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Love the People - Panda
Ep. 4

Love the People - Panda

6 de junho de 202200:58:17
Love The People
Pessoas

Resumo rápido

Panda, host do Love the Problem e consultor da K21, conta a origem real do seu apelido, sua trajetória da engenharia industrial até a agilidade no PagSeguro, o processo de largar a máscara do "engenheiro Antônio" para viver como Panda, e como se preparou para apoiar a esposa Mari na chegada da filha Elisa.

Capítulos

  1. 01:06Abertura do Love the People e o critério para convidar o Panda
  2. 07:47A origem (real e inventada) do apelido Panda
  3. 10:56O nome verdadeiro e a piada do "gerente" que atrasou uma contratação
  4. 15:18Da engenharia química à descoberta da agilidade no PagSeguro
  5. 23:25O engenheiro Antônio: a máscara no trabalho e o poder explícito x implícito
  6. 34:31Tornar-se pai: a chegada da Elisa e a carga mental da parentalidade
  7. 46:58Masculinidade, fé e o amor como a única certeza

Frases do episódio

“E aí, eu queria começar com uma pergunta que eu acho que todo mundo deve te fazer, que é... Por que panda?”

07:40

“O problema é quando outras pessoas impõem essas máscaras pra você.”

24:50

“Pra mim, o amor é a base de tudo.”

47:59

O que você vai ouvir neste episódio

  • Panda compartilha os detalhes de sua trajetória profissional como consultor de agilidade na K21 e host do podcast.
  • O episódio aborda a atuação e o envolvimento direto de Panda no desenvolvimento das comunidades ágeis.
  • O convidado reflete sobre seus papéis pessoais de filho e irmão no contexto de sua jornada de vida.
  • Panda comenta a transição para a paternidade com o nascimento recente de sua filha Elisa.

Temas discutidos

A trajetória de profissionais de agilidade demonstra como o fator humano se conecta diretamente à cultura organizacional e ao trabalho em equipe. Ao explorar a história de Panda, consultor da K21 e atuante nas comunidades ágeis, o episódio evidencia como vivências pessoais e novos papéis da vida privada, como a paternidade, influenciam a liderança, a empatia e a atuação profissional no ambiente corporativo, fortalecendo a visão de que pessoas e relacionamentos sustentam a agilidade real nas organizações.

Para quem é este episódio

Este episódio é recomendado para consultores de agilidade, líderes de equipes e membros ativos de comunidades de tecnologia que buscam referências sobre trajetória profissional e o impacto da vida pessoal e familiar na construção de uma carreira orientada a pessoas.

Sobre a série Love The People

Love The People traz histórias de carreira de pessoas que atuam com agilidade, produto e liderança. São conversas mais pessoais do que técnicas: transições de área, decisões difíceis, aprendizados e o que cada convidado faria diferente. Serve como referência para quem está construindo a própria trajetória profissional.

Ver todos os episódios da série Love The People

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Quem é Panda e qual o seu papel no podcast e na K21?

Panda é apresentador do podcast Love the Problem e atua como consultor de agilidade na K21. Além de sua atuação corporativa, ele possui forte envolvimento com comunidades ágeis no Brasil, aplicando conceitos de gestão e facilitação para apoiar o desenvolvimento de times e organizações em sua jornada de transformação.

O que é abordado na série Love the People do podcast?

A série Love the People busca apresentar o lado humano, os bastidores e a trajetória pessoal e profissional dos convidados e apresentadores do podcast. O conteúdo destaca momentos marcantes de carreira, experiências em comunidades ágeis e como os aspectos pessoais moldam a atuação profissional no mercado de trabalho.

Quais aspectos da vida pessoal de Panda são discutidos no episódio?

O episódio explora os diferentes papéis pessoais desempenhados por Panda fora do ambiente corporativo. O apresentador compartilha detalhes de suas relações familiares como filho, irmão e marido da Mari, destacando também o impacto recente da chegada de sua filha Elisa em sua rotina profissional e pessoal.

Sobre este episódio

O episódio 4 do Love the People, o quadro do Love the Problem dedicado a conhecer as pessoas por trás das vozes do podcast, recebe o Panda, host do próprio Love the Problem, puxador da comunidade Link Off Blumenau e consultor da K21. A escolha segue o "critério do coração": chamar quem se ama e faz diferença na comunidade, e o entrevistador reconhece que a entrevista tem um sabor diferente por se tratar de alguém tão próximo.

A conversa começa pela pergunta que, segundo o próprio Panda, todo mundo faz: por que Panda? A resposta mais repetida ao longo dos anos, a de que ele tocava numa banda cover do Kiss e a dificuldade de tirar a maquiagem deixava um resíduo de olho preto, é revelada pelo próprio Panda como provavelmente inventada, mantida apenas porque sempre recebeu boa recepção. A história que ele trata como mais próxima da real remonta à adolescência: um amigo apelidado Cebola, que suava muito jogando basquete e ficava com o cabelo grudado, começou a colocar apelidos de bichos em toda a turma, e assim nasceram Rato, Castor, Peixe e o próprio Panda, apelido que já carrega cerca de dezoito anos.

Boa parte do início do episódio também gira em torno do nome verdadeiro dele, Antônio Gaspar Guarante Júnior, herdado do pai e dos avós. Como "Guarante" soa parecido com "gerente", ele é frequentemente confundido com esse cargo, inclusive por colegas da K21 que o adicionaram como gerente no LinkedIn. O episódio revela a origem concreta dessa piada recorrente: durante o processo seletivo para o PagSeguro, o formulário de abertura da vaga trazia seu nome completo, e o time de RH leu "gerente" ali e entendeu, erroneamente, que a gestora responsável estava tentando contratar alguém de cargo superior ao permitido pela hierarquia, o que atrasou a vaga em duas idas e vindas. A ansiedade desse período coincidiu com uma crise de cálculo renal, sem pedra nenhuma encontrada, o que ele credita a emoções reprimidas reagindo no corpo.

A trajetória profissional ocupa uma parte central da entrevista. Formado em engenharia química, com especialização em engenharia de produção, ele descreve como a faculdade era voltada a modelagem e projeto, enquanto o primeiro emprego, na linha de produção industrial, revelou um cotidiano muito mais humano do que esperava, lidar com pessoas e problemas reais, não só com máquinas. Foi nesse ambiente que teve contato empírico com Lean e melhoria contínua. A virada para a agilidade nasceu de uma conexão pessoal e não profissional: numa conversa de férias, um amigo mencionou que a equipe do PagSeguro usava "Kanban", termo que ele só conhecia como sistema físico de controle de estoque na fábrica, com cartões que acompanhavam lotes de material. A estranheza virou curiosidade, que o levou a um TDC em Florianópolis, a uma apresentação com a gestora do time de agilidade do PagSeguro, Mariana Zaparoli, e a um café em São Paulo, o mais caro que já tomou na vida, mas que ele descreve como o investimento que abriu a mudança de carreira. O episódio também esclarece um detalhe histórico: apesar de ter chegado ao PagSeguro com o cargo de "Ágil Master", ele nunca atuou de fato dentro de um time só, sempre em contextos mais amplos, o que corresponderia hoje ao papel de "Ágil Coach". Foi ainda nas primeiras semanas no PagSeguro que conheceu a K21 e o Lula.

O momento mais marcante da conversa é o relato sobre o "engenheiro Antônio". Ainda na indústria, um gerente pediu que ele passasse a assinar relatórios técnicos com "engenheiro" antes do nome, para dar mais peso ao que produzia. Até então, ele assinava apenas com o próprio nome. Esse pedido revelou uma separação entre quem ele precisava ser dentro do trabalho e quem era fora dele, uma máscara que foi ficando cada vez mais pesada: o engenheiro Antônio tinha que saber todas as respostas, não podia vacilar, tinha que resolver todos os problemas e lidar com toda situação de tensão sem nunca parecer cansado ou irritado. Com o tempo, essa exigência esvaziou o prazer que ele sentia no próprio trabalho, não porque não gostasse do que fazia, mas porque não aguentava mais sustentar a máscara. A mudança para o PagSeguro veio sem esse histórico de expectativas ligado à indústria, o que abriu espaço para se apresentar, desde o primeiro grupo de WhatsApp da empresa, simplesmente como Panda, apelido que colou tão bem que até hoje há quem não saiba seu nome verdadeiro.

Dessa experiência nasce uma reflexão sobre poder que atravessa o episódio: relações de poder explícitas não incomodam o Panda, porque são visíveis e permitem escolha consciente sobre ficar ou não naquela situação. O que realmente dói é o poder implícito, não-dito, como aquele pedido sutil para acrescentar "engenheiro" ao nome, porque tira da pessoa a possibilidade de decidir com clareza. Por isso ele se diz privilegiado por trabalhar hoje num ambiente, a K21, em que o poder está nos acordos e não nas pessoas. Em ambientes de hierarquia muito estruturada, com esse jogo implícito por trás, ele diz sentir pena de quem sofre sem ter plena consciência do que está em jogo, como um peão movido num tabuleiro de xadrez.

Questionado sobre a origem do seu jeito questionador, ele volta à infância: brincava muito na rua, pescava com o pai, inventava coisas com o que tinha à mão, num mundo de possibilidades quase infinitas. Perdeu o pai aos quinze anos, o que acelerou um amadurecimento forçado: precisou assumir sozinho responsabilidades que normalmente teriam apoio dos pais, como tirar a própria carteira de trabalho. A falta de alguém para indicar o caminho fez com que grande parte do que aprendeu viesse de descoberta própria, o que ele credita como raiz do seu hábito de questionar quase tudo e tratar poucas coisas como certezas definitivas.

A conversa se volta então para a paternidade recente. Ele e a esposa Mari, casados há nove anos e juntos há doze, tiveram a filha Elisa, que no momento da gravação tinha pouco mais de um mês. Ele sempre quis ser pai e deixava a decisão do momento certo com a Mari, já que a gestação mudaria o corpo e a rotina dela, não a dele. Durante o período em que moraram em São Paulo, chegou a hesitar, sentindo que a cidade grande não combinava com sua ideia de criar uma criança; a volta para Santa Catarina, motivada pela pandemia, reacendeu essa vontade. Ele descreve como a chegada da Elisa reorganizou o peso relativo das coisas: contas atrasadas ou multas, que antes pareciam grandes problemas, se tornaram pequenas, enquanto ouvir a filha chorar por poucos segundos passou a doer de um jeito muito mais intenso. Hoje, mais do que acumular certezas ou saber as coisas, o que importa para ele é estar presente.

Sobre como se preparou para apoiar a Mari na gestação e no puerpério, ele reconhece um padrão pessoal: diante de algo que o interessa muito, sua tendência é estudar obsessivamente, como fez ao ler todos os livros disponíveis sobre escotismo antes do primeiro encontro do grupo. Dessa vez, orientado pela própria Mari, decidiu ir mais devagar para não transformar o momento em mais uma responsabilidade pesada. Leu pouco, ouviu alguns podcasts e participou de grupos de paternidade, mas descreve como o essencial ter sido ouvir a Mari e acolher o que ela sentia, aplicando na prática a escuta e a empatia que já trabalha profissionalmente. Além disso, assumiu deliberadamente reduzir ao máximo a carga mental e física dela, trazendo para si tarefas domésticas e buscando caminhos práticos para que essa carga deixasse de ser necessária, post-its na geladeira, checklists compartilhados, um assistente de voz para a lista de compras. Ele defende que todo homem deveria fazer o exercício de assumir, por um tempo, toda a carga mental que normalmente recai sobre a parceira, para dimensionar o quanto ela pesa, e a partir daí buscar formas de reduzi-la de verdade, não apenas dividi-la.

O episódio se encerra conectando esse processo à jornada mais ampla de autoconhecimento do Panda, que já apresentou vários episódios do Love the Problem sobre masculinidade e emocionalidade. Ele fala também da fé como parte importante de sua vida desde cedo, descrevendo-se como cristão com uma visão centrada no amor, inspirada em um Cristo que caminhava com os excluídos, e não numa versão mais dura do cristianismo que, segundo ele, tem ganhado força. Entre tão poucas certezas, diz, o amor é uma das poucas coisas que trata como imutáveis. Termina desejando a quem ouve uma vida de descoberta pessoal constante, no dia a dia.

Transcrição completa

Tá começando o Love the People, quadro do Love the Problem em que a gente conhece mais as histórias e trajetórias das pessoas que transformam e levam inovação pras organizações. E o convidado de hoje é o Panda, host do próprio Love the Problem e também puxador da comunidade Link Off Blumenau. O critério pra chamar alguém pro quadro é o critério do coração: chamar as pessoas que a gente ama e que fazem diferença na comunidade. Panda também é consultor e já é expert na K21.

A primeira pergunta é direta: por que Panda? A versão oficial, contada e recontada, é a de que ele tocava numa banda cover do Kiss na adolescência e tinha muita dificuldade pra tirar a maquiagem, o que deixava um resto de olho preto, daí teria surgido o apelido. Mas ele mesmo admite que essa história provavelmente não é verdadeira: é só a que recebeu os melhores feedbacks ao longo dos anos e por isso virou a "história oficial". A versão que ele considera mais real é outra: na adolescência, um amigo apelidado Cebola, porque suava e ficava com o cabelo grudado, parecido com o do Cebolinha, começou a colocar apelidos de bichos em todo mundo da turma. Assim surgiram Rato, Castor, Peixe e, entre eles, Panda, apelido que já tem cerca de 18 anos.

Poucas pessoas sabem o nome verdadeiro dele: Antônio Gaspar Guarante Júnior, nome herdado do pai e dos avós (um Antônio, outro Gaspar). Escrever o nome inteiro na escola era um parto quando criança. E existe uma piada clássica ligada a esse nome: como "Guarante" soa parecido com "gerente", ele é sempre chamado de "gerente" por engano, inclusive por pessoas da K21 que o adicionaram como gerente no LinkedIn. A piada tem uma origem concreta e até dolorida: quando ele estava se candidatando pra uma vaga no PagSeguro, o formulário de contratação continha seu nome com "gerente" embutido, e o RH interpretou que a pessoa responsável pela vaga (Mari) estava tentando contratar um gerente, o que não era permitido pela hierarquia da empresa, então a abertura da vaga foi barrada duas vezes por esse mal-entendido, atrasando o processo. Foi um período de ansiedade tão grande que ele teve uma crise de cálculo renal (sem pedra nenhuma encontrada) bem na época da demora da resposta do PagSeguro.

Sobre a trajetória profissional: ele é engenheiro químico de formação, com especialização em engenharia de produção. Na faculdade, o foco era todo em modelagem e projeto atrás de computador; no primeiro emprego, na linha de produção industrial, descobriu que a vida real era outra, lidar com pessoas no dia a dia, com os problemas que iam surgindo. Gostou muito dessa dinâmica, que descobriu ser muito mais humana do que esperava. Na indústria, teve contato empírico com Lean e melhoria contínua no cotidiano das fábricas. A virada pra agilidade aconteceu por uma conexão pessoal: através da esposa, conheceu o Sandro (que também já foi convidado do Love the Problem), e numa conversa de férias ele comentou que no PagSeguro a galera usava "Kanban". Ele estranhou, porque pra ele Kanban era uma coisa física, os cartões com lotes de estoque que via na fábrica todos os dias, não fazia sentido usar isso numa empresa de tecnologia. Foi pesquisar, e Sandro acabou apresentando-o à Mariana Zaparoli, gestora do time de agilidade do PagSeguro. Antes disso, foi a um TDC em Florianópolis pra entender melhor do que se tratava aquela trilha de "agilidade" e gostou do que viu. Pouco depois, Mari chamou pra conversar, ele comprou passagem pra São Paulo no dia seguinte e foi tomar um café com ela, o café mais caro que já tomou na vida, mas o investimento que abriu a mudança de carreira. Foi assim que chegou ao PagSeguro, ambiente que descreve como muito rico de conteúdo e de incentivo, onde recebeu os primeiros estímulos pra palestrar. Conheceu a K21 já nas primeiras semanas no PagSeguro, através de um curso, e foi ali também que conheceu o Lula.

Um ponto importante é o esclarecimento de que ele nunca foi de fato "Scrum Master": chegou ao PagSeguro com o cargo de "Ágil Master" mais por ainda estar em processo de entendimento da agilidade, mas sempre atuou em contextos mais amplos que o de um time só, o que na época era chamado de "Ágil Coach".

Um dos momentos mais marcantes da conversa é sobre a diferença entre o "engenheiro Antônio" da fábrica e o "Panda" que se permitiu ser depois. Na indústria, um gerente disse certa vez que ele precisava assinar os relatórios técnicos como "engenheiro" antes do nome, pra dar peso e validade ao que fazia. Ele nunca tinha colocado a formação antes do nome, só assinava com o nome, no máximo com o cargo. A partir daquele momento percebeu que vivia uma separação entre quem era dentro e fora do trabalho, e que essa separação era exaustiva: era preciso se comportar como o engenheiro Antônio esperado por todos, aquele que sabe todas as respostas, que não pode vacilar, que tem que resolver todos os problemas e lidar com todas as demandas, com o cliente, o diretor, o operador, sem nunca se irritar ou parecer cansado. Com o tempo, isso foi pesando tanto que ele deixou de sentir prazer no que fazia, não porque não gostasse do trabalho em si, mas porque não aguentava mais vestir aquela máscara. A mudança pro PagSeguro veio sem esse histórico e essa expectativa: não havia bagagem de "engenheiro de fábrica" a carregar ali, então ele se apresentou como Panda desde o primeiro grupo de WhatsApp da empresa, e o apelido colou tão bem que até hoje tem gente que não sabe seu nome verdadeiro.

Ele reflete que o problema não é a hierarquia em si; com relações de poder explícitas ele não tem problema, porque são visíveis e permitem escolha: você pode decidir se aceita ficar naquela situação ou não. O que dói de verdade é o poder implícito, o jogo político não-dito, como aquele pedido pra colocar "engenheiro" no nome por uma questão de aparência. Por isso se sente privilegiado na K21, onde o poder está nos acordos e não nas pessoas, o que facilita muito as relações. Em ambientes com hierarquia muito estruturada e esse jogo implícito por trás, ele sente pena de quem sofre sem ter plena consciência disso, como um peão no tabuleiro de xadrez.

Questionado sobre o quanto sua criação contribuiu pra esse jeito questionador, ele conta que na infância, mesmo brincando muito na rua e explorando a natureza com o pai (pescaria, bicicleta, invenções com tijolo e tábua), foi perdendo espaço pra certezas conforme cresceu. Perdeu o pai aos 15 anos, o que acelerou um amadurecimento rápido: precisou assumir responsabilidades e resolver sozinho coisas que normalmente teriam apoio dos pais, como tirar a própria carteira de trabalho. Não teve muita gente pra apontar o caminho, então grande parte do que viveu foi descoberta própria, o que ele credita como raiz do seu jeito de questionar tudo e de não tratar quase nada como certeza definitiva.

A conversa então vai pra paternidade. Ele e a esposa Mari, nove anos de casados, doze juntos, tiveram a filha Elisa, que no momento da gravação tinha pouco mais de um mês. Ele sempre quis ser pai e dizia à Mari que a decisão era dela, já que a gestação mudaria o corpo e a rotina dela, não a dele. Quando moraram em São Paulo chegou a hesitar, sentindo que a cidade grande não era o cenário mental que imaginava pra criar uma criança; a volta pra Santa Catarina, motivada pela pandemia, reabriu essa vontade. Ele descreve como a chegada da Elisa mudou o peso relativo das coisas na vida: questões que antes pareciam grandes, atrasar uma conta, pagar uma multa, se tornaram pequenas, enquanto outras, como ouvir a filha chorar por poucos segundos, passaram a doer de um jeito muito mais intenso. Hoje, mais do que ter certezas ou saber as coisas, o que importa é estar presente.

Sobre como se preparou pra apoiar a Mari na gestação e no puerpério, ele conta que sua primeira reação, típica dele, seria estudar tudo obsessivamente, como fez quando se envolveu com escotismo e leu todos os livros disponíveis antes do primeiro encontro do grupo. Mas reconheceu, com ajuda da própria Mari, que precisava ir mais devagar pra não transformar aquele momento em mais uma responsabilidade pesada. Acabou lendo pouco, ouvindo alguns podcasts e participando de grupos de paternidade no WhatsApp e no Telegram, mas o essencial, segundo ele, foi ouvir a Mari e acolher o que ela estava sentindo, aplicando na prática a escuta e a empatia que ele já trabalha profissionalmente. Ele também assumiu deliberadamente reduzir ao máximo a carga mental e física dela: trouxe pra si o que fosse possível das tarefas domésticas e de organização da casa, encontrando caminhos práticos pra que essa carga nem precisasse mais existir, como post-its na geladeira, checklists compartilhados e um assistente de voz que registra a lista de compras. Ele defende que todo homem deveria fazer o exercício de assumir por um tempo toda a carga mental que normalmente recai sobre a parceira, pra dimensionar o quanto isso pesa, e, além de aliviar, buscar formas de tornar essa carga desnecessária pra qualquer um dos dois.

Encerrando a conversa, ele conecta esse movimento de autoconhecimento ao seu processo mais amplo de rever a própria masculinidade e de se conhecer emocionalmente, tema de vários episódios que ele mesmo apresentou no Love the Problem. Fala também da fé como parte importante da sua vida desde cedo: se descreve como cristão, mas deixa claro que sua visão de fé é centrada no amor, inspirada em um Cristo que andava com os excluídos e pregava amor, não numa versão mais dura do cristianismo que segundo ele tem ganhado força. Pra ele, entre tão poucas certezas na vida, o amor é uma das poucas coisas imutáveis. Termina desejando que quem ouve viva, no dia a dia, uma jornada constante de descoberta pessoal.

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