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Ep. 77 - Métricas e Pessoas
Ep. 77

Ep. 77 - Métricas e Pessoas

12 de julho de 202100:53:03
Pessoas

Resumo rápido

Karen (RH) e Rafael Bira (autor de métricas ágeis) usam o caso real de uma troca de fornecedor de botas que reduziu o absenteísmo para mostrar que métricas de pessoas só fazem sentido como sensores que convidam à investigação de um problema real, nunca como respostas prontas ou substitutas da escuta qualitativa.

Capítulos

  1. 00:09O insight de Karen: como medir pessoas pensando em fatias
  2. 03:30Apresentação do tema: métricas e pessoas, e o caso da bota
  3. 06:18BDUF versus mentalidade ágil: o que é fatiar de verdade
  4. 09:49O número como sensor: convite à investigação, não resposta pronta
  5. 19:53A organização como corpo humano: por que ignoramos sinais periféricos
  6. 27:56Teoria U, desconexão e contratação por valores
  7. 43:23Do problema ao número: tanque de decantação, OKRs, TDD e por onde começar em RH

Frases do episódio

“o número, o fato por si só, ele não resolve o problema. Ele é simplesmente um convite pra você investigar o problema.”

09:49

“A métrica é... Ela é só um detalhamento da observação.”

22:59

“Ame o problema. E não a solução.”

48:16

O que você vai ouvir neste episódio

  • Lula recebe os convidados Raphael Albino e Karen Monterlei para debater a integração entre métricas de desempenho e pessoas.
  • A discussão central analisa se o uso de dados e métricas entra em conflito com a gestão humanizada nas equipes.
  • Os participantes exploram formas pelas quais métricas e pessoas podem atuar de maneira complementar nos processos de trabalho.
  • O episódio destaca as conexões práticas entre a mensuração de resultados e a cultura organizacional voltada para indivíduos.

Temas discutidos

A discussão entre métricas e pessoas toca no coração da agilidade e da liderança contemporânea. A análise apresentada no episódio demonstra como o alinhamento de dados com a gestão humana fortalece a cultura organizacional. Em vez de utilizar métricas apenas como instrumento de controle, líderes e profissionais de produto podem integrá-las para apoiar o desenvolvimento de pessoas, melhorar fluxos e promover um ambiente transparente, transformando potenciais conflitos entre números e indivíduos em uma relação complementar e construtiva.

Para quem é este episódio

Este episódio é recomendado para líderes de equipe, gestores de produto e profissionais de agilidade que buscam equilibrar a mensuração de resultados com o cuidado com as pessoas. A discussão beneficia quem precisa tomar decisões baseadas em dados sem perder de vista o fator humano na organização.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Métricas e pessoas são conceitos conflitantes ou complementares?

No episódio, Lula, Raphael Albino e Karen Monterlei discutem que métricas e pessoas não precisam ser conflitantes. Quando utilizadas de forma adequada, as métricas servem como ferramentas complementares que apoiam o trabalho das pessoas, ajudando na tomada de decisões estratégicas e na melhoria contínua dos processos, sem reduzir os indivíduos a meros números organizacionais.

Quem são os convidados deste episódio do Love the Problem?

O episódio conta com a presença de Raphael Albino e Karen Monterlei, que se juntam ao apresentador Lula. Juntos, eles compartilham perspectivas sobre as conexões existentes entre a mensuração de dados e o fator humano dentro das empresas, promovendo um debate sobre como integrar esses dois aspectos no cotidiano das equipes.

Como conectar métricas de trabalho com a gestão de pessoas?

A conexão ocorre ao utilizar dados para compreender os processos de trabalho e orientar a melhoria do ambiente profissional. O episódio ressalta a importância de alinhar indicadores de desempenho com o respeito às pessoas, garantindo que as métricas funcionem como apoio ao desenvolvimento dos colaboradores, em vez de servirem apenas para fiscalização ou controle.

Sobre este episódio

Neste episódio do Love the Problem, Karen, profissional com longa experiência em áreas de pessoas, traz para a conversa com Rafael Bira, autor de um livro sobre métricas ágeis, um insight que ela vinha amadurecendo havia tempo: como medir pessoas pensando em "fatias", um conceito que ela conhecia da agilidade mas não sabia como aplicar no universo de RH. O fio condutor do episódio é uma história real que ela viveu numa empresa de telecom, quando o absenteísmo involuntário dos operadores de campo começou a subir. Ao investigar a fundo, em vez de simplesmente registrar o número, a equipe descobriu que boa parte dos afastamentos era por problemas ortopédicos e de coluna, coincidindo com a troca recente do fornecedor de botas de segurança. Trocando novamente de fornecedor, o problema caiu de forma drástica, e foi esse episódio, batizado carinhosamente de "a bota" ao longo de toda a conversa, que levou Karen a procurar Rafael para entender se aquilo era, de fato, uma fatia.

A partir daí, os dois convidados desenvolvem, em conjunto, uma reflexão sobre o papel dos números dentro das organizações. Rafael contribui com um insight próprio: ele se descreve como um "bedufeiro", alguém acostumado a fazer Big Design Up Front, desenhando soluções supostamente perfeitas antes de agir. A diferença entre esse modelo tradicional e o pensamento ágil não está simplesmente em trabalhar com itens menores, mas em entender que fatiar significa entregar, de forma sistêmica, uma versão reduzida que ainda representa o todo, e não recortar uma parte isolada que, sozinha, não cumpre o objetivo original. Aplicado ao caso da bota, isso significa que o número do absenteísmo não era, em si, a resposta: ele funcionou como sensor, um convite para investigar o que realmente estava acontecendo, alinhado aos princípios ágeis de lotes pequenos, feedback constante e aprendizado por tentativa.

Karen generaliza essa lógica com outros exemplos do seu dia a dia em RH, como ações trabalhistas e sinistralidade de plano de saúde: em vez de tratar esses números como metas a serem reduzidas diretamente, ela os usa como sinais para investigar os processos reais por trás deles, partindo do princípio de que a insatisfação das pessoas costuma ser legítima. Essa postura de investigação qualitativa, ir ao terreno, ouvir diretamente quem vive o problema, é reforçada por Lula com uma referência ao clássico "O Guia do Mochileiro das Galáxias", usada como metáfora para números sem a pergunta certa por trás, e por Rafael com a história de uma luz de alerta ignorada no painel de um avião (do livro Holacracia, de Brian Robertson) até que o motor realmente falhasse, um paralelo direto com sinais organizacionais que são descartados sempre que outros indicadores parecem, à primeira vista, estar bem.

A conversa avança para uma análise mais estrutural: Rafael compara as organizações ao corpo humano, que tende a obedecer apenas a um sistema central (o cérebro) e ignorar sinais de outras partes, assim como empresas centralizam decisões em torno de um dashboard e deixam de investigar a origem real de um número. Ele também traz um exemplo vivido: o número global de retenção de sua própria empresa está baixo (ou seja, bom), mas no dia a dia, em campo, pessoas continuam saindo, evidenciando que o número agregado pode contar uma história confortável para a liderança enquanto esconde uma realidade bem diferente na ponta. Uma citação de Alexey Zheglov, da comunidade Kanban, resume bem essa ideia: a métrica é apenas um detalhamento da observação, e é a observação, o terreno, que vem primeiro.

Rafael arrisca ainda uma hipótese provocativa sobre agilidade e direito trabalhista: como práticas ágeis tendem a aumentar a satisfação das pessoas com sua liderança, elas também tenderiam a reduzir o número de ações trabalhistas, já que a causa dessas ações costuma estar mais ligada à insatisfação com a cultura e o comportamento de quem tem poder do que à violação literal da CLT. Ele é cuidadoso em deixar claro que se trata de uma hipótese pessoal, não de um dado comprovado. Karen reforça a importância da escuta qualitativa como prática constante em RH e traz um exemplo real de uma empresa autogerida que cresceu de 150 para 450 funcionários com pouquíssimos processos trabalhistas, hipótese que ela associa à contratação orientada por valores.

A segunda metade do episódio explora camadas mais profundas do tema, com Rafael conectando a conversa à Teoria U de Otto Scharmer: números captam apenas a superfície de um problema (faltas, mau humor, agressividade), enquanto a causa real costuma ser a desconexão de alguém com o propósito da organização, muitas vezes originada numa contratação feita só por competência, sem checar o fit humano. Ele ilustra com o próprio critério de contratação da K21, baseado numa sensação humana genuína, e discute dois vetores que determinam se a agilidade realmente "cola" numa organização: uma liderança sistêmica que gera aprendizado em vez de dependência (com a analogia das plantas que induzem dependência química em formigas) e a abertura ao intercâmbio geracional, incluindo maior representatividade de grupos historicamente marginalizados.

O episódio termina com uma virada prática. Depois de reconhecer os riscos de tratar métricas como respostas frias e definitivas, Rafael defende que elas continuam sendo um instrumento de gestão fundamental, desde que nasçam do problema, sirvam para aprender e possam ser descartadas quando deixarem de fazer sentido. Ele propõe um método simples para times e áreas de RH: identificar a lacuna ou a dor (muitas vezes visível numa retrospectiva), levantar uma hipótese e só então definir a métrica, conectando essa lógica ao "tanque de decantação" do blog da K21, a OKRs e ao ciclo de Test-Driven Development. Karen fecha com uma recomendação concreta para RH: usar entrevistas de desligamento como ponto de partida granular, desde que a organização realmente aja sobre elas, e evitar o "tarefismo" de medir só por medir. A mensagem final do episódio, que ecoa o próprio nome do podcast, é amar o problema, e não a solução ou o número em si.

Transcrição completa

Karen conta que procurou o Rafael porque estava com uma dúvida antiga: como medir pessoas pensando em "fatias"? Ela citava como exemplo o absenteísmo, um indicador que soa simples, mas que logo levanta perguntas, como separar o absenteísmo voluntário do involuntário. Foi conversando com várias pessoas, e principalmente contando uma história pessoal, que ela teve um insight sobre o que significa, de fato, fatiar em RH.

O tema do episódio é métricas e pessoas. Lula apresenta Karen como a especialista em pessoas e organizações, e Rafael Bira como autor do livro sobre métricas ágeis publicado pela Casa do Código, reunindo os dois olhares numa mesma conversa.

Karen relata o caso que originou o insight: numa empresa de telecom onde trabalhava na área de pessoas, o absenteísmo involuntário, aquele em que a pessoa está mesmo impossibilitada de trabalhar, por atestado médico, por exemplo, começou a subir. Investigando a causa, o time percebeu que muitos afastamentos eram por problemas ortopédicos, de coluna, e que coincidiam com a troca recente do fornecedor de botas dos operadores de campo. Trocaram de fornecedor novamente e o problema caiu drasticamente. Foi esse caso, "a bota", que a levou a procurar o Rafael para entender se aquilo era, de fato, uma fatia, e o que realmente significa fatiar quando se fala de métricas de pessoas.

Rafael conecta a história a um insight próprio: ele se define como um "bedufeiro", alguém formado para fazer Big Design Up Front, desenhar a solução perfeita antes de começar e só entregar perto do prazo. A diferença entre esse pensamento tradicional e o pensamento ágil não é apenas trabalhar com itens menores, porque quebrar uma coisa em pedaços não produz necessariamente a coisa em si. Fatiar, no sentido ágil, é desenvolver de forma sistêmica: entregar uma versão menor que ainda representa o todo, que ainda persegue o mesmo objetivo em escala reduzida, em vez de recortar apenas uma parte isolada.

Sobre o caso da bota, Rafael observa que o mais interessante é como um número funciona como sensor: ele não resolve o problema sozinho, mas serve de convite para investigar o que está por trás dele. Isso conecta com os princípios da agilidade, lotes pequenos, feedback constante, experimentação, e com a ideia de que uma tentativa é sempre um caminho de aprendizado, não a busca por um número perfeito que explique tudo. Essa lógica vale para qualquer área: finanças, pessoas, suprimentos, controladoria. A métrica não é a resposta definitiva, é uma pista para seguir aprendendo.

Karen amplia o raciocínio perguntando "onde mais tem botas que eu não estou vendo?". Ela cita como exemplo as ações trabalhistas: em geral, quando alguém entra com uma ação, está primeiro reagindo à liderança direta e só depois à empresa como um todo. O objetivo nunca foi reduzir o número de ações em si, mas usá-las como sinal para investigar os processos por trás, por exemplo, excesso de horas extras, partindo do princípio de que a reclamação das pessoas é verdadeira. O mesmo raciocínio se estendeu depois para outros números, como sinistralidade de plano de saúde, sempre usando "a bota" como referência mental.

Lula resume: métricas são um convite a pensar, não um substituto para pensar, o contrário do que a intuição costuma sugerir. Ele ilustra a ideia citando, sem reproduzir os diálogos originais, a passagem célebre de "O Guia do Mochileiro das Galáxias", de Douglas Adams, em que uma civilização constrói um supercomputador para calcular a resposta para a vida, o universo e tudo mais, espera milhões de anos, e recebe uma resposta que só faz sentido se soubermos qual era, de fato, a pergunta certa, uma metáfora para números sem contexto.

Rafael cruza essa ideia com uma história do livro Holacracia, de Brian Robertson: um piloto em treinamento vê uma luz de alerta piscar no painel, mas, como os outros indicadores pareciam normais, ignora o sinal, até o motor parar. Dentro das organizações, pontos que geram desconforto ou levantam perguntas incômodas costumam ser calados quando outros indicadores parecem estar bem: se o absenteísmo sobe mas a produtividade não cai, é fácil dizer que "está tudo bem", mesmo havendo pessoas com problemas de coluna ou entrando em auxílio-doença.

Rafael propõe uma analogia com o corpo humano: assim como o cérebro tende a ser o único sistema realmente ouvido, enquanto sinais de outras partes do corpo, como uma dor no estômago, são ignorados ou apenas medicados, as organizações centralizam decisões em torno de uma métrica ou de um dashboard e deixam de investigar o que está de fato acontecendo na origem daquele número. A interpretação de um dado precisa de um componente qualitativo; não pode ser só corretiva.

Ele traz um exemplo vivido: o número global de turnover/attrition da empresa em que atua está baixo, mas no dia a dia, em campo, pessoas estão saindo, inclusive para trabalhar nos Estados Unidos ganhando em dólar, e times ficam sobrecarregados. O número agregado conta uma história que talvez a liderança e os investidores queiram acreditar, enquanto quem está na ponta vê um problema real. Isso levanta a questão da autonomia: as organizações precisam dar espaço para que os locais que sentem a dor possam agir sobre ela, em vez de se apoiarem apenas num número tranquilizador e agregado.

Rafael cita uma frase de Alexey Zheglov, da comunidade Kanban: a métrica é apenas um detalhamento da observação. A observação vem antes e é o que importa de verdade; a métrica ajuda a observar e questionar melhor um ponto específico, mas não substitui olhar para o terreno real, e não apenas para o mapa que a métrica representa.

A partir disso, Rafael propõe uma hipótese sobre agilidade e ações trabalhistas: ele costuma ouvir que certas práticas ágeis não deveriam ser adotadas porque "aumentariam" o número de ações trabalhistas, um raciocínio apoiado só na leitura literal da CLT, sem observar o terreno. Sua hipótese é o oposto: como uma cultura ágil tende a aumentar a satisfação das pessoas, a chance de alguém sair magoado com a liderança cai, e, com isso, cai também a chance de a pessoa processar a empresa ao sair, porque a causa de boa parte das ações trabalhistas não é a violação literal da CLT, e sim a insatisfação com a cultura e o comportamento de quem tem poder. Ele deixa claro que é uma hipótese, não uma certeza.

Karen concorda e reforça a importância da análise qualitativa como complemento da quantitativa: ir ao "gemba", ouvir diretamente as pessoas, sempre foi sua prática como profissional de RH. Ela também traz um caso real de uma empresa que pratica autogestão, cresceu de 150 para 450 funcionários durante sua licença-maternidade e tem pouquíssimos processos trabalhistas, hipótese que ela relaciona tanto à flexibilização trazida pela reforma trabalhista de 2017 quanto, principalmente, à contratação orientada por valores (fit cultural), que reduz o atrito interno.

Rafael conecta o tema à Teoria U, de Otto Scharmer, tema que ele também discute em outro podcast seu: o conceito de desconexão. Um número é apenas a parte superficial e "baixável" da realidade, mau humor recorrente, agressividade com colegas, faltas frequentes. A causa mais profunda costuma ser a desconexão, muitas vezes originada quando alguém é contratado por competências técnicas sem checar se realmente se conectaria com o propósito do time. Investigar essa camada é bem mais profundo do que apenas questionar uma métrica.

Ele ilustra com a própria experiência de contratação na K21, contada a um grupo de organizações autogeridas na Argentina: o critério inicial não é um número, mas uma sensação humana: alguém que já está na organização sente que "o coração bateu mais forte" ao conhecer a pessoa, e a partir daí a relação se desenvolve como um namoro até o "casamento" com a empresa. Isso leva à pergunta se métricas são, por natureza, frias: para Rafael, o significado vem de quem interpreta; organizações que ainda acreditam em uma parte central que comanda e um restante que apenas obedece tendem a ser frias e desconexas, reforçando a lógica de que as pessoas se comportam de acordo com o que é medido e cobrado delas.

Rafael aponta dois vetores para que a agilidade realmente "cole" numa organização: liderança sistêmica, que entende a organização como um meio de gerar aprendizado para as pessoas, e não dependência, ilustrada pela analogia entre plantas que quimicamente induzem formigas a ficarem dependentes delas, e organizações que usam salário, cargo e status como equivalentes dessas "cenourinhas"; e o intercâmbio geracional dentro das empresas, com gerações mais novas, e uma atenção maior a grupos historicamente marginalizados via ações afirmativas, trazendo um "hardware" diferente, mais aberto a formas de organização mais leves.

Karen complementa observando que hoje convivem, muitas vezes, quatro gerações diferentes dentro de uma mesma organização, o que exige compreensão dos dois lados. Ela também traz o exemplo de um programa de indicação de talentos: nasce de uma ideia genuína, recomendar alguém de confiança, mas, ao crescer numa empresa grande, tende a se distanciar do propósito original até ser visto, mais tarde, como algo sem sentido por quem nunca se conectou com a ideia inicial.

Rafael retoma a história da luz piscando: normalmente é alguém próximo do problema, como uma pessoa de recrutamento, quem primeiro percebe a tensão ou a oportunidade, mas acaba barrado por outra pessoa com mais poder, cuja interpretação prevalece. Nessas situações, números convencem menos do que ego e vaidade quando quem decide tem muito poder, mas isso não torna as métricas inúteis.

Para fechar com uma visão construtiva, Rafael defende as métricas como instrumento de gestão fundamental em qualquer nível da organização: um input a mais no processo de decisão, funcionando como sensores automáticos que não exigem muita energia cognitiva para apontar que algo está fora do parâmetro configurado, cabendo à pessoa interpretar o que aquilo significa. Ele alerta, porém, contra o excesso de indicadores criados só porque é possível medir tudo. O pensamento deve partir de quem é o "cliente" daquela métrica (no caso da bota, quem trabalha em campo) e do problema que se quer resolver; o número deve nascer do problema, ser usado para aprender e, se não fizer mais sentido, ser descartado.

O método que ele recomenda a times ágeis: antes de construir qualquer indicador, identificar a lacuna ou a dor, muitas vezes visível numa simples retrospectiva, levantar uma hipótese e só então definir que métrica pode ajudar. Ele relaciona essa lógica ao conceito do "tanque de decantação", do blog da K21, que também parte dos problemas antes de chegar às métricas que provam sua existência, e traça paralelos com OKRs e com Test-Driven Development: provar que o problema existe (o vermelho), implementar uma solução que o resolva (o verde), melhorar e repetir o ciclo.

Karen fecha do ponto de vista de RH: muitas áreas de pessoas ainda estão descobrindo por onde começar com métricas e agilidade. Um bom ponto de partida são as entrevistas de desligamento, que trazem sinais concretos e granulares sobre o motivo de alguém ter saído, desde que a organização realmente use essas informações, e não apenas as arquive, como ela mesma já viu acontecer, ao encontrar um armário cheio de entrevistas nunca analisadas. A recomendação final é começar pequeno, sem "tarefismo": medir só por medir, sem entender qual problema se está tentando resolver, não serve para nada. O essencial é amar o problema, e não a solução ou o número em si.

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