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Ep. 15 - Comportamento Tribal: Great Boss Dead Boss
Ep. 15

Ep. 15 - Comportamento Tribal: Great Boss Dead Boss

4 de maio de 202000:52:07
Facilitação

Resumo rápido

Neste episódio, dois especialistas discutem o modelo de comportamento tribal do livro Great Boss, Dead Boss, de Ray Immelman, que descreve como indivíduos e tribos operam em duas dimensões, segurança e valorização, e como líderes podem usar isso para diagnosticar disfunções organizacionais. A conversa conecta o modelo a motivação, ao ciclo de Tuckman e ao viés de Kahneman, e traz dois casos reais de 'implosão' deliberada de subgrupos disfuncionais dentro da própria empresa dos entrevistados.

Capítulos

  1. 02:55O modelo: indivíduo, tribo, segurança e valor
  2. 11:07O inimigo comum e as subtribos dentro de um time
  3. 18:07Estratégias do livro: inimigo comum e símbolos
  4. 27:49Segurança antes de valores, e a conexão com motivação
  5. 31:36Quando 'implodir' uma tribo é a decisão certa
  6. 38:15O modelo tribal e as fases de Tuckman
  7. 39:59Por que o status quo máximo também é um risco
  8. 46:43Frases finais: tensão, eventos e afiliação tribal

Frases do episódio

“Os indivíduos, eles são socialmente, emocionalmente e psicologicamente definidos pelas suas afiliações tribais.”

48:06

“Não existe progresso sem tensão.”

46:43

“Celebre eventos e não estratégias.”

47:19

O que você vai ouvir neste episódio

  • A análise dos padrões de comportamento tribal revela como a cultura organizacional influencia a produtividade das equipes.
  • O conceito de liderança tribal demonstra a importância de transicionar times de relações individuais para conexões coletivas.
  • A facilitação atua como ferramenta essencial para mapear a maturidade cultural e guiar interações saudáveis no trabalho.
  • Líderes precisam reconhecer o impacto do próprio comportamento para evitar dependências e promover a autonomia do grupo.
  • A evolução da cultura tribal exige o alinhamento de valores compartilhados e metas claras entre todos os membros.

Temas discutidos

O comportamento tribal está diretamente conectado à cultura organizacional e ao exercício da liderança ágil. Compreender como os indivíduos se agrupam e se comunicam permite que facilitadores e gestores atuem de forma intencional na evolução dos times. A facilitação surge como uma prática determinante para desfazer silos, alinhar propósitos e elevar a maturidade coletiva. Ao aplicar esses conceitos no contexto de produtos e tecnologia, as empresas constroem ambientes mais adaptáveis, colaborativos e focados na resolução eficiente de problemas complexos.

Para quem é este episódio

Este conteúdo é ideal para facilitadores, Agile Coaches e líderes que buscam compreender as dinâmicas culturais de suas equipes. Profissionais de gestão de pessoas e gerentes de produtos também se beneficiam ao aprender como mapear comportamentos tribais e promover ambientes colaborativos.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

O que é comportamento tribal no contexto organizacional?

O comportamento tribal refere-se aos padrões culturais e de linguagem que grupos humanos desenvolvem naturally dentro das empresas. Compreender essas etapas permite identificar o nível de alinhamento e colaboração da equipe, ajudando lideranças e facilitadores a criar estratégias para evoluir a maturidade do time e melhorar a entrega de valor.

Qual é o papel da facilitação na evolução cultural das equipes?

A facilitação atua criando espaços seguros para diálogo, permitindo que o time identifique gargalos relacionais e alinhe expectativas. O facilitador utiliza técnicas para expor dinâmicas tribais disfuncionais, incentivando a transição de comportamentos individualistas para uma postura focada no sucesso coletivo e nos objetivos estratégicos da organização.

Como a liderança influencia a maturidade da tribo?

A liderança influencia diretamente a maturidade ao moldar a linguagem e as atitudes aceitas no grupo. Líderes que centralizam decisões limitam o crescimento do time, enquanto aqueles que estimulam a autonomia e conexões entre os membros ajudam a tribo a alcançar níveis mais elevados de cooperação e eficiência.

Sobre este episódio

Neste episódio, dois especialistas discutem o modelo de comportamento tribal do livro Great Boss, Dead Boss, de Ray Immelman, que propõe que indivíduos e as tribos a que pertencem operam em duas dimensões centrais, segurança e valorização, e que entender essa dinâmica é essencial para diagnosticar disfunções organizacionais que vão além do comportamento individual.

Um ponto central é a importância de criar um 'inimigo comum' claro (tipicamente, o problema real do cliente) para evitar que subgrupos dentro de um mesmo time (como desenvolvedores back-end e front-end) se tornem tribos rivais que se sabotam mutuamente em vez de colaborar. Símbolos compartilhados (como camisetas de empresa) também são citados como ferramentas legítimas para reforçar segurança tribal em estágios iniciais.

Dois casos reais dentro da empresa dos entrevistados ilustram a aplicação prática do modelo: em ambos, uma subtribo disfuncional, cuja instabilidade estava prejudicando psicologicamente seus membros, foi deliberadamente 'implodida' através de uma retrospectiva em que cada pessoa foi questionada sobre com quem se sentia confortável trabalhando, permitindo que novas tribos saudáveis se formassem organicamente, com benefícios de longo prazo para a organização como um todo.

O episódio conecta o modelo a outras estruturas conhecidas: as fases de Tuckman (forming, storming, norming, performing, adjourning) mapeiam diretamente os níveis de segurança individual e tribal; a pirâmide de Maslow explica por que segurança precisa vir antes de qualquer discussão sobre valores; e o viés WYSIATI de Daniel Kahneman explica por que líderes são frequentemente surpreendidos por rupturas que, na verdade, vinham se formando nas dinâmicas tribais invisíveis da organização.

Um contraintuitivo central do livro é discutido: manter uma tribo no patamar máximo de segurança e valorização por tempo demais faz com que ela proteja o status quo e rejeite novos membros como ameaça externa. A recomendação para líderes é desafiar ativa e gradualmente esse status quo, 'puxar a régua', para que a tribo continue evoluindo, encerrando com a máxima citada do livro: 'não existe progresso sem tensão'.

Transcrição completa

Que problema estamos resolvendo aqui com análise de comportamento tribal? A primeira questão maior é que isso vai ajudar você a entender problemas que não são causados só pelos indivíduos, mas pelas interações entre eles e outras equipes. O comportamento tribal, dentro do livro, vai te explicar quais são as possibilidades que você tem, como líder, de olhar para a sua equipe e saber o que pode fazer para reforçar e trabalhar a motivação. Isso conecta com o episódio sobre pensamento sistêmico: a frase do Ackoff de que, num sistema complexo, o produto não é definido pela soma das partes, mas pela interação entre elas, e o comportamento tribal entra nisso a fundo.

O livro, no início, coloca que você, como indivíduo, tem dois valores básicos: a sua segurança individual e a sua valorização individual, a base para você sobreviver e andar na rua no dia a dia. Em seguida, o livro coloca que você não existe só nessa dimensão individual: você também vive uma dimensão tribal, se relaciona com outras pessoas com quem tem afinidades, e essas afinidades constituem tribos. A tribo é uma das organizações mais antigas que existem; historicamente, é muito natural a gente se aglomerar em tribos. Então, dentro do tribal, também existe segurança e valor. O livro vai comentar várias estratégias de como, como indivíduo ou líder, você pode agir.

Durante o livro, ele também comenta como identificar as tribos e a relação entre elas: a forma como as pessoas se comunicam pode passar mensagens para outras tribos, indicando que estão querendo ajudar ou atrapalhar. Fazendo o merge dessas duas dimensões, indivíduo e tribo, segurança e valor, você consegue ter uma linguagem comum para conversar sobre o modelo: o indivíduo está seguro? A tribo está segura? O que o indivíduo valoriza está conseguindo ser expressado? O que a tribo valoriza está sendo colocado em prática?

A gente acha que tem muita autonomia individual, mas a gente é literalmente influenciado de forma emocional, psicológica e social pela tribo a que pertence, pelo que é valorizado dentro dela. A gente tem que prestar muita atenção, nas empresas, ao que valorizamos e aos ambientes de segurança que criamos para essas tribos internas. Um exemplo comum em times de desenvolvimento: você tem back-end, front-end, os mais de Ops, já são possíveis subtribos dentro de um time. Se você, como líder, não trabalha a questão de qual é o inimigo comum dessa tribo: não é 'o back-end não fez a API do jeito que o front queria'; o inimigo comum é entregar algo de valor para o cliente final. Você tem que criar esse senso de propósito, de inimigo comum, senão a gente não vai entregar o produto de valor que precisa.

Isso me lembra um capítulo do livro Reinventando as Organizações, sobre integralidade, 'Você é um Ser Humano Integral'. Não adianta falar que na vida você tem comportamentos tribais, mas no trabalho não. Você é um ser humano no trabalho também; vai ter esse tipo de comportamento. O modelo ajuda a fazer isso de forma mais consciente. Se você não cria um inimigo comum conscientemente entre grupos que fazem partes diferentes do trabalho, talvez uma tribo vire inimiga da outra, e está feita a fórmula para tudo explodir, sem nenhum mínimo de segurança.

É legal falar que a nossa empresa tem valores bem explícitos da tribo; é uma das primeiras coisas que a gente olha ao contratar alguém: será que a gente tem os mesmos valores, será que olhamos para as mesmas coisas? Dentro da própria empresa, a gente tem times que têm valores particulares também, mas esses valores das tribos menores precisam ser compatíveis com os valores da tribo maior, senão você entra em divergência e começa a ter comportamentos disfuncionais. Você pode criar valores diferentes dentro das tribos menores, mas não divergentes dos valores da tribo maior, senão cria um conflito.

O livro fornece estratégias práticas: se você tem uma tribo cujos valores estão baixos, e indivíduos cujos valores não estão conseguindo ser expressados, o que fazer? Ele dá ações possíveis, por exemplo, definir um inimigo comum, que gera senso de pertencimento, um movimento de todo mundo remando para o mesmo lado. Talvez OKRs sejam uma boa estratégia para definir esse inimigo comum: se você tem um objetivo traçado, com resultados-chave, entende qual é o desafio que precisa batalhar.

Algumas dessas ações estão ligadas a símbolos: quando você tem a segurança da tribo baixa e está começando a gerar alguma segurança, você consegue reforçar símbolos, e isso ajuda a unir. Símbolos como camisetas da empresa são exemplos disso.

Um dos 23 atributos que o livro lista para tribos é que o rito de passagem é bem claro entre o indivíduo e a tribo; é justamente a definição de valores nas contratações. Outra coisa: a comunicação de uma tribo forte tende a não ser tradicional, não é fácil de entender para quem é externo, é subjetiva para quem vê de fora, com jargões próprios, mas intuitiva para quem está dentro. Conforme você vai ouvindo e pegando essa linguagem, você passa a fazer parte, de certa forma, da tribo.

A comunicação, na liderança, é muito importante, principalmente numa liderança tribal, voltando à questão dos atributos: dimensões de valor, segurança, individual e tribal, e a forma de comunicação, que pode ser vista, dentro do modelo tribal, como amistosa ou inimiga. Você, como líder, vai olhar para sua equipe e tentar entender: essa comunicação está tentando fortalecer a segurança e a valorização individual, ou está atacando a causa justa da tribo, ou atacando o mesmo inimigo comum? Escute como as pessoas se comunicam, como uma fala das outras, e a partir disso você entende possíveis subtribos e como elas estão se comunicando, de forma amistosa ou de ataque. Tribos que são inimigas vão ter os próprios indivíduos tentando se sabotar entre si. O importante é que você, como líder, identifique isso e crie um inimigo comum ou uma proposta comum, e não ache que isso vai acontecer de uma semana para outra: vai existir um trabalho contínuo de discutir com as equipes.

Isso se conecta muito com motivação: quando você tem competitividade, está em motivação 1.0 (sobreviver) ou 2.0 (recompensas ou punições, extrínseca). Se as pessoas estão preocupadas com a própria segurança individual, elas não vão colaborar, vão garantir o delas primeiro. Quando eu falo de criar um inimigo comum, uma causa justa, um propósito, estou querendo navegar para a motivação 3.0, mas se eu não garantir a segurança do indivíduo e da tribo primeiro, a discussão de valores nem chega.

Isso me lembra também a pirâmide de Maslow: se você não conseguiu o básico, não adianta perseguir o que está no topo. Organizações que vão ter maior chance de sucesso são aquelas em que os valores dos indivíduos e da tribo estão sendo manifestados de forma positiva, mas não adianta tentar alcançar isso sem passar antes pela segurança garantida. O livro traz uma escala de maior chance de fracasso até maior chance de sucesso da tribo: quando a segurança da tribo e de cada indivíduo está ameaçada, essa tribo está muito prestes a acabar; é só questão de tempo até implodir. Isso também pode ser usado estrategicamente: se uma subtribo está sendo criada de forma não benéfica para a tribo maior, talvez você possa diminuir a segurança dela para que ela saia naturalmente.

Implodir uma tribo é sempre ruim? A questão de tribos existirem e serem refatoradas com o tempo vai acontecer naturalmente nas organizações, por troca de liderança, novas pessoas. Não podemos confundir necessidades tribais com necessidades de negócio: posso ter uma tribo que não se sente segura, mas está entregando por algum motivo, sem saber se será sustentável. Acabar com uma tribo não significa acabar com os indivíduos: posso acabar com uma subtribo e os indivíduos ainda se sentirem pertencentes à tribo maior.

Um exemplo real: uma equipe que alternava entre quase segura e insegura o tempo todo, o que afetava fortemente a segurança de alguns indivíduos, machucando essas pessoas, mesmo que o negócio da subtribo funcionasse. A retrospectiva final foi pesada: perguntamos a cada um, com quem você se sente confortável trabalhando, e com quem não? A gente jogou a tribo fora, olhou para os indivíduos, e começou a dar origem a novas possíveis tribos. A tribo principal continuou intacta, e teve benefícios no curto, médio e longo prazo. Um segundo cenário foi o movimento contrário: uma tribo com segurança começando a ser ameaçada, em que colocamos as cartas na mesa, ou deixa implodir, ou tenta fortalecer, e criamos estratégias para fortalecer de novo.

Essa dinâmica se conecta com o modelo de Tuckman: quem está com baixa segurança do indivíduo e da tribo está no forming, uma harmonia artificial em que as pessoas não conseguem falar bem sobre o que está acontecendo. Quando você tem a segurança do indivíduo, mas não da tribo, vai para o storming: os conflitos começam a surgir. Quando estabiliza, vai para o norming, criando os valores comuns. Uma vez que alinha os valores dos indivíduos e da tribo, está no performing. E o bônus, para uma tribo que está performando muito bem, seria o adjourning, quando conseguem ir ajudar outras tribos a se desenvolverem e criarem esse tipo de segurança e valores.

Qual é o status ideal dentro do modelo tribal? Seria tentador achar que é todo mundo valorizado tribalmente e individualmente ao máximo, mas aí vem o engano: se uma tribo é super valorizada, e individualmente as pessoas também são valorizadas, elas têm tendência a guardar esse status quo. Vem a questão de um líder forte, para desafiar e diminuir pouco a pouco, sem ser absurdo, essa segurança e valorização tribal, criando um mecanismo novo, um próximo passo, garantindo que a tribo esteja sempre evoluindo. O líder não pode chegar num ponto e achar que valor tribal e individual máximo é o bastante; tem que continuar ativamente mudando a visão do que é o status máximo, puxando um pouco mais a régua.

Se eu tenho todo mundo nesse patamar e a liderança não age, e a tribo cresce, os novos membros que chegam trazendo algum tipo de instabilidade podem começar a ser massacrados, porque são as pessoas desafiando o status quo, os novos elementos no sistema. Quando fazem isso, a tribo entra em modo de defesa em relação a eles, e é o despencar da segurança de novo, num processo muito rápido, acelerado. O líder, ao fazer onboarding de novas pessoas, precisa fazer com que elas se socializem o suficiente, celebrando junto, usando os atributos que o livro coloca para unificar, senão elas vão ser consideradas 'os caras de fora' ameaçando, criando duas subtribos, como 'velha guarda' e 'nova guarda', ou 'back-end versus front-end', ou 'quem entrega mais versus quem entrega menos'.

A entropia, se você não cuida, cuida por você, e vai destruir o que você criou, com facilidade, sem preocupações. Um líder que está sempre buscando manter o status quo talvez não esteja vendo o risco que está comprando. Há uma frase do livro voltada para líderes: um líder dedicado ao sucesso da tribo, que queira ser forte e capaz, tem que sempre ter capacidade de ter mentores que extrapolem suas próprias capacidades psicológicas. Se você é um líder hoje que não tem essa capacidade, talvez seja pego no contrapé pela entropia.

Uma conexão com Daniel Kahneman, de Thinking Fast and Slow: uma das maiores armadilhas, que a liderança também cai, é o que ele chama de WYSIATI, what you see is all there is, tudo que você vê é tudo que existe. Quando você parte da premissa de que aquilo que está na sua frente não é só o que existe, e começa a analisar comportamentos individuais e tribais, e qual é o próximo passo, é isso que vai te ajudar a ser mais estratégico enquanto líder. A liderança tem que trabalhar entendendo que eventos vão acontecer, e precisa ser exposta a esses eventos de uma maneira que consiga criar uma equipe forte o suficiente para não ser abalada por eles. Se você deixa uma equipe com um nível de valor tribal e segurança muito grande, sem desafiar, corre o risco de, quando houver um movimento brusco no mercado, essa equipe passar maus bocados, porque não está acostumada a mudar ou melhorar a forma do que acredita ser o status quo atual.

Uma frase para fechar: não existe progresso sem tensão. Isso conecta com a ideia de que a gente não quer manutenção do status quo, não quer zona de conforto, mas também não quer o desespero, o extremo oposto. O grande desafio da liderança é fazer com que as pessoas não caiam na zona de conforto nem no desespero, se mantendo em melhoria contínua, de um jeito saudável e sustentável.

Outra frase do livro, sobre liderança e valor tribal: eles mudam de acordo com os eventos que acontecem na vida de uma empresa, e não em discussões intelectuais sobre qual é a melhor forma de se organizar. Celebre eventos, não estratégias.

E uma última: os indivíduos são socialmente, emocionalmente e psicologicamente definidos pelas suas afiliações tribais. Fique atento a quais tribos pertencem os indivíduos ao seu redor.

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