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Ep. 246 - Do prompt pronto ao pensamento crítico: a IA não substitui a mente

Ep. 246 - Do prompt pronto ao pensamento crítico: a IA não substitui a mente

19 de maio de 202500:53:38
IA
Pessoas

Resumo rápido

Rodrigo Titoledo e Marcos Garrido defendem que a IA não substitui a mente humana, mas amplifica a criatividade e acelera processos repetitivos. A crítica central é ao uso passivo de prompts prontos, que reduz a IA a um buscador e elimina o pensamento crítico. O episódio propõe que o valor real da IA está no diálogo, no contexto e na tentativa e erro contínua, e que a maior transformação será cultural: as pessoas vão aprender a ser mais didáticas e a enxergar a IA como ferramenta de inclusão e empoderamento, não como ameaça.

Capítulos

  1. 00:07A crítica aos posts de 'IA morreu' e ao copiar e colar prompts
  2. 03:20O ritmo acelerado da evolução da IA e a sensação de desaprender
  3. 07:53Por que a IA interessa: criatividade, fim do trabalho repetitivo e curiosidade
  4. 13:02O problema dos prompts prontos: reduzir a IA a um buscador como o Google
  5. 22:48Preconceito, autoria e o paradoxo do navio de Teseu
  6. 37:24Deepfake como ferramenta de inclusão para pessoas com necessidades especiais
  7. 47:08Conselhos para quem ainda não experimentou a IA: não tenha medo de errar

Frases do episódio

“a gente aprende experimentando e errando, a gente não aprende copiando e colando”

00:07

“a IA não vai roubar o seu emprego, mas certamente alguém que domina vai”

44:30

“a pior coisa que pode acontecer, se você que nunca usou, experimentar pela primeira vez, é você aprender algo novo”

48:36

O que você vai ouvir neste episódio

  • Flor, Rodrigo de Toledo e Marcos Garrido discutem como utilizar a inteligência artificial para aumentar a eficiência no dia a dia.
  • O episódio aborda o uso da tecnologia na execução de tarefas repetitivas e no estímulo à criatividade profissional.
  • Os debatedores destacam o impacto positivo da inteligência artificial na acessibilidade para pessoas com deficiência.
  • A conversa analisa os impactos éticos da tecnologia e alerta para os riscos de alienação e falta de reflexão.
  • Os participantes fazem uma crítica direta ao uso excessivo e sem reflexão de fórmulas e prompts prontos.

Temas discutidos

A adoção da inteligência artificial transforma a cultura organizacional e exige reflexão contínua das lideranças. Em ambientes focados em agilidade e desenvolvimento de produtos, a tecnologia atua como alavanca de eficiência para tarefas repetitivas, liberando tempo para a inovação. No entanto, o verdadeiro valor reside na capacidade crítica dos profissionais. A dependência de respostas prontas compromete o discernimento ético e a autonomia, tornando fundamental o equilíbrio entre ferramentas automatizadas e o pensamento humano estratégico.

Para quem é este episódio

Este conteúdo é ideal para lideranças de tecnologia, gestores de produtos e profissionais de agilidade. Esses perfis se beneficiam ao compreender como utilizar a inteligência artificial para otimizar processos operacionais, mantendo a postura crítica, a ética profissional e a autonomia do pensamento humano na resolução de problemas.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Como a inteligência artificial pode ser utilizada no dia a dia de trabalho sem gerar alienação?

A inteligência artificial deve ser encarada como uma ferramenta para acelerar tarefas repetitivas e impulsionar a criatividade, sem substituir a capacidade analítica humana. O risco de alienação diminui quando o profissional evita a utilização passiva de soluções automatizadas ou modelos padronizados, aplicando sempre o julgamento crítico e avaliando os impactos éticos dos resultados gerados antes da tomada de decisão.

Qual é a relação entre inteligência artificial e acessibilidade?

A inteligência artificial representa um avanço expressivo no acesso à informação e na inclusão de pessoas com deficiência. Ao adaptar formatos, interpretar contextos e simplificar a navegação em sistemas digitais, a tecnologia remove barreiras operacionais. Essa aplicação prática demonstra como a automação pode gerar impacto social positivo quando direcionada às reais necessidades dos usuários.

Por que depender exclusivamente de prompts prontos pode prejudicar a atuação profissional?

A utilização cega de prompts e receitas prontas limita a autonomia intelectual e impede a compreensão aprofundada dos problemas organizacionais. A tecnologia funciona como alavanca de eficiência apenas se acompanhada de pensamento reflexivo. Confiar cegamente em respostas pré-formatadas reduz a capacidade de inovação e impede que o profissional desenvolva soluções adequadas às particularidades do seu contexto de trabalho.

Sobre este episódio

No episódio 246 do Love the Problem, Rodrigo Titoledo e Marcos Garrido discutem como a inteligência artificial está transformando a forma como trabalhamos e criamos, mas alertam que o uso passivo de prompts prontos está criando uma geração que não entende o potencial real da IA. A crítica central é que copiar e colar elimina o pensamento crítico e a criatividade, enquanto o uso adequado — baseado em diálogo, contexto e tentativa e erro — amplifica a capacidade humana. Os convidados compartilham exemplos práticos: automação de processos na K21, uso do ChatGPT para resumir livros e otimizar impostos, brainstorming com o ideamap.ai, e o uso de deepfake para ajudar um filho com síndrome rara a aprender a falar. O episódio também aborda o preconceito contra a IA no trabalho, o paradoxo do navio de Teseu como metáfora da autoria, e a ideia de que a IA está tornando as pessoas mais didáticas. A mensagem final é de otimismo cauteloso: a IA é uma ferramenta de aceleração e inclusão, e a maior barreira não é técnica, mas cultural.

Transcrição completa

Todo dia eu abro o LinkedIn e tem alguém querendo matar o ChatGPT. 'ChatGPT morreu, adeus ChatGPT.' Que saco, cara. Todo mundo quer acertar. E esse negócio de ter post com milhões de tipos de prompt, não é assim que a gente aprende. A gente aprende experimentando e errando, a gente não aprende copiando e colando. Esse negócio de copiar e colar é a maior besteira que tem. Você tem que aprender fazendo, não olhando PDF com 8 mil tipos de prompt. Aprender pela lógica também, assim como toda e qualquer coisa na vida, o porquê que tu tá fazendo isso. As pessoas são assim, querem saber qual o botão que aperta. E isso me irrita porque desde 2009 eu assisto palestra 'Agilidade Morreu', e agora desde 2024 eu tô assistindo posts no LinkedIn de 'o ChatGPT está morto porque o Gemini está fazendo sei lá o quê'. Agora o Gemini está morto porque a Anthropic vai fazer não sei o quê. Que gente chata. Parem de postar que um morreu porque o outro está melhorando. Todos melhoram todo dia. E é normal, às vezes uma coisa vai deixar de existir porque outras vão surgir, e tudo bem. Não deveria ser pra aterrorizar as pessoas. O que me irrita de verdade é que as pessoas querem viralizar a qualquer custo e, nessa necessidade, confundem mais ainda quem não sabe nada e está aprendendo. A pessoa fala: 'caraca, baixei e já morreu, vou pro outro, vou pro outro.' A pessoa pula, pula, pula e não aprende nada.

Hoje a gente vai falar sobre inteligência artificial, essa revolução nada silenciosa que tá acontecendo, a forma como ela influencia e impacta as nossas vidas. Rodrigo Titoledo, sócio fundador da K21, da Naur, da Double Brain, instrutor na área de Agile há quase 20 anos, e Marcos Garrido, também fundador da K21, da Naur, da Double Brain. A sensação que eu tenho é que a gente tá sempre correndo atrás da próxima novidade. E quando você acha que dominou um determinado assunto, aquele assunto explode e evolui muito rapidamente. Eu me lembro que quando entrei na área de tecnologia, com 17 anos, alguém falou pra mim: 'você tá preparado pra nunca mais parar de estudar?' Só que naquela época era fácil. Agora é muito pior. Tem que estudar muito mais e estudar sem parar. Eu acho que eu desaprendo mais do que aprendo. Se eu passar 24 horas estudando sobre inteligência artificial, amanhã, percentualmente, eu sei menos sobre o assunto do que eu sei hoje, porque o volume de coisas novas é maior do que a capacidade que eu tenho de absorver em 24 horas. Claro que a gente tá numa curva de plena ascensão da IA. Em algum momento essa curva diminui, mas nesse momento é impossível qualquer ser humano acompanhar tudo o que tá acontecendo.

O que tocou vocês a explorarem mais a fundo esse tema? Eu tô me sentindo mais criativo do que eu era antes. O meu nível de criatividade aumentou, porque do momento que eu tenho uma ideia até o momento que eu consigo transformar isso em resultado, o tempo diminuiu assustadoramente. Agora eu passo mais tempo criando coisa. E é engraçado porque as pessoas falam 'ah, o profissional criativo é o alvo, esse vai dançar'. Pelo menos por enquanto, pra mim tem sido exatamente o contrário. Eu tenho passado mais tempo criando coisas do que eu conseguia fazer antes. E tem um outro aspecto mais humano: quando a gente constrói coisas e automatiza com IA, perde-se muito pouco tempo pra construir coisas incríveis, porque a IA nunca vai te fazer a pergunta 'qual o problema que você quer resolver com isso?', que é uma camada super humana que a gente precisa preservar.

Do meu lado, três motivos me levaram à IA. Primeiro, é o mesmo motivo que me levou pra tecnologia cedo: eu detesto trabalho repetitivo. Pega daqui pra ali, pega 25 coisas daqui e bota ali. Eu vou quebrar uma no meio do caminho. A IA te tira isso. Você foca só na limonada e esquece do limão. Vai no suco da coisa. O trabalho que fica é exatamente o criativo. A gente consegue ser muito mais plenamente criativo com a IA. E tem um terceiro motivo meio nerd: a gente adora aprender coisas. Pintar uma coisa nova me atrai. Aprender é muito bom. Nesse momento não tem nada melhor do que aprender sobre IA.

No dia a dia, eu tenho cinco abas do ChatGPT abertas nesse computador, e no MacBook certamente mais sete abas de assuntos que vão correndo em paralelo. Coisas que a gente antes fazia numa pesquisa Google, agora é muito melhor. Alguém cita um livro, eu já mando pro ChatGPT: 'me dá um resumo de 300 caracteres', 'me dá os cinco principais tópicos desse livro'. A grande questão pra mim é que eu não me sinto mais sozinho. A coisa mais estranha que eu fiz: tava sentado na frente da minha contadora fazendo imposto de renda, e ela falou 'já fiz tudo que dava, é esse valor aí'. Aí eu falei 'você já era um PDF?', ela gerou, subi o PDF e perguntei 'quais são os negócios que eu não tô usando que poderiam baixar meu imposto de renda?'. E baixou em 40%. Mas é muito curioso como a gente tem que tomar cuidado pra não virar absolutamente dependente disso pra tomar qualquer decisão na vida.

Tive uma conversa com uma amiga que é radical em relação ao uso de IA. Ela acha que não tem que usar pra absolutamente nada, que isso vai tornar todos nós seres não pensantes. Eu respeito a opinião dela, mas falei: 'pra automatizar tarefa é maravilhoso, é a melhor coisa que tem'. Ela falou: 'mas aí você não tá tirando a parte criativa'. Eu falei: 'é o contrário, é justamente a parte criativa que voltou pra mim'. Antes eu ficava fazendo trabalho repetitivo, agora eu só faço a parte criativa. É um acelerador de resultado.

As pessoas que eu vejo usando IA usam muito como o Google: 'deixa eu fazer uma pergunta, me encontra um resultado'. Ao invés de: 'processa esse caminhão de informação e me mostra o que eu não tô conseguindo enxergar'. E aí entra a crítica dos prompts prontos. Quando você bota 'use esse prompt', você tá induzindo as pessoas a usar as IAs ainda como se fosse Google. O desejo na Google, por uma ou duas décadas, foi otimizar o algoritmo pra que na menor quantidade de palavras possíveis, na primeira busca, você já encontre aquilo que quer. E é ao contrário quando você tá trabalhando com inteligência artificial. O que você quer é trazer diálogo, trazer contexto, trazer informação. Ter um único prompt que vai fazer a parada toda é o oposto do entendimento do que é a IA. É reduzir a IA a um buscador como a Google. 'Eu não quero entender como funciona, eu quero saber qual é o botão que eu aperto.' Isso tá criando uma geração de pessoas que não entendem bem o que é a IA e qual é o seu potencial.

Todo dia eu abro o LinkedIn e a primeira coisa que vejo é um post de alguém matando o ChatGPT. 'Adeus, ChatGPT.' Pelo amor de Deus, pare de postar esse tipo de conteúdo. Me lembra muito a primeira palestra 'O Ágil Morreu' que eu assisti em 2009. E todo ano tem alguém palestrando 'O Ágil Morreu'. A reflexão é: o mundo tá ficando estático de novo ou mais dinâmico? Se tá ficando estático, beleza, o Ágil pode morrer. Senão, não faz sentido. A coisa da IA é a mesma. E as pessoas postando 'está aqui o prompt perfeito, use esses 8 mil prompts' — o que a gente faz com isso? As pessoas vão parar de pensar. 'Deixou só copiar o prompt e colar, resolvo o meu problema.' Mas os problemas não são iguais, os desafios não são exatamente os mesmos. Ao copiar e colar, a gente tá abrindo mão justamente da parte criativa. Pelo amor de Deus, pare de postar que o ChatGPT morreu, que o Gemini não sei o quê. Pare de postar que estão aqui os únicos prompts que vão salvar sua vida. Porque isso não tá ajudando as pessoas que estão começando. Muito pelo contrário, gera uma confusão enorme pra quem tá chegando agora. Quebra a mágica de poder dar contexto e fazer a troca. E o pensamento crítico é uma das coisas mais importantes. Não só pra tudo que a gente faz, mas quando a gente ouve alguma coisa, quando vê alguma coisa, é avaliar: faz sentido, não faz? Deixa eu entender se tem uma fonte fidedigna.

Sobre o ferramental: o ChatGPT se tornou importante pra mim porque ele aprendeu sobre mim. Isso cria um vínculo. Você pode dividir conversas em projetos e botar comportamentos que você já espera dele. Pra coisas específicas, tem ferramentas muito legais. O ideamap.ai, pra brainstorming, é inacreditável. Ela vai fazendo brainstorming na sua frente, cria um mapa mental em cima de uma pergunta, com ideias organizadas, mas permite você editar: 'gostei disso, quero expandir aquilo, quero reescrever'. Ela realmente me trouxe ideias que eu acho que eu não teria tido. Eu não tô me sentindo sozinho, tô fazendo brainstorming junto com alguém. Eu gosto muito do Grok, o Deep Search dele é muito bom. E tem uma coisa do Grok que não é especificamente o Grok, mas quem tem um Tesla usa IA todo dia. O carro dirige sozinho. A última versão que saiu é absurda. Nos Estados Unidos, a cada um milhão de milhas dirigidas pelas pessoas, você tem um acidente. O Tesla, quando dirige sozinho com IA, é um acidente a cada oito milhões de milhas. Oito vezes mais seguro do que um ser humano dirigindo sozinho. A gente pode muito rapidamente fugir das aplicações triviais de só fazer uma pergunta ou uma pesquisa. Ferramentas pra construção de produtos, pra automação de processo, pra tudo que você pode imaginar. As que mais me interessam hoje são as de criação de produto e de automação de processo. Boa parte do tempo que a gente dedica ao trabalho, a gente tá resolvendo o problema. Resolver problema significa coletar dados que estão em volta de você e tentar fazer conexão entre esses dados pra encontrar sentido e a partir do sentido identificar uma oportunidade de melhoria. Com IA ficou tudo muito melhor. Automação, identificação de processos, de tarefas, identificação de padrões de comportamentos que não são visíveis a olho nu, ficou tudo muito mais fácil e divertido.

No Product AI, a gente pega um exemplo de mil comentários de um produto, bota na IA, e ela faz uma categoria de quais são positivos, quantos positivos, neutros e detratores, quais são as coisas que as pessoas mais reclamam. A partir daquilo, você leva pra hipóteses de como combater esses problemas, já priorizado, com um critério de priorização. E no Design Thinking com IA, a gente constrói uma proto-persona e a IA expande isso num nível absurdo. Mas mais do que isso é quando a gente faz a troca: fala pra IA se comportar como se fosse aquela pessoa e faz a entrevista. Eu não tenho acesso a entrevistas, e essa troca com a IA respondendo como se fosse aquela pessoa, com as suas dores, seus sentimentos, é uma das partes mais legais que eu uso.

Existe um preconceito muito grande de trazer a IA como forma de melhorar a forma como a gente trabalha. 'Ah, a IA tá fazendo seu trabalho, não é você que está fazendo.' Eu acho que esse preconceito provavelmente tá vindo de quem não tá usando ou quem não tá usando direito. São aquelas pessoas que estão num prompt só esperando que a IA saia e o que sair você pega e leva. Mais uma vez, o ser humano tem que ser soberano na ferramenta. Aquilo ali é uma inspiração pra você. Alguém me falou que o pai de uma noiva fez o discurso usando o ChatGPT e teve gente que achou um absurdo. 'Ah, mas quem fez o discurso não foi você, foi a inteligência artificial.' Não, o discurso é meu. Só que tá com capricho porque eu dei as informações, disse aquilo que eu gostaria de ver, peguei o resultado, fui ajustando num diálogo com a IA e na versão final, num certo ponto, você fala 'aqui já tá bom, você fez 90%, deixa que agora termina aqui'. Quem criou o discurso? Foi a IA? Foi ele que deu as orientações. Isso acontece há séculos com o político, que tem gente que escreve o discurso. O discurso quem fez? Foi o político ou foi o cara que sabe escrever? Isso existe há mais de um século. No final, o autor é quem deu os comandos. Você não vai dar crédito pro Word quando escrevia alguma coisa, não vai fazer isso com a IA também.

Isso me lembra o paradoxo do navio de Teseu. Um herói ateniense sai de um porto e vai a outro, e ao longo do caminho as peças do navio vão ficando velhas e ele vai substituindo. Quando finalmente chega no mar, o navio não tinha mais nenhuma peça que estava originalmente no barco. O paradoxo é: é o mesmo navio ou é um navio novo? O conteúdo é meu, mas se eu pego o texto que escrevi e peço pra ele melhorar, eu tô que nem o navio de Teseu? O conteúdo é meu ou não é meu? É esse paradoxo que a gente ainda não entende muito bem. Eu escrevi um livro, '50 Verdades dos Empreendedores', e alguém me falou 'faz um resumo do teu livro'. Eu peguei o PDF, joguei no ChatGPT e falei 'faz um resumo de um parágrafo de cada capítulo'. Mandei pro amigo, ele falou 'legal, quero ler o livro'. Aí mandei o livro pra casa dele. Quem escreveu o livro foi eu, e eu não usei IA pra escrever o livro. Qualquer coisa que seja construída com inteligência artificial em cima do meu livro, o conteúdo é meu. É o mesmo navio, porque é o meu conteúdo, que pode ser reembalado de diferentes formas. Eu não pedi pra ele escrever o capítulo pra mim, eu pedi pra ele pegar o texto que era 100% meu e colocar num formato rápido. Existem implicações do ponto de vista da ética, mas essas coisas sempre existiram. Hoje talvez se faça com mais facilidade.

Na K21, tem uns dois anos que a gente trouxe uma ferramenta, o Kodi, que era como um banco de dados de tudo aquilo que a gente pesquisa, disponível pra todo mundo da empresa. No começo teve muita resistência, muita gente não entendendo o porquê. E a gente passou a usar não pra criar conteúdo novo, mas pra ajudar a rapidamente encontrar, por exemplo, todos os posts de design thinking pra mandar pra um aluno. A gente integrou com o Telegram, o canal interno de comunicação. Qualquer pessoa na K21 podia ir lá e falar 'me dá todos os posts do assunto tal'. Isso é a parte da IA que eu mais gosto: a aceleração da busca do resultado, não a criação do resultado em si, mas a aceleração de um processo totalmente manual. A gente passou a mapear os vídeos do YouTube, os episódios do Love the Problem, os textos do blog, e passou a ser um banco de dados que a gente usava IA pra muito rapidamente encontrar. Durante a aula, o aluno pede 'você tem um artigo de escala?', e a gente já tinha. Isso foi um passo maravilhoso porque abriu as portas da IA pras pessoas que ainda não entendiam do assunto.

Tem um uso constante de criação de publicações, imagens no LinkedIn. Teve salto recente das imagens com o texto bem próximo de perfeito. Isso acelerou demais, você poder fazer publicações em velocidade instantânea, e é do seu jeito. Não é artificial, é exatamente como eu teria feito sozinho, só que melhor e mais rápido.

Em algum momento vocês já se frustraram com o uso? Toda vez que alucina. Tem uma dica poderosa: usar a própria IA pra fazer validação do resultado dela. Quando são coisas muito complexas, eu construí as regras de negócio, subia uma planilha só com as regras, a IA trazia um resultado, e eu mandava a própria IA: 'aplica esse teu resultado e vê se tá respeitando as regras de negócio'. Isso reduz quadraticamente a chance de alucinar. A chance dela alucinar é 0,1%, mas aí você manda ela verificar, e só se coincidiu duas alucinações seguidas, a chance é 0,0000001%. Tem outra dica: as pessoas não sabem que em quase todas as IAs você pode voltar no ponto em que ela começou a ir pra onde você não queria e começar ali. Porque se você fica insistindo no erro, quanto mais você fala do erro, mais ela entende que aquele erro é importante, ela vai botar um peso naquele assunto que está errando. Você tem que voltar, como uma árvore de decisões, naquele ponto onde ela começou a discordar, reeditar o que você escreveu e ver o resultado até voltar pro caminho que você quer.

A frustração que eu tenho não é com a IA, é comigo. 'Puxa, não ter usado antes.' Aconteceu hoje: acordei de madrugada com uma ideia, 'putz, vou automatizar esse negócio aqui', e em cinco minutos tá feito. A frustração não é com a ferramenta, é o meu próprio aprendizado de como pedir. Estava mostrando uma ferramenta pra um amigo e ele não conseguiu produzir nada de valor. A forma como ele estava pedindo, nem eu entendia que gerava IA. As pessoas não sabem interagir e não conseguem o resultado que querem. É por isso que eu não gosto do copiar e colar, porque tira o teu processo crítico e teu processo de aprendizado em ciclo curto. É muito mais sobre tentativa e erro, e você tem que enxergar o erro como parte do processo de aprendizado, do que desistir na primeira ou segunda tentativa. É um aprendizado mútuo: a IA também vai aprendendo mais sobre você e você vai aprendendo mais como lidar com a IA.

A minha sensação desde que comecei a trabalhar com IA é que ela vai fazer com que as pessoas, na média, melhorem a sua forma de falar, vão passar a ser mais didáticas. Sabe aquelas pessoas que são enroladas pra explicar uma coisa? Esse cara vai ter que evoluir sobre isso, senão vai ficar pra trás com a IA. A medida que as pessoas vão interagindo com a IA, elas vão melhorando o jeito de explicar as coisas de maneira mais didática. A vida vai tornar as pessoas mais didáticas porque elas aprenderam a ser mais didáticas com a IA.

Na área de tecnologia, uma das ameaças é a gente tá vendo muito IA produzindo código. Tem uma área suscetível a ser automatizada. Mas eu acho que é como o ferreiro que descobriu o ferro: tudo era de madeira, ele vai começar fazendo as próprias ferramentas dele, e depois vai começar a produzir pras outras áreas. A gente é mais suscetível, olha primeiro pra gente mesmo. Mas tem uma coisa importante: o raciocínio lógico, encadeado, de separar as coisas, encapsuladas, agrupadas, isso que a gente que veio de áreas de tecnologia aprende, vai continuar sendo útil. A gente tem uma nova camada de abstração. Desde o início de tecnologia sempre teve uma camada de abstração nova: cartão perfurado, assembly, C, orientação a objetos. A cada camada nova de abstração você faz coisas mais poderosas. Desde os anos 70 as pessoas falam 'a área de programação morreu, porque agora não precisa mais programar em assembly'. Não, você criou uma nova camada de abstração e agora a gente vai fazer coisas mais complexas. A gente tá nesse momento de disrupção, onde a gente tem uma ferramenta muito mais poderosa, deu um salto muito grande dessa camada de abstração. Na próxima década, o que a gente vai ver na área médica, por exemplo, vai ser incrível.

Qual é o uso mais incrível que eu já fiz? As pessoas falam sobre deepfake com viés muito negativo, mas tem um uso maravilhoso. Eu tenho um filho com uma síndrome rara, com necessidades especiais. Ele tem muita dificuldade pra falar, tem 10 anos. O processo dele pra aprender a andar foi complicado, pra aprender a falar foi complicado, pra aprender a comer foi complicado. Tudo é muito mais difícil, demora mais, com inúmeras limitações. Um tempo atrás eu tive uma ideia: eu falava 'fala banana', ele falava 'ba'. 'Fala papai', ele falava 'pa'. Ele só falava a primeira sílaba de cada palavra. Aí eu pedi pra ele falar 'fala de, fala a, fala do, fala pa e fala i'. Filmei tudo, editei, ficou só ele falando 'dia do pai', todo cortado. Botei no iPad dele e dois dias depois ele falou 'dia do pai'. Foi a primeira frase que ele falou. Aí eu olhei e falei 'ah, é assim que se aprende?'. Na era da IA, eu estou fazendo melhor: pego um gerador de deepfake, escrevo a frase que eu quero com a voz dele e peço pra fazer o vídeo. Boto no iPad que ele usa, ele assiste e aprende a falar a frase. Tem um mundo de pessoas com necessidades especiais que vão usar a IA pra se comunicar de uma maneira melhor com o mundo, pra conseguirem fazer coisas que hoje, infelizmente, não conseguem fazer. As pessoas talvez não tenham percebido isso porque a gente sempre olha com um olhar negativo pra a tecnologia de uma maneira geral. Existe um mundo que vai se beneficiar enormemente dessas novas tecnologias e que a gente raramente olha pra eles. Eu fico muito ansioso pra ver essas tecnologias evoluírem logo porque eu quero usar em casa.

A gente tá na beira de uma disrupção de entendimento sobre as coisas pelo lado científico. Se você tem um excesso de coisas fake e as pessoas têm essa percepção, significa que agora elas vão ter que parar de aceitar qualquer informação que chega no zap e vão ter que investigar. Talvez a gente esteja trazendo um pensamento científico pras pessoas. Tem uma questão de acesso: essa discussão ainda tá num lugar de muito privilégio. Muita gente não tem acesso. Mas a tendência, a mudança, essa é a mágica da inovação.

O mais difícil vai ser as pessoas aprenderem a usar IA ou mudarem a mentalidade pra trazer IA no dia a dia? Cultura é sempre mais difícil. Ensinar a ferramenta é mais fácil que ensinar a cultura, mudar cultura. Tem uma frase que o Avelino publicou: 'a IA não vai roubar o seu emprego, mas certamente alguém que domina vai'. Isso tem que ser a mosquinha na motivação. Se você não tá motivado intrinsecamente, vai pra uma motivação um pouco extrínseca: fica ligado, porque quem domina vai sair na frente. E tá muito no início ainda. Qualquer dez passos que você dá na frente de alguém, isso vai te dar uma vantagem por muito tempo. A primeira vez que eu falei algo parecido foi quando tinha 16 anos e dava aula do pacote Office. O mundo é cíclico. Toda nova tecnologia é vista pela sociedade com desconfiança: o telégrafo, o telefone, a televisão, o rádio, a internet. E a internet hoje chegou a todos os lugares. É muito natural que exista uma curva de aprendizado e de adoção que vai chegar ao mundo inteiro. Pra quem não começou a usar ainda, invariavelmente você vai começar a usar, não tem como evitar.

Pra quem usa no dia a dia, a dica mais importante é olhar pra atividades que são repetitivas e pensar: 'eu posso automatizar isso? Eu posso acelerar isso aqui? Pra isso deixar de ocupar um peso da minha vida e eu ter tempo pra fazer outras coisas?' É identificar padrões que você já não consegue identificar sem muito esforço, sem ficar dias analisando dados. É acelerar processos que normalmente são extremamente lentos. Tudo aquilo que é pra acelerar, a IA pode ajudar. Pra fazer trabalho criativo por você, aí qualquer pessoa pode fazer, dominando o seu conteúdo. Mas a aceleração é onde está o maior benefício pra gente. É chato, tem um negócio chato de fazer? Vamos acelerar. Isso é um valor inestimável pra sociedade de uma maneira geral.

Pra quem ainda não usou: não tem medo, não morde, não explode. A gente pega as pessoas e logo no início deixa elas usarem. Abre a IA, passa o teclado e o mouse, e a pessoa fica com medo. 'Não vai explodir. E se a resposta vier errada? Vai vir errada muitas vezes, não tem problema. Só vai.' A coisa virá. Você pode usar a própria IA pra aprender a IA. A pior coisa que pode acontecer, se você que nunca usou, experimentar pela primeira vez, é você aprender algo novo. Não tenha medo de experimentar. Eu fiz um experimento com meu pai, que gosta de Sudoku. Falei 'pai, você quer construir um jogo do zero disso?' Ele falou 'como?' 'Com IA.' 'Não, nunca vi esse negócio de IA, não sei usar.' 'Então explica pra mim que você gostaria de ter um jogo desse.' Ele escreveu um parágrafo. Eu falei 'entra no site tal, cola aí e aperta o botão'. Ele criou o jogo dele. 'Ah, é assim que funciona? E se eu quiser melhorar?' 'Escreve lá.' Já tá na décima quinta versão do jogo, com letras e números, regras novas. Ele nem percebeu o que estava fazendo, era uma diversão. 'Fala como se estivesse falando com uma pessoa.' Pronto. Pro meu pai, que nunca tinha usado nem pra fazer uma pergunta, construir um jogo a partir disso foi extremamente disruptivo. 'Quão difícil foi?' 'Tão difícil quanto te contar o que eu queria.' Então é fácil. Não tem medo de errar. Comecem. Usem a IA pra aprender sobre a IA. E talvez associar com algo que a gente gosta, porque vai ficar cada vez mais interessante, até você criar coisas que você nunca imaginou que criaria.

Uma coisa muito legal é olhar aquilo que não é trivial. Olha pra essa tecnologia como uma tecnologia de acesso e de empoderamento de pessoas que não têm o acesso que você tem a tudo que elas precisam. Isso pode ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade de todos os tipos. Não olhe pra IA como o Google. Olhe pra IA como uma ferramenta de apoio incrível pras pessoas que realmente mais precisam. E isso pode mudar a sociedade de uma maneira geral.

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    No Leadership Club desta semana, CFC recebe Leonardo Gasparin, co-founder e CEO da CUB, para um papo sobre liderança na prática e os bastidores de empreender em um dos mercados mais desafiadores do mundo: o imobiliário. Com mais de 20 anos de estrada, Leonardo compartilha aprendizados reais (com erros e acertos) de quem já viveu e-commerce desde o “crachá 001”, passou por jornadas em machine learning e IA antes da moda, e ainda atuou como desenvolvedor imobiliário. A conversa aborda temas como: • por que o mercado imobiliário “cresce com o freio de mão puxado” no Brasil? • como a CUB quer virar a infraestrutura que organiza recebíveis e conecta esse universo ao mercado de capitais? • o que muda quando você troca o corporativo por uma startup (e vice-versa)? • gestão de caixa, time e perenidade: o básico bem feito que sustenta qualquer negócio; • por que “só vale erro novo” e como liderar com humildade em mar sempre revolto? Um episódio para líderes, gestores e empreendedores que preferem falar da realidade de empreender com clareza, repertório e prática, longe da romantização. Curtiu? Então aperta o play e mergulhe com a gente nesse papo.