
Ep. 93 - Cooperativismo e a autogestão
Resumo rápido
Panda e Raquel recebem Camila Lucone e Jean Kichidiniz para mostrar como o cooperativismo, nascido na Revolução Industrial como resposta à concentração de poder e capital, oferece pistas concretas para quem hoje experimenta autogestão e busca redistribuir poder, propósito e capital dentro e fora das organizações.
Capítulos
- 09:31O que é cooperativismo: origem histórica e os sete princípios
- 16:12Lucro como meio, não fim: o paradoxo do poder concentrado e o 'ESG raiz'
- 22:20Poder como commodity: o triângulo invertido e a autogestão na K21
- 27:45Cooperativismo x hierarquia: os casos da Unimed e da Ecocitros
- 30:08Cooperativismo de plataforma: alternativas ao Uber e ao Airbnb
- 38:00Os limites do modelo e a busca por um caminho híbrido: App Justo e crowdfunding
- 44:12Autogestão, propósito e o trabalho do futuro
Frases do episódio
O que você vai ouvir neste episódio
- A definição do cooperativismo como um modelo organizacional onde os trabalhadores são proprietários do próprio negócio.
- O conceito de autogestão e seu impacto direto na tomada de decisão e na prosperidade coletiva da empresa.
- A discussão sobre como modelos cooperativos promovem oportunidades mais equitativas para os profissionais envolvidos.
- A busca por um horizonte corporativo mais justo por meio do compartilhamento de responsabilidades e resultados financeiros.
Temas discutidos
O episódio conecta os conceitos de cooperativismo e autogestão à cultura organizacional e liderança contemporânea. Ao examinar modelos em que colaboradores atuam também como sócios, a conversa provoca reflexões sobre autonomia, governança descentralizada e engajamento. Essa abordagem dialoga com os princípios da agilidade, que priorizam a colaboração e a distribuição do poder de decisão para construir ambientes corporativos sustentáveis e orientados ao crescimento coletivo das pessoas e dos negócios.
Para quem é este episódio
Este conteúdo é recomendado para líderes organizacionais, agentes de transformação e especialistas em gestão de pessoas que buscam modelos alternativos de governança. O episódio atende também a profissionais interessados em autogestão, cultura colaborativa e estruturas corporativas descentralizadas voltadas para o desenvolvimento coletivo.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
O que caracteriza o modelo de cooperativismo apresentado no episódio?
O cooperativismo é um modelo organizacional no qual os próprios trabalhadores exercem o papel de donos do negócio. Essa estrutura visa garantir que todos os participantes prosperem coletivamente, criando um ambiente com melhores oportunidades, divisão transparente de resultados e um horizonte profissional baseado no interesse comum e na cooperação.
Como a autogestão se relaciona com o cooperativismo?
A autogestão surge no contexto cooperativo como a prática de descentralizar o poder e a tomada de decisão entre os membros. Em vez de depender de uma hierarquia tradicional, as pessoas assumem responsabilidades diretas pela condução do negócio, alinhando a gestão do trabalho aos objetivos coletivos da organização.
Quem são os convidados deste episódio sobre cooperativismo?
O episódio é apresentado por Antonio Gerent (Panda) e conta com a participação de Camila Luconi Viana, Raquel Tanurcov e Jan Kishi Diniz. Juntos, os convidados debatem a aplicação do cooperativismo e da autogestão, trazendo questionamentos, conceitos fundamentais e aprendizados para o contexto organizacional.
Sobre este episódio
Neste episódio do Love The Problem, Panda e Raquel recebem duas pessoas com trajetórias distintas, mas complementares, dentro do mesmo universo: Camila Lucone (Cami), administradora, professora de cooperativismo e sustentabilidade e hoje atuante em transformação digital, e Jean Kichidiniz, empreendedor e sócio de um grupo que opera em sistema de autogestão inspirado em cooperativismo, sociocracia e holacracia, hoje à frente de investimentos em startups de impacto. A conversa nasce da constatação de que, apesar de décadas discutindo agilidade e autogestão, o podcast nunca havia abordado diretamente o cooperativismo.
Cami abre explicando que o cooperativismo é mais que colaboração: é uma doutrina com mais de duzentos anos de história, nascida como resposta operária à Revolução Industrial, quando trabalhadores sem direito a voto e proibidos de se associar formalmente passaram a se organizar informalmente para resolver necessidades essenciais. Dessa origem vêm os sete princípios cooperativistas, como adesão livre e voluntária, gestão democrática (um voto por pessoa, não por capital investido) e participação econômica proporcional ao trabalho de cada um, não ao dinheiro aportado. No modelo cooperativo, o resultado econômico (chamado de 'sobras', não de lucro) é meio, não fim: o objetivo real é resolver a dor que uniu aquele grupo de pessoas, o que muda a própria forma de medir sucesso.
Jean complementa com uma leitura mais estrutural: cooperativistas, segundo ele, praticavam 'ESG raiz' antes de isso virar tendência, ao colocar o propósito social no centro da existência do negócio. Ele traz o dado de que o lucro de algumas centenas das maiores empresas do mundo equivaleria ao necessário para financiar metas globais como o fim da fome, o que evidencia um paradoxo de concentração de poder e capital que o cooperativismo tenta resolver há muito tempo. Um exemplo prático ilustra isso: nas cooperativas de crédito como o Sicoob, é a agência local, e não um banco central, que é dona da estrutura maior, invertendo a hierarquia tradicional.
A partir daí, a conversa conecta cooperativismo com autogestão. Raquel descreve como, na K21, o poder é 'despersonificado': em vez de concentrado em cargos ou pessoas, ele é colocado em acordos coletivos que estruturam a prática cotidiana de tomada de decisão. Cami usa dois casos concretos para mostrar que a distribuição de poder não é automática em toda cooperativa: na Unimed, cooperativa médica, apenas os médicos são cooperados, o paciente não tem poder de decisão; já na Ecocitros, pequena cooperativa de cítricos no interior do Rio Grande do Sul, os 70 agricultores associados se reúnem mensalmente em assembleia e decidem coletivamente, inclusive antes da era dos post-its e das ferramentas digitais de facilitação.
O grupo então avança para o cooperativismo de plataforma: tentativas de recriar, em versão cooperada, negócios como Uber, Airbnb e serviços de streaming, cooperativas de motoristas e de diaristas em Nova York, uma cooperativa de fotógrafos presente em dezenas de países e o Resonate, alternativa cooperativa ao Spotify. Jean pondera, porém, que esses modelos esbarram numa limitação estrutural: negócios digitais exigem capital intensivo desde o início (infraestrutura em nuvem, times de desenvolvimento), algo que o modelo cooperativo puro tem dificuldade de financiar. Ele cita o exemplo de uma cooperativa de diaristas que precisaria de um milhão de dólares por associada só para competir tecnologicamente, e recorre à crítica ao 'blitzscaling' do venture capital tradicional, comparado à lógica de grandes redes de supermercado que quebram o comércio local, para explicar por que cooperativas puras dificilmente competem em escala com startups financiadas por capital de risco. O App Justo, alternativa ao iFood e ao Uber Eats que tenta equilibrar princípios cooperativistas com necessidade de capital via crowdfunding equity, é citado como uma tentativa concreta de modelo híbrido.
Na reta final, a conversa se volta para propósito e trabalho do futuro. Jean traz o exemplo do banco ético francês La Nef, cujo fundador resume a filosofia com a frase 'quando a gente tira o poder do dinheiro, dinheiro vira amor'. Cami relaciona isso ao movimento de Empresas B, criticando que esse movimento raramente questiona hierarquia e poder de decisão, mesmo cobrando outros indicadores sociais. Panda propõe que, na economia do conhecimento, o próprio profissional é o meio de produção, o que deveria mudar sua relação de poder dentro das organizações. Raquel fecha destacando a visão sistêmica da agilidade e o risco de perder sua essência quando o movimento se torna mainstream e volta a concentrar poder em poucas pessoas. O episódio termina com um convite para repensar a narrativa de sucesso centrada no '1%' e para preparar não só lideranças, mas times inteiros, com ferramentas para tomar decisões de forma distribuída e conectada a propósito.
Transcrição completa
É, mas eu queria começar pelo tema que a gente pouco fala aqui, eu acho que a gente nunca falou no love the problem, que é cooperativismo. Eu acho que esse tema nunca permeou. Olha que eu... Se eu não gravei os episódios, eu ouvi os episódios. E eu acho que em nenhum momento até hoje, a gente passou pelo tema cooperativismo. Essa palavra foi sequer citada, eu acho. É verdade, é verdade. Então eu gostaria de começar por aí. A Cami, eu sei que é uma entusiasta do tema, talvez eu já vou passar a bola de ato ser, Carmen? Se você puder falar um pouco pra gente sobre cooperativismo, seria muito legal. Bora. Eu vou explicar do jeito que eu entendi, assim, e depois de um tempo, tá? Não foi de cara, não foi em pouco tempo, foi vivenciando algumas outras experiências até fora da cooperativa que eu trabalho.
Mas o cooperativismo, eu aprendi, assim, que ele é uma doutrina, um sistema, tipo um movimento, é algo muito maior do que colaborar, né? Que as pessoas às vezes, ah, é cooperar cooperativismo. Eu gosto de dizer assim, imagina um negócio que tem hino, tem bandeira, tem um movimento desde lá de 1800, então é algo mais profundo que acredita que a gente pode se organizar de um jeito diferente na sociedade. Então, a Raquel tava falando da revolução industrial, né? Como que esse bichinho diferente às vezes conhecido nasce? Como alternativa. Tava lá a revolução industrial pegando, as pessoas estavam sendo, digamos assim, um pouquinho maltratadas, né? Aquelas que estavam aí sem direito a voto, né? Se você não tinha grana ou não tinha máquina, porque era o advento aí do capital, de quem tinha a máquina e por isso a gente falava do capitalismo na época.
E aí vem a galera que não podia se reunir, era proibido na época, não podia ter associações, não podia ter o que a gente chama de sindicatos, e aí a galera disse assim, não, vamos fazer isso junto aqui no porão e vamos se unir pra reunir, pra resolver uma dor. E aí tem tudo a ver com o que a gente trabalha em agilidade, em autogestão, e aí o mais interessante é que eles se juntam, porque eles tinham fome, então basicamente é uma dor essencial, uma necessidade essencial, e aí eu acho que daí começa já as reflexões de autogestão, que o pessoal quando a gente se une, a gente diz no compartilho que a gente tem duas frentes, o social e o econômico. Só que o social é muito mal interpretado. O social, geralmente a galera acha que é abraçar a árvore, ajudar as criancinhas, e o social é que é uma associação de pessoas.
E a associação de pessoas, por si só, vai falar em poder pro lado bom e pro lado ruim, e também vai falar da necessidade que a gente tem de se organizar de um jeito diferente. Porque pensem que esses caras, eles vêm do socialismo utópico. Agora a gente não pode discutir nada que já é polêmica, mas pensem que na época francesa, a galerinha tava discutindo um monte de coisa, e aí eles chamaram assim, bah, e se a gente fosse mais vibes e conseguisse ter alguns que cozinham, alguns que educam, alguns que trabalham, eles tentaram, falharam, tentaram, falharam, eles, cara, vamos fatiar esse negócio, vamos pegar um pouco do que funciona no capitalismo, que é o mercado, vamos pegar essa nossa vibe mais pró -pessoas e juntar. E aí nasce o cooperativismo, que, tá, não vou, vocês sabem que eu sou suspeita, mas, putz, não parece uma baita solução pra 2021, sabe?
Então, essa é um pouquinho a história, assim. Eu amei os franceses com bye vibes. Eu fiquei imaginando a galera lá. Como que eram as conversas, né, dos franceses bye vibes e assuntos mil, né, e muitas coisas rolando na França naquele momento. Mas eu queria, assim, tomar o lugar de quem não tem tanto conhecimento, validar o meu entendimento e fazer mais uma pergunta. Então, eu entendi que foi uma forma alternativa que eles encontraram pra se organizar e também não só a organização deles enquanto grupo social, né, pessoas que interagem e tem um convívio juntos, mas também a forma com que eles se relacionavam com o dinheiro, com o mercado, né, então não é só a gente se organizar, aqui, tipo, numa comunidade, né, mas também essa junção das duas coisas, né, do mercado, como você falou, com uma organização social.
É isso? Sim, e tem uma coisa mais profunda aí, que daí o que acontece? Como esses caras falharam, falharam, falharam, imaginem, assim, que na época tinha até um princípio que dizia que não era pra beber. Então, assim, tá, parênteses, era só uma curiosidade. Mas depois de um tempo, eles se juntam e, tipo, tá, vamos fechar os sete princípios do cooperativismo. Tem vários, que até nas cooperativas de plataforma, que é o que eu e o Jean fomos estudar lá em Nova York, eles estão aderindo. Que é adesão livre e voluntária, então, tipo, assim, se a gente fosse traduzir esses valores pra 2021, seria de ser diversidade? A gente aceita qualquer religião, qualquer política? Gestão democrática? Ninguém vai ter mais poder que o outro, então não interessa se tem um real ou um milhão de reais, é o mesmo voto.
Então, aqui, a gente já reduz desigualdades a full, porque a gente dizia que só quem tinha dinheiro votava. Participação econômica. Quem ganha o lucro no final, e a gente não chama de lucro, a gente chama de sobras, mas vai, o resultado, são todas as pessoas que produzem. Aí vem outro valor aqui também. Então, por exemplo, nas startups cooperativas, a gente tem super um desafio aí que geralmente tem o que chama de equity, de capital externo, digamos assim. Se a gente dá equity pra pessoa e ela não trabalha, buga o cooperativismo, porque a grana vai, ela é distribuída proporcional ao teu esforço naquele empreendimento. Então, tem vários, não vou citar todos aqui pra não ficar muito prof, mas tem vários princípios que diferenciam muito. E um deles, só pra fechar o que a Raquel comentou, é assim.
O resultado, ele, principalmente o resultado econômico, ele é meio, ele não é fim. O fim aqui é aquilo que a gente falou lá no começo, que é resolver a dor daquele grupo de pessoas. Então, se tivesse empatando algumas dessas cooperativas, a gente já sai como sucesso. E aí implica em outra coisa, como é que eu meço sucesso? Porque vamos combinar que a gente só sabe medir de um jeito, né? Sim. Aqui eu acho que já é uma quebra de paradigma, né? Especificamente, pra boa parte das pessoas que provavelmente nos ouve aqui, né? Que quanto o fim de boa parte das organizações é o resultado financeiro, né? Muitas vezes representado por lucro, muitas vezes representada por aquela última linha do demonstrativo de resultado, que envolve todo um outro ecossistema, que tem acionistas, pessoas que colocam capital só por capital, mas não estão envolvidas diretamente naquilo que tá acontecendo naquela organização.
E a visão de ecossistema acaba sendo muito reduzida, né? Acaba sendo uma visão muito individual daquela organização e da relação dela com o capital de fato, assim, né? Que tá envolvida ali. Obrigado, Cam. E eu queria ouvir um pouquinho daí, Andy, você, assim, aí, ó. O que que tá vindo? Não, mas antes eu queria até fazer um resumo do que a Camila trouxe. Esses cooperativistas inventaram o ESG raiz. É isso.
Antes de virar moda, eles já estavam lá falando, pô, não pode ser, né? Não pode ser. Negócio social também foram eles, ué. ESG por essência, né? Não, muito legal. Eu acho que até nesse papo assim, eu vou ter menos pra contribuir com essa base, talvez, mais histórica e conceitual, né? E muito trazer da minha vivência, assim. A gente, no grupo, a gente se apaixonou por cooperativismo porque a gente descobriu que já existia um sistema organizacional que já fazia aquilo que a gente tava sonhando fazer. Então, quando a gente cria o nosso grupo, a gente sonha em que organizações ganhem de novo o propósito real na sociedade, né? Então, pra gente abrir uma empresa, você é obrigado a declarar a priori qual é o objeto social dela, né? Ou seja, qual que é o nosso objetivo na sociedade.
Isso vai ficando tão transacional que eu acho que nem há uma reflexão mais sobre isso. E aí, agora, a gente tem que pagar coach quântico pra refletir sobre o propósito da empresa, né? Sendo que teoricamente deveria ser junto com o contador, né? Os contadores talvez deveriam dar workshop de propósito, enfim. Porque essa é uma obrigação nossa que a gente tem, né? De pensar quando a gente vai abrir um negócio qualquer. E aí, quando a gente começa a refletir, então, qual que é o nosso objetivo na sociedade, eu acho que a gente se vê diante de um paradoxo maluco, que é curioso pensar que ele tá aqui desde sempre, né? Esse mesmo paradoxo que esse pessoal enfrentou lá atrás, a gente ainda continua enfrentando talvez ainda pior de certa forma, porque agora a gente sabe desse paradoxo.
Naquela época, talvez eles não sabiam muito mais que aquele raio que eles pertenciam, né? Hoje em dia a gente sabe que a gente tem, sei lá, a economia do 1 em quase todo lugar, né? Desce 1 da população que detém 50 da renda. De um Fortune 500 global, se você pegar o lucro deles, que são aos trilhões, né? Não vou me lembrar o valor exato agora, mas é mais que alguns trilhões de dólares, você financia quase toda a agenda anual de metas das ODS, né? Dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Então, para pra pensar que loucura, né? Se a gente pegar 500 empresas e o lucro que elas tiveram, ou seja, elas pagaram todo mundo. Elas pagaram do CEO ao analista, distribuiu bônus pra geral, deixou na última linha assim, de volta pros acionistas, a mesma quantidade que a gente precisava pra resolver a fome global no ano 1, financiar as iniciativas pra garantir equidade de gênero, as iniciativas pra garantir que o planeta se sustenta, emissão de gases de efeito estufa e etc.
Isso num ano, né? Então, esse paradoxo, a gente normalizou ele e esquece que a gente precisa disparadoxalizar essa parada toda. E aí, quando a gente reflete sobre isso, eu acho que começa a ficar meio óbvio e quase intuitivo de que só vai fazer sentido se houver uma melhor distribuição de poder, ou seja, que todos possam numa proporção parecida. Não as mesmas coisas, senão acho que é onde falharam lá, né? Tentaram várias vezes aquele socialismo mais pragmático, porque a gente tem que lembrar que o mundo ele é completamente irregular e é um conjunto de narrativas que são muito diversas, né? Então é difícil a gente dizer como que vai ser tudo igual, mas se a gente conseguir fazer com que todos possam em proporções parecidas, né? E que todo mundo consiga ser recompensado no que é, talvez, a nossa grande moeda, que é o capital, né?
De troca, a gente tem de equilibrar. E a gente não precisaria nem dizer o que exatamente, né? Bastaria esse como, eu tenho a impressão de que a gente voltaria a reequilibrar. Então, a gente, com essa ideia no coração, a gente conhece o cooperativismo e a gente fica encantado, né? A gente conhece primeiro o cooperativismo de crédito. E quando a gente vai fazer esse trabalho lá, a nossa referência era, sei lá, os grandes bancos, o Itaú, né? Falando isso, muda o mundo. E aí, quando eu falo, pô, Itaú muda o mundo, aí eu chego lá na sede de um das maiores cooperativas, uma das cooperativas do Brasil, no caso era o Cicobi, e aí eu vejo aquela sala gigantesca de reunião, com uma mesa, assim, que não acabava mais, era pra jogar futebol em cima daquela mesa de tantos lugares que tinha, uma sala gigante.
E eu falo assim, cara, assim, quem que vocês colocam aqui, né? Que caravana é essa que vem fazer? Não, isso daqui é a reunião do conselho, porque tem que vir todas aquelas cooperativas, que são, na verdade, as agências praticamente localmente, assim. Como assim? Ah, não, é porque sempre as cooperativas são abertas em nível local, ou seja, elas atendem aquela região pequenininha, né? Ou seja, na maioria, é claro que algumas vão crescendo, são maiores, e elas precisam do banco pra operar, mas elas sentam no conselho do banco, ou seja, não é o banco que é dono da agência, que nem o Itaú, é a agência que é dona do banco. Na hora que eu escutei isso, isso bugou minha cabeça, assim, falei, não, não, vocês vão entender um pouco mais sobre como essas organizações funcionam, né?
Então, é muito louco perceber que boa parte desse futuro que a gente precisa, o espírito tá, como diz Camila, desde 1800 aqui já, né? Eu acho que a questão que ficou me perguntando é, o que que falta? É um ato de coragem das pessoas, tipo, saírem dos seus bancos não cooperativos e colocarem esse dinheiro no mundo cooperativo? Não sei, né? Até ficar essa pergunta, assim, o que que falta, então? Porque tá lá e o paradoxo tá desde lá, o que tá faltando? Quando você traz esse olhar sobre o poder, já, me lembrou que a Cami fez um desenho pra mim sobre como funcionava uma estrutura assim, que dela, eu falo isso pra todo mundo agora, Cami, que a Cami mostrou um triângulo tradicional de uma estrutura hierárquica de uma organização, né? Eu falava, beleza, isso aí eu conheço, é a vida que eu passei em todas as organizações.
De repente, ela me coloca um outro triângulo em cima, de cabeça pra baixo. Então, quem tá ouvindo a gente, pensa na estrutura do triângulo de uma hierarquia, assim, e daí pega a ponta daquele triângulo e faz um triângulo pra cima, de cabeça pra baixo. E daí mostra, mostrou pra mim essa conexão de um nível de diretoria, conselho, com centrais, com cooperativas e associados lá naquela parte de cima, assim. E eu fiquei, tá bom, eu nunca vi isso, talvez. Eu nunca senti isso na prática, assim. E daí ela trouxe essa parada do poder, que você trouxe na sua fala, já, que me travou um pouco, assim, eu precisei parar pra refletir um pouco sobre essa relação de poder dentro das organizações, né? E como o poder acaba se tornando uma, sei lá, vou usar essa expressão, uma commodity dentro das organizações, né?
O que importa é quanto mais você tem, assim. Como uma commodity a gente precisa de grande volume de venda, por exemplo, a gente precisa ter o poder como uma commodity. E ele tá então, talvez, centrado num grupo de pessoas, assim, de repente você pega esse poder, que normalmente tá no topo de uma pirâmide, e você espalha ele de volta pra base do triângulo que tá em cima, assim. E eu fiquei, tipo, gente, como assim, né? Como é que a gente faz essa relação de poder de fato, assim? Então existe uma coisa diferente, eu era uma pessoa que não sabia nada de cooperativismo, assim, né? Existe, então, um jogo diferente daquele onde a gente só tem uma estrutura e que o poder tá concentrado numa pessoa, né? Existem movimentos de organizações que estão aqui há muito tempo, né?
Não é uma coisa recente, onde essa relação com o poder é uma relação diferente, né? E foi nisso que veio pra mim essa parada de a gente começar a conectar esses assuntos com autogestão, assim, né? Porque muito da autogestão aqui, falando talvez um pouco de dentro da K21, assim, né? O que a gente faz com as nossas práticas de autogestão é exatamente isso, tirar o foco do poder implícito que normalmente tá centrado nas pessoas. E a gente coloca o nosso poder nos nossos acordos. A gente despersonifica o poder, né? A gente tira o poder de um nível autoexecutivo e a gente fala, não, não, ele, na verdade, né? Os nossos metacordos que estruturam a nossa prática de autogestão na K21 define isso, assim, né? Nosso poder está nos nossos acordos. E esses acordos é nisso que a gente trabalha.
Porque, de fato, a forma como a gente olha o poder dentro da K21, como uma empresa que pratica autogestão, é fazer, de fato, com que esses acordos garantam que a gente tenha uma empresa mais orgânica, inclusive. Olhando não só pra dentro, como também pra fora. Né? Esse ecossistema que a gente acaba se conectando de uma forma mais orgânica, assim. Então, daí que nasceu essa conexão entre as duas coisas na minha mente. Falei, vamos gravar! Love the problem! Eu acho que a minha pergunta que tinha ficado aqui na minha cabeça, Fana, conecta bastante com o que você trouxe. Porque, absorvendo tudo isso como uma pessoa que só tá absorvendo tudo isso tentando entender, quando vocês me contam sobre a ideia do cooperativismo, a sensação que eu tenho é que ela é muito mais voltada pra esses...
pra forma como a gente se organiza, não só entre a organização, mas com agentes externos a essa organização. O que eu tô querendo dizer? A partir do momento que eu abrir uma conta, vou usar a cooperativa de crédito, como é sempre que eu acho que é mais simples. Eu passo a fazer parte daquela cooperativa de crédito. Eu não sou só mais um cliente. Eu passo a ser parte. Eu passo a ter uma distribuição ou ganhar também com isso. Eu não só, por exemplo, deixo o meu dinheiro aplicado numa aplicação financeira e vou ter um rendimento X que não tem nada a ver com o rendimento que o Itaú tem sobre essa aplicação. financeira, por exemplo. Quando eu tô falando de uma cooperativa, eu também tenho uma vantagem em ser cliente. A sensação que eu tenho é que é sempre essa visão um pouco de troca e que ela não é só interna.
Não é só como a gente se organiza aqui dentro. Ela também é como a gente se correlaciona pra fora. E aí, acho que o primeiro ponto é validar isso, pra talvez as pessoas que também não conheçam tão profundamente consigam entender como que isso se dá na prática. E aí entra a outra dúvida que é esse formato tem a ver com hierarquia? São coisas diferentes? Porque quando a gente fala de poder nesse caso, pra mim é muito a distribuição financeira mesmo. Então a gente tá falando de uma organização que a princípio não tem como objetivo puramente o lucro. Ela tem um lugar, o capital social como o Gia trouxe. E ela tem dentro dela uma forma de ser mais justa, vamos dizer assim, ao meu ver, no meu entendimento, financeiramente pra todos os envolvidos dentro daquele processo.
Mas isso, na minha cabeça, não necessariamente tem a ver com hierarquia. Ou com o poder sobre tomada de decisão, que é o lugar pra mim onde vem a autogestão. Então acho que seria legal a gente explicar também essas diferenças, né? Eu acho, Raquel, que dá pra esse interno, externo que tu tá falando, dependendo da organização, acho que tem muito a ver com a tomada de decisão do acionista mesmo e do stakeholder principal. Principal não, né? Mas ok. Então, por exemplo, tem vários formatos de cooperativas. Então, ah, uma cooperativa de trabalho médico é a Unimed. É a maior cooperativa de saúde do mundo. Então o Brasil é referência nesse modelo. Só que lá, o cooperado ele é o médico e o usuário é outra pessoa. Então quem tem poder continua sendo o médico, não é o usuário.
Então, não necessariamente em todas as cooperativas, o usuário vai ter poder de volta e de decisão. Então, tem um caso que eu queria contar pra vocês, que eu fiz uma visita a uma cooperativa no interior do Rio Grande do Sul, de cítricos. Se chama Ecocitros. E eu tava acostumada com cooperativa grande, gigante. 100, 200 mil pessoas, milhões de pessoas. E eles tinham 70. E aí eu perguntei assim, assembleia, pra quem tá nos ouvindo, a gente costuma dizer assembleia como uma reunião, mas na verdade, na verdade, assembleia é como a gente chama o grupo de pessoas que decide, que são os associados, tá? Mas ok. Aí eu perguntei assim, ah, e quando é que vocês fazem reunião, né, da assembleia? Uma vez ao ano? Duas? Eu tava interessada em governança.
E eles, não, não. Todo mês. Como assim, todo mês? Não, todo mês os 70 agricultores se reúnem e decidem. E aí vem aquela questão da autogestão, né? Tá, mas eles têm maturidade pra decidir, eles sabem ler e escrever, eles entendem de um negócio. Gente, eu me emocionei, porque eu já tava em transformação digital e mexendo em post -it, né? Post -it é do negócio, não me mata. Eles vieram com uma caixa cheia de antes da era do post -it, porque existe há anos essa cooperativa, com um cara, descoloridos desse tamanho, pra ajudar a facilitar a tomada de decisão daquelas pessoas. Então, é muito louco a gente conseguir ver que quem opera a cooperativa no dia a dia e quem toma a decisão, independente de quanto capital ela tem, são as pessoas. Então, em última instância, uma cooperativa mais ou menos de um tamanho razoável, deveria operar assim.
Só que a escala, daí, assim como a agilidade, tudo foi pra uma escala absurda. Então, hoje, a gente tem formas de organizar isso, pra que as pessoas sejam ouvidas e tomem as decisões. Então, tem ainda algumas paradas muito legais no cooperativismo, de tipo assim, decidir quem a gente representa, decidir o salário de quem a gente representa, que vamos lá. Em outros lugares, a gente não teria como ter esse tipo de transparência e poder. Então, é um jeito de dar poder pra ponta ainda, né? E sendo a ponta e o usuário, o que é muito louco. E aí, conecta com o que a gente tava falando do cooperativo de plataforma. Eu quero deixar o gancho aqui, porque o que que tá acontecendo? A galera da internet, a galera da agilidade, que tá falando de autogestão e tá entendendo que essa parada, como diz o Jean, faz sentido, eles tão recorrendo ao cooperativismo pra conseguir distribuir poder nas plataformas digitais.
Ou seja, a gente tá estudando alternativas ao Uber, ao Airbnb, porque o que que o pessoal disse? Colaboração, caramba, isso aí, né? Tem dois ou três no Vale do Silício ganhando tudo. Os usuários, tá, tão aí ganhando um pouco, mas quem tá sofrendo mesmo é o cara que morre de ataque cardíaco, não tem um plano de saúde e não consegue, aí, nem sobreviver mais com isso. E aí, o que que a gente faz? Se a gente pegasse um Uber e dissesse, ó, agora cada um de vocês é dono dessa empresa, vocês acham que eles iam tomar essas decisões de não ter um racha aí na gasolina ou pra lavar o carro? E a gente tentou lá em Nova York com cooperativas de motoristas que eles estavam brigando por direitos e ambientes mais justos. E aí, o que que eles foram atrás, então, pra distribuir esse poder e reequilibrar isso tudo aí?
Vamos fazer uma cooperativa. Só que digital, que é um pouquinho mais na nossa era agora, porque antes a cooperativa era super analógica, só que na região. E agora a gente tem cooperativa de fotógrafo, tem 60 países. E aí, o que eu acho mais intrigante é que quem tá fazendo cooperativismo do futuro, vou ser um pouco crítica aqui, não é os cooperativistas raiz, é a galera que tá vendo essa oportunidade, juntando os mundos no cooperativismo como alternativa de novo, 150 anos depois, sabe? Eu acho que vocês trouxeram esse exemplo bom, e aí eu não sei quanto vocês se sentem à vontade, mas pra trazer, tipo, mais pra prática esses exemplos, né? Então, quando você tangibilizou como funcionaria um Uber num cenário cooperativista, eu acho que eu consegui enxergar melhor, né?
Putz, tá, agora eu entendi. Então, é realmente poder de tomada de decisão, sim, né? É aquelas pessoas tomando decisão sobre o que lhes afeta, né? Como se, ao invés do RH decidir como que vai ser o meu salário específico, eu vou lá e vou chamar os colaboradores e vou falar, vamos discutir aqui sobre isso? Você, enquanto colaborador, como parte, como pessoa que gera o resultado dessa empresa, vamos ver o que a gente vai fazer com o resultado dessa empresa? Então, acho que clareou um pouco mais pra mim isso.
Fogueira, que aí é onde, por exemplo, eu comecei a talvez refletir um pouco mais de quais são adaptações que a gente precisa, talvez, em cooperativismo de plataforma, né? Então, sem dúvidas nenhuma, é um modelo incrível, né? Tipo, papo, é o cooperativismo geração YZ, né? Imagina, esse cara 100%, é um Anísio Netflix. É o cooperativismo depois da transformação digital, né?
Exato, exato. Então, assim, e se o Netflix fosse de propriedade dos produtores e também de quem é assinante, né? Que nem tem, sei lá, o Resonate, que é um Spotify que opera no modelo cooperativo, então ele consegue ter regras muito mais transparentes e de distribuição tanto de poder, então de aquisição dos seus usuários, dos seus ouvintes, etc., e também de uma remuneração mais clara, né? E melhor. Então, tem vários exemplos super legais que acho que acontecem. Agora, ainda a gente não viu plataformas que tenham condições de competir globalmente com a economia de plataforma que está aí. E aí eu acho que agora é a hora da gente entender que o cooperativismo por si só, ele também tem as suas limitações de governança e principalmente estruturais jurídicas e que elas vão precisar se adaptar e talvez evoluir para um modelo um pouco mais híbrido, né?
Por isso que eu vejo que o capitalismo consciente por exemplo, é um arcabouço que poderia amparar demais a evolução do que esse modelo de cooperativismo de plataforma, né? Então, se a gente olhar a indústria do venture capital nesses últimos anos, não é à toa que são os negócios financiados por venture capital dos últimos, sei lá, duas décadas que dominam o planeta, literalmente. Olha o que a gente está fazendo aqui, né? Cada um num lugar completamente diferente em tempo real, praticamente de graça, assim. Como assim? Entre vários outros exemplos que eu não vou ficar aqui de uso. É, da transformação digital falando, né? Mas foi essa indústria do venture capital que possibilitou isso acontecer. Agora, uma pena que ao mesmo tempo que isso começou com um movimento super bacana, super profundo de fazer um mundo melhor, ela também foi contaminada por toda essa lógica do blitzscaling, né?
E que aí eu imagino que a Camila também deve ter arrepios como eu tenho. De forma bem resumida para quem ainda não leu o livro Blitzscaling, que até quando você lê, você fala caraca, é isso aí, faca na caveira, faca nos dentes, não sei que você fica nem empolgado, seu masculino aflora. E até legal, tem um artigo mó legal que ele fala sobre sexo e venture capital, né? E que ela é uma mulher que compara e ela faz uma analogia brincando, né? Que no mundo do venture capital é tudo sobre tamanho e aquisição e crescimento, entendeu? Qual o tamanho do seu fundo? Com o que eu tô falando? Você tem um fundo grande o suficiente ou não tem? Então ela faz essa brincadeira, porque essa lógica do blitzscaling é quase que a lógica do supermercado nos anos 80, né?
Eu vou para cidades pequenas, eu sou de uma rede muito grande, eu tenho uma estrutura de capital gigantesca, poder de fogo enorme, eu posso me dar o luxo de ser ineficiente por muito tempo e quebrar todo mundo local. E chega uma hora que ninguém aguenta e ele passa a ter poder, né? Porque ele concentra tráfego, de pessoas, ele concentra o preço emprego, etc. Não é à toa que muitas das cidades interiores, onde fica o shopping? Do lado do Carrefour, dentro do Big, sei lá, tipo, os shoppings interiores, você vê que eles são em torno dos grandes supermercados, né? Porque essa lógica acontece, então as startups são meio isso, cara. Não faz sentido, às vezes, 200 milhões de dólares pra você crescer. Tipo, cara, que loucura, né? E a busca é por monopólio, né?
Então, assim, como que a gente, então, tem um modelo do meio, assim, que eu acho que é o que tá faltando, entre um venture capital consciente de organizações que têm princípios de cooperativa de plataforma. Agora, a cooperativa de plataforma como cooperativa, hoje, pelo menos, eu não consigo perceber, ela tendo maturidade, possibilidade de financiar uma estrutura de desenvolvimento de tecnologia, que ela precisa de capital intensivo na frente, né? Não tem como. Não tem como se fazer uma solução B2C, capital intensivo, sem uma estrutura de capital de risco atrelada, que uma cooperativa às vezes não consegue ter, né? Então, é legal ver que a gente já sacou que a gente precisa levar esses modelos de distribuição de poder e capital pro digital, e aí a cooperativa tem que tá lá, mas se a gente não conseguir construir também as adaptações pra fundir com coisas que a gente já aprendeu que funcionam, que é o capital de risco, etc., a gente também nunca vai conseguir, competir.
A gente vai continuar sendo aqueles casos inspiradores, tipo, ah, é muito legal, imagina, mas assim, é um ou outro que vai, saca? Porque daí chega o supermercado lá e, bum, não tem como competir, pelo menos por agora, né? Que nosso nível de consciência permite isso. Quem sabe lá na frente, quando a gente realmente, preço não fizer diferença, a marca consciente, a gente sabe que a gente tá longe disso, né? Só olhar nossas eleições, por exemplo, a gente tá começando a amadurecer nossa consciência de escolha agora, né? Então, falta, falta um tempo. Enquanto isso não vem, eu acho que seria legal a gente começar a ser mais pragmático de quais são os instrumentos que a gente faz isso. E aí tem algumas soluções que eu gosto muito, não sei se Camila já deparou com eles, que é, por exemplo, o App Justo.
App Justo é uma solução que tá se propondo competir com o Uber Eats, o iFood aqui em São Paulo. Os caras colocam no pit deck deles os princípios cooperativistas, mas, cara, eles são um startup, eles são capital intensivo, eles são modelo B2C, eles precisam de um time deck, deck custa caro, não é, não vai dar pra competir com o salário de iFood se ele não tiver uma estrutura mínima de capital pra fazer. O cara vem pelo propósito? Vem. Sem dúvidas, mas, né, ele precisa também pagar de forma competitiva um mínimo ali. E aí eu tô achando super interessante que essa é a primeira solução que eu tô enxergando que tá conseguindo equilibrar os dois mundos. E ela começa assim, tá, mas aí fundo de Venture Capital tem sua tese, que é Venture Capital, ponto, já ficou difícil.
E se a gente for pro crowdfunding? Olha, crowdfunding equity começa a fazer sentido, fica um capital mais consciente, a gente mobiliza várias pessoas pra serem os acionistas, inclusive, talvez principalmente os próprios entregadores, os próprios restaurantes. E aí você começa, olha só, né, então a gente poderia ter uma cooperativa de plataforma sem ser cooperativa, e isso acho que vai ser legal porque é uma coisa que vai mexer muito com os defensores talvez mais tradicionais de cooperativa, né. Porque assim, não, isso daí não é cooperativa, isso é uma startup. Mas, pô, ela tá usando todos os mecanismos. Será que a gente não deveria agora incentivar isso? Qual que é o papel das cooperativas financeiras nesse processo, né, de repensar os seus modelos de financiamento pra esse tipo de iniciativa, enfim.
Então, cara, esse tema que a Camila traz, né, dessa evolução pro digital, ela é muito massa porque ela, apesar dela já ser muito do futuro, ela já tá em xeque também, na minha opinião, se ela não se mexer em se adaptar, né, pra um meio termo. E o mais louco é que a gente chega a travar de novo, quando a gente fala de capital, né. Porque se a gente fosse pensar assim, a galera aqui, né, que a gente tá trabalhando com agilidade e tal. Ah, outro dia um rapaz que tem uma empresa de tecnologia falou comigo, eu disse, Camila, olha só, a gente tava batendo um papo. Ele disse assim, a gente já trabalha com autogestão, a gente já tem as squads, a gente não tem chefes e tal. Agora a gente quer virar cooperativa. Então, quem tá muito na vibe assim, de entender essas questões de colaboração, autogestão, eles chegam num nível de dizer assim, tipo, eu tinha um colega, eu fiz aqueles cursos da Target Steel e aí eu tinha um colega que tinha um cabralheiro.
E tá, as cabralheiras eram, faziam parte da autogestão, definiam o horário, definiam até como elas iam ser bonificadas, mas em última instância se elas não tinham um pedaço da lojinha, digamos assim, elas não tinham o mesmo poder que o meu colega. E é isso que o cooperativismo faz em última instância. Toma aqui um pedaço disso daqui, pra que é um símbolo, ainda é um baita símbolo de poder. Então, assim, tem coisas que tu vai evoluir distribuindo a grana. Mas o que o Gia tá trazendo aqui quando a gente trava, é quando são eles, a gente precisa de muita grana. Porque, e aí explicando pra galera que não tá tão acostumada, o que que a gente tá falando aqui? Tem uma cooperativa que a gente visitou em Nova York que é de diaristas. Gente que trabalha assim, no dia a dia, né, limpando as casas.
E aí elas são donas aí de uma cooperativa de plataforma que a gente disse, que é tipo um marketplace pra vender aí o serviço delas. E elas nunca seriam donas disso, digamos assim, se fosse algo assim, pá, vou competir com o Uber. Porque o que que pede do ponto de vista de ser uma cooperativa? Que cada uma delas coloque um milhão de dólares. Pra ter a nuvem na Amazon, pra ter todos os devs maravilhosos. E aí a gente nunca vai conseguir. Então, realmente, eu concordo com o Gia aí. Como a gente pode se aproveitar desses modelos, não só quando é serviços, por exemplo. Porque se não nós quatro aqui, quatro não, porque no Brasil precisa de sete pra formar uma cooperativa de trabalho. A gente podia fazer uma cooperativa de serviços. Mas quando precisa de grana, é punk.
Gente, eu quero botar um marco, quero fazer um marco aqui dessa conversa até esse momento. Porque eu não sei quem tá ouvindo aqui, mas eu mergulhei assim, ó, e foi profundo o negócio. A Tutsum passou de como o cooperativismo surgiu e como esse modelo não é uma novidade. Então talvez a gente só perdeu o hábito de olhar pra eles de forma consciente, assim, no nosso dia a dia das organizações, né, como alternativa. E foi parar na Venture Capital, assim.
Essa volta gigantesca, assim. E eu queria trazer um pouco dessa relação, dessa consideração, talvez, pras pessoas que estão no dia a dia aqui, dentro de organizações onde a gente talvez tá começando a falar de autogestão. E eu achei muito interessante esse caminho. Autogestão e cooperativismo, né, esse movimento, assim, porque trouxe pra mim alguns dos pontos que a gente fala, e que a gente já falou várias vezes aqui no Love the Problem, inclusive, né, que pra mim são relevantes pra discussão do trabalho do futuro. Que é, por exemplo, essa expressão esse lugar do trabalho ser uma expressão do seu próprio propósito, né. A gente vem de um movimento onde isso existir, né, onde boa parte das pessoas acaba tendo no seu dia a dia de trabalho uma troca de tempo de vida por dinheiro.
Isso foi um movimento muito comum, não é? O movimento lá da Revolução Industrial e tudo mais, né. De quando as organizações começaram a surgir, é a troca do seu tempo por dinheiro. E tá se tornando parte comum das nossas conversas falar sobre o propósito. E eu digo comum do nosso bolha de agilidade aqui, porque você vai nos eventos de agilidade e sempre vai ter um grupinho falando sobre o propósito. Sempre. Sempre, sempre, sempre. Não, eu acho que participei e não teve, não teve um evento de comunidade em que não teve pelo menos um tópico que se relacionava a propósito. E a gente tá vindo de uma geração que tá voltando a levantar essa bandeira de propósito e tudo mais, né. E quando a gente fala de propósito, não é o propósito necessariamente revolucionário de transformar o mundo inteiro, gente.
Não, é um propósito individual mesmo. Aquele seu propósito que tá dentro do seu coração, aquilo que te chama e isso está conectado com o seu trabalho, né. Isso é uma expressão do seu trabalho. E isso ainda tá numa camada muito específica, né. Eu sei que lá no livro do Reinventando as Organizações, o Lalu ele traz uma das pesquisas, se não me engano, é da Tower Watson, que fala que praticamente um terço só das pessoas, né, tá conectada de fato com o seu propósito, seu propósito individual com o seu trabalho, assim. Boa parte das pessoas estão totalmente desconectadas disso, assim, né. O nosso ambiente de trabalho não necessariamente proporciona isso, assim. E daí disso a gente já... Por que que eu acho autogestão um tema que pra mim faz uma conexão interessante aqui?
Porque trazer essa visão de propósito, trazer de fato essa distribuição do poder numa estrutura, uma estrutura autogerida, onde a gente tira, né, o peso desse poder na própria expressão do seu propósito. E daí agora o que vocês estão falando sobre o capital, dessa possível distribuição do capital, e de como o capital também deixa de ser fator decisivo nessa possível expressão, assim, né. De como abre -se de novo um fato pro novo paradigma. A gente vai ter uma discussão eterna, ainda como diz a Carol Serpejante quando participa, ela sempre fala aqui, ó. Falaram no ponto ainda que a gente ainda tá num mundo capitalista. Então o dinheiro ainda vai acabar sendo parte crucial desse processo, assim, né. Eu acho que eu recebo essa várias vezes aí, curando de alguém.
A Carol sempre fala isso. Tipo, ó, peraí, me avisaram, acabaram de me avisar aqui no ponto. Direção, acabou de me avisar aqui no ponto que ainda tá num mundo capitalista. Mas esse lugar, pra mim, de como a gente consegue fazer esse movimento, né, de olhar pra novas possíveis estruturas de trabalho pelo caminho da conexão com o propósito, assim. Então, putz, é um lugar que de fato eu quero expressar o meu propósito e permite isso, né. Eu vou dar um exemplo aqui que eu acho que junta bem. Foi um outro jeito que eu aprendi o Copartismo, mas ao contrário. Eu fui fazer umas entrevistas pro mestrado na época pra descobrir um pouco mais sobre o que era impacto no mundo financeiro. E eu ouvia muito, assim, que impacto era ajudar a comunidade, fazer capacitações.
Era sempre assim, sabe aquela máxima que eu também odeio, que é tipo assim, pra fazer o social primeiro eu preciso lucrar? Então, cooperativo e propósito não é assim, não. O core business tem que gerar impacto positivo ao mesmo tempo que gera resultado financeiro. Não é um depois do outro, não. E, principalmente, no cooperativismo, que tu não começa com dinheiro e depois tu junta as pessoas por uma dor. Tu começa pela dor. Mas, enfim. Cheguei num mundo chamado Ethical Banks e Social Banks. É um movimento que tem aí o Institute for Social Banking, depois eu ajudei com as referências, a Global Alliance for Banking on Velhos, que é uma galera que já tá há alguns anos trabalhando com a lógica assim, a gente só vai financiar aquilo que é bom pra sociedade.
Placa solar, agricultura orgânica, escolas, cultura, educação. Beleza. Aí eu entrevistei um senhorzinho daqueles bem mestres, sábios, assim, né? E aí eu... E ele não me falava de cooperativismo. E ele era uma cooperativa. Ele tinha toda essa pegada do propósito e ele era uma cooperativa. Era La Nef, o nome do banco francês. E daí ele, assim... Então, e a cooperativa nisso tudo? Porque, geralmente, o cooperativista ele começa explicando seu negócio pela cooperativa. E ele fez assim... Não, então, a gente tinha o propósito de mudar aqui, sei lá, na França, enfim, na nossa região, o negócio impactar positivamente. E a gente não poderia fazer isso de um jeito que a gente continuasse centralizando o poder do dinheiro. Porque quando a gente tira o poder do dinheiro, dinheiro vira amor.
Eu, pá, me derreti pelo tiozinho. Por quê? O que que ele tava nos dizendo ali, né? Que a gente tem que ressignificar até o papel de uma instituição financeira na sociedade. Que ele tava com o poder de escolha de dizer que ele tava financiando só aquilo que ele acreditava. E se as pessoas, uma ou outra, tivesse mais poder que a outra e não distribuísse isso como, como, o como que ele faz, não faria nenhum sentido. E aí, não sei se o Jean concorda comigo, mas eu me movimento há muitos anos, eu sou voluntária há mais de 5 anos no movimento de empresas B. E quão poucas falam de autogestão? E até é um puxão de orelha pra nós mesmos do movimento. Porque quando a gente vai responder lá o questionário, te pergunta assim, quantas mulheres tem na liderança?
Tá, tem que ter, tá? Empresa normal tem que ter. Mas, por exemplo, a Dobra, que é uma empresa que eu tô sempre grudada pra gente levar de exemplo, eles não têm liderança. Tipo, então a pergunta não faz sentido, porque ela é flat, ela é horizontal. Então, quanto que a gente tá fazendo as, acho que agora tá juntando os dois mundos, sabe? É muito engraçado, que eu começo a encontrar, e aí um pouco que o Panda falou, a galera da autogestão se encontrando com a galera do propósito, tentando distribuir poder e melhor ainda se for ágil, né gente? Então, deixa tudo isso junto. Melhor ainda se a gente tentar usar a ideia de adaptação pra descobrir qual é esse novo jeito de construir alguma coisa, né? Porque o que eu percebo, assim, ouvindo vocês, tem muito a ver com o que o Panda trouxe, né?
Que é a gente pensar nesse futuro, realmente, né? É um futuro, mas que na verdade ele já deveria ter sido passado, né? Então, a gente tem temas muito urgentes pra resolver socialmente, pensando no nosso grande grupo que vive aqui nesta terra. E eu acho que é muito interessante a gente, do nosso lugar de privilégio, repensar exatamente isso, né? Ao que a gente tá se colocando a serviço. Acho que foi o uma coisa que também a aula do dia trouxe bastante, assim, pra pro pensamento, né? Então, nós estamos todos os dias servindo organizações, sentindo falta de alguma coisa, né? Nesse serviço, sentindo falta desse propósito e sentindo falta, talvez, desse impacto, né? Que ele individualmente é muito mais difícil de atingir do que coletivamente. E buscando formas onde a gente não negue o que existe, né?
Que aí vai a nossa onda do transcender e incluir, aqui, lá, do ponto de elefante, né? Que é, não é a ideia de que eu excluo o que já existe ou o que, acho que é o capitalismo consciente faz muito bem isso, né? Eu entendo que existe uma forma e eu tento transcender essa forma e colocar ela também a serviço do que a gente precisa, né? Então, eu acho que tem necessidade muito urgente dentro das organizações hoje, né? Então, pessoas doentes, clientes, pessoas adoecendo. Isso, pra mim, é um ponto, assim, que muitos clientes que a gente entra pra fazer transformação digital, a minha vontade é falar, gente, para. Tipo assim, não vai transformar nada. Vamos só... As pessoas precisam estar saudáveis pra qualquer coisa que a gente vai fazer aqui agora, sabe?
E a gente não se organiza pra fazer isso, né? A gente não entende quais são as formas. A gente centraliza também a culpa. Tipo, eu não me junto ali com 10 amigos e falo vamos fazer aqui uma cooperativa de saúde? A gente vai botar um dinheiro e vai ter, sei lá, uma psicóloga disponível pra gente um dia por semana. Não, as pessoas também centralizam a culpa, né? Da parada. Então, ah, o RH não me dá acesso a essa, sei lá, esse benefício. Então, pra mim, foi vindo todas essas coisas, assim, né? Das nossas reflexões de dia a dia de realmente pensar que a gente precisa fazer a melhoria contínua, mas realmente buscando melhorar, né? E não fazer esse depara, né? Que é uma dor que a gente tem muito na agilidade, que são as empresas tentando encontrar esse depara.
Tá, eu fazia tal coisa antes, então agora o meu gerente de projeto chama pior. Só que a gente faz isso em várias outras circunstâncias, né? Ou em âmbitos diferentes. E a sensação que eu tenho é que é um pouco isso também quando a gente vai falar de cooperativismo, de autistão, é a gente entender como a gente melhora de fato, né? E não ficar buscando um depara. É dar um passo pra frente. Pra gerar desconforto, é algo novo, a gente precisa explorar, a gente precisa descobrir, mas no mundo que a gente tá, não tem muitas outras opções, né? Esse é o argumento que a gente usa pra transformação digital, né? Eu vou lá e falo, mano, vou cá, meu anjo, não adianta você ficar fazendo do jeito que era antes, blá blá blá blá blá. E é um pouco, essa é a linha, né?
Então, a gente tá aberto talvez ao desconforto, e eu acho que o mais rico pra mim desse episódio é a gente entender que existem cenários diferentes. Tem amigas que pararam pra fazer o seu ano sabático e tal, vivendo aquela coisa, né, da falta. Tá me faltando alguma coisa, eu falo, não, porque o mundo organizacional está perdido. Aí você fala, cara, não, tem tanta coisa incrível acontecendo. Cara, tem cooperativa, tem cooperativa de plataforma, tem a galera do cooptarismo consciente, tem um universo, um universo de possibilidades, que talvez a gente precise olhar e buscar qual que é esse próximo praço, né, e não ficar só tentando excluir o passo anterior, assim. Então, veio me inspirando muito desse lugar, assim. Sabe que, né, pegando dentro desse que vocês trouxeram, né, aí acho que de uma perspectiva já muito pessoal, né, de quem tá nesse mundo e o que eu faço, como que eu tô ali à disposição dessa, de talvez esse tanto organização que precisa surgir.
A gente tem a necessidade de que surja. Vocês foram falando, eu lembrei de um conto hindu, que ele, eu acho ele até engraçado, assim, ele fala sobre a vaca, vaca animal, que ela passou a vida inteira acreditando que ela tava de coleira amarrada na árvore, mas ela descobre que era um colar, né, e que essa descoberta é a iluminação dela. Assim, ela brilha, eles fazem essa provocação pra gente também fazer esse processo. A libertação. E aí, Panda, quando você fala assim, né, das pessoas que, tipo, vendem o tempo de vida pras organizações, depois da industrialização, cara, para pra pensar, né, finalmente chegou a tal da era da informação hard, né, agora. A gente tá aqui, velho, percebendo que o que é mais bem pago e bem remunerado e o que gera valor desproporcional hoje, tá claro, que são, que é informação.
Não é mais a posse dos meios de produção, né, que foi a narrativa da industrialização, né, da nossa última revolução, talvez. Então, hoje, já não é verdade que se eu deter meios de produção, tipo, sei lá, o prédio, ou sei lá o quê, né, eu tenho mais poder. O meio de produção é literalmente o cérebro. Então, isso foi uma narrativa que a gente escutou sempre, hoje tá claro, né. Então, se a gente ligar da mão de obra de Deves, etc., né, cara, basicamente aquela pessoa é o meio de produção. Eu fico refletindo assim, quando essa pessoa perceber isso, né, que esse meio de produção é ela, que poder que isso não tem nessa simples conscientização. Porque bastaria, então, é quase que como se você descobrisse que aquela grande máquina da fábrica na verdade era do teu vô e tá de herança pra você.
O que você faria, entendeu? Você era um operário ferrado ali. E aí, do lado, você fala assim, cara, na verdade, essa máquina minha é quase que um profissional hoje, numa empresa, né, super valiosa, descobre que ela é o meio de produção. Tipo, como que ela se coloca, então, a serviço dela? Ela tem coragem de se colocar a serviço dela, com o propósito de uma organização que faça mais sentido pra ela e tomar, dependendo do nível de consciência, pro mundo também, né. Então, eu sinto que hoje a gente tem baixa consciência de que somos valiosos nesse ponto, assim. E eu sei que eu tô, talvez, né, até pra não dar, fazer o parênteses aqui, eu sei que eu tô deixando de fora toda uma camada da sociedade, a grande maioria da sociedade, que não teve esse privilégio da gente.
Por isso, mesmo o chamado pra responsabilidade, né, de como que a gente se coloca a serviço da empresa que mais nos permite vivenciar isso. E como que a gente cobra. Então, autogestão e esses movimentos todos, né, que te permitem de se buir o dedo, e aí captar, obviamente, via equity, como a Camila falou, eu acho que a hora que a gente se conscientizar vai ser uma loucura, assim, uma obrigação. É que nem um engenheiro, talvez, na Califórnia de computação, que pra ele não existe ele não ter equity na hora que ele entra numa organização. Ele nem vai. E se alguém, tipo, se ele percebe que lá ele não consegue ser ouvido, ou que ele não tem participação, ele simplesmente muda. Ele não tá preso àquilo. Até ele encontrar aquele lugar onde faz mais sentido.
Então, eu acho que a gente tem uma primeira conscientização que é nessa linha e a segunda é quando a gente entender que existe algo maior que a gente precisa estar a serviço, né. E aí, quem sabe, são organizações que também entregam isso. É porque de equity por equity, quem inventou o modelo de distribuição de equity foi o Goldman Sachs. Então, enfim, né.
Eu ia puxar uma coisa que a gente tava falando ali, vocês, por último. A questão de como a gente leva isso pras pessoas também se empoderarem, né? Eu acho meio fake isso, porque todo o ecossistema tem que fazer isso rolar também. Mas, pra quem curte o Reinventando como vocês e eu, né? O caso da Burt, que tá vindo agora pro Brasil, eu tava estudando alguns vídeos e o pessoal tava falando assim, nossa, como é difícil preparar as enfermeiras, pra que elas... Não, pode tomar decisão sim. Não, vai lá, faz você sim, sabe? Então, eu acho que o Panda falou ali em formar lideranças, mas a gente tem que formar os nossos times. Eu acho que fica um pouco a dica, assim, seja pra fazer cooperativa ou pra tomar decisão de forma democrática ou autogestão, é preparar as pessoas com essas ferramentas.
A gente tá tentando, no meu dia a dia, implementar. A gente não vai virar uma organização autogerida de volta, digamos assim, porque eu acredito que o cooperativismo nasceu nisso. Mas a gente tem que ter, a nossa maleta de ferramentas pra que as pessoas possam ter esse poder no seu dia a dia e porque elas podem gerar propósito no seu dia a dia. Eu acho que a minha carreira antes era muito focada assim, ó, eu tenho que trabalhar na área SG, que agora tá na moda, né? Mas eu acho que qualquer área pode gerar impacto e um exemplo disso, só porque eu sei que muita gente de tecnologia tá ouvindo isso, e porque eu vou fazer o jabá também do cooperativismo de volta, né? Eu tenho um colega, que hoje é meu aluno, e ele saiu da cooperativa de crédito, foi pra uma autogestão financeira, assim, super sangue no olho, se arrependeu, foi pra uma outra cooperativa de crédito e agora vai voltar.
E ele tá fazendo as aulas de cooperativismo. Então, assim, tem ali poder acordar na sua segunda, sabendo que você tá fazendo alguma coisa positiva, assim, o como importa, mas o que e para que, eu acho que quando a gente puder escolher, né, que eu acho que sim, é um lugar de privilégio. Não deixem de conhecer mais as oportunidades aí, como a Raquel falou, tem outras opções aí sim, como cooperativa, empresa pay, que eu tô desconciente. Já, tá contigo.
Caso final, o que você quiser, sinta -se em casa. Poxa, não, fico super agradecido de participar com vocês, adorei, aprendi um monte aqui com as provocações e reflexões do Panda e Raquel, Camila também, acho que depois me manda o link, acho que eu preciso fazer o seu curso, viu, Camila, também, pra consolidar meus aprendizados empíricos aqui. Enfim, acho que o meu chamado é pra que empreendedores, pessoas que trabalham em organizações e que sonham, acho que com um do melhor, eu acho que não importa muito aonde vocês vão querer fazer isso, assim, tipo, ah, o modelo é cooperativa, o modelo não é cooperativa, é mais startup, sei lá. Em Israel, conheci uma fintech que, na verdade, eles não conseguiam a aprovação pra ser uma cooperativa de crédito, e eles já tinham todos cooperados, e aí chamou o FEC, e eles não aprovaram a aprovação do governo pra dar o empréstimo, e em 15 minutos eles montaram a fintech de crédito com as mesmas premissas e com a mesma governança da cooperativa, e que a cooperativa é dona, e aí eles operam a fintech, captaram o valor, enfim, fizeram todo o processo.
Então, assim, eu acho que tanto faz, entende? Acho que a gente tem que talvez se desapegar um pouco dos modelos e colocar, tipo, na prática, e tentar fazer na prática negócios, projetos que possam distribuir valor, principalmente capital, né, porque a gente ainda tá no mundo capitalista, como você falou. Lembrando que a gente só vai estar em paz com isso se a gente tiver coragem de redefinir um pouco a narrativa de sucesso que foi projetada na nossa cabeça, né? A narrativa de sucesso que a gente se acostumou é a do 1%. Sempre 1%. É a elite que vai ganhar, é sempre aquele pouco que vai ter a mansão, e etc, né? Então, acho que na hora que a gente redefine isso, e lembra que dá pra ter uma sociedade diferente, a gente ganha a paz pra testar essas coisas novas, assim.
Então, fica aí o chamado pra todos. Muito bem, muito bem. E, Raquel, você é de casa, mas você também é convidada hoje, então tá aí, ó, o seu espaço pra você, pro seu tchauzinho. Nossa, é isso, assim, a minha sensação é de que existe um universo de possibilidades a serem exploradas, e eu como pessoa curiosa, eu fico muito motivada com tudo isso, mas é... Acho que é essa ideia, né? A gente gosta muito, muito, muito, muito de falar de visão sistêmica na agilidade, né? Nossa, uma coisa, assim, que a gente valoriza pra caramba, que tem um valor realmente muito alto, mas que a gente não percebe essa interdependência, né? Que a gente tem tanto enquanto sociedade, quanto nas organizações também, assim. Eu acho que cada vez que eu fui entendendo mais isso, novas possibilidades foram se abrindo, né?
Novas pessoas, novas conexões, novas coisas foram acontecendo, mas é lembrar um pouco disso, assim, né? Que a gente não existe sozinho, e que essa lógica de eu ter que correr atrás, né? Pra me tornar aquele 1%, independente do que eu preciso fazer pelo meio do caminho, né? Pra isso, é insustentável, né? Então, acho que, talvez, essa é a coisa que fica mais dentro, assim, de mim, assim. E eu acho que a agilidade passa também por uma crise, um pouco nesse sentido, nesse momento, né? Onde a gente saiu de um lugar que era agilidade é... Algumas pessoas conhecem, e a gente, bom, tamo no mainstream, né? Hoje, todo mundo fala de agilidade. E a gente começou a ter movimentos onde as pessoas buscam ser esses agilistas que estão nesse 1 do topo, né?
E você perde toda a essência da parada, toda a essência, do indivíduos em interações mais do que processos e ferramentas, né? Parte da visão sistêmica significa que grande importância das coisas tá na interação, né? Então, acho que entender essa interdependência que a gente tem, ela é, sim, é um pouco mais simples do que, talvez, tentar criar uma grande cooperativa, né? Mas acho que já é um começo, assim. E eu termino muito feliz, que é mais um episódio que a gente sai falando de um monte de assunto novo.
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