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Ep. 137 - Exaustão para além do trabalho
Ep. 137

Ep. 137 - Exaustão para além do trabalho

31 de outubro de 202200:55:50
Pessoas
Carreira
Cultura

Resumo rápido

Neste episódio, Deia, Ari e Mari discutem como a exaustão vai muito além do trabalho: ela nasce da necessidade de ser útil, da romantização do esforço, da impossibilidade de descansar e da cultura da aceleração. A partir de referências como A Exaustão no Topo da Montanha, de Alexandre Coimbra Amaral, e A Sociedade do Cansaço, as convidadas exploram como o ócio virou crime, como a autoestima se desgasta no ciclo de produção e como a terapia, a honestidade emocional e a permissão de ser ruim em algo são caminhos para quebrar esse ciclo vicioso.

Capítulos

  1. 02:44A motivação: a necessidade de ser útil e a dificuldade de descansar
  2. 04:24Exaustão vai além do trabalho: vulnerabilidade e novas formas de viver
  3. 08:16A romantização do esforço: por que as coisas têm que ser difíceis?
  4. 13:43Quando viramos escravas de nós mesmas: o ócio como crime
  5. 19:52A coragem de parar: quatro meses sem trabalhar e a volta à presença
  6. 33:32Permitir-se ser ruim: dança, circo e a desconexão entre prazer e performance
  7. 46:29Dicas para quebrar o ciclo: suporte emocional, honestidade e nomeação de emoções

Frases do episódio

“é absurdo um projeto de vida que se estrutura em torno da superação contínua dos próprios limites, como se a vida fosse um subir contínuo de montanhas. Qual é o lugar para os vales, os abismos, os fossos no caminho?”

07:19

“respirar é o ato primordial da vida e é o esquecimento primordial da vida exausta”

22:22

“quem ama, cuida. Esse é o lema do cuidador. Pena que ele não se ama e não se cuida.”

42:13

O que você vai ouvir neste episódio

  • Ariadny e Mariana Urrutia examinam a necessidade constante de os profissionais se sentirem úteis e eficientes o tempo todo.
  • O episódio aborda como a exaustão física e mental passou a ser romantizada no contexto corporativo contemporâneo.
  • As debatedoras analisam os impactos da rotina hiperocupada na capacidade de descanso, criação e reflexão das pessoas.
  • A discussão questiona quais estruturas organizacionais realmente se beneficiam com o excesso de trabalho dos seus colaboradores.

Temas discutidos

A pressão por alta ocupação impacta diretamente a cultura organizacional e a liderança nas empresas modernas. A busca desenfreada por eficiência contínua pode comprometer a inovação e o bem-estar das equipes de produtos e agilidade. Ao discutir o excesso de utilidade e a romantização do cansaço, o episódio estimula líderes a revisitarem seus modelos de gestão, promovendo ambientes de trabalho que valorizem a reflexão, a sustentabilidade do ritmo de entregas e a saúde mental dos times.

Para quem é este episódio

Este episódio é indicado para líderes de equipe, gestores de produtos e agentes de transformação ágil. Esses profissionais encontrarão insights relevantes para identificar dinâmicas insustentáveis de trabalho, prevenir o esgotamento dos times e construir ambientes colaborativos voltados à saúde mental e à produtividade saudável.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Por que a exaustão costuma ser romantizada no ambiente de trabalho?

A exaustão é frequentemente associada de forma equivocada à dedicação, entrega e alta produtividade no meio corporativo. Esse comportamento faz com que profissionais sintam a necessidade de se manterem constantemente ocupados e úteis. O episódio debate como essa visão distorcida prejudica a saúde mental dos trabalhadores, ocultando problemas reais na gestão de tempo e nas dinâmicas das organizações.

Como a busca constante por utilidade e eficiência afeta a criatividade?

A urgência contínua por produzir e a obsessão pela eficiência preenchem todo o tempo disponível, reduzindo o espaço necessário para pausar. Ariadny e Mariana Urrutia discutem como a falta de tempo para descansar e refletir limita a inovação e o pensamento crítico. Sem momentos dedicados ao descanso, os profissionais perdem a capacidade criativa indispensável para solucionar problemas complexos.

Quem se beneficia com o excesso de ocupação no ambiente corporativo?

O episódio provoca a reflexão sobre quais estruturas se aproveitam da alta ocupação e do ritmo acelerado dos trabalhadores. Embora pareça gerar resultados no curto prazo, a sobrecarga constante é questionada pelas participantes. A discussão demonstra que focar unicamente na eficiência extrema ignora a sustentabilidade do trabalho, trazendo prejuízos para os colaboradores sem necessariamente gerar valor real e contínuo.

Sobre este episódio

O episódio 137 do Love the Problem, com Deia, Ari e Mari, desmonta a equação exaustão igual trabalho e propõe uma leitura mais ampla do cansaço contemporâneo. A partir de uma conversa de mentoria em que Deia questiona por que só sente prazer em produzir quando alguém está olhando, o episódio se desdobra em uma reflexão sobre a cultura da performance, a romantização do esforço e a impossibilidade de descansar. As convidadas recorrem a A Exaustão no Topo da Montanha, de Alexandre Coimbra Amaral, que personifica a exaustão como uma voz que fala diretamente com o leitor, e a A Sociedade do Cansaço, além de referências de Rita Von Hunke, Natália Timerman, Walter Benjamin e Brené Brown. O fio condutor é a ideia de que o ócio virou crime, que a criatividade nasce do vazio e que a autoestima se desgasta no ciclo de produção, frustração e necessidade de produzir mais. A solução apontada não é uma fórmula única, mas um conjunto de práticas: buscar suporte emocional em terapia ou mentoria, permitir-se ser ruim em algo, nomear as emoções, reconhecer o privilégio de poder parar e, sobretudo, parar de resumir quem se é pelo que se faz. O episódio encerra com um convite à honestidade consigo mesma e à construção de uma rede de apoio que sustente a vulnerabilidade.

Transcrição completa

Acho que a gente vai falar muito aqui também da dificuldade de falar sobre ser vulnerável. Deixa eu contar para vocês o que me motivou. Tenho feito um processo de mentoria com uma moça que eu conheço já faz um tempo, ela é terapeuta e, além de fazer os atendimentos terapêuticos, também faz mentoria com algumas mulheres. E eu tava falando para ela de algumas coisas que eu não gosto de fazer, por exemplo, cozinhar, fazer faxina, não são coisas que eu curto. E aí ela tava falando: mas você entende o quanto, por exemplo, cozinhar é importante, é um autocuidado? Você não tem prazer porque não vai ter ninguém olhando, não vai ter ninguém prestando atenção, não vai ter ninguém para te aplaudir, porque você não vai se sentir útil? E aí a gente começou a conversar muito sobre essa questão de essa necessidade de ser útil, essa dificuldade minha em descansar, essa dificuldade minha em receber e tá o tempo todo sendo eficiente, o tempo todo produzindo. E só tendo prazer em produzir se alguém estiver olhando também, se alguém estiver ali para me reconhecer. E aí achei louco que no mesmo dia acabei de sair da mentoria, entrei no Instagram, vi o Lucas, que antes o perfil dele chamava Transdiário, ele tá no Queer Eye, falando sobre um livro que chama A Vida Não É Útil, que fala muito sobre isso. E aí entrei lá nos stories e a Ari também tinha postado sobre dois livros: A Sociedade do Cansaço e A Exaustão no Topo da Montanha, do Alexandre Coimbra Amaral. E aí eu falei, cara, acho que a gente precisa falar um pouquinho sobre isso. Então a primeira pergunta que eu quero fazer para vocês é a clássica do Love the Problem: que problema eu resolvo falando sobre exaustão e cansaço?

Quando a gente fala de exaustão, a gente costuma resumir exaustão ao trabalho. Toda vez que a gente fala, no final da semana, meu pai sempre pergunta: aí, tudo bem? Trabalhou muito essa semana? E aí é isso, né? Eu acho que a gente tem muito essa ligação da exaustão com o trabalho, mas a exaustão vai muito além disso. E eu acho que quando a gente fala de exaustão, primeiro, tem um ponto bem importante com o que a Mari falou no começo: a gente se permite ser vulnerável. Porque a gente tá numa sociedade agora que o tempo inteiro a gente tá glamourizando, o glamourizo cansaço, o glamourizo eu tô aqui sendo muito eficiente, eu tô produzindo muito, e a gente vai falar muito hoje de performance, de desempenho. Mas eu acho que falar de exaustão, além da gente tocar no ponto da vulnerabilidade, a gente também começa a discutir e pensar as novas formas de se viver, e não só de se trabalhar. Porque a exaustão não tá ligada ao trabalho, mas não está só ligada ao trabalho. Então, eu acho que aqui a gente começa a pensar em soluções para viver de maneira mais saudável, para além do trabalho.

É difícil, né? Essa resposta. Porque eu acho que ela não é uma resposta única e universal. Além da exaustão não estar só ligada ao trabalho, ela ser algo da vida, ela também tem fases. Eu percebo que quando eu tinha 18 anos, eu achava que quanto mais eu fizesse, melhor era. Que quanto mais eu tivesse coisas pra fazer, é porque isso tava dando sentido. Hoje, na verdade, eu consigo ver que eu tava procurando uma narrativa pra minha vida. Porque eu acho que o ponto da vida não é ser útil, que você comentou ali do livro. Não é útil, assim. Por que que a gente tá aqui? Eu acho que, por muitos anos, a sociedade, as pessoas, elas não puderam pensar e se questionar do porquê de algumas coisas muito intangíveis. Porque a gente precisava trabalhar pra ter uma família, pra ter coisas e pra viajar e pra morrer. Era meio que tinha esse script. Que por muitas pessoas, eu acho que ainda faz muito sentido e tá tudo bem, cada um na sua narrativa. Só que eu acho que hoje a gente tem um pouco mais de tempo pra se questionar. E a gente é questionado pelo mundo. Eu sinto isso. Então, quando eu tinha uns meus quase 20 anos, eu corria, corria, corria. Eu me sentia correndo uma maratona como se fosse 100 metros. Sabe aquela coisa que você corre e dá todo o gás? E hoje, e eu acho que com a maturidade isso só vai melhorar, porque eu acho que isso melhora, é perceber que é contínuo. Tem fases que você vai se perceber mais cansado. E tá tudo bem. E você vai precisar parar e aproveitar. E vão ter fases que você vai querer dar um toque. E não é um gás maior, por n coisas, por n objetivos.

Tem uma fala que eu até anotei do livro do Coimbra, que ele fala assim: é absurdo um projeto de vida que se estrutura em torno da superação contínua dos próprios limites, como se a vida fosse um subir contínuo de montanhas. Qual é o lugar para os vales, os abismos, os fossos no caminho? Até me arrepia. E aí, eu penso muito sobre isso, se a gente sempre tá correndo, quando que a gente chegou, sabe? Se o objetivo final é o fim, é a morte. E não, esse não é o objetivo final. Em que momento a gente aproveita o caminho? Então parece um pouco metafórico demais falar sobre isso, mas eu vejo isso até no meu ambiente de trabalho. Se a gente sempre tá olhando qual é o próximo cargo, o próximo emprego, a próxima empresa, mas no presente você não tá aproveitando nada, é sempre o próximo. Essa corrida pra chegar aonde? Falar sobre isso resolve uma pressa de chegar num lugar que a gente nem sabe onde é e que tá todo mundo fazendo a mesma coisa. E se a gente começa a se questionar e falar pro outro, aqui com vocês, gente, eu também tô um pouco perdida. Talvez a gente consiga achar caminhos de solução juntos, porque sozinho vai ser muito difícil na nossa própria cabeça.

Nossa, eu anotei tanta coisa enquanto vocês estavam falando. Mas eu quero pegar dois ganchos. O primeiro foi sobre essa questão da romantização do esforço. Eu fico me perguntando, e eu já vi vários terapeutas falando sobre essa necessidade de por que as coisas têm que ser difíceis? Por que eu preciso romantizar tanto esse esforço? De que parece que eu só vou alcançar coisas boas se eu me foder. Precisa mesmo ser assim? Eu preciso ralar dessa forma? Será que as coisas não podem ser mais fluídas, mais naturais? Acho que essa é a primeira reflexão que eu queria trazer. Não que precisa ser sempre a lei do menor esforço, não que eu nunca vou precisar me esforçar, não é isso que eu estou falando. Mas é o quanto isso precisa ser mais natural para mim, para o meu sentimento. Como eu me sinto frente a alguns desafios? Quanto eu me permito receber as coisas boas também? O quanto eu permito que as coisas sejam fluídas e não estar tão no controle? Claro que você tem que estudar, você tem que se esforçar, tem que trabalhar, mas não precisa ser dolorido. Não precisa romantizar tanto essa dor.

E acho que essa outra coisa é sobre o fato de parecer que está sempre faltando. Às vezes eu acordo em dias que eu não estou muito bem e eu fico pensando: eu queria tanto uma coisa X que me falta. E aí eu fico pensando: meu, foca no que você tem. Olha a abundância das coisas que você tem, porque eu foco tanto no que me falta e não foco tanto no que eu já tenho. Mas se eu parasse, parece meio uma conversa de abraçador de árvore que sou, mas acho que é importante esse lugar de ver a abundância e acreditar na abundância. E aí ter mais gratidão do que ficar o tempo todo nesse lugar de ansiedade de que está faltando alguma coisa pra mim.

Tem dois pontos que eu acho interessante comentar que você trouxe agora. A glamorização existe porque tem quem aplauda ela. Então a gente está naquela coisa do eterno correndo atrás do rabo, mas porque tem gente aplaudindo essa necessidade que a gente criou e que a gente está dentro disso, que é a necessidade de ser visto. Então a glamorização a gente está correndo atrás do rabo justamente por isso. Porque a gente está aplaudindo. E eu acho que a gente faz isso de maneira inconsciente. Quando a gente fala de um esforço de alguém, eu vou dar um exemplo básico: diversas vezes está rolando num feed ou você está lendo alguma notícia e aparece aquelas notícias espetaculares de filho da empregada doméstica que passou em primeiro lugar na universidade, e a gente acha aquilo fantástico. Que lindo! Olha o esforço! Olha como essa pessoa se dedicou, ela deu tudo de si. Mas precisava mesmo de tudo isso? Então eu acho que a gente inconscientemente glamoriza esse esforço e aí sim, quando a gente fala do excesso, é que a gente está falando da exaustão e a gente está falando também de doenças como um todo. E eu acho que um outro ponto também, existe uma responsabilização que eu acho que a gente precisa mencionar: são figuras importantes hoje, eu estou falando do Brasil e do mundo, e eu vou até mencionar uma coisa que me incomodou bastante na semana passada, que são pessoas muito influentes colocando combustível nessa glamorização da exaustão. E aí eu vi uma entrevista de uma pessoa bem influente, fundadora de uma fintech importante aqui no Brasil, e dentro dos temas dessa entrevista, o excesso de trabalho era um deles, e ela trouxe uma história pessoal ali que eu achei interessante, achei bacana de ouvir, mas eu fiquei muito preocupada sobre o quanto aquilo, qual o impacto daquela fala teria nas pessoas ouvindo. Isso é uma coisa que me deixou bem preocupada. E aí eu achei que houve muito essa romantização do excesso de trabalho, que em determinado momento da entrevista ela falava: olha, eu acho que é legal as pessoas que querem ter uma vida saudável, passar um tempo com a família e ter um entretenimento, mas eu acho que tudo bem também a pessoa que quer ficar até tarde, que quer trabalhar 18 horas, que está correndo atrás de. E aí, gente, aí vamos lá dentro de uma promoção, que a gente sabe como é o mundo corporativo, o que essa pessoa vai escolher para ser promovida? É a pessoa que tem a vida saudável ou o cara que se matou 18 horas ali? Então não tem, eu acho legal os dois lados. Tem influenciar e romantizar uma atitude, um comportamento que a gente sabe que a médio prazo é nocivo.

Então esse é o primeiro recorte que eu queria fazer com o que você trouxe da ideia com relação à glamorização. E outro ponto é essa questão da gente estar o tempo inteiro se ocupando. E aí tem até um recorte que é bem importante, que acho que é bem legal ali que tem no livro, que é a parte que a gente simplesmente virou um crime gravíssimo a gente não fazer nada. O ócio é um crime absurdo e a gente tá assim, não pode, a gente não se permite mais cometer esse crime que é ficar sem fazer nada. Ai, você chegou onde eu queria. Eu queria muito ouvir de vocês mais do tipo: meu, que hora que na nossa vida a gente começa a fazer isso? Porque assim, você é criança, você é neném, você é criança, você tá lá brincando a vida. Que horas que a gente vira escrava da gente mesmo? Eu tenho uma pergunta que eu faço pra mim mesma e eu ainda, eu tenho um cheiro de resposta, mas eu sempre me questiono: a quem interessa que eu não tenha tempo pra pensar sobre as coisas? A quem e ao que? E aí eu acho que assim, a gente pode gravar um podcast só sobre essa pergunta, mas eu acho que existe uma estrutura que ela funciona muito bem pra que você não tenha tempo para questionar as coisas, porque tudo que é questionado, precisa trazer algum nível de mudança, isso internamente, como individual, e externo, ali, como estrutura social, tecido social que a gente vive. Mas eu penso muito que a gente vem de pais e avós que deixavam pra descansar e ter um ócio, que eu nem sei se era ócio, na velhice. Ah, minha filha, quando eu aposentar? Não, mas você tem que ficar nessa empresa, porque aí quando você aposentar, você vai ter uma casa confortável, aí você vai aproveitar. Quando você aposentar, você pode comprar sua casa na praia. Ah, não, mas depois que seus filhos tiverem adultos, aí você descansa. E aí eu acho claro, eu não posso falar sobre todas as bolhas, mas o que eu vejo em muitas bolhas que eu acabo passando, é que a gente não quer esperar pra descansar, ter um ócio, aproveitar, seja lá o que que essas palavras têm de conexão. Eu acho que a gente quer poder isso numa continuidade. Eu acho que não é nem não trabalhar nunca e só aproveitar. A vida é uma festa de criança, nunca mais ela vai voltar. E que bom, porque quando eu era criança, eu não podia fazer escolhas e isso acabava comigo. Eu era uma criança muito questionadora. Ah, hoje você não vai no parquinho, Mariana. Mas por que eu não vou no parquinho? Não, eu quero poder escolher que eu vá ou não no parquinho. Hoje eu posso ir no parquinho, mas eu sei que tem consequências. Eu acho que isso é muito legal de ser adulto. Mas se você não souber impor limites, acabou.

E aí, hoje eu vi no Instagram um post da Óbvios. Eu acho que eles trazem temas muito relevantes. E era um ponto sobre colocar limites. E o primeiro ponto é: as únicas pessoas que não vão gostar de você colocar limites são aquelas que se beneficiam da sua falta de limite com você mesmo. Mas continua. Na verdade, é muito mais um questionamento pra gente pensar junto do que resposta. Eu acho que colocar limite é muito difícil. Eu acho que quando a gente coloca e quando a gente para e pensa, eu acho que é uma continuidade. E por isso que eu acho que tem fases. Tem fases, talvez, que a gente vai conseguir fazer isso de uma maneira mais consciente. Mas é importante que a gente sempre esteja olhando pra isso, porque eu acho que depois que você chega num burnout, por exemplo, é muito difícil. Depois que você começa a precisar de remédios, é muito difícil. Porque você... E aí o Alexandre, ele fala muito disso no livro. Ele fala como se ele fosse a exaustão, como se ele personificasse esse sentimento, porque eu não acho que é uma emoção, acho que é um sentimento. E ele fala que ele gostaria muito de poder ajudar as pessoas antes de chegar nesse topo dessa montanha. Porque daí só tem o buraco. Não tem nada bom. Só que as pessoas só percebem depois que elas subiram.

Legal esse ponto. E aí, quando a gente volta a falar de ócio, de se entreter e de fazer escolhas. O que eu percebo, e principalmente também falando da minha bolha e da minha geração, com o pezinho no 30, é que a gente tem até uma passagem da Rita Von Hunke, que eu gosto bastante, que ela faz essa pergunta que é bem semelhante a essa que a Mari fez aqui: em que momento que a gente transformou isso numa grande competição. E uma outra passagem que eu gosto bastante que ela traz, tem um vídeo excelente que chama-se Direito à Preguiça, ali no YouTube. É incrível. E ela fala assim: à medida que a gente tem mais tempo livre, a gente dá tempo de preencher com novas tarefas. A gente não tá conseguindo, nem que a gente quisesse, lidar com esses vazios. E aí tem uma outra psicoterapeuta que eu gosto muito, que é a Natália Timerman, que é uma escritora excelente. E ela deu uma entrevista num podcast que eu gosto bastante, que é o Vibes in Analyze. E ela fala justamente sobre a gente precisar voltar a, entre aspas, perder tempo. Que na realidade não é um perder tempo. Ela fala que esse perder tempo, na verdade, é ganhar presença. Aí ela cita um outro filósofo que chama-se Walter Benjamin. E ele fala um pouco de como a gente não tem a noção de que a criatividade, ela vem justamente dos momentos que a gente experiencia o ócio, que a gente experiencia o vazio, que a gente experiencia o silêncio, que a gente experiencia a solidão. Então olha que coisa louca, de um lado a gente tem uma sociedade dizendo que a gente precisa ficar mais produtivo e a gente precisa estar ligado ali na inovação. Do outro lado, a gente está se preenchendo de coisas para fazer o tempo inteiro. Então é aquilo, para quem trabalha ali dentro do universo da tecnologia, da agilidade de produto, o nosso IP está cada vez mais alto. Mas a gente não tem a noção que com o IP cada vez mais alto, a gente está tampando a panelinha ali da criatividade. A gente não está se dando espaço para consumir esses vazios e conseguir dar passos interessantes. Eu até trouxe esse negócio do IP. A gente sempre fala para o time trabalhar com o IP controlado porque se algo urgente aparecer tem espaço para absorver. E é a mesma coisa na nossa vida. Se algo que é urgente aparece, você enlouquece. Porque você já está enlouquecido.

E eu fiquei pensando muito nisso. Nos momentos em que eu quase pirei, teve até um momento que eu tive que pedir demissão e ficar meses sem trabalhar para poder cuidar da minha saúde mental. Passei por isso. Como foi bom! E como foi necessário! Como foi necessário esse ato de coragem. E eu tinha tanto medo de ficar sem fazer nada. Eu tinha tanto medo do que as pessoas também iam dizer. Do que as pessoas iam pensar. Mas foi tão bom! Porque não foi umas férias de 30 dias. Eu fiquei 4 meses sem trabalhar. E o meu primeiro mês, sabe o que eu fiz? Eu basicamente dormi. Eu dormi até tarde. Não muito tarde, porque eu gosto de acordar cedo. Aí fazia o café da manhã. Aí fazia o mercado. Às vezes eu cozinhava. Lavava a minha roupa, cuidava da minha casa. E ia andar. E naquela época eu me senti tão saudável. Tão tranquila. Eu lembro que eu estava muito mais em presença. Eu andava na rua, sem pressa obviamente, porque eu não tinha o que fazer. Eu escutava os passarinhos. Eu conseguia escutar os carros passando. Eu conseguia pensar e ouvir meus pensamentos, do que eu queria fazer. Hoje, o que eu percebo? Que eu tô sempre pensando na próxima coisa que eu tenho que fazer. Não sempre, mas eu acordo e já penso: ah, o que eu tenho que fazer no trabalho? Tenho que tomar banho rápido? Tenho que passear com os cachorros? Tenho que fazer meu café da manhã? Tenho que malhar rapidinho pra poder trabalhar? Ah, eu tenho que comer. E aí, quando eu como, eu como super rápido, sem nem sentir o raio da comida. Respirar, sentir a comida, o sabor dela, a crocância dela. Não estar na presença enquanto como. Porque eu tenho que comer logo, porque eu tenho que voltar pra trabalhar, ou porque eu tenho que lavar a minha roupa, porque eu tenho que estender, porque a máquina tá tocando. Coisas que a gente mesmo se enfia. Não tô falando só do trabalho. A gente fica se colocando tarefas o tempo inteiro. A gente não se permite descansar. Acho que é por isso também que eu trouxe esse questionamento. Que horas que a gente começa com isso? Não é quando a gente começa a trabalhar. É muito antes. É na nossa criação. É quando toda hora tem dever de casa pra fazer, toda hora os seus pais chamando pra você fazer alguma coisa. Lógico que na infância talvez não seja tanto, mas você começa a ficar maiorzinho, começa a ter responsabilidades e parece que a gente não sabe organizar de uma maneira em que a gente consiga ter tranquilidade. Como se o descanso não fosse mais permitido.

Esses dias eu tava falando com essa minha mentora, ela tava falando dessa importância do respirar. E a Brené Brown já falava no livro dela que a gente leu lá no Bom Souza é Diferente, se eu não me engano, o livro A Coragem Pra Liderar. E ela falava de uma ferramenta muito tecnológica que chama respirar. E que a gente faz muito pouco de respirar com presença pra poder fazer as coisas melhor. Engraçado que você trouxe isso, porque no início do livro do Coimbra, ele traz uma frase assim, que é cirúrgica ali: respirar é o ato primordial da vida e é o esquecimento primordial da vida exausta. A gente esquece do básico. Mas a gente tá extremamente preocupado com as outras coisas. E é exatamente isso. A gente perdeu a perspectiva e a gente tá envolto nessa cultura da aceleração. Hoje a gente pode acelerar, o WhatsApp, os áudios. Tem diversas vezes as discussões, eu até fiquei bem chocada de pessoas que assistem séries na velocidade avançada na Netflix. Eu falei, meu Deus, como é que vocês conseguem? Então eu acho que a gente, de fato, caminha pra realmente uma perda absurda da perspectiva. Eu tava ouvindo um áudio esses dias no WhatsApp mais acelerado, um ponto cinco, e me parecia até que a pessoa tava meio brava comigo. Eu falei, não, não, não. Deixa eu botar no um pra eu escutar. E a pessoa tava falando super de boa. Tem que parar com essa mania de escutar os áudios acelerados.

Eu queria fazer só mais uma pontuação. Você falou que conseguiu parar quatro meses. Eu acho que me dá um desespero absurdo parar. Quatro meses. Primeiro porque acho que a gente fala também de um recorte, de um privilégio absurdo de conseguir parar quatro meses. A gente não pode só falar que vamos parar quatro meses ou vamos parar um mês, que seja. Esse é um privilégio que a gente precisa reconhecer e falar sobre ele. Mas eu acho que chega um ponto também que você falou da coragem. Como foi exigido de você essa coragem pra parar quatro meses dentro dessa cultura da gente estar o tempo inteiro se preenchendo de coisas pra fazer. E eu acho que tem mais um ponto, o Coimbra ali fala muito no livro sobre a gente chegar ao ponto do que a Mari trouxe agora, que é a gente chegar no topo. Toda a narrativa do livro fala é uma tentativa, exaustiva inclusive, de você não chegar no topo. De você perceber esses sinais. O que você pode fazer pra conseguir isso? E você conseguiu parar quatro meses. Que bom. Eu fico feliz. Imagina se você não tivesse conseguido parar, se você não tivesse tido o privilégio de parar. Será que a gente estaria falando aqui agora sobre esse assunto?

Então, eu acho que tem um ponto interessante também com relação à exaustão, para além do trabalho, mas como a exaustão mexe com a nossa autoestima. Porque não dá pra você ficar exausto pra sempre. A gente vai ficando exausto, vai ficando cansado. As coisas começam a cair, então você tá segurando vários pratinhos, os pratinhos começam a cair. Esses pratinhos caindo, espatifando no chão, você começa a entrar em desespero completo, porque, de um lado, você não está conseguindo manter esses pratos equilibrados, de outro, os que você está mantendo equilibrado, ele já não é mais tão eficaz. Então, acho que mexe um pouco ali quando a gente fala de eficiência e eficácia. E tem aquele sentimento, que é o que eu acho que quando a gente chega no topo, que é aquele sentimento de que a gente já não rende mais. Então, você faz aquele retrospecto do teu passado, do teu presente, do teu futuro: meu Deus, deixei cair os pratos, alguns quebraram, os que eu ainda estou segurando, eles não estão saindo da melhor forma possível, e aí começa todo um trabalho de autoestima que é eu não sou mais a mesma pessoa de antes. O que aconteceu comigo? Por que que eu cheguei nesse ponto? Eu já não rendo mais, eu valho menos do que eu valia antes. Então, a gente vai perdendo essa ternura e esse carinho com a gente mesmo. Porque eu acho que é uma jornada, a gente não acorda um dia e perdeu a ternura e o carinho com a gente mesmo. Mas todo esse caminho, acho que essa virada de chave que tem muito ligada com a autoestima é isso. Eu olho pro passado e falava: nossa, eu era capaz. A Mari trouxe a questão, poxa, eu corria tanto com os 18 anos, eu falo: poxa, se eu olhar pra gente não tão longe assim, se eu olhar pra dois, três anos atrás, eu fazia muito mais coisas do que eu faço hoje. E a gente tem que tomar muito cuidado com a armadilha, que não é olhar pro passado e fazer essa comparação e essa competição com a gente mesmo. Então, eu acho que essa discussão sobre o quanto isso influencia a nossa autoestima, ela é muito importante. Porque é um reconhecimento que a gente consegue fazer durante a jornada. Porque depois que chegou no topo, sair disso é bem delicado, exige uma série de ferramentas e de ajuda, e de ajuda médica mesmo. A gente não consegue sair disso sozinho.

E aí, sobre autoestima, eu penso que esses atos de coragem, eles são muito também de você reconhecer o que você é e o que você merece. Porque senão a gente fica nessa meritocracia maluca de um dia alguém vai me salvar. Um dia eu vou receber o mérito que eu devo. Talvez não. Talvez pras pessoas isso é o mínimo. Mas qual é o seu limite? E aí, eu acho que refletir sobre tudo isso é muito doído. Vai dar muito medo. Vai ser muito desconfortável. Mas o que que a vida não dá medo? Tem um livro que chama Talvez Você Deva Conversar Com Alguém. É um livro muito bom, de uma psicóloga. Ela é terapeuta e fala sobre ela fazendo terapia e atendendo as pessoas. E uma das coisas que ela traz, em linhas gerais, é que a vida é a indefinição de incerteza. Não tem como ter certeza. A vida é isso. Mas ao mesmo tempo que não tem como você ter grandes certezas, é isso que faz com que você tenha possibilidade. E aí, eu acho que volta um pouco no que a gente falou de poder fazer escolha, de ser adulto. Que ao mesmo tempo que é muito doído, é muito gostoso. Então, como que a gente faz pra conseguir equilibrar essas coisas?

Ontem eu tava conversando com a Ari e ela falou: ai amiga, o que me mata é não saber o que que tem depois da morte. Eu queria saber, quanto tempo eu tenho pra morrer. E eu acho que é a mistura de todas essas coisas. Qual que é o sentido da vida? Por que que eu tô aqui? Será que o meu trabalho, ele preenche? O que que ele preenche? O que que não preenche? Nossa, demais. A gente quer sempre acertar. E o que que é certo? É muito difícil. Mas eu acho que pensar e trocar sobre isso mostra que tá todo mundo no caminho evolutivo. Isso é muito legal. Isso dá um conforto.

Me veio uma questão talvez de um ciclo vicioso. Eu sou cobrada pra produzir, pra ser útil. Eu não consigo, eu fico frustrada, isso mexe com a minha autoestima, minha autoestima tá baixa, eu acho que o meu valor tá fora, então eu preciso produzir, eu volto a produzir e fico cansada, minha autoestima fica baixa. E eu fico pensando o quanto uma coisa às vezes acaba puxando a outra e como quebrar esse ciclo. Você falou bastante de terapia. Eu acho que uma coisa que tem me feito muito bem, não só a terapia que eu faço, mas esse processo de mentoria que eu tenho feito, são não só esses questionamentos pra gente sair desse automático, desse ciclo vicioso, mas também de ter essa visão efetivamente de fora que vai me trazer às vezes um empurrãozinho, uma voz até mais carinhosa, que vai validar às vezes os meus sentimentos, vai validar alguma coisa, uma necessidade minha que eu tô negando a mim mesma. Então essa minha necessidade de descanso, sabe? E aí vem alguém e te traz isso, tipo talvez você deve se descansar, e aí dá voz às coisas que você mesmo tá silenciando. Então eu acho que terapia é uma coisa que eu sempre recomendo, seja uma mentoria, uma terapia, um processo de coaching, o que você acha que faz melhor pra você, pra te ajudar a sair um pouco da sua visão. E às vezes ter alguém que vai te apoiar porque a gente é muito duro com a gente. E eu acho que ter uma pessoa que te ouve e que você sabe que vai ter muito pouco viés. Porque o que eu vejo é que as pessoas têm muita dificuldade de falar sobre o que te dá medo, o que te dá insegurança, e eu acho que esse processo de ter alguém de fora, não é o seu amigo, não são seus pais, não é o seu parceiro ou parceira amorosa, é uma pessoa que ela até pode te julgar, mas o julgamento dela vai ser muito mais fora. E por isso que é importante também, porque acho que cria um lugar seguro e a partir disso você consegue replicar.

Também fiquei pensando, além desse lugar de pedir ajuda, que já é um lugar de se colocar vulnerável, mas um outro lugar: você já se permitiu ser ruim em algo? Você já se permitiu não produzir? Fazer um bagulho só por fazer? Hoje eu tenho aprendido, eu gosto muito de dançar, faço dança de salão e tenho estudado bastante gafieira. Estudo, me esforço, quero ser boa. Quero ter excelência na minha dança. Mas eu não quero perder o prazer de dançar. Eu não quero ir por obrigação, porque eu quero lacrar, porque eu quero ser foda. Claro que eu quero dançar de jeito bonito, claro que eu quero ter excelência, mas ao mesmo tempo, às vezes eu vou pra aula num lugar de: hoje eu só quero me divertir. Foda-se. Eu não quero ser boa em nada hoje. Eu só quero me divertir aqui loucamente. E que bom essa leveza, né? Essa leveza tira, eu acho, a gente desse ciclo de o tempo inteiro querer buscar excelência. Eu acho que não é ruim buscar excelência, mas quando a gente busca excelência em tudo, a gente volta pra vou equilibrar mil pratinhos e gente, em algum momento eles vão cair.

Esse negócio que você trouxe da dança, pra mim é a mesma coisa. Eu tinha muito medo, eu tenho muito medo de ser ruim em coisas. Só que eu vim de um processo nesses últimos anos de me permitir ser ruim. Você falou do cozinhar no começo e eu falei, meu Deus, gente, eu detesto cozinhar. É uma coisa que eu não gosto de fazer. Os meus pais vieram aqui, eu me mudei recentemente. Eu falei, eu não vou cozinhar. Eu me nego a cozinhar. Aí eu falei, não, eu vou fazer metade. Então, fiz um arroz e um feijão. Falei, não, vou comprar uma proteína. Não sou eu que vou fazer e tá tudo bem. E durante muito tempo eu carreguei essa coisa de: nossa, eu não sou boa em cozinhar. Meu irmão é tão bom cozinheiro, minha mãe é tão boa cozinheira, por que eu não sou boa em cozinhar? E aí, também, recentemente, eu comecei a fazer dança também, gafieira, eu acho fantástico o que você faz, eu acho maravilhoso. Mas aquela coisa simples de colocar o corpo em movimento e esquecer. Eu sinto, sempre que eu faço alguma coisa só por fazer, só por, sem buscar alguma coisa ali, eu sinto que eu tenho muito mais prazer do que quando eu tô buscando. E aí eu comecei a fazer fit dance. Eu falei, gente, eu vou fazer fit dance duas vezes por semana. Eu não quero dançar na festa, eu não quero decorar os passinhos do TikTok, até porque o tempo do dia é uma hora absurdo, eu não consigo. Mas aquele momento que eu tô ali, 45 minutos dançando, sem buscar excelência, são os 45 minutos da minha semana que me dão mais prazer, porque eu não tô buscando nada com aquilo, eu só quero, de fato, me divertir.

É isso. Enquanto a gente tá conectado com a gente mesmo, com o nosso corpo, com a nossa respiração, com o que a gente tá sentindo pra ver, tipo, eu tô tendo prazer mesmo? Esse bagulho era pra ser um hobby, mano. De repente, virou uma obrigação, ficou pesadão. É esse lugar de, às vezes, nos silenciar e ser violentos com a gente. Com a gente mesmo. Que acho que também pode nos levar pra esse lugar de exaustão. Porque quando você fica se silenciando, eu acho que é uma violência muito grande consigo mesma. E no final, na verdade, a gente tá se silenciando pra não ser ridículo pro outro. Isso que é o mais doido. Porque, gente, depois da pandemia, eu falei assim, eu quero fazer um esporte. Quero fazer um esporte diferente, alguma coisa. Aí eu falei, vou fazer aula de circo. Só que eu sou a pessoa que não sabia da cambalhota, zero. E eu sou alta, então eu não sou flexível. Nunca fiz ginástica rítmica, nada. Cheguei na aula de circo, falei pro professor: é o seguinte, eu não sei da cambalhota. E eu não quero ser boa, eu não quero ser uma artista circense. Eu só quero me jogar e subir no tecido, sei lá, fazer coisas diferentes. E aí, a primeira coisa que eu percebi é, eu tinha um sentimento de quando você é criança, de quando você tá se jogando na vida, sem muita pretensão, e tipo, putz, será que eu vou cair? Será que eu vou me chocar? E eu, depois de uns meses, eu vi que, às vezes, eu era ridícula. Eu caía de um jeito bobo. Eu não conseguia segurar meu pé no tecido. E tinha um pessoal fazendo tudo muito melhor. Por anos. Ou porque a pessoa já fez, já tem uma memória muscular. E eu falava: ai, tudo bem. Nossa, eu fiz péssima essa pose, mas eu não quero ser bonita nessa pose. Tá tudo bem, eu tô me divertindo. E aí eu voltei a ficar de cabeça pra baixo. Aí eu fiquei meses refletindo. Quanto você ficar de cabeça pra baixo te deixa vulnerável. E o quanto te dá outra perspectiva. Então, esse lugar que você falou de, será que eu não gosto de fazer algo porque isso não está sendo assistido? E não tem alguém pra me aplaudir? Eu acho que o fato de querer ser boa é também porque, se alguém tá me assistindo, eu tenho que ser boa. Porque se eu não for, o que essas pessoas vão pensar?

E aí eu sempre volto. Tem uma fala do Cortella, num livro dele, que ele fala assim: você já percebeu o tamanho do planeta, quem é você na fila do pão? E aí eu sempre que eu tô muito preocupada, ai, o que será que as pessoas tão pensando? Ai, meu Deus, cheguei num lugar que eu não conheço. Eu penso assim: Mariana, mas quem é você? As pessoas tão vivendo a vida delas. Assim como eu, às vezes, não tô me preocupando com quem chegou, com quem caiu da aula de circo. Então eu acho que também se permitir ser ridículo e saber que você não é tão importante, que é uma viagem do ego, é tão libertador, mas é tão difícil. Porque a gente, até no olhar de terapia, é muito individual, é muito você, é o seu desejo, é o seu olhar sobre o outro, é a sua relação. Mas no limite, cada um tá vivendo o seu, então por que você tá tão preocupado com esse aplauso, com quem tá olhando?

É porque, no geral, a gente tá buscando algum tipo de reconhecimento. Seja a medalha ou o troféu, mas algum tipo de reconhecimento no sentido de: olha, tô vendo o seu esforço. Talvez você não tenha a nossa performada maneira como existiu uma expectativa, mas, ó, eu tô vendo o seu esforço. E isso é, mais uma vez, para além do trabalho. Então, quando a gente fala de exaustão, e eu acho que a gente resume muito a exaustão e o burnout ao dia de trabalho, ao mundo corporativo. E é muito engraçado porque, no livro do Coimbra, ele cria essa persona que é a exaustão, conversando diretamente com você. É como se o seu cansaço estivesse falando com você e te dando sinais. Olha, e é dolorosamente, você vai se reconhecendo ali. É uma coisa muito intensa. Eu li esse livro em um mês porque ele me doía muito. Eu li, eu fechava, eu chorava um pouco, e aí eu grifava, eu anotava, eu pensava. Tem muitas referências legais também, muita música, tem referência musical. Mas tem uma parte que me chamou muita atenção porque, como eu tava muito enviesada a ligar a exaustão e o burnout ao trabalho, esse livro fala muito para além. E ele fala assim: quantas missões nobres se tornaram fardos pesados sem que a gente percebesse? Que é justamente isso. Além do trabalho, às vezes, o burnout vem de você estar cuidando de alguém. A exaustão de você estar cuidando de alguém. Ele fala, inclusive, da exaustão das mães. Ele tem um capítulo inteiro dedicado à exaustão das mães. Ele tem um recorte bem específico também sobre algumas profissões específicas: bombeiros, enfermeiras, médicos. E que vai para além do trabalho. Então, eu acho isso fantástico. E aí tem uma outra parte que eu gosto bastante, que ele fala que a exaustão vem disfarçada de dever. E às vezes, dentro de uma atividade que tem muita honra, uma atividade digna, admirada. As pessoas olham e falam: nossa, que lindo. Às vezes é um trabalho voluntário. De consumir pra caramba. E é isso. A gente precisa abrir os olhos porque é exatamente nesse ponto. A gente enviesa muito pelo trabalho e não vem só dali. Não, imagina. Não tô trabalhando tanto. Mas, às vezes, tem outras coisas te consumindo e te levando nesse topo da montanha.

E aí ele também fala uma coisa que eu achei bem interessante, que é, na empatia, a exaustão aparece como sombra de atitude, de entusiasmo e de disponibilidade no outro. A gente tá tão disponível e tão a fim de fazer acontecer, e a gente até se embaraça lá naquela frase que, gente, eu já ouvi tanto e já falei tanto essa frase, que é: se eu não fizer, ninguém faz. E aí a gente vai se emaranhando nisso. E quando você vê, você fala: meu Deus, onde cheguei? Ah, acho que conecta muito com aquele negócio de você se permitir receber, descansar e tentar não estar tão no controle, e se surpreender com o que o universo vai trazer, com o que outras pessoas, alguém vai pegar aquilo pra fazer. E que, às vezes, ninguém vai fazer. Tipo, vão ter amanhã, daqui um mês, daqui um ano, e vai ser isso. É que assim, claro que quando a gente fala de trabalho, você tem os seus colegas, você tem essa pressão, você tá num time, obviamente você vai querer fazer, não vai querer deixar o bagulho cair. Mas é o quanto a gente também consegue ser realista, pegar aquilo só que a gente realmente tem capacidade de fazer e aí, consequentemente, começar a ter essas conversas do que é prioridade. A gente fala muito disso. E por que você é sempre você? Tem que fazer também. Eu acho que tem um pouco dessa atitude. Eu acho que, às vezes, só eu tenho que fazer. De repente, só eu tenho que puxar isso, senão o prato vai cair. Mas por que essa questão do sempre? Por que sempre eu tenho que fazer aquilo?

E aí a gente fala de cuidado. Tem um vídeo de uma psicanalista também, que é a Vanessa Sesnick, que é um canal no YouTube muito bom, chama-se O Corpo Explica. E aí tem uma série de vídeos que ela traz, que ela fala sobre dependência emocional, e sobre pessoas cuidadoras. Ela traz vários recortes de pessoas cuidadoras. E aí, em um dos episódios, ela começa falando assim: quem ama, cuida. Esse é o lema do cuidador. Pena que ele não se ama e não se cuida. E a gente, a questão do cuidar, ela vem claro, dentro da família, por exemplo. Quando você é o responsável, a gente deixa de cuidar da gente pra cuidar do outro. Vem, a exaustão, ela vem daí também. E ela também vem do contexto corporativo, que é, eu, apesar de não ter ali, de repente, um status, ou um cargo, ou um papel, eu estou sempre cuidando de tudo. E aí eu deixo de me cuidar, porque eu estou cuidando dos meus colegas, dos meus pares, eu estou livrando o caminho ali pra minha liderança. Então, até que ponto isso é saudável? E não é. Invariavelmente, a gente vai acabar notando que não é. Eu acho que é por isso que existem as hierarquias e os escopos. Claro que você não vai ser uma pessoa limitada de, no meu escopo estava escrito, linha 1, 2 e 3, e eu não vou fazer nada mais do que isso, óbvio que não. Mas saber também o que é minha responsabilidade e o que não é, e trabalhar o que não está acontecendo, é muito importante. E eu acho que depois que você vira essa chavinha de, calma, o que eu deveria estar fazendo? O que não está acontecendo porque eu não estou fazendo, porque a gente também tem que se responsabilizar? Mas o que também é do outro? E como eu comunico pra ele que quando ele deixa de fazer isso, ele está prejudicando todo um ecossistema, não é só ele. Porque eu acho que em nível mais individual, quando você não limpa a sua casa, beleza, é a sua casa. Claro, com o tempo isso pode afetar seus vizinhos e afins, mas demora. Na empresa, não. Na empresa é muito tangível. Algo demora um sprint, demora um mês, mas você está vendo ali que a coisa não está rodando. Então, eu acho que além dessa reflexão para o individual, é da gente também saber comunicar. E isso também é muito difícil, porque a gente fala muito de feedback, de troca, mas você chegar pra alguém e falar: amigo, você precisa me ajudar, porque está muito difícil. Esse é o seu escopo. É como eu chego, como a pessoa vai interpretar, será que ela vai entender, será que não? Mas é por isso que eu acho que existem estruturas tão grandes nas empresas. Por isso que a gente tem hierarquias, pra que a gestão consiga te ajudar. Eu acho que isso de pedir ajuda é muito importante. Isso anda com o saber falar não, saber pedir ajuda. E aí, por último, eu sempre penso: quem cuida é de quem cuida. Então, eu olho assim, e aí eu até vejo, eu fico me questionando, será que um dia eu quero estar num cargo executivo? Tipo, ser uma pessoa muito alta do corporativo? Porque, quando eu estiver lá, pra quem que eu peço ajuda? Porque hoje eu tenho pessoas pra pedir ajuda. Eu fico muito refletindo nisso também. Então eu acho que talvez a gente tem que se questionar também em o quanto essas conversas de feedback, que não é negativo, esse feedback de que cada um tem a sua responsabilidade, porque se ninguém tiver o seu escopo definido, acabou. Sempre quem tem essa cobrança maior, vai se responsabilizar por mais coisas. E aí a gente sempre vai ter pessoas muito cansadas, exaustas. Eu acho que existem diversos artefatos, diversas ferramentas pra que a gente consiga deixar essas responsabilidades muito claras, essa clareza de propósito, aquela clareza do que é prioridade. Eu acho que os nossos desafios sempre são muito relacionados a como lidar com as pessoas, porque acho que na nossa educação a gente não aprende muito sobre isso. E é realmente desafiador.

Gente, eu gostei muito. Pra gente ir encerrando, eu queria que vocês trouxessem dicas que vocês usam no dia a dia de vocês, ou que vocês podem ter lido, pra que a gente possa quebrar um pouco esse ciclo. A gente falou de algumas coisas aqui, por exemplo, de terapia, de se permitir ser ruim nas coisas, de ser ridículo. Achei essa frase incrível. Tem algo mais que vocês recomendariam? Olha, eu, por ter buscado essas referências, não foi à toa. Eu acho que eu cheguei num ponto que eu falei: não, se eu não desacelerar agora, vai ser feio, vai ficar muito pior. E aí, talvez eu tenha que ir por um caminho que não é tão legal, que é um caminho que eu não gostaria de ir. Então, eu acho que, para além da terapia, eu tentei ali identificar qual que era, onde eu podia buscar suporte emocional pra dividir isso. Porque, para além de ser vulnerável, eu acho que a gente precisa escolher muito bem com quem a gente tá sendo vulnerável, pra, de fato, a gente entender ali que existe uma escutativa, que o que a gente tá colocando ali pra fora não vai ser desprezado ou ignorado. Então eu acho que eu fiz um caminho que era buscar as pessoas que poderiam ser suporte emocional. Porque sair desse ciclo, a gente tá correndo atrás do rabo, sair disso é muito difícil. A gente não sai do dia pra noite, a gente demora, são passinhos devagar, são coisas muito, é um processo muito gradual, muito lento. Mas eu acho que o principal pra mim foi buscar suporte emocional nas pessoas que eu sabia que conseguiriam entender ali pelo que eu tava passando. Eu acho que um outro ponto é buscar referências também em pessoas que já passaram por isso e que conseguiram sair desse ciclo. E, por fim, eu acho que a gente buscar prazeres em outras coisas, a gente parar. E aí é muito difícil isso também. Quando a Deia falou: meninas, se apresentem. A primeira coisa que veio na minha cabeça foi falar: meu nome é tal, idade e eu faço tal coisa. E aí eu falei, dessa vez eu não vou falar que eu faço tal coisa e nem que eu trabalho em tal lugar. Eu sou a Ari, tenho 29 anos e aí, enfim, o resto é história. Mas eu acho que a gente precisa parar, principalmente, de resumir quem a gente é pelo que a gente faz. A gente precisa parar de colocar a gente como fazedores de coisas. Eu acho que esse é um passo importante ali pra, de repente, começar a sair desse ciclo que, a médio prazo, a gente não tem, não há benefício algum nessa corrida. A gente não vai chegar a lugar nenhum.

Engraçado. A Ari falou isso das pessoas e hoje eu tava nas redes também e aí apareceu uma frase pra mim de como você se sente com as pessoas quer dizer muito sobre elas. Então preste muita atenção nisso. E eu acho que isso de estar com pessoas ou entender e filtrar pra que você tenha uma rede de apoio forte é muito importante porque sozinho a gente não vai conseguir resolver. Eu acho que é um problema muito mais global, complexo. E o Biancho Han fala muito isso no livro dele, que é uma epidemia, que seria a epidemia do século. Mas pra mim o que funciona e aí talvez não funcione pra todo mundo, é ter momentos de olhar pra mim e ser um pouco até egoísta nesse ponto. De putz, qual é o meu momento? O que que eu gosto de fazer? Como que eu descobro isso? Como que eu testo? E como que às vezes eu percebo que tem coisas que todo mundo gosta, mas a Mariana não. E tá tudo bem. E viver tranquila com isso. Mas eu acho que a gente só consegue ter tempo pra pensar, experimentar e validar o que a gente gosta ou não gosta, quando a gente para pra refletir o quanto a gente tá no looping. Então acho que é até um processo depois. É você ter os seus momentos e não viver só pelo script da massa. Porque vão ter muitas fases que isso não vai se encaixar pra você e tá tudo bem. O que é o chegar lá pra você? Eu acho que é muito também isso. Hoje eu tenho muita tranquilidade de dizer que é ter momentos de qualidade com as pessoas que eu amo, comigo mesma, aceitar a minha solidão. Então eu acho que talvez começar esse processo, entender o que que você gosta. Putz, tá todo mundo fazendo aula de beat tênis. Não gosto de beat tênis. Tá tudo bem. Eu vou fazer um outro esporte. Ah, eu gosto de ficar na minha casa lendo. As pessoas querem que eu esteja na balada 24 por 7. Tá tudo bem. Olha pra você. Olhar pra dentro é muito importante. Mas é doloroso, porque tem esses processos. Então acho que além de ter uma rede de apoio, é você conseguir olhar pra você com carinho. Porque sem carinho você não vai ter respostas, caminho de solução. Acho que se eu, hoje, o que tem funcionado muito pra mim é cada vez mais ser mais honesta comigo. Prestar atenção mais no meu corpo, como as coisas me atravessam. E parar de negar, por exemplo, quando algo me incomoda. Incomodou. Não necessariamente eu vou comunicar na hora pra alguém que aquilo incomodou. Mas não ser violenta comigo. E daí parar de fazer as coisas no automático, sair desse automático, usar essa tecnologia inovadora que chama respirar e perceber o que que tá acontecendo, o que que me atravessou. Daí sim, me posicionar. Então isso tem... Não é fácil. Parece tão bolinho, não é. Não é fácil. Se você admitir que algo te incomodou, que te atravessou, que aquilo não caiu bem, que é como você se sentiu com aquela pessoa, que às vezes, sei lá, você tem um convívio de não sei quantos anos e não te caiu bem. E aí, pra você dali conseguir comunicar, é realmente desafiador. Mas minimamente não negar o que eu sinto. Porque se nem eu me valido, quem é que vai? Se nem eu me escuto, né?

Eu acho que a gente tem uma herança muito ruim de não saber nomear a emoção. Eu tô fazendo um curso que chama o curso das emoções. Porque depois que eu fiz terapia, eu falei: nossa, às vezes tem momentos que eu sinto uma coisa. Mas eu não sei se é raiva, se é angústia, se é desconforto, se eu tô triste, o que que é? E aí eu acho que isso que você falou de atravessar, tem até um framework que eles trazem que é sobre a emoção, do momento que você sentiu, o que que foi externo, interno, o que que você sentiu depois, o quanto você refletiu ou remoeu aquilo. E eu acho que quando, pelo menos, eu criança, meus pais não sentavam comigo e falavam assim: ai, filha, agora você tá com raiva, porque seu irmão riscou sua agenda, isso é raiva. Acontece, sente, chora, grita, tá tudo bem, olha, a raiva é assim, ela funciona pra isso. Não. Então a gente, às vezes, nem sabe, é medo, é raiva? O que que tá acontecendo? Então acho que esse processo que você falou de ser muito honesta com você e saber nomear é muito importante, porque aí você sabe o que é que você pega dessa emoção e o que que você faz com isso. Porque só ficar fugindo dela não resolve. E aí a gente volta, estamos o tempo inteiro nos enchendo de coisa pra fazer, porque se encher de coisa pra fazer é a fuga, é a fuga pra gente não ser honesta com a gente mesmo, porque dói. É um processo muito doloroso. Então o que a gente faz? A gente ocupa esse espaço, ocupa esse tempo pra não ter esse contato com a gente. E é isso, o ciclo. Você não consegue sair do ciclo.

Meninas, obrigada pela participação de vocês. Foi muito rico e saio muito feliz, energizada e muito presente desse papo. Sem esse sentimento de ansiedade, sem sentimento do que é a próxima coisa eu vou fazer. Do tipo, cara, foi muito bom estar aqui. Queria agradecer. Obrigada, Deia, pelo convite. Muito bom estar aqui também. Um papo entre amigas aqui mesmo e eu espero que quem estiver ouvindo aí consiga ter feito algum tipo de reflexão importante. Obrigada, gente, pelo convite. Agradecer a Ari também que me puxou. Eu adoro falar sobre esses temas, então pra mim foi um mega presente nessa segunda ensolarada.

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