Viés cognitivo: 3 erros que cometemos contratando, promovendo e demitindo pessoas no nosso time

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Há algum tempo atrás escrevi sobre vieses e efeitos cognitivos que estamos suscetíveis quando criamos produtos e serviços. Agora eu gostaria de escrever sobre alguns desses vieses quando estamos montando nosso time (squad, grupo de trabalho etc.). 

Viés cognitivo

Antes de entrar no assunto, escrevo sobre o que é esse tal de viés cognitivo.

Como funciona

Nosso cérebro é um cara meio preguiçoso. Isso não é algo ruim, pois ele trabalha o tempo todo e por isso precisa de algum descanso. O desafio é que para ele poupar energia ele gosta de tomar atalhos para resolver problemas. No geral, ele toma bons atalhos, mas algumas vezes ele acaba tomando uns caminhos que levam a erros.

Daniel Kahneman no seu livro Rápido e Devagar faz uma analogia com a forma de trabalho do nosso cérebro. Ele separa, didaticamente, nossa fábrica de pensamentos em dois sistemas chamados de Sistema 1 e Sistema 2. O Sistema 1 é responsável pelas respostas imediatas. O Sistema 2 é o mais racional e o responsável por tratar informações mais complexas. 

Por exemplo, se eu pergunto para você quanto é 2 + 2? Você provavelmente respondeu de forma quase instantânea 4. É possível que você tenha chegado a essa resposta mesmo que você não tenha lido este parágrafo. Quando identificamos a conta 2 + 2, nosso cérebro usa o Sistema 1 para dar uma resposta imediata. 

Agora, se eu perguntar para você quando é 17 x 24? Você provavelmente precisou de mais tempo para chegar à resposta. Agora você precisa manter resultados parciais até chegar à solução do problema. Nesse caso você está utilizando o Sistema 2. Há uma chance de você ter desistido da conta antes de chegar à resposta. Isso porque seu cérebro quer poupar energia e concluiu que essa conta não vale o esforço de manter o Sistema 2 ativo.

Na analogia de Kahneman, o Sistema 2 requer um esforço grande para ficar ativo, logo o nosso cérebro não gosta de ativá-lo por qualquer motivo. É nesse momento que os vieses cognitivos acontecem. O Sistema 2 embora seja o mais “inteligente”, capaz de responder a problemas complexos, ele prefere ficar descansando e não tem problemas em aceitar as decisões rápidas apresentadas pelo Sistema 1.

Quando acontece

O viés acontece quando nós, em uma situação específica, tomamos decisões com informações limitadas ou errôneas devido a algum tipo de barreira. Por exemplo, crenças, histórico de vida, similaridade com situações passadas, contexto, cultura etc.

O Viés não é um problema, é o teu cérebro tentando te proteger

Volte até o homem das cavernas e você percebe que havia grande serventia. Se em uma situação passada você percebeu que leões rugem antes de atacar e agora você está ouvindo um leão rugir novamente, é melhor correr do que ser devorado. Não precisamos nem ir tão longe. Por que você fica na calçada mesmo quando não há nenhum carro passando na rua? Na teoria não há risco, mas o Sistema 1 manda um comando de autopreservação.

Todavia merece atenção

Enquanto o viés é fundamental para sua sobrevivência quando o Sistema 1 é utilizado, pode ser um desastre em situações que são complexas e necessitam do Sistema 2 trabalhando ativamente, como o caso de contratar, manter e demitir pessoas para o seu time. Como dizia Henry Louis Mencken 

Para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada.

Henry L. Mencken (1880 – 1956)

Abaixo coloco aqueles que eu presenciei com maior frequência. Seja em equipes que eu criei enquanto servidor público, freelancer ou atuando como consultor na K21. 

Efeito Halo

Você trabalha no Recursos Humanos (RH) da empresa e 2 times te pediram para contratar cada um uma pessoa. O Time de Tecnologia da Informação (TI) precisa de uma desenvolvedora de software. O Time de Marketing (MKT) precisa de um especialista em redes sociais. Na sua frente estão duas candidatas. Quem você acha que é a candidata para qual vaga?

A imagem possui duas mulheres que exemplificam o viés atribuído ao Efeito Halo. A descrição delas está no corpo do texto.

Se você colocou a Maria no time de TI e a Gabi no Marketing é possível que o seu Sistema 1 tenha utilizado algum conhecimento prévio para dar uma resposta rápida. Você foi vítima do Efeito Halo. 

O Efeito Halo é a nossa tendência a julgar uma pessoa, objeto ou situação com base em pouquíssimas informações. O famoso: “julgar o livro pela capa”. O Halo é um perigo, pois pode nos levar a situações de julgar erroneamente uma pessoa, avaliar incorretamente os riscos de uma situação ou até mesmo preconceito contra alguém.

Maria e Gabi foram geradas por Inteligência Artificial (IA). O que eu pedi para a IA foi o seguinte: Maria = mulher tímida, cabelos pretos, rabo de cavalo, aparência sóbria. Gabi = mulher confiante, cabelo colorido, rabo de cavalo, aparência descolada. Até os nomes delas foram gerados por IA.

Para fugir do Efeito Halo, você precisa ser objetivo. Quais são as características profissionais das pessoas que você precisa para compor o seu time? Quais as experiências prévias que a pessoa deveria ter? Isso tem que ser mais importante do que a aparência da pessoa. Elabore uma lista prévia antes de partir para etapas de entrevistas ou montagem de time.

Cuidado com o Halo para o seu time não ir para o ralo.

Prassômetro. Uma piada com Carlos Alberto de Nóbrega e seu programa a Praça é Nossa. Conhecido por ter piadas de gosto duvidoso como a que foi escrita acima. O "Prassometro" é como se fosse um medidor de velocidade com as marcações: Light, Medium e Ultimate. A piada acima está no Light.
Fonte: Bobagento

Viés da Atribuição

O viés da atribuição é também conhecido como tendência de atribuição. Ele se refere à tendência humana de atribuir causas a eventos ou comportamentos que nós conseguimos enxergar com facilidade. Essas atribuições podem ser feitas de diferentes maneiras, dependendo das circunstâncias e da nossa percepção individual. Podemos dividir o viés da atribuição em duas categorias: atribuição interna e atribuição externa. 

Atribuição interna refere-se à tendência de atribuir a causa de um evento ou comportamento a características pessoais de quem estamos observando. Por exemplo, em uma entrevista você está conversando com um candidato e ele gagueja em alguns momentos. A atribuição interna fará com que consideremos que o candidato não possui conhecimento sobre o que estamos tratando ou não se preparou para a entrevista, logo é inadequado para trabalhar conosco.

Atribuição externa se refere à tendência de atribuir a causa de um evento ou comportamento a fatores externos. Imagine que você já fez 32 entrevistas e nenhuma pessoa se enquadra no perfil de Ultra Mega Power Blaster Master Developer com salário de R$1.500,00 + Vale Refeição (VR). Você atribui o problema ao pessoal de Recursos Humanos (RH) que não está sabendo captar pessoas. RH é externo a sua área de atuação e você não tem poder para alterar nada. Logo, a culpa não é sua. Nada a fazer.

Como todo viés, pode levar a erros de julgamento e a generalizações injustas. Infelizmente, tendemos a usar informações limitadas e interpretar eventos de forma a confirmar suas próprias crenças ou preconceitos, o que pode levar a conclusões incorretas ou injustas sobre os outros.

Se tem algo que aprendi principalmente em consultoria é: 

“Segure o ímpeto, não infira, junte informações e só haja quando você tiver segurança”

A mesma coisa serve para nosso dia a dia com o time. Cuidado com o seu “achismo”. Ele pode te levar a erros terríveis.

Viés da Disponibilidade

Pelo que já vimos até aqui, quando está de frente para uma situação, o Sistema 1 deseja dar uma resposta imediata ao problema e o Sistema 2, que quer ficar lá, “deitadão”. O Sistema 1 acredita que detém todas as informações necessárias, mas será?

um gráfico de pizza com o problema do viés de disponibilidade. 99% das informações disponíveis são ignoradas porque o foco está em 1% das informações que me lembro.
O Sistema 1 tomando decisões com base no 1% de informações que está em sua memória rápida

O viés de disponibilidade afeta a maneira como tomamos decisões com base na facilidade com que nos lembramos de informações específicas. É a nossa tendência de dar mais peso a informações ou eventos que são mais facilmente lembrados. Tal recordação pode acontecer porque o evento: 1) teve intensidade emocional; 2) repetição; 3) proximidade temporal (aconteceu recentemente); ou 4) simplesmente pela facilidade de lembrarmos do evento. A disponibilidade não significa necessariamente que as informações sejam corretas ou representativas da realidade.

Agora imagine-se na situação em que você está em frente ao seu gerente e ele precisa cortar custos. Ele precisa de uma ideia e precisa agora. Você se lembrou que o Marcus não conseguiu entregar os itens de trabalho que estavam sob a responsabilidade dele nas últimas duas Sprints. O dedo da demissão está engatilhado e apontado para o Marcus. Talvez você dispare sem pensar que nas outras 99 Sprints em que o Marcus foi de grande importância para o time. Infelizmente o pedido chegou nessa hora e com urgência. Você acessou apenas esse evento recente na sua memória e tomou uma decisão precipitada.

A disponibilidade pode afetar diversos outros momentos. Por exemplo, quando chega um currículo de alguém que estudou na mesma universidade que você. Todos temos um carinho com o nosso passado e isso pode nos fazer olhar para essa pessoa com “bons olhos”, mesmo sem saber sequer se ela foi uma boa aluna na mesma faculdade.

Você já sabe, mas não custa avisar, quando estiver frente a situações de promoção, indicação, demissão, evite ao máximo usar o impulsivo Sistema 1 para tomar essas decisões. Uma lista de critérios previamente construída e analisada com todo carinho que só o Sistema 2 pode fazer.

Conclusão

Os vieses e efeitos existem e é bom ficarmos atentos a eles. Não há uma forma de bani-los, logo termos informações e saber quando eles estão ocorrendo é de suma importância para evitarmos decisões que nos levarão ao arrependimento. 

Espero que você tenha curtido, entre em contato. 

Ĝis revido!!

Sobre o autor(a)

Trainer na K21

Avelino Ferreira é formado e mestre em Ciência da Computação. Teve uma longa trajetória na TI, começando como programador e chegando a gestor de diversos times de criação de produtos digitais. Conheceu e começou a adotar as melhores prática de de Métodos Ágeis em 2008. Desde então, se dedica a auxiliar outras empresas na construção da cultura ágil. Atualmente, é Consultor e Trainer na K21

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