
Ep. 89 - Melhoria contínua ou inconformismo excessivo?
Resumo rápido
A partir da experiência de Curado renovando sua CNH, Curado, Carol e Rafa discutem até onde vale a pena estressar um sistema em nome da melhoria contínua, e como o inconformismo excessivo de agilistas pode virar arrogância, dogma e desconexão do contexto real dos times.
Capítulos
- 00:05A história da CNH: até onde vale estressar um sistema para melhorá-lo
- 07:38Gemba Kaizen e o bom senso perdido no inconformismo
- 12:58A arrogância do agente externo: melhoria contínua ou aprendizado contínuo
- 18:59Fluência em agilidade: o nível certo de prática para cada contexto
- 22:26Inconformismo excessivo: revolucionário, evolucionário e o dogma do fluxo
- 30:53Superficialidade, redes sociais e a cópia de dogmas alheios
- 43:21Gerenciar para o aprendizado: ego coletivo e a resposta final sobre a CNH
Frases do episódio
O que você vai ouvir neste episódio
- A diferença entre buscar evolução constante e não valorizar as conquistas atuais da equipe.
- O papel das lideranças em equilibrar a insatisfação saudável com a estabilidade do time.
- Como o inconformismo desmedido pode gerar ansiedade e cansaço nos membros da organização.
- A importância do contexto ao propor mudanças nos processos operacionais das empresas.
Temas discutidos
A discussão aborda a cultura organizacional ao analisar o impacto da busca incessante por otimização de processos. Na agilidade e na gestão de produtos, a melhoria contínua é um princípio fundamental, mas o inconformismo descalibrado pode prejudicar o clima e a produtividade. Lideranças maduras precisam identificar quando a insatisfação atua como motor de inovação e quando ela se torna uma fonte sustentada de desgaste emocional para as equipes.
Para quem é este episódio
Este conteúdo é recomendado para líderes de equipe, agilistas e gestores de produto. Esses profissionais encontrarão reflexões para dosar a exigência por resultados, equilibrar a evolução dos processos com a saúde mental dos times e promover um ambiente de trabalho sustentável.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
Qual é a diferença entre melhoria contínua e inconformismo excessivo?
A melhoria contínua é um processo estruturado focado em evoluir fluxos de trabalho e gerar valor com aprendizado constante. O inconformismo excessivo ocorre quando a insatisfação se torna permanente e sem propósito claro, impedindo o reconhecimento dos avanços conquistados e gerando desmotivação crônica nas pessoas do time.
Como saber se a busca por mudanças está prejudicando a equipe?
O sinal de alerta surge quando a equipe apresenta sinais de exaustão, ansiedade ou apatia em relação às novas iniciativas. Se as entregas e conquistas nunca são celebradas e o foco permanece apenas nos problemas restantes, o ambiente se torna tóxico e a produtividade da organização tende a cair.
Qual o papel da liderança na gestão da insatisfação no ambiente de trabalho?
A liderança deve direcionar a insatisfação para resolver problemas reais com foco e priorização, sem sobrecarregar as pessoas. É responsabilidade do líder reconhecer os progressos do time, garantir segurança psicológica e filtrar pressões externas, evitando transformar o desejo de evolução em uma cobrança desenfreada por mudanças.
Sobre este episódio
O episódio 89 do Love the Problem parte de uma história pessoal de Daniel Curado: recém-saído de um treinamento sobre Lean e visão sistêmica de fluxo, ele precisou renovar sua carteira de habilitação e observou o processo com o olhar ainda tomado pelo mantra da melhoria contínua. A experiência, hoje resolvida em horas, quando antes levava dias, e capaz de atender milhares de pessoas absorvendo toda a variabilidade humana do sistema, faz nascer a pergunta que dá nome ao episódio: até que ponto vale a pena estressar um sistema, um time ou uma pessoa para deixá-lo o mais enxuto possível?
A partir dessa provocação, Carol Serpejante e Rafael Albino se juntam a Curado e a Lula para discutir como esse impulso de melhoria, quando vem de fora e sem freio, pode se transformar em inconformismo excessivo. Rafa recorre ao livro Gemba Kaizen, de Masaki Imai, para lembrar que melhoria deveria estar ligada a bom senso, e é esse bom senso que se perde quando um agente externo assume que já sabe o que deveria ser diferente em um contexto que não vive de fato. Carol reconhece o próprio hábito de subir no "banquinho da agilidade" e apontar falhas em times, falta de gestão visual, ausência do "básico", sem checar se aquilo é realmente onde está o valor a ser entregue.
Um dos eixos centrais da conversa é a proposta de substituir "melhoria contínua" por "aprendizado contínuo": trazer uma solução pronta de fora não gera sustentabilidade se não deixar aprendizado em quem vai continuar ali depois que o agilista for embora. Essa arrogância do observador externo, segundo Rafa, distancia da curiosidade e empurra para a criação de dogmas, pacotes de práticas aplicados sem entender o porquê, sejam frameworks revolucionários ou práticas evolucionárias como mapeamento de fluxo e limites de WIP.
O grupo também traz o conceito de fluência em agilidade, de James Shore e Diana Larsen: assim como a fluência em um idioma varia conforme a necessidade, cada organização precisa de um nível diferente de prática ágil, o que exige antes de tudo foco e entendimento do problema, e não a aplicação do pacote completo de frameworks e métricas. Carol compartilha sua própria experiência de ansiedade como agile coach num time de Pessoas e Cultura, onde quase nenhuma prática tradicional de agilidade é visível, mesmo percebendo que o time mudou de fato a forma como trabalha e conversa.
A conversa avança para os efeitos da sociedade da superficialidade, com o LinkedIn citado como fonte de comparação e ansiedade constante, que empurra profissionais a aplicar técnicas vistas em posts sem checar se fazem sentido no contexto, e a copiar dogmas de outras pessoas sem entender por que o fazem. Referências como o livro Reinventando as Organizações e reflexões sobre liderança de Robert Kegan reforçam o convite a ouvir mais antes de replicar soluções prontas de outros lugares.
O episódio se encerra com o livro Gerenciando para o Aprendizado, que propõe um modelo de coaching em que quem vive o contexto é quem define o problema e a direção da melhoria, e o papel de apoio é ajudar a encontrar o caminho, não entregá-lo pronto. Voltando ao exemplo da CNH, o grupo propõe a pergunta final: o que vale mais, uma solução rápida mas estressante, ou uma solução mais lenta que respeita o ritmo de quem a vive? A resposta é sempre contextual, e o convite final do episódio é trocar o ego individual do agilista pelo ego coletivo da comunidade, pensando no propósito do trabalho além do reconhecimento dentro da própria empresa. Curado fecha com a ideia de que o momento certo de sair de um time é quando ele passa a querer o agilista, mas já não precisa mais dele.
Transcrição completa
O episódio nasce de uma história real de Daniel Curado. Depois de participar de um treinamento sobre Lean com o Teca, mergulhado em value stream mapping, identificação de gargalos e no mantra do "temos que melhorar, temos que melhorar", Curado precisou, no dia seguinte, renovar sua própria carteira de habilitação. Foi observar aquela jornada com os olhos ainda cheios de visão sistêmica e enxugamento de fluxo, e saiu de lá com uma pergunta incômoda: até que ponto vale a pena estressar um sistema para deixá-lo o mais enxuto possível? Ele queria ser atendido em cinco minutos, sair em meia hora, mas percebeu que aquele mesmo local, hoje capaz de resolver em horas um processo que antes levava dias, atende milhares de pessoas por dia, absorvendo toda a variabilidade natural de humor, esquecimento e imprevisto de quem passa por ali. Curado traz essa história para o dia a dia dos times: será que aquele time está pronto para absorver toda a carga de melhoria que estamos jogando em cima dele? Talvez o que para um agilista pareça uma pequena evolução seja, para o time, muita coisa de uma vez, e o risco do "melhoria contínua, melhoria contínua, melhoria contínua" repetido sem pausa é esquecer que do outro lado existem pessoas.
A partir dessa provocação, o grupo, Curado, Carol Serpejante e Rafael Albino, com Lula conduzindo, assume o tema do episódio: melhoria contínua ou inconformismo excessivo. Rafa puxa uma referência do livro Gemba Kaizen, de Masaki Imai, que já na introdução associa a prática de melhoria ao bom senso, e é justamente esse bom senso que se perde quando o inconformismo passa a existir sem freio. Carol reconhece que, mesmo se descrevendo como uma pessoa "devagar" na agilidade, se pega repetidamente julgando times por não terem gestão visual ou não fazerem "o básico", sem checar se aquilo é de fato o que geraria valor ali. Ela chama esse hábito de subir no "banquinho da agilidade": a facilidade de olhar de fora para um contexto e apontar o que está errado, mesmo sem saber se a real entrega de valor está em outro lugar, às vezes numa mudança bem menor do que aquilo que a agilidade tradicionalmente prescreveria.
Rafa aprofunda a ideia falando da arrogância de quem atua como agente externo, como observador que "tem as respostas", e propõe uma reformulação de vocabulário: em vez de melhoria contínua, falar em aprendizado contínuo. Trazer uma melhoria de fora, por mais correta que pareça, não garante sustentabilidade se não gerar aprendizado em quem vai viver com ela depois que o agilista for embora. O inconformismo excessivo, nessa leitura, é o de quem fica incomodado como espectador, sem se responsabilizar por gerar aprendizado real dentro do sistema. Essa arrogância, segundo Rafa, distancia da curiosidade e empurra para a criação de dogmas, pacotes fechados de práticas aplicados sem entender por quê. Ele ilustra com o exemplo de sessões de planejamento otimizadas ao extremo (timebox fechado, forma "correta" de conduzir): a pergunta que fica de fora é se as pessoas presentes estão de fato aprendendo com aquilo ou apenas cumprindo mais uma reunião. Uma alternativa que ele defende é usar as interações do dia a dia como fonte de aprendizado, parear com quem precisa aprender, em vez de simplesmente executar por elas.
O grupo conecta essa discussão com o esgotamento do discurso tradicional de agilidade no mercado: referências como Uncle Bob e Martin Fowler já apontaram que "a agilidade está morrendo", tomada por cursos que prometem milagres e vendem o framework como solução por si só. Carol traz então o conceito de fluência em agilidade, de James Shore e Diana Larsen: assim como a fluência em um idioma varia conforme a necessidade, não é preciso ser fluente para uma viagem curta, mas é preciso outro nível para trabalhar no exterior, cada organização precisa de um nível diferente de prática ágil, de acordo com seu contexto. Antes de discutir otimização e práticas de engenharia, o fundamental é foco, entender o problema como uma unidade e dar transparência ao progresso do trabalho.
Daí nasce a segunda metade do nome do episódio: o inconformismo excessivo propriamente dito. Carol compartilha sua própria experiência há cinco meses atuando como agile coach num time de Pessoas e Cultura (RH) no PicPay, sem quase nenhuma prática tradicional de agilidade visível, e a ansiedade de se perguntar se está fazendo pouco, mesmo percebendo o quanto as conversas e a maturidade do time mudaram. Rafa relaciona isso à distinção, comum e pouco discutida na comunidade ágil, entre abordagens revolucionárias e evolucionárias: mapear um fluxo e limitar o WIP para melhorar a vazão também pode virar um dogma, repetido porque "é o que eu faço" e não porque gera aprendizado. Nesse caso, o espaço que essa folga no sistema deveria abrir para reflexão sobre o que é valor acaba não sendo aproveitado. Rafa recorre ainda à ideia de Otto Scharmer, na Teoria U, de que o sistema não é "eles": o sistema é criado pela relação entre as próprias pessoas que estão discutindo o problema, inclusive quem grava o podcast e ensina o "caminho certo".
Carol propõe um exercício prático a partir de uma experiência com seu time de recrutamento e seleção: quando ela não está em uma reunião, as pessoas relembram duas coisas que ela sempre diz: manter o foco em um assunto por vez e separar "várias formigas" (vários problemas emaranhados) em itens distintos. É um valor entregue que não tem nome de framework, mas que muda como as pessoas trabalham. A partir daí, Carol e Rafa discutem como a sociedade da superficialidade, simbolizada pelo LinkedIn como fonte de ansiedade e comparação constante, empurra as pessoas a aplicar técnicas vistas em posts ou treinamentos só para mostrar que sabem fazer, sem checar se fazem sentido no contexto. A recomendação é dar tempo ao tempo, inclusive citando de novo a fila da CNH: aproveitar o tempo de espera para observar, e não converter toda experiência em mais uma otimização a ser perseguida.
O grupo cita o livro Reinventando as Organizações e uma reflexão do psicólogo Marshall Rosenberg sobre o cuidado necessário entre verdade e cuidado com o outro ao dar feedback, reforçando a ideia de criticar com abertura, sem replicar dogmas de outras pessoas sem entender por que os está copiando. Rafa relaciona a discussão a leituras sobre liderança de Robert Kegan, questionando se aprendemos a liderar mais pelo comando e controle do que preparando as pessoas para assumir nossa posição, e se agilistas também não replicam soluções de outros contextos em vez de primeiro ouvir o que está de fato acontecendo.
Para fechar, Rafa traz o livro Gerenciando para o Aprendizado (Lean, ferramenta A3), que propõe um modelo de coaching invertido: quem traz o problema e a direção da melhoria é a pessoa que vive o contexto, e o papel de quem ajuda é apoiar a busca da solução, não entregá-la pronta. O gerenciamento passa a ser para o aprendizado, e não para o resultado, o resultado vira consequência. A conversa retorna ao exemplo da CNH para propor a pergunta final: o que é melhor, uma CNH pronta em duas horas dentro de um processo estressante, ou uma CNH que demora dois dias mas exigiu apenas dez minutos de interação da pessoa? A resposta é contextual, depende da cidade, do país, do momento, e o convite final é olhar não para o ego individual de agilistas, mas para o ego coletivo: qual é o propósito da comunidade ágil no mercado, além do sucesso dentro da própria empresa.
Já no encerramento, Curado retoma a pergunta inicial sobre preparar as pessoas para não precisarem mais de quem as apoia: quando o time quer o agilista mas ainda precisa dele, é hora de ficar; quando o time quer o agilista mas já não precisa mais dele, é hora de partir para cuidar de outro time, depois de ajudar a identificar as disfunções e o nível de fluência necessário naquele contexto, e treinar as pessoas para caminharem com autonomia.
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