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Love the People - Andressa Chiara
Ep. 5

Love the People - Andressa Chiara

4 de julho de 202201:04:59
Love The People
Pessoas

Resumo rápido

Neste episódio bônus de Love the People, Andressa Chiara, a convidada mais recorrente do Love the Problem, conta como foi de tradutora numa operadora de telefonia a CPO e como uma temporada obcecada pelo TikTok a levou, aos 39 anos, a descobrir que é autista, revisitando daí sua trajetória, sua visão de liderança e seu propósito de vida.

Capítulos

  1. 02:18Apresentação do quadro Love the People e chegada de Andressa Chiara
  2. 04:15A origem do apelido 'Chuchu'
  3. 10:41Do cinema à tradução entre marketing e TI, PMBOK e a descoberta da agilidade
  4. 25:02O propósito de vida: ajudar as pessoas a atingir seu potencial máximo
  5. 27:54Como o TikTok a levou à descoberta do autismo
  6. 39:22Neurodivergência como potencial de liderança e produtividade
  7. 52:02O sonho de transformar a educação e indicações finais

Frases do episódio

“Eu sou formada em cinema.”

10:41

“A sensação que eu tive foi que, finalmente, existia uma explicação pro jeito que eu sou.”

37:21

“A coisa mais interessante do processo do autismo pra mim foi descobrir o quanto autistas têm superpoderes.”

38:47

O que você vai ouvir neste episódio

  • A trajetória profissional de Andressa Chiara e sua evolução na área de gestão de produtos digitais.
  • A importância de colocar as pessoas no centro das decisões estratégicas e do desenvolvimento organizacional.
  • A relação entre liderança empática e o engajamento contínuo das equipes em projetos complexos.
  • Desafios práticos enfrentados por gestores ao conciliar objetivos de produto com o bem-estar dos times.
  • Lições aprendidas ao longo da carreira sobre colaboração, comunicação transparente e desenvolvimento interpessoal no ambiente corporativo.

Temas discutidos

O episódio conecta a gestão de produtos e a agilidade à centralidade das pessoas nas organizações. A trajetória debatida evidencia que resultados sustentáveis em tecnologia dependem diretamente de relações de confiança, liderança empática e cultura colaborativa. Ao priorizar o fator humano no ambiente corporativo, as empresas conseguem alinhar entregas de valor para o negócio ao bem-estar e desenvolvimento contínuo das equipes multidisciplinares.

Para quem é este episódio

Este conteúdo beneficia gestores de produto, líderes de equipe e profissionais de agilidade que buscam aprimorar a relação entre gestão de pessoas e resultados de negócio. É indicado também para executivos interessados em fortalecer a cultura organizacional por meio da empatia e da colaboração efetiva.

Sobre a série Love The People

Love The People traz histórias de carreira de pessoas que atuam com agilidade, produto e liderança. São conversas mais pessoais do que técnicas: transições de área, decisões difíceis, aprendizados e o que cada convidado faria diferente. Serve como referência para quem está construindo a própria trajetória profissional.

Ver todos os episódios da série Love The People

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Qual é a relação entre gestão de pessoas e desenvolvimento de produtos?

A gestão de produtos bem-sucedida depende diretamente das pessoas que compõem os times. Colocar os indivíduos no centro do processo favorece a colaboração, melhora a comunicação interna e garante que os objetivos do negócio sejam atingidos de maneira sustentável, resultando em produtos de maior qualidade e equipes mais engajadas com o propósito da organização.

Como a trajetória de Andressa Chiara contribui para profissionais de produto?

A trajetória compartilhada ilustra os aprendizados práticos na transição e consolidação de carreira em gestão de produtos. Suas experiências destacam a importância do aprendizado contínuo, da adaptação diante de desafios e de como o foco nas conexões humanas ajuda a construir soluções de impacto em ambientes corporativos dinâmicos.

Por que a empatia é essencial na liderança e na agilidade?

A empatia permite que líderes compreendam as necessidades e limitações de suas equipes, criando um ambiente de segurança psicológica. Isso impulsiona a inovação, reduz conflitos e melhora a resolução de problemas, elementos fundamentais para que métodos ágeis tragam resultados reais e sustentáveis ao longo do tempo nas organizações.

Sobre este episódio

Este episódio é um "Love the People", quadro do Love the Problem dedicado a conhecer mais a fundo a trajetória e a pessoa por trás dos convidados recorrentes do podcast. A convidada é Andressa Chiara, apelidada carinhosamente de "Chuchu", apresentada como a pessoa mais convidada na história do programa, com doze participações. A conversa é conduzida por Panda, com aparições pontuais de Duba, e tem como fio condutor a ideia de que, para resolver problemas do mundo, é preciso primeiro entender as pessoas que os resolvem.

A primeira metade do episódio percorre a trajetória profissional de Andressa. Formada em cinema, ela entrou no mercado corporativo pela porta da comunicação interna de uma grande operadora de telefonia, onde sua função era traduzir procedimentos técnicos em comunicados compreensíveis. Ao notar que os procedimentos eram mal escritos e ambíguos, como uma regra de fidelização redigida de forma contraditória, questionou tanto a área responsável que acabou promovida para lá. Foi nesse novo papel que percebeu que o problema de fundo não estava nos procedimentos, mas nos projetos malformulados que os originavam, o que a levou a atuar como uma espécie de "tradutora simultânea" entre as áreas de marketing e TI, origem, segundo ela, do trabalho que mais tarde se tornaria a função de CPO. Esse período também marca sua imersão no PMBOK, a obtenção da certificação PMP e, posteriormente, sua descoberta da agilidade: ouviu falar de Scrum ainda em 2007/2008, aplicou-a de fato só em 2012, e em 2013 aprendeu Kanban de forma inteiramente empírica. Um episódio marcante desse período é o de uma empresa cujo dono via os desenvolvedores como preguiçosos; Andressa implementou, no lugar de controle, um modelo baseado em confiança, compensação combinada de horas extras e jornada de trabalho focada, monitorando resultado por métricas de lead time e cycle time extraídas do próprio sistema de filas da empresa. Anos depois, chegaria a liderar oito times Scrum simultaneamente.

Um segundo bloco do episódio explora sua identidade para além da carreira. Ela descreve seu propósito de vida como ajudar as pessoas a atingirem o máximo potencial delas, dentro e fora do trabalho, inclusive no papel informal de conselheira que amigos costumam lhe atribuir. É esse interesse por como as pessoas funcionam que conecta sua trajetória profissional à parte mais pessoal e reveladora da conversa: como o TikTok, rede que ela testou por ser uma early adopter compulsiva, passou a entregar-lhe cada vez mais conteúdo sobre neurociência e neurodivergência à medida que seu algoritmo aprendia seus interesses. Ao perceber que os criadores de conteúdo que mais lhe atraíam eram, em sua maioria, autistas ou tinham TDAH, e ao assistir a um vídeo sobre sintomas de autismo em mulheres que a descreveu com precisão incômoda, ela mergulhou de forma obsessiva no tema, comportamento que, segundo ela mesma reconhece, é característico de quem tem uma predisposição no espectro. Levou à terapia uma lista de 163 sintomas identificados nela própria; a terapeuta, não sendo especialista, montou um time multidisciplinar para avaliá-la, e o diagnóstico de autismo veio em outubro do ano anterior ao episódio, quando ela tinha 39 anos, um caso típico de diagnóstico tardio em mulheres.

A conversa aprofunda esse ponto com dados: o CDC estima 1 autista a cada 44 pessoas, mas mulheres são diagnosticadas numa proporção de apenas 1 para cada 3 homens, porque comportamentos associados ao autismo tendem a ser socialmente normalizados nelas (uma menina quieta que gosta de desenhar é vista como "normal"; um menino no mesmo comportamento é visto como "estranho"). Ajustando por esse viés, Andressa estima que a prevalência real esteja entre 1 em 10 e 1 em 15 pessoas. Ela também descreve os diferentes "níveis de suporte" do espectro, do nível 3, mais visível e associado a maior necessidade de apoio, ao nível 1, praticamente invisível para quem não conhece os sinais, e relata como o próprio diagnóstico trouxe alívio, ao dar finalmente um nome a uma vida inteira de dificuldade de pertencimento, ansiedade, depressão e, no passado, uma tentativa de suicídio. Desde então, afirma não ter mais tido crises, graças a ferramentas de autorregulação aprendidas depois do diagnóstico.

Boa parte da conversa também trata do autismo e do TDAH como fontes de habilidades pouco reconhecidas, o que Andressa chama de "superpoderes": pensamento sistêmico que ela descreve como inato e impossível de desligar, hipersensibilidades sensoriais (ilustradas pela história de ter percebido, sozinha entre todos, um vazamento de água dentro de uma parede pelo som que só ela conseguia ouvir), e, no caso do TDAH, níveis mais baixos de dopamina que levam a uma busca constante por completar tarefas, o que, bem direcionado, pode gerar altíssima produtividade. Ela relaciona esse ponto à liderança, defendendo que times neurodivergentes, quando bem direcionados em vez de microgerenciados, entregam resultados excepcionais, citando a frase de um ex-gestor que preferia "segurar maluco do que empurrar carroça". Desde que passou a produzir os próprios vídeos sobre autismo no TikTok, hoje com cerca de 25 mil seguidores, já viu pessoas de seu círculo buscarem e obterem diagnóstico ao se identificarem com o conteúdo.

A conversa passa ainda por uma explicação, baseada no conceito de Jung, sobre a diferença entre introversão e extroversão (que não se confunde com timidez), já que o que define o traço é se a pessoa recarrega energia sozinha ou em grupo, exemplificado por Simon Sinek, um introvertido que passa boa parte do tempo palestrando em público. Para fechar o bloco principal, Andressa compartilha seu "sonho de princesa": tornar obsoleto o sistema educacional herdado da Revolução Industrial, criado para formar mão de obra padronizada, não para desenvolver o potencial das pessoas. Como indicações, ela recomenda "O Jogo Infinito" e "Comece Pelo Porquê", de Simon Sinek, o trabalho de Teresa Torres sobre descoberta contínua de produto e o material de Samantha Craft sobre neurodivergência, autora cuja lista de sintomas foi o gatilho inicial de sua própria jornada de autodescoberta. O episódio se encerra com um bloco bônus de perguntas rápidas e descontraídas ("momento cafezinho"), de tom mais leve e não relacionado ao conteúdo principal sobre carreira e neurodivergência.

Transcrição completa

Eu sou formada em cinema, foi assim que Andressa Chiara resume como chegou a projetos de tecnologia e, mais tarde, ao cargo de CPO: por um caminho que começou como tradutora simultânea entre marketing e TI dentro de uma grande operadora de telefonia.

A trajetória profissional começou na área de comunicação interna da TIM, onde seu trabalho era transformar procedimentos técnicos em comunicados para as regionais. Os procedimentos, no entanto, eram cheios de ambiguidades, como uma regra de fidelização escrita com um "ou" que, lida ao pé da letra, permitiria ao cliente trocar de aparelho todos os dias. Questionar essas inconsistências, repetidamente, fez a empresa promovê-la para a área de processos: "se tá ruim, pega e faz então, faz melhor" era a lógica da casa, e ela abraçou isso como princípio até hoje, inclusive na forma como conduz check-ins de OKR.

Na área de processos, descobriu que os problemas não estavam nos procedimentos, mas nos projetos mal desenhados que os originavam, e passou a atuar como uma espécie de tradutora entre marketing e TI, mediando conflitos e traduzindo as necessidades de um lado para a linguagem do outro. Foi esse papel de "tradutora simultânea" que, segundo ela, deu origem ao que depois se tornaria sua função de CPO. A partir daí, mergulhou no PMBOK e tirou a certificação PMP com a nota mais alta, apesar do pavor que sente de provas, mas logo passou a confrontar quem usava o PMBOK como escudo para não entregar valor ao cliente.

Foi assim que chegou à agilidade: ouviu falar de Scrum ainda em 2007 ou 2008, por uma colega, mas só conseguiu aplicá-la de fato em 2012, ao migrar para uma vaga de gerente de projetos. Em 2013, numa empresa com gestão mais tradicional, aprendeu Kanban de forma totalmente empírica, sem saber exatamente o que estava fazendo. Nessa empresa, o dono via os desenvolvedores como "preguiçosos"; ela propôs o oposto, nada de hora extra sem compensação combinada, jornada líquida de sete horas de trabalho focado, e o compromisso de resolver junto qualquer dificuldade que o time trouxesse. Passou a extrair métricas de lead time e cycle time do próprio sistema de filas da empresa para mostrar ao dono que ele não precisava controlar pessoas, e sim olhar para os números. Mais tarde, chegou a liderar oito times Scrum simultaneamente, uma trajetória que a fez ser vista por muita gente como "dura" e orientada a resultado, quando na prática, diz ela, sua tendência natural é sempre proteger as pessoas.

Esse é, aliás, o fio que conecta toda a sua história: seu propósito de vida é ajudar as pessoas a chegarem ao máximo potencial delas, no trabalho, mas também fora dele, no papel de conselheira que amigos costumam lhe atribuir. Não por achar que tem as respostas, mas por ajudar cada pessoa a processar suas próprias perguntas.

Foi justamente esse interesse genuíno pelas pessoas que a levou, através do TikTok, a uma descoberta pessoal importante. Sendo uma early adopter compulsiva, ela testou a rede desde o início sem se interessar muito, até usá-la para ajudar uma aluna de mentoria a divulgar aulas de música. A partir daí, o algoritmo passou a entregar cada vez mais conteúdo sobre neurociência, arqueologia e economia comportamental, e ela percebeu que os criadores que mais gostava tinham algo em comum: eram todos neurodivergentes, majoritariamente autistas ou com TDAH. Um vídeo sobre sintomas de autismo em mulheres a atingiu de forma tão direta que ela pegou a lista de sintomas, omitiu o assunto e entregou ao parceiro, Duba, pedindo a opinião dele. A resposta dele foi: "acho que essa pessoa te conhece".

Obcecada pelo tema, como costuma ficar com tudo que estuda, ela chegou a levar para a terapia uma lista de 163 sintomas identificados nela mesma. A terapeuta, sem ser especialista em autismo, montou um time multidisciplinar para avaliá-la, e em outubro do ano anterior ao episódio saiu o diagnóstico: Andressa é autista. A reação, segundo ela, foi de alívio: finalmente havia uma explicação para uma vida inteira de dificuldade de pertencimento e de adaptação, incluindo episódios de ansiedade, depressão e uma tentativa de suicídio no passado. Desde o diagnóstico, aprendeu ferramentas de autorregulação que fizeram desaparecerem as crises que costumava ter.

A conversa também abordou os diferentes "níveis de suporte" do espectro autista, do suporte 3, mais visível, ao suporte 1, praticamente invisível aos olhos de quem não conhece os sinais, e como isso afeta os dados: o CDC estima 1 autista a cada 44 pessoas, mas a subnotificação em mulheres (diagnosticadas numa proporção de 1 para cada 3 homens, porque características autistas tendem a ser socialmente normalizadas nelas) faz Andressa acreditar que o número real esteja entre 1 em 10 e 1 em 15 pessoas.

Para ela, o autismo também trouxe "superpoderes": pensamento sistêmico nato e incontrolável, e hipersensibilidades sensoriais, como no episódio em que percebeu, sozinha, um barulho de água que ninguém mais ouvia e que levou à descoberta de um cano furado dentro de uma parede. Ela também conecta o tema à liderança: pessoas com TDAH, por exemplo, têm níveis mais baixos de dopamina e por isso buscam completar mais tarefas para sentir a mesma satisfação, o que, bem direcionadas, as torna extremamente produtivas. Um ex-gestor dela resumia a ideia dizendo que preferia "segurar maluco do que empurrar carroça". Desde que começou a fazer vídeos próprios sobre o tema no TikTok, hoje com cerca de 25 mil seguidores, já viu pessoas próximas buscarem e conseguirem diagnóstico depois de se identificarem com o conteúdo.

A conversa também passou pela diferença, com base no conceito de Jung, entre introversão e extroversão, que não se confunde com timidez: o que define é se a pessoa recarrega energia sozinha ou em grupo, com o exemplo do próprio Simon Sinek, um introvertido extremamente comunicativo em público.

Para fechar, Andressa falou do seu "sonho de princesa": tornar obsoleto o sistema educacional herdado da Revolução Industrial, criado para formar mão de obra padronizada e não para desenvolver o potencial das pessoas. Como indicações de conteúdo, recomendou "O Jogo Infinito" e "Comece Pelo Porquê", de Simon Sinek, o trabalho de Teresa Torres sobre descoberta contínua de produto ("Continuous Discovery Habits") e o material de Samantha Craft sobre neurodivergência, cuja lista de sintomas foi o gatilho inicial da própria descoberta de Andressa.

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