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Ep. 140 - Limites

Ep. 140 - Limites

28 de novembro de 202200:47:26
Pessoas

Resumo rápido

Bárbara Ildorio e Mari Yamamoto conversam com Andréia sobre limites como caminho de integridade e autoconhecimento. O episódio explora por que a gente se autoabusa ao não dizer não, como o corpo registra essas violações, a analogia do copo de água para calibrar limites, a técnica de auto-percepção em três segundos, a comunicação não violenta em quatro passos e a aplicação de acordos claros no mundo dos negócios.

Capítulos

  1. 04:20Que problema eu resolvo colocando o limite?
  2. 07:49Integridade, verdade e a história do 'tanto faz'
  3. 13:33Os roxos invisíveis do autoabuso
  4. 17:21A analogia do copo e a auto-percepção
  5. 25:31Por que é tão difícil bancar a própria verdade
  6. 32:28Como comunicar limites sem agressividade
  7. 42:46Limites e acordos no mundo dos negócios

Frases do episódio

“Gente morna não consegue nada na vida. Gente morna não é confiável. Gente morna não vai crescer.”

09:15

“Mas os roxos que você tá fazendo em você o tempo todo.”

13:33

“E aí, pra mim, o limite é isso, assim, não é um lugar onde eu tô te dizendo, assim, não, este lugar não é pra entrar, é tipo, olha, esse aqui é um lugar onde eu tô bem comigo, onde eu tô me respeitando, onde tudo que acontecer aqui é massa.”

18:45

O que você vai ouvir neste episódio

  • A relação direta entre o estabelecimento de limites claros e a manutenção da saúde mental no ambiente de trabalho.
  • A integridade pessoal depende da capacidade de expressar verbalmente e sustentar posicionamentos verdadeiros frente aos outros.
  • O desafio de encarar e suportar o desconforto emocional associado ao ato de dizer não e impor barreiras.
  • Estratégias práticas para estabelecer limites saudáveis sem comprometer as relações interpessoais e profissionais no cotidiano.

Temas discutidos

O estabelecimento de limites é um fator crítico para a construção de ambientes de trabalho saudáveis e sustentáveis na cultura organizacional. Em contextos de agilidade e liderança, onde a colaboração constante pode gerar sobrecarga, saber posicionar barreiras claras protege a saúde mental e fortalece a integridade profissional. Líderes e times que desenvolvem a capacidade de sustentar o desconforto de negociações difíceis promovem relações mais transparentes, confiança mútua e entregas sustentáveis ao longo do tempo.

Para quem é este episódio

Este conteúdo é recomendado para líderes, gestores de pessoas e profissionais de tecnologia que enfrentam sobrecarga no trabalho. O episódio beneficia quem busca proteger sua saúde mental, estabelecer relações mais transparentes e sustentar conversas difíceis para manter a integridade pessoal e profissional no dia a dia.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Qual é a relação entre estabelecer limites e manter a integridade pessoal?

Estabelecer limites permite que o profissional expresse sua verdade e aja de acordo com seus valores fundamentais. Quando uma pessoa deixa de colocar barreiras claras, ela frequentemente compromete a própria integridade para agradar aos outros. Delimitar o que é aceitável fortalece a coerência interna e garante relações de trabalho mais honestas e transparentes.

Por que é tão difícil lidar com o desconforto de impor limites?

Impor limites gera o receio do conflito, da rejeição ou de ser visto como não colaborativo no ambiente corporativo. O desconforto surge do medo de causar frustração no outro ou de enfrentar reações negativas. Aprender a sustentar essa sensação incômoda é um passo essencial para amadurecer profissionalmente e evitar o esgotamento emocional contínuo.

Como começar a colocar limites na prática no trabalho?

O processo começa ao reconhecer as próprias necessidades e identificar situações de sobrecarga. Em seguida, é preciso comunicar os limites de forma clara, firme e respeitosa, focando em fatos e impactos. Sustentar os acordos estabelecidos e aceitar o desconforto inicial da mudança é fundamental para construir uma rotina profissional equilibrada e saudável.

Sobre este episódio

No episódio 140 do Love the Problem, Andréia recebe Bárbara Ildorio, atriz e terapeuta, e Mari Yamamoto, fundadora do projeto Awake, terapeuta, atriz e jornalista, para uma conversa profunda sobre limites como ato de integridade e autoconhecimento. A discussão parte da premissa de que a maioria das pessoas passa a vida se autoabandonando: dizendo sim quando quer dizer não, aceitando o que não quer, respondendo 'tanto faz' para tudo. Mari conta sua história como apresentadora que, por não se sentir merecedora, apagava suas preferências e era chamada de 'gente morna' pelo parceiro de trabalho. Bárbara traz a metáfora da manada: sem limites, não há eu, só um monte de gente igual servindo ao status quo. O episódio explora como o corpo registra cada recusa não dita — os 'roxos invisíveis' do autoabuso — e como a auto-percepção, com exercícios simples como os três segundos de respiração, pode ser o termômetro do limite. A analogia do copo de água na metade ilustra que o limite é um lugar de paz e proteção, não de proibição. A conversa aprofunda a raiz do medo de bancar a verdade: traumas de rejeição e abandono, a codependência da aprovação alheia, e a necessidade de atravessar o desconforto para chegar ao encontro consigo mesma. Na parte prática, Mari apresenta a comunicação não violenta em quatro passos — observação, sentimento, necessidade e pedido claro — e a técnica Quantum Beam para processar emoções antes de comunicar. O episódio fecha com a aplicação no mundo dos negócios: acordos explícitos com times, revisão de papéis e a coragem de dizer que um papel não faz mais sentido. A mensagem central é que limite não é negociável, é a condição mínima de temperatura e pressão para existir bem, e que comunicar, mesmo com imperfeição, é um presente para si e para o outro.

Transcrição completa

Andréia abre o episódio com a pergunta central: que problema eu resolvo colocando o limite? Bárbara Ildorio, atriz e terapeuta, responde que o problema é um que a maioria das pessoas nem sabe que tem: o quanto se viola, o quanto se abusa. A maioria passa a vida inteira achando que a única maneira de existir é dar, dar, dar, sempre recebendo pouco, ou sentindo incômodo por não dizer ao mundo aquilo que precisa ou aquilo que não quer. Essas pequenas recusas não ditas vão se alojando dentro da pessoa e se tornando um problema maior.

Mari Yamamoto, fundadora do projeto Awake, terapeuta, atriz e jornalista, acrescenta que o que mais resolveu para ela foi fazer um caminho de volta à autenticidade. Quando a gente entende os limites, é um passo muito importante para se conectar com desejos. Ela não sabia o que queria, o que tinha vindo fazer na Terra, do que gostava, enquanto não descobriu quais eram os seus limites. Para Mari, o limite é o passo anterior do desejo, e o desejo é o passo anterior da criação do eu, da nossa diferenciação. Quando a gente é mais novo, precisa entrar em grupos formados, se identificar com uma rodinha para saber quem é no mundo. Como adulto, ter limite faz com que a gente dependa menos desses grupos e comece a criar um espaço próprio, onde se sente bem, confortável, e percebe quais são os gostos e vontades que partem de si e não do ambiente.

Bárbara traz a metáfora da manada: a gente sempre é manada, e se é manada, não tem limite, está sempre servindo ao status quo, ao que é benéfico para todo mundo. Nesse lugar, não se entrega aquilo que é precioso, a formação do eu não tem como se revelar. Sem limites, não há um eu, só um monte de gente igual.

A conversa avança para a integridade. Mari conta que, quando era apresentadora de um programa de música, entrevistava celebridades e, por não se sentir merecedora, respondia a tudo com "tanto faz". Não escolhia cenário, não pedia o sofá de veludo onde queria sentar, não dizia o que queria comer. Um dia, seu parceiro de trabalho a confrontou: "Gente morna não consegue nada na vida. Gente morna não é confiável. Gente morna não vai crescer." Enquanto não sabia dar limite, não era íntegra consigo mesma, não falava a própria vontade, não era verdadeira. O limite e a integridade são deixar aflorar o que brilha o olho, o que faz a gente querer viver aquilo que faz sentido.

Bárbara aprofunda: integridade é correr riscos. É se abrir mão da codependência da opinião alheia. Se a gente está sempre codependente do que o outro pensa, não consegue ser íntegra, não existe de fato. É sair de um modo operante que olha mais para fora do que para dentro, porque a resposta estava dentro o tempo todo. E é preciso se expor ao risco, o que a gente tem muito medo de fazer. O desconforto de discordar, de dizer o que se quer, de colocar um limite, é enorme. Há também o lugar do merecimento: achar que não se merece dizer o que se quer, independentemente de as pessoas quererem fazer aquilo. Quando a gente simplesmente aceita e não se posiciona, o corpo registra que não se disse o que não queria ou o que se queria. É auto violência.

Bárbara traz a noção de autoabuso com a metáfora dos roxos: se alguém puxa seu braço com força e deixa um roxo, é abuso visível. Mas os roxos que a gente faz em si mesma o tempo todo — dizer que quer macarrão quando não quer, deixar alguém ficar dez dias na sua casa quando combinou dois, bagunçar suas coisas —, esses roxos internos são tão reais. Se a gente não gosta de si, não cuida de si como cuida de uma porcelana cara ou de um iPhone. A gente não foi criado para se gostar, nem para ser manada. É preciso partir do lugar de "eu não me conheço hoje, não sei quais são meus limites" para chegar ao "eu sei".

Mari compartilha uma ferramenta inicial de autoconhecimento: quando não conseguia dizer não por si, imaginava que a situação estava acontecendo com uma amiga chamada Paula e dava o conselho que não se dava. "Se fosse a Paula, eu ia falar: não, não dá, você não pode viver isso." Era uma forma de contornar a dificuldade de se posicionar. Andréia questiona a narrativa da "guerreira" que aguenta tudo: quando alguém elogia uma mulher dizendo que ela é forte, que dá conta de tudo, muitas vezes isso significa que ela se atropelou horrores e não teve ninguém do lado.

A pergunta seguinte é como identificar o próprio limite. Mari conta a analogia do copo de água: enquanto preparava uma aula sobre limites, foi encher um copo no sítio e encheu demais. Ao andar, derrubou água e se molhou. Com o copo na metade, podia correr, dançar, fazer o que quisesse sem respingar. O limite é um lugar gostoso, onde a pessoa se sente protegida, onde tudo que acontece é massa. Não é um lugar de "não entre", é um lugar de "aqui eu tô bem comigo, me respeitando". Quando se estabelece um limite, já se sabe até onde o outro vai chegar, e isso traz paz.

Bárbara sugere um exercício prático de auto-percepção: sempre que alguém perguntar algo ou for preciso tomar uma decisão, respirar fundo e dar três segundos para perceber como o corpo se sente. Se a pessoa não é muito conectada com as emoções, perguntar se o corpo se abre ou se fecha, se algo puxa para trás ou move para frente. O corpo é um mestre: já sabe se quer passar o réveillon em Angra ou em Caraíba, se quer transar com alguém no primeiro encontro ou não. Em vez de ir no automático, fazer esse exercício. É claro que se vai falhar várias vezes, e está tudo bem, porque se está num processo de transição. Não se apressa ninguém. Trabalhar o lugar de respirar e perceber como se sente em relação às coisas: como me sinto quando essa pessoa entra no meu escritório, quando abro o e-mail dela, quando ela coloca açúcar no meu café. É esse o grande termômetro do limite.

Mari acrescenta que todos os processos profundos na vida dela começaram no corpo. O corpo avisou antes. Ela teve uma falha de cabelo grande no topo da cabeça por ter vivido anos de super autoabuso, de não dizer não, de ser a pessoa do "tanto faz". O corpo começou a adoecer com quedas de cabelo em tufos. Toda doença tem fundo emocional. Se está fora, tem uma coisa dentro muito profunda. Perceber as sutilezas que o corpo traz é a melhor prevenção. Mas se já houver o problema, investigar. Tratar a causa, não só o sintoma, porque senão a gente volta e fica doente de novo.

Bárbara traz uma pergunta poderosa: o que eu gostaria se ninguém fosse se machucar, questionar ou duvidar do que eu queria? Se eu fosse a rainha do mundo e meu pedido fosse uma ordem, o que eu gostaria? Essa pergunta revela a verdade mais verdadeira, mais absoluta. Mas ainda assim, mesmo sabendo que sair de uma relação, de um emprego, de uma situação faria a pessoa mais feliz, ainda se sente medo. A dificuldade de bancar a própria verdade vem de não estar acostumada a sentir emoções desconfortáveis e a saber que se sobrevive a elas. A gente é muito mimada emocionalmente. Quando se fala "não, você não pode ficar mais na minha casa", há um morro de medo de que a pessoa nunca mais olhe na cara. Isso tem a ver com traumas muito antigos, com rejeição, abandono, questões da primeira infância. Um processo traumático é sempre um momento em que se foi exposto a algo que não se deu conta, e para sobreviver, a gente congela. Aquele trauma fica no corpo, e a vida inteira se vive fugindo de sentir aquela rejeição, aquele abandono. Enfrentar esse monstro se assemelha à ideia da morte: tem um eu que é o eu bonzinho que finda naquele momento em que se coloca o limite. Mas do outro lado, tem o encontro consigo: a casa vazia, a tranquilidade, não ter que fazer comida, entreter convidado. É um encontro gostoso, mas para chegar nele, é preciso bancar o desconforto.

Mari fala sobre sonhos e vida extraordinária. Quando falou em público "acredito em relacionamentos extraordinários, quero viver uma vida extraordinária", ficou apavorada. Quando se fala alto o que se quer e no que se acredita, é preciso bancar isso. As crenças que criam obstáculos nos protegem da queda, do fracasso. Mas se imaginar que não há mais nenhum problema: tem todo o dinheiro, a aprovação da família, todos os aeroportos com passagem grátis. Aí se vai ter que bancar muito aquilo que se quer, ser muito sincero com a própria verdade. Um exemplo simples: se quer muito uma pessoa, mas não dá porque ela namora ou mora longe. De repente, ela termina o namoro, vem morar na cidade, e te quer. Às vezes, não se quer mais, porque o que se gostava era alimentar a ideia de como seria. Quando o mundo inteiro se abre para que a verdade aconteça, se não der certo, a culpa é sua, não tem a quem culpar.

A conversa chega à comunicação de limites. Mari conta que, no início, colocava limite depois de já ter sido atravessada. Atendia por um preço popular e, quando pessoas não podiam pagar, fazia de graça ou por metade, o que era autoabuso. Depois, marcava e voltava atrás. É melhor desatropelhar do que falhar, mas já ter dito. Se a pessoa é de fato uma amiga, vai entender. Quem não respeita o seu limite não merece estar na sua vida. Limite não é negociável. Os limites são as condições mínimas de temperatura e pressão para que a pessoa consiga existir bem.

Mari compartilha que conviveu com uma tribo de terapeutas, pessoas que tinham feito os mesmos cursos, e isso facilitou a prática. Usavam a técnica Quantum Beam, uma escuta profunda das emoções sem julgamento. Tinha um cantinho na casa com almofadas para socar e gritar. Antes de comunicar algo que a incomodava, ia para o cantinho, processava, e voltava com a linguagem: "Quando eu escutei o que você falou, pegou o meu corpo, meu corpo travou."

Mari apresenta a comunicação não violenta em quatro passos: primeiro, observação — qual é a situação sem julgamento. Exemplo: a pessoa chegou em casa e jogou a toalha molhada na cama. Segundo, sentimento — o que aquilo traz: o corpo fica incomodado, sente-se que o espaço foi invadido, tristeza. Terceiro, necessidade — do que se precisa: a cama precisa ficar quentinha, seca, sem toalha. Quarto, pedido claro e específico: "Quando eu vejo a toalha molhada em cima da cama, eu sinto que meu espaço foi invadido, eu preciso que minha cama fique quentinha, e o meu pedido para você é que você coloque a toalha no varal. Pode ser?" Não adianta dizer "toda vez, hein, toalha em cima da cama", porque isso não diz o que fazer. A comunicação não violenta, segundo o autor, é quando a gente enriquece a vida do outro e a própria vida.

Bárbara reforça que a escolha de não comunicar é uma escolha de comunicar passivo-agressivamente. Se não se fala, vai ficar soltando comentários como "nossa, de novo a toalha?". A gente sempre vai comunicar. A decisão de falar, mesmo que seja algo pequeno, é um presente para si e para o outro, porque quando uma pessoa atravessa muitos limites e a gente vai guardando, a resposta normal é cortar a pessoa da vida depois de um tempo. Falar é um presente de manter a relação. Ou se comunica violentamente, passivo-agressivamente, ou se comunica humanamente. Requer coragem, tempo e auto-percepção.

Andréia traz a aplicação no mundo dos negócios: ter momentos com times, liderados, pares, para criar combinados e acordos. "Poxa, isso aqui estava no seu papel fazer, era parte da sua responsabilidade. O que te impediu de fazer? Você precisa de ajuda?" Ter essas conversas faz com que se tretasse muito menos. Não é "eu não gostei" ou "eu acho que você deveria fazer tal coisa", é "a gente fez um acordo, precisamos rever esses acordos?". Gastar tempo de qualidade para isso. Se não precisam, pode cumprir o acordo. Ou, se a pessoa quer se retirar daquele papel porque não faz mais sentido, não está conseguindo colocar energia nele, é válido. Os papéis — coordenadora, podcaster — são energizados dentro da empresa. Se não se consegue cumprir os acordos, será que faz sentido continuar naquele papel?

As convidadas encerram celebrando a importância de se abrir para falar em público sobre esses temas, de se rever, se visitar, e de crescer junto em grupo, trocando experiências e frases que ficam.

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