sem uso, não há próxima fatia. O oposto disso é o Big Design Up Front (BDUF) — aquele mundo em que você planeja tudo, constrói tudo e só depois descobre que metade (ou tudo) não faz sentido.

No UDD, cada fatia do produto só nasce depois que a anterior é de fato usada. E, quando digo usada, não estou falando de algo feito internamente em um teste controlado. Usada de verdade, por gente de verdade, em situação real. É o uso que puxa o desenvolvimento, não o plano.

Ícone em fundo laranja com formato oval, mostrando uma seta circular preta envolvendo um cubo azul. Ao lado do cubo está o texto em branco “O uso define o produto”, representando o princípio de que o uso real orienta a evolução do produto. No canto lateral aparece a assinatura “k21.global”. Regra fundamental do UDD

2. Love the Problem (Ame o problema)

Apaixone-se pelo problema, não pela solução. Parece clichê? Pode ser. Mas a maioria das pessoas ainda se apaixona pela solução que imaginou, não pelo problema que precisa resolver.

No UDD, o amor pelo problema implica que cada fatia começa com um problema bem definido. Não com uma ideia de funcionalidade. Se você não consegue explicar qual problema está resolvendo, não deveria sequer estar construindo. As hipóteses precisam ser validadas pelo uso real — e o uso real tem um jeito muito honesto de te dizer se o seu problema era real ou imaginário.

Card em fundo turquesa e laranja com o texto “Ame o problema, não a solução”, ilustrado por um balão de conversa com um coração ao centro, representando o princípio de se apaixonar pelo problema antes de pensar na solução.

3. Direção > Velocidade

A IA te dá uma velocidade absurda. Em minutos você tem algo funcional. Mas velocidade sem direção é desperdício. Se você está indo rápido pro lugar errado, está só queimando energia, esforço e dinheiro mais rápido.

Esse princípio é um lembrete constante: valide antes de investir. Cada vez que você usa o que construiu, está validando a direção. Se a direção estiver errada, você descobre rápido e corrige barato. Se estiver certa, avança com confiança. O ponto é que a validação precisa vir do uso, não de uma reunião de consenso. Afinal, nunca se esqueça de que todo caos nasceu de uma “boa” ideia consensual.

4. Fatiar, Descartar, Priorizar

Talvez a habilidade mais importante de quem trabalha com produto hoje seja esta. E talvez a mais difícil. O fatiamento consiste em dividir o problema em unidades menores. Descartar é ter a coragem de jogar fora as fatias que não entregam valor — e aqui mora a dificuldade, porque a gente se apega. “Mas e se precisar disso depois?” Essa frase já matou mais produtos do que qualquer bug. E, se precisar depois, você adiciona. Priorizar é olhar pro que restou e focar no que maximiza o retorno. O famoso FDP que o pessoal de produto conhece bem: Fatiar, Descartar e Priorizar.

Card vertical em fundo turquesa com o texto “FDP do PO: Fatiar, Descartar, Priorizar!”, ilustrado por dois emojis, um com expressão de dúvida na parte superior e outro sorridente na parte inferior, representando a transformação após aplicar o princípio.

5. Métricas Sempre

Para tudo o que importa, tenha métrica. Métricas que mostrem onde estamos, que problemas estamos resolvendo, o que falta resolver. Sem métricas, a decisão sobre o próximo passo baseia-se em achismo. E isso abre portas para decisões baseadas na hierarquia, em vez de evidência.

As métricas são o combustível do ciclo do UDD. São elas que transformam “eu acho que” em “os dados mostram que”. Quando você está rodando ciclos rápidos com IA, essa clareza faz toda a diferença entre construir algo que importa e girar em falso.

Diagrama circular em fundo turquesa com três setas pretas formando um ciclo contínuo com as palavras “Medir”, “Aprender” e “Construir”, representando o ciclo iterativo de evolução do produto.

6. Feito > Perfeito

Faz e entrega logo. As melhorias vêm rapidamente. Com IA como parceira criativa, o custo de iterar é próximo de zero. Já o custo de esperar pela perfeição é enorme: mercado que muda, oportunidades que passam, feedback que não chega. Cada minuto que você gasta polindo algo que ainda não foi usado é um minuto desperdiçado. Publica, coloca em uso, aprende e melhora na próxima fatia.

Diagrama circular em fundo turquesa com três setas pretas formando um ciclo contínuo com as palavras “Medir”, “Aprender” e “Construir”, representando o ciclo iterativo de evolução do produto.

7. O gargalo é criativo

Esse princípio muda a perspectiva de quem está acostumado ao modelo tradicional. Durante décadas, o gargalo do desenvolvimento de produtos ficava na construção. Tinha ideia de sobra, mas capacidade de execução limitada. Com IA, isso inverteu.

Hoje o gargalo mora na parte criativa: na capacidade de identificar qual é a fatia mais importante a ser implementada em seguida. A construção ficou rápida. O que ficou difícil — e valioso — foi a decisão de produto. Saber o que construir importa mais do que saber como construir. Esse é o novo jogo.

8. De Dentro pra Fora

Comece pelo core do core. Resolva só o problema principal. Depois, o uso real te mostra o próximo problema. Expanda uma fatia por vez, quantas forem necessárias. É o modelo cebola do UDD.

Repita como um mantra: “Qual é a parte mais importante do problema mais importante da pessoa mais importante neste momento?” Isso é o contrário do que a maioria faz: tentar resolver tudo de uma vez. “Vamos já fazer multiempresa, multi-time, com integração, com relatórios, com dashboard.” 

Não faça isso! Comece pelo centro do problema resolvendo o que é essencial. Em seguida, coloque em uso e deixe o uso puxar a próxima expansão. Cada fatia pode ser qualquer coisa — UX, dados, IA, performance, uma integração. Não importa definir antes. O uso decide.

9. Discutir < Experimentar

Se o tempo que a gente gasta discutindo se devemos ou não fazer algo já dá pra criar, testar e aprender com um resultado concreto, a discussão é desperdício.

Esse princípio não é contra pensar. É contra a paralisia por análise. No contexto em que a IA reduz o ciclo de criação a minutos, ficar debatendo hipóteses numa sala quando você poderia estar testando na prática é um luxo que não faz mais sentido. Substitua debate por experimento. A realidade sempre dá respostas melhores do que a opinião de quem está na sala.

Conclusão

Esses 9 princípios não são regras. São um jeito de pensar. Funcionam juntos, se reforçam, e na prática viram um ciclo natural: fatie, construa, use, meça, decida, e rode de novo. Cada vez que você roda, o produto ganha uma nova fatia — revelada pelo uso, não pelo plano.

Simples, de dentro pra fora. Roda, publica, testa, aprende, pensa em uma nova ideia e roda de novo.

Marcos Garrido
Sobre o autor

Marcos Garrido

Co-fundador da K21, Nower e Wbrain

Marcos Garrido, co-fundador da K21, é Certified Enterprise Coach (CEC), Certified Scrum Trainer (CST) e Certified Team Coach (CTC), fazendo parte do seleto grupo no mundo que possuem as três certificações mais importantes da Scrum Alliance. Com grande atuação internacional, possui larga experiência em Transformação Digital e Gestão de Produtos.

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