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Love the People - Mariana Zaparolli
Ep. 111

Love the People - Mariana Zaparolli

7 de março de 202200:48:47
Love The People
Pessoas

Resumo rápido

No primeiro episódio do quadro Love the People, Mariana Zaparolli conta como foi da infância inquieta de filha de militar até se tornar referência em agilidade organizacional e diversidade, passando por bancos, PagSeguro e Bain & Company.

Capítulos

  1. 02:24Quem é Mariana Zaparolli: infância, mudanças de cidade e autonomia precoce
  2. 10:29A descoberta da programação e a entrada no colégio técnico
  3. 17:31Mestrado na USP e primeiros empregos até o Unibanco
  4. 21:39A fusão com o Itaú e o choque cultural entre os dois bancos
  5. 28:16A virada para o Scrum e a agilidade de trincheira
  6. 31:24Diversidade: do PagSeguro aos desafios na Bain & Company
  7. 45:44Recado final: coragem, exposição pública e aprender fazendo

Frases do episódio

“E aquilo explodiu a minha cabeça.”

10:29

“Porque tem luz no fim do túnel. Eu não sei se essa luz no fim do túnel vai acontecer aqui. Mas tem luz no fim do túnel.”

28:16

“Mete as caras, sabe? Faz, se inscreve, tenta, se expõe.”

45:44

O que você vai ouvir neste episódio

  • Mariana Zaparolli compartilha sua jornada pessoal e a evolução de sua carreira profissional no mercado.
  • A discussão destaca o lado humano dos profissionais e como experiências de vida moldam o trabalho.
  • O episódio ressalta a importância da empatia e das relações interpessoais no ambiente organizacional moderno.
  • A conversa aborda como o autoconhecimento contribui para o desenvolvimento profissional e para a liderança.

Temas discutidos

A série Love the People reforça a conexão entre indivíduo e cultura organizacional, mostrando que a agilidade depende fundamentalmente de relações humanas autênticas. Ao explorar a trajetória de Mariana Zaparolli, o episódio evidencia como a dimensão pessoal influencia a liderança, o trabalho em equipe e o ambiente de trabalho. Compreender as pessoas por trás das funções corporativas permite construir organizações mais colaborativas, empáticas e alinhadas com transformações culturais consistentes no contexto do mercado atual.

Para quem é este episódio

Este episódio é recomendado para líderes de equipe, profissionais de recursos humanos e agentes de transformação ágil. O conteúdo beneficia quem busca compreender a importância das conexões interpessoais e do desenvolvimento humano na construção de ambientes corporativos mais empáticos, colaborativos e eficientes.

Sobre a série Love The People

Love The People traz histórias de carreira de pessoas que atuam com agilidade, produto e liderança. São conversas mais pessoais do que técnicas: transições de área, decisões difíceis, aprendizados e o que cada convidado faria diferente. Serve como referência para quem está construindo a própria trajetória profissional.

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Perguntas que este episódio ajuda a responder

Quem é a convidada do episódio Love the People?

Mariana Zaparolli é a convidada deste episódio do quadro Love the People. Durante a conversa, ela compartilha aspectos de sua trajetória profissional e pessoal, permitindo que os ouvintes conheçam a pessoa por trás do seu trabalho e compreendam como suas experiências de vida afetam sua atuação e visão no mercado corporativo.

Qual é o objetivo do quadro Love the People?

O quadro Love the People tem como objetivo apresentar o lado humano de profissionais relevantes do mercado. O formato busca ir além de métricas e cargos, trazendo relatos sobre trajetórias pessoais, desafios individuais e valores que orientam a atuação desses profissionais no ambiente organizacional e no contexto da agilidade.

Por que o aspecto humano é importante na agilidade e na gestão?

A agilidade e a gestão eficiente dependem da colaboração entre pessoas e da criação de um ambiente com segurança psicológica. Conhecer a história e as características individuais das pessoas fortalece a empatia, melhora a comunicação interna e ajuda lideranças a construir equipes mais unidas, resilientes e alinhadas aos objetivos da organização.

Sobre este episódio

Neste episódio de estreia do quadro Love the People, dentro do Love the Problem, Mariana Zaparolli é entrevistada sobre sua trajetória pessoal e profissional. Filha de um militar da Marinha e de uma professora de música, ela cresceu mudando de cidade com frequência, o que a obrigou a reconstruir repetidamente seus círculos sociais, mas também forjou nela uma autonomia precoce: viajava sozinha de avião e depois de ônibus desde muito nova, sempre com o apoio estruturado dos pais.

Depois de ser afastada do colégio de freiras na oitava série por comportamento, negociou com os pais entrar num colégio técnico de processamento de dados, decisão inspirada por um vizinho que a apresentou à programação num computador XT. Essa paixão pela tecnologia a levou à Federal do Rio Grande, onde morou sozinha desde os 17 anos, e depois ao mestrado na USP, que financiou trabalhando em empresas de engenharia, na Telefônica e, por fim, no Unibanco.

No banco, Mariana viveu tanto momentos de crescimento profissional rápido, assumindo responsabilidades maiores como analista júnior, quanto a experiência intensa da fusão com o Itaú em 2008, período em que liderou a migração de dados do Private Bank em maratonas de fim de semana. A seguir, foi para a área de tesouraria, um ambiente que descreve como muito masculino, arrogante e hostil, com episódios de desrespeito público em calls e comentários depreciativos sobre sua competência.

Foi nesse contexto de desgaste que um gestor, Sandro Manteiga, recomendou que ela estudasse Scrum. A recomendação deu origem à transformação de seus times em times ágeis e, mais tarde, à sua ida para o PagSeguro, onde atuou quatro anos com agilidade organizacional e visão de portfólio. Foi também no PagSeguro que Mariana relata ter amadurecido sua consciência sobre diversidade, ao ver na prática como times com vozes e trajetórias diferentes geravam mais valor, um aprendizado que se aprofundou pessoalmente com a chegada de seus três filhos, dois deles negros.

Hoje na Bain & Company, ela discute abertamente os desafios de diversidade da consultoria, ambiente ainda majoritariamente branco, formado por engenheiros de perfis parecidos, e o trabalho institucional em curso para mudar esse cenário, participando de grupos de afinidade como o de pessoas LGBTQIA+ e o de mulheres.

A conversa também passa por sua vida fora do trabalho: o gosto por esportes (basquete, futebol, taekwondo, no qual foi vice-campeã brasileira), por música e violão, e pela família. Mariana reflete sobre como aprendeu a se expor publicamente ainda na universidade, através do movimento estudantil e de debates sobre a regulamentação da profissão de computação, e como essa vivência a preparou para lidar com exposição, crítica e discordância pública.

O episódio termina com um recado dirigido especialmente às mulheres que ouvem o podcast: a mensagem central é a de não temer a exposição e a insegurança, apostar no aprender fazendo e se permitir tentar, mesmo sabendo que nem todo mundo vai concordar ou gostar.

Transcrição completa

Quem é a dona Mariana Zaparolli? Sou uma mulher de 40 anos, capricorniana, com dúvidas se o ascendente é Áries ou Capricórnio; qualquer uma das duas combinações não dá uma coisa muito suave. Sou casada com a Amanda e temos juntas três filhos: um menino de 11 anos e duas meninas, de 9 e de 5, que chegaram na nossa vida há dois anos, coincidindo com a pandemia, um período de intensa reformulação pessoal e familiar.

Mas vamos começar do começo. Sou filha de um militar: meu pai foi da Marinha muitos anos, só se desvinculou formalmente no ano passado, mas de coração continua marinheiro até hoje. Minha mãe é professora, formada em conservatório de piano e violão, e foi através dela que aprendi a tocar violão, meu instrumento de estimação, e piano. Tenho dois irmãos mais novos. Minha mãe sempre foi uma mulher muito guerreira, que acompanhou meu pai nas mudanças de cidade a cada transferência da Marinha, o que exigiu de nós, filhos, muita adaptação: mudar de escola, refazer o ciclo social e os vínculos de amizade a cada mudança. Foram marcas muito positivas para os lugares por onde passei, mas também muitos desafios pela necessidade recorrente de reconstruir redes sociais. Minha mãe me colocou para fazer artes marciais, taekwondo, durante dois anos, como uma forma de canalizar a energia.

Isso também ativou muita autonomia minha, sempre suportada pelos meus pais: viajava de avião sozinha para São Paulo desde os 4, 5 anos para ver meus avós; com 13, 14 anos já fazia viagens de ônibus sozinha entre Foz do Iguaçu e o Rio Grande do Sul, com toda uma logística montada pelo meu pai. Essa autonomia, sempre orientada e suportada pelos meus pais para poder exercer de fato minhas decisões desde cedo, culminou na minha saída de casa aos 17 anos.

Entrei na faculdade muito cedo, com 16 para 17 anos, na Federal do Rio Grande, cidade à qual tenho muito carinho e onde vivi mais de dez anos. Antes disso, estudei em colégio de freiras e tinha bastante problema de comportamento, nunca de notas, mas de agitação e de liderar tumultos. Na oitava série fui expulsa, junto com um grupo de outros dez alunos, depois de ser flagrada numa das minhas traquinagens. Meus pais ficaram furiosos e me deram um ultimato: ou eu fazia um colégio técnico de processamento de dados, minha ambição, inspirada por um vizinho que tinha um computador XT e me mostrava como programava, ou eu ia trabalhar. Como o vestibulinho era concorrido (16 candidatos por vaga), negociei um cursinho preparatório à noite, estudei loucamente e passei.

Amei o colégio técnico, talvez o período em que mais estudei na vida. Por conta própria, eu passava a limpo o conteúdo das aulas em cadernos separados por matéria, porque adorava a lógica de programação e amava fazer os códigos em programação estruturada, imprimindo em impressoras de jato de tinta e revisitando meus próprios códigos. Enquanto eu ainda estava no primeiro ano da faculdade, meu pai se aposentou e meus pais se mudaram para João Pessoa. Como o curso que eu fazia ainda não tinha registro no MEC, isso inviabilizou a transferência de vaga que a Marinha permitia, e outras complicações (João Pessoa só tinha Ciências da Computação, não Engenharia) fizeram com que eu ficasse sozinha em Rio Grande, morando de aluguel na casa de uma senhora, indo para casa da família só duas vezes por ano, sem celular, sem câmera, só telefone fixo. O primeiro ano foi o mais difícil da minha vida. Acabei terminando os cinco anos do curso em Rio Grande mesmo. Trabalhei ainda no estágio técnico, oito meses fazendo helpdesk de computador na prefeitura da cidade, época em que a prefeitura estava trocando máquinas de escrever por computadores, uma experiência de muita mão na massa, inclusive cabeamento de rede.

Depois da faculdade, decidi fazer mestrado e acabei sendo aprovada na USP, para onde me mudei. Foi no mestrado que comecei a enxergar perspectivas de trabalho e a querer alavancar minha independência financeira. Comecei a trabalhar numa empresa de engenharia com desenvolvimento de software, ainda cursando o mestrado, e de lá fui para a Telefônica, por indicação de um colega. Da Telefônica, através de um amigo do IME, surgiu a oportunidade de ir para o Unibanco, já que eu queria uma carreira com mais estabilidade e possibilidade de crescimento. Levei quatro anos para terminar o mestrado e ainda empurrei a defesa para um quinto ano, dentro do prazo, só para poder manter a carteirinha da USP e continuar jogando (basquete) mais um ano, o que deixou meu pai passado, perguntando se eu não tinha vergonha.

No Unibanco, comecei numa área de sustentação, com vários perrengues: cheguei a apagar por engano consolidados de meses de código e tive que passar a madrugada refazendo tudo. Diante dessa quase catástrofe, sentei para reorganizar os processos daquela área, e isso me deu espaço para conduzir uma refatoração, ainda como analista júnior. Quando meu time de sustentação inteiro foi embora, fiquei sozinha cuidando do sistema do Private Bank, algo muito sensível, e convidei uma ex-colega da Telefônica para ajudar. Fomos ganhando visibilidade, responsabilidade e promoções, e comecei a ser levada para reuniões executivas com clientes internos, apesar do cargo júnior, tendo a sorte de cair com lideranças que me apoiaram muito nesse aprendizado de ambiente corporativo.

Em 2008 veio a fusão do Unibanco com o Itaú, um processo super complexo, com quase ninguém sabendo o que aconteceria, inclusive as próprias lideranças. Fiquei muito envolvida na migração de dados: em oito semanas rodamos todas as ondas do Private, trabalhando de segunda a sexta e fazendo os processos de fato acontecerem aos sábados, com rotina que começava às seis da manhã e ia até o fim da tarde. Foi um período muito rico para entender questões de cultura organizacional, até o detalhe de que nas salas de reunião as pessoas se agrupavam por cor de crachá, azul do Unibanco ou laranja do Itaú, o que polarizava completamente as discussões. Quando a poeira baixou, me vi numa área de TI de private bank com plataforma muito legada, tentando negociar coisas novas com um novo líder, mas entrei em divergência forte com ele; havia muita insegurança de ambos os lados, com posições duplicadas dentro da estrutura recém-fundida. Decidi sair da área; ele reagiu mal, chegou a sugerir que eu procurasse ajuda psicológica, mas no fim reconheci que ele tinha razão: eu precisava achar um novo lugar antes de simplesmente sair.

Fui atrás de líderes de confiança que já tinham se espalhado por outras áreas do banco e acabei indo para a área de tesouraria, puxada por um deles, então superintendente, mas ouvi comentários depreciativos pelas costas e até na cara, do tipo que eu não tinha noção de quem era para estar ali. Fui parar em sistemas de risco de mercado, liquidez e regulatório, uma área para a qual eu não tinha nenhum conhecimento prévio e onde precisei tirar certificações financeiras (BM&F, Anbima, CPA) para entender os instrumentos. Foi ali que aprendi de verdade o significado da palavra gargalo: cada grande área do banco desembocava suas metas na nossa área de risco, então era um verdadeiro show de horror de prioridades conflitantes. A tesouraria era um ambiente muito masculino, arrogante e de imensa falta de educação: eu ouvia atrocidades, era chamada para calls às duas da manhã com gritos e palavrões, e cheguei a ouvir, publicamente, que eu não era ninguém ali, que não era superintendente e que deveria desaparecer daquele call.

Chegou o dia em que decidi que aquela vida não dava mais. Passei a responder ao Sandro Manteiga, que também era novo naquela área, e disse a ele que provavelmente sairia porque aquilo não era saudável; meus amigos de tecnologia não viviam vidas muito diferentes, e a conclusão era que a gente não sabia por que fazia o que fazia, não agregava valor, só era esculachado. O Sandro concordou e me indicou estudar Scrum, dizendo que havia luz no fim do túnel, mesmo sem saber se aquela luz chegaria ali. Fui estudar avidamente sobre Scrum e agilidade, e alguns meses depois transformei meus times em três grandes times Scrum, assumindo o papel de PO. A mudança gerou bastante polêmica e atrito por fora, mas passou a gerar muito valor por dentro. Passei dois anos nessa agilidade de trincheira dentro do banco, mesmo depois que o Sandro saiu, até que, um ano após ele ir para o PagSeguro, fui atrás dele com a missão de trabalhar agilidade organizacional e construir uma visão de portfólio bem diferente da tradicional, dentro de um ambiente regulado, foram quatro anos ali.

Venho de uma área de tecnologia historicamente muito machista, e reconheço que também fui uma pessoa muito machista, ainda em desconstrução, só para conseguir pertencer àquele ambiente hostil, onde as pessoas gritavam, batiam porta, batiam na mesa. Quando entrei para o mundo ágil, minha vida mudou muito: o ambiente ficou mais saudável, com ciclos curtos, melhoria contínua e foco em valor.

Foi no PagSeguro que percebi o quanto a diversidade fazia diferença, conseguimos estruturar times com vozes, experiências e trajetórias diferentes, e vi a importância disso não só socialmente, mas para a capacidade criativa de encontrar caminhos de valor em produtos e serviços. Demorei muito para ficar alerta aos temas de diversidade: precisei ter um grande amigo negro no mestrado, num ambiente majoritariamente branco, para perceber que aquilo não era normal e que ele travava uma batalha por ser quase o único ali. No Rio Grande do Sul eu tinha vivido numa cidade pouco diversa; foi em São Paulo, a partir das experiências do mestrado e dos círculos sociais, que fiquei mais atenta a isso; minha esposa também é muito atenta ao tema, o que ajuda bastante. Isso se tornou ainda mais concreto com a chegada dos meus filhos: dois deles são negros, e isso trouxe a preocupação de estar próxima e apoiar os desafios que inevitavelmente vão enfrentar por serem pessoas negras. No PagSeguro, um grupo de mulheres da organização abriu muito meu olhar para pensar sobre diversidade e vulnerabilidade, e passei a ficar mais ativa nesses temas a partir dessa experiência.

Hoje trabalho na Bain & Company, uma consultoria em que tenho grande prazer de aprender, mas que também enfrenta desafios grandes de diversidade, declarou desde o ano passado uma missão estratégica global no tema, com investimento em OKRs de diversidade e grupos de afinidade, dos quais participo tanto no de pessoas LGBTQIA+ quanto no de mulheres. Numa sala de consultores da Bain o problema fica evidente: é um grupo majoritariamente branco, de comportamento e até de roupa parecidos, vindo das mesmas universidades e majoritariamente formado em engenharia. Aos poucos isso está mudando: hoje já entram no onboarding pessoas negras, formadas em filosofia, em direito, trazendo repertórios diferentes, fruto de um trabalho de diversidade impulsionado com mais intensidade há pelo menos dois anos, mas ainda com muito caminho pela frente. Por isso continuo falando tanto do assunto: se hoje sou uma referência para muita gente nesse mercado de tecnologia e agilidade, sinto a responsabilidade de usar essa voz e essa exposição para reverberar o tema, sem varrer as polêmicas para debaixo do tapete.

Fora do trabalho, gosto de farra com música e de estar com os amigos; nos últimos dois anos entrou muito o home time com minhas crianças e minha família. Gosto muito de água, de praia, de piscina, e de esportes; faço academia mais como canalização de energia do que por prazer puro, mas gosto mesmo é de jogar basquete e futebol, por causa da competitividade. Me vejo como uma pessoa de pilha cheia, com uma energia que tem dois lados: o lado positivo é que ela me move e me faz querer sempre produzir; o lado traiçoeiro é que perco limite, trabalho horas e mais horas, e minha energia também se transforma facilmente em uma raiva rápida, então preciso desses desvaziamentos, como o esporte, para que ela não escape para o lado ruim.

Sobre onde aprendi a me expor em público: vem da faculdade, quando eu e dois amigos reabrimos o diretório acadêmico da computação, que estava fechado, organizamos cursos e um "corujão" à noite, e isso nos aproximou do diretório acadêmico central, inclusive em manifestações pelo aumento da passagem de ônibus. Fiquei também muito envolvida com a Executiva Nacional de Estudantes de Computação, a ENEC, num momento em que se debatia intensamente a regulamentação da profissão de computação. Fomos veementemente contra essa regulamentação, defendendo que o mundo já estava se digitalizando e que as pessoas aprendiam por conta própria, sem necessidade de criar categorias que excluíssem quem não tinha formação formal. Esse envolvimento com debates estudantis e com a UNE, viajando de ônibus para encontros em outros estados e discutindo com gente de partidos políticos, durou uns três, quatro anos, até eu decidir que política não era para mim. Mas foi aí que aprendi a levar umas "invertidas" em debates e discussões e a me expressar com menos emoção e mais articulação, o que hoje me ajuda muito a palestrar e a me expor.

Um episódio que resume bem essa trajetória esportiva: fui vice-campeã brasileira de taekwondo, cheguei a romper o ligamento cruzado e fiquei dois meses de muleta, e joguei basquete por cinco anos no IME, até formar um "time master" com colegas. Numa partida contra meninas de 16, 17 anos, uma adversária gritou para a colega "passa a bola pra mim, você não tá vendo que tem uma tia baixinha me marcando?", aquilo me chocou (e ela tinha razão: eu tinha dez anos a mais e quase metade da altura dela). Foi o sinal de que estava na hora de aposentar aquele time.

Como recado final, principalmente para as mulheres que estão ouvindo: falar de história pessoal é sempre complexo, porque a gente sempre se pergunta quem vai se interessar pela nossa vida, mas às vezes essas histórias chegam a lugares inesperados, como uma ouvinte que recentemente postou um vídeo tomando café ouvindo o podcast. Uma curiosidade que não tinha contado: meu mestrado foi em computação musical, estudando frequência, onda e música, e também sou espírita, o que me deixa com muita crença em como fatores físicos reverberam no ambiente, por isso acho que colocar uma música alta ou um podcast tocando interfere no espaço ao redor, e isso pede responsabilidade. Minha recomendação final é que a gente não pode ter medo das coisas: às vezes bate a insegurança, o "será que eu tô pronta, será que eu consigo", mas é preciso meter a cara, se inscrever, tentar, se expor. Vai ficar constrangida às vezes: na primeira vez que fiz um debate para 300 pessoas, numa mesa só de homens, fiquei super constrangida, sendo a única mulher e a mais nova ali, questionando se realmente era eu que deveria estar naquele lugar. Isso virou aprendizado para que hoje eu me sinta segura ao falar de algum assunto, sabendo que sempre vai ter alguém que não vai gostar, e que tudo bem. Então, para a mulherada: vão em frente, não tenham medo, busquem capacitação e conteúdo, mas apostem muito também no aprender fazendo.

Para fechar, deixo a indicação do site que criei, marisaparoli.com, um hub com podcasts, palestras e conteúdos que recomendo, e me coloco à disposição da comunidade e do mercado para trocar, porque isso multiplica muito o nosso aprendizado. Bom mês das mulheres, vamos refletir e sair dele com alguma atitude diferente em relação a essa pauta.

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