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Ep. 227 - Nosso Maior Legado: O Pensamento Cientifico

Ep. 227 - Nosso Maior Legado: O Pensamento Cientifico

25 de novembro de 202400:37:53
Inovação

Resumo rápido

Rodrigo de Toledo, cofundador da K21, apresenta uma palestra sobre como a comunidade ágil pode deixar seu maior legado: o pensamento científico. Ele percorre os horizontes de crescimento (H0 a H3), define agilidade como adaptabilidade e não velocidade, e propõe quatro passos para uma organização com pensamento científico: reconhecer a complexidade do trabalho de conhecimento, assumir humildade perante o desconhecido, ser data-driven e cultivar a cultura da experimentação. Encerra com um alerta contra o negacionismo científico e a defesa de que toda oposição ou proposta deve ser feita com rigor científico.

Capítulos

  1. 01:34Tipos de legado e os horizontes de crescimento H0 a H3
  2. 05:33Trabalhadores de conhecimento e o legado para as próximas gerações
  3. 07:43Agilidade é adaptabilidade: os três ingredientes do molho secreto
  4. 12:36O método científico na origem do Scrum e na evolução humana
  5. 17:45Quatro passos para uma organização com pensamento científico
  6. 28:55Cultura da experimentação e a ferramenta Test Card
  7. 35:25Atenção ao negacionismo científico e a frase final

Frases do episódio

“Os métodos ágeis são um método científico aplicado ao desenvolvimento de produtos e serviços.”

13:18

“Pensar como um cientista significa ser ativamente de mente aberta. Requer buscar razões pelas quais podemos estar errados.”

21:14

“Não há verdades absolutas. Ou seja, tudo que existe na vida sempre tem aspectos positivos e negativos.”

36:12

O que você vai ouvir neste episódio

  • Rodrigo de Toledo analisa a importância de formar um legado intelectual duradouro entre os trabalhadores do conhecimento nas empresas.
  • A aplicação do pensamento científico orienta a validação de ideias e hipóteses nos negócios antes de investimentos relevantes.
  • O episódio aborda como os horizontes de crescimento corporativo dependem diretamente da capacidade de inovar de forma contínua.
  • A relação entre métodos ágeis e experimentação científica é discutida como pilar para impulsionar a inovação nas organizações.
  • O impacto do negacionismo científico no ambiente corporativo e os riscos de ignorar evidências nas decisões de produto.

Temas discutidos

O episódio conecta a mentalidade ágil à essência do método científico, destacando a experimentação e a validação de hipóteses como fatores essenciais para a inovação. No contexto do trabalho do conhecimento, a liderança e a gestão de produtos precisam incentivar decisões baseadas em evidências concretas, superando opiniões sem fundamento. Essa abordagem fortalece a cultura organizacional nos diferentes horizontes de crescimento corporativo, permitindo que as empresas construam um legado sustentável e adaptável às transformações contínuas do mercado.

Para quem é este episódio

Este conteúdo é indicado para gestores de produto, líderes de inovação e agilistas que buscam fundamentar decisões operacionais e estratégicas em métodos científicos. Profissionais do conhecimento interessados em gerar um legado duradouro e fortalecer a cultura de experimentação contínua dentro de suas organizações também encontram diretrizes valiosas no episódio.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Qual é a relação entre pensamento científico e métodos ágeis?

O pensamento científico fornece a base para testar hipóteses e validar ideias antes da implementação em escala. Em sintonia com a agilidade, essa abordagem prioriza o aprendizado empírico e a adaptação rápida com base em dados. Isso evita desperdícios de recursos em iniciativas que não trazem resultados concretos para o negócio e para os clientes.

Como o pensamento científico auxilia no trabalho do conhecimento?

Trabalhadores do conhecimento lidam com cenários de incerteza em que respostas prontas não existem. O pensamento científico capacita esses profissionais a estruturarem experimentos, formularem hipóteses claras e avaliarem resultados com objetividade. Dessa forma, as equipes reduzem riscos, promovem a inovação consistente e constroem um legado intelectual sólido para a organização.

De que forma os horizontes de crescimento corporativo se relacionam com a inovação?

Os horizontes de crescimento exigem estratégias distintas para manter a operação atual enquanto se exploram novas oportunidades de mercado. A aplicação do pensamento científico e ágil permite validar ideias em fases iniciais, garantindo que as empresas consigam inovar de maneira sustentável e estruturada ao planejar o futuro dos seus negócios.

Sobre este episódio

Neste episódio 227 do Love the Problem, Rodrigo de Toledo, cofundador e trainer da K21, apresenta uma palestra sobre o maior legado que a comunidade ágil pode deixar para futuras gerações: o pensamento científico. A palestra começa com o conceito de legado em três dimensões — família, gerações e corporações — e introduz os horizontes de crescimento H0 a H3, modelo que ajuda empresas a equilibrar receita atual, próximos produtos, inovação e eliminação de burocracias obsoletas. Rodrigo redefine agilidade como adaptabilidade (o leopardo na floresta) e não velocidade (o trem-bala), e apresenta os três ingredientes do molho secreto da agilidade: ciclos curtos, melhoria contínua e foco no valor. A partir da história do Scrum, criada por Jeff Sutherland em 1993 com uma simples retrospectiva de sexta-feira, ele conecta os métodos ágeis ao método científico, herança que vem da pré-história com a capacidade humana de criar instrumentos que criam outros instrumentos. Propõe quatro passos para uma organização com pensamento científico: reconhecer a complexidade do trabalho de conhecimento, assumir humildade perante o desconhecido (com a frase de Adam Grant sobre ser ativamente de mente aberta), ser data-driven para combater o 'maior crachá da reunião' e cultivar a cultura da experimentação com ciclos de medir, aprender e construir. Apresenta o Test Card como ferramenta prática e encerra com um alerta contra o negacionismo científico, reforçando que toda boa ciência exige referências, revisão entre pares e a compreensão de que não há verdades absolutas. A mensagem final é uma provocação: se você quiser se opor, propor ou sobrepor algo, faça-o com pensamento científico.

Transcrição completa

O termo legado é muito usado. Existem três tipos de legado: o legado da família, que passa aos filhos tudo o que aprendeu, os ensinamentos e às vezes os bens; o legado entre gerações; e o legado de corporações. As corporações também deixam legado, e isso vai dar nas gerações. Para falar sobre corporações, é importante trazer o conceito dos horizontes no tempo. Existe uma teoria de três autores da McKinsey, escrita em 1999, que fala em três horizontes de crescimento. Toda vez que você estiver pensando em produto, estratégia ou algo novo, fique ligado nesses três horizontes: H1, H2 e H3. No H1, você está ligado no que é a sua base de receita atual, aquilo que te traz dinheiro agora, e precisa se dedicar para que isso continue trazendo valor. No H2, é o seu bezerro, aquilo que vai trazer valor daqui a pouco, e você precisa dedicar uma parte do esforço para que ele se torne o próximo produto ou estratégia. No H3, é a inovação, é o zoológico, onde você testa outras coisas, pode dar certo ou errado. Às vezes a gente fala em evolução, revolução e inovação. Trabalhando com empresas ao longo dos anos, percebeu-se que existia um outro horizonte, o H0, representado pela vaca morta. São aquelas coisas que tomam o esforço da gente e não trazem mais dinheiro, que já não deveriam existir mais, burocracias que já deveriam ter sido resolvidas. Quando usamos a analogia dos horizontes, H0 a gente quer minimizar, H1 e H2 a gente quer equilibrar, e o H3 a gente quer garantir. Em 2019, Felipe Urbano publicou um artigo citando os horizontes e disse que a carência de dinamicidade é uma arma animal, referindo-se a empresas que já pensam no legado que vão deixar para a sociedade e para o planeta. Grandes empresas têm fundações, como a Fundação Alberto Salim, um museu gratuito na Avenida Paulista. Esse pensamento de legados, quando mudamos o discurso para as gerações de trabalhadores de conhecimento, nos leva a uma reflexão importante. Nós, trabalhadores de conhecimento, temos muito pouco tempo de história. A maior parte do trabalho ao longo da evolução da humanidade foi braçal e repetitivo: agricultura, extrativismo, e depois a Revolução Industrial, ainda muito braçal. O trabalho de conhecimento é uma coisa mais recente, e nós ainda somos a minoria. O trabalho de conhecimento usa o cérebro, diferente do trabalhador braçal. Na agricultura, são 3 bilhões de pessoas no mundo. Somos privilegiados. A pergunta é: que legados estamos deixando para as próximas gerações do trabalho de conhecimento? Nós formamos uma comunidade que pensa diferente, e temos uma obrigação de pensar no legado que vamos deixar. Quando comecei a trabalhar com agilidade, as pessoas diziam que seria modinha, que passaria. Em 2008, quando comecei a dar aula de Scrum, a mesma coisa. Mas a gente só vem crescendo. Pode ser que um dia passe, mas qual é o legado que estamos deixando para quando chegar esse momento? Nosso maior legado, aquele que vai ficar para futuras gerações, é o pensamento científico. O que é ser ágil? Não é velocidade, é adaptabilidade. O trem-bala é extremamente veloz, mas a agilidade tem mais a ver com um leopardo correndo na floresta atrás da presa, desviando de obstáculos, pulando troncos, e no meio da corrida vendo outra presa mais interessante e desviando. Ciclos curtos e melhoria contínua: se você está trabalhando com ciclos curtos e melhoria contínua, você é ágil, não importa o nome do método. Mas o oposto também é verdade: se você trabalha com um método ágil que sai a cada três meses, não é ágil. Se é 95% Scrum e 0% ágil, porque não faz reunião de retrospectiva, que é reunião de melhoria contínua, então é 0% ágil. Os três ingredientes do molho secreto da agilidade são: ciclos curtos, melhoria contínua e foco no valor. A história do Scrum começa em 1993. Jeff Sutherland chegou ao time e propôs que toda sexta-feira, por meia hora, o time parasse para discutir como fazer a próxima semana melhor. A partir daí, o time foi criando o quadro, os post-its, a priorização, tudo isso com pontos de melhoria contínua, e isso tem a ver com o método científico. O método científico começa com Descartes, depois Newton. Os métodos ágeis são um método científico aplicado ao desenvolvimento de produtos e serviços. O ser humano se difere dos outros animais porque consegue criar instrumentos que criam outros instrumentos, aprimorar um instrumento com outro. Isso é experimentação, e foi assim desde a pré-história. O conhecimento é como uma ilha: o interior é o que sabemos, a praia é o que sabemos que não sabemos, e o que não sabemos é aquilo que nem sabemos que não sabemos. À medida que aprendemos mais, a praia cresce muito mais, e descobrimos muito mais coisas que nem sabíamos. A busca pelo conhecimento, a sede do conhecimento, é algo que devemos deixar como legado. O porquê é a pergunta mais importante do mundo. Temos que buscar os porquês, estimular as pessoas a perguntarem o porquê, ter paciência com os porquês de todos. Existem diferentes formas de pensamento: uma criança pensa de maneira mágica, o homem do Paleolítico pensava de forma mística, uma pessoa da Idade Média refletia através de superstições. E isso ainda acontece com as empresas: magia, misticismo, superstição. Quatro passos para ter uma organização com pensamento científico. Passo um: assumir que o trabalho do conhecimento é complexo. Existe uma classificação baseada na relação causa-efeito: óbvio, complicado, complexo e caótico. No óbvio, a relação causa-efeito é previsível e repetitiva. No complicado, a relação existe, dá para prever, mas dá trabalho. No complexo, que é onde está o trabalho intelectual, a relação causa-efeito é imprevisível e acontece em situações emergentes. No caótico, não há relação causa-efeito. Quando a coisa é óbvia, usa-se as melhores práticas; quando é complicado, usa-se uma das boas práticas; quando é complexo, as práticas são emergentes. É por isso que dois times ágeis nunca vão ser idênticos. Passo dois: desconhecemos a solução ou até mesmo o problema. Isso é uma frase do movimento Lean Startup. Significa humildade perante o desconhecido. Todo bom cientista pensa assim. Adam Grant, autor do livro Think Again, diz: pensar como um cientista significa ser ativamente de mente aberta, requer buscar razões pelas quais podemos estar errados. Isso se chama humildade intelectual. Trocar exclamações por interrogações. Isso vale para vários campos da vida. No trabalho de um coach, de um Scrum Master, de um consultor, o certo é fazer perguntas, descobrir onde está a causa raiz, e não chegar afirmando. Através de perguntas, a própria pessoa conclui onde está o erro, aprende, e resolve possivelmente várias discussões. Passo três: ser data-driven, ter cultura de métrica. O problema do highest paid person's opinion, a opinião da pessoa mais bem paga, o maior crachá da reunião, é resolvido com métricas. Diante das métricas, não tem mais espaço para chismo nem para ganhar no grito. Experimentações curtas baseadas em métricas. Passo quatro: cultura da experimentação. Medir, aprender, construir, em ciclos. Fail fast, learn faster. Experimentação não é fazer de qualquer jeito. Se você só usa boas práticas, tem tendência de sucesso, mas pouco aprendizado. Se faz de qualquer jeito, a chance de dar problema é maior e o aprendizado é pouco. Na cultura de experimentação, sucesso ou não, sempre é aprendizado. Uma empresa precisa fazer entre 100 e 150 testes, hipóteses e ajustes até encontrar o marketing certo para o seu produto. O Test Card é uma ferramenta extremamente simples, conectada ao método científico. Tem quatro campos principais: nós acreditamos que, e aqui se formula a hipótese; para verificar isso, nós vamos, e aqui se descreve o experimento; nós vamos medir, e aqui se diz quais métricas; e a gente estará certo se, e aqui se define o número esperado naquelas métricas. É fundamental dizer qual o número que se vai atingir com aquela métrica antes de fazer o experimento, para não cair em métrica de vaidade. O número pode vir da experiência anterior, dos números de mercado, dos concorrentes, de publicações especializadas. Todo Test Card vem com um Learning Card, onde se anota o que se aprendeu: essa era a hipótese, observamos isso, aprendemos isso, e a partir disso descartamos o que fazíamos e investimos em outra coisa. Um exemplo de roadmap feito com Test Card mostra a analogia do horizonte: o que está mais perto tem mais detalhe, o que está mais longe tem menos detalhe, representando a linha do tempo. Por fim, atenção ao negacionismo científico. Uma boa ciência sempre usa referências; se não tem referências, suspende. Sempre tem que ter revisão entre pares, comitês, que são formas de inteligência coletiva. Não há verdades absolutas: tudo que existe na vida sempre tem aspectos positivos e negativos. Se algo está sendo discutido só com aspectos positivos ou só com aspectos negativos, está enviesado. A verdade de hoje pode ser desconstruída amanhã, como Einstein derrubou partes de Newton ao ir para o nível quântico. A frase final: se você quiser se opor, propor ou sobrepor algo que já foi dito, feito ou algo novo, faça um pensamento científico.

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