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trabalhador ou máquina?
Ep. 29

trabalhador ou máquina?

11 de agosto de 202200:15:24
Pessoas

Resumo rápido

Wanda comenta uma reportagem da BBC News Brasil sobre um estudo que estima em 58,1% a fatia dos empregos brasileiros automatizável em vinte anos, usando as listas de ocupações mais e menos ameaçadas para discutir o que protege, ou não, um trabalho da automação.

Capítulos

  1. 00:06Apresentação do artigo "Trabalhadora ou Máquina?"
  2. 01:25O dado central: 58,1% dos empregos podem desaparecer em 20 anos
  3. 02:39As 10 ocupações com maior risco de automação
  4. 05:22As 10 ocupações com menor risco de automação
  5. 06:48O que essas profissões têm em comum
  6. 11:45Trabalho informal, formal e desigualdade
  7. 13:10Fatores que atrasam a automação e o "apagão de mão de obra"

Frases do episódio

“Mais da metade das ocupações que existem hoje no Brasil podem desaparecer em cerca de duas décadas.”

00:36

“as profissões com menor chance de substituição são aquelas com muita interação e muita subjetividade humana”

07:39

“as próprias empresas, se não se preocuparem em treinar, serão as mais afetadas pelo que a gente pode chamar de apagão de mão de obra.”

14:44

O que você vai ouvir neste episódio

  • A análise das dez ocupações com maior probabilidade de substituição por máquinas no mercado brasileiro atual.
  • A identificação das profissões com menor risco de extinção devido ao uso da tecnologia e automação.
  • O impacto direto do avanço tecnológico na transformação das funções operacionais e estratégicas das organizações.
  • A importância do desenvolvimento de habilidades humanas contínuas para manter a relevância no mercado de trabalho.
  • O papel das lideranças na condução de transições profissionais conscientes diante da automação de processos produtivos.

Temas discutidos

A discussão sobre a substituição do trabalho humano por máquinas conecta-se diretamente à evolução da agilidade e da liderança nas organizações. À medida que atividades repetitivas são automatizadas, o foco das equipes se desloca para a resolução de problemas complexos, inovação e entrega de valor contínua. Lideranças e profissionais de produtos precisam adaptar a cultura organizacional para promover o aprendizado contínuo, garantindo que as pessoas desenvolvam competências estratégicas e analíticas imunes à automação simples no ambiente de negócios.

Para quem é este episódio

Este episódio é recomendado para lideranças organizacionais, gestores de pessoas e profissionais de tecnologia ou produtos. Esses perfis encontrarão reflexões essenciais para planejar o desenvolvimento de carreiras, gerenciar a transição digital em suas equipes e estruturar ambientes de trabalho alinhados às mudanças trazidas pela automação no mercado.

Perguntas que este episódio ajuda a responder

Quais fatores determinam o risco de substituição de um trabalho por máquinas?

O risco de substituição está fortemente ligado ao caráter repetitivo e previsível das tarefas executadas. Funções operacionais que seguem regras rígidas sem necessidade de tomadas de decisão complexas ou empatia humana tendem a ser automatizadas com maior facilidade. Por outro lado, ocupações que exigem criatividade, pensamento crítico e interação social avançada possuem menor probabilidade de extinção no cenário atual.

Como os profissionais podem se preparar para o impacto da automação no trabalho?

Os profissionais devem focar no desenvolvimento contínuo de habilidades comportamentais e estratégicas, conhecidas como soft skills, que máquinas não conseguem replicar facilmente. Isso inclui capacidade de resolução de problemas complexos, pensamento analítico, inteligência emocional e flexibilidade cognitiva. Além disso, aprender a utilizar novas tecnologias como ferramentas de suporte em vez de concorrentes é fundamental para manter a relevância profissional.

Qual é o papel das lideranças na gestão de equipes frente ao avanço da tecnologia?

As lideranças devem atuar na identificação proativa das transformações no setor e no direcionamento da requalificação de suas equipes. Em vez de apenas substituir mão de obra, cabe aos gestores criar culturas organizacionais voltadas ao aprendizado contínuo. Isso envolve reestruturar papéis, migrar pessoas para atividades de maior valor agregado e gerenciar o impacto humano da transição tecnológica nas organizações.

Sobre este episódio

Neste episódio bônus do Love the Problem, Wanda comenta uma reportagem da BBC News Brasil publicada no G1, assinada por Laís Alegretti, intitulada "Trabalhadora ou Máquina? As 10 ocupações com maior e menor chance de sumir no Brasil". O artigo parte de um estudo de pesquisadores brasileiros que adaptaram o modelo de automação da Universidade de Oxford para a realidade do país, e Wanda usa esse material como gancho para retomar um tema recorrente do podcast: o trabalho do futuro em plena transição para o trabalho do conhecimento do século 21.

O dado central do estudo é que 58,1% dos empregos brasileiros podem ser automatizados em cerca de 20 anos, considerando apenas as tecnologias já existentes, um número que, segundo Wanda, ganha relevância por incluir também o trabalho informal, e não só os postos com carteira assinada. A partir daí, o episódio percorre as duas listas do artigo: as 10 ocupações com maior chance de automação (digitadores e assistentes jurídicos no topo, com 99%, seguidos de agentes de seguros, operadores de máquina, vendedores por telefone, despachantes aduaneiros, contabilistas, secretários jurídicos, condutores de veículos e balconistas) e as 10 com menor chance, concentradas em saúde, bem-estar e educação, dietistas, gerentes de hotéis, médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, trabalhadores do sexo e dirigentes de serviços educacionais.

Wanda comenta cada item das listas, levantando questões como se a categoria de assistente também reflete relações de poder e hierarquia na sociedade brasileira, e se a presença de condutores de automóveis já antecipa o avanço dos carros autônomos. Ao explicar o que diferencia os dois grupos, o artigo cita Paulo Rocha e Oliveira, da e-Dados e da ISE Business School: tarefas bem definidas e sem exigência de subjetividade humana são as mais automatizáveis, enquanto profissões que envolvem interação humana, emoção e julgamento ficam mais protegidas. Wanda conecta esse ponto a uma palestra de Rodrigo Toledo sobre a pessoa trabalhadora do conhecimento do século 21, resumida nos verbos aprender, ensinar e criar.

O economista Bruno Ottoni acrescenta que criatividade, originalidade e habilidades motoras finas em ambientes pouco estruturados também protegem ocupações como jardineiro ou empregada doméstica, mesmo exigindo menor qualificação formal, o que leva Wanda a apontar que, além da automação, há uma camada estrutural de poder, raça, gênero e desigualdade socioeconômica por trás de quais profissões são valorizadas. O episódio também situa o Brasil no cenário internacional (taxa de 58%, acima de países europeus como Suécia, Reino Unido, Irlanda, Holanda e Portugal, e um pouco abaixo de vizinhos como Uruguai, Paraguai e Argentina) e mostra que, no Brasil, o risco de automação é maior para o trabalho informal (62%) do que para o formal (55%), atingindo desproporcionalmente pessoas com menor escolaridade e populações mais vulneráveis do Nordeste e Norte.

O episódio fecha com a defesa dos pesquisadores de que o foco deveria estar nas tarefas automatizáveis dentro de cada profissão, e não em ocupações inteiras desaparecendo, uma lógica que Wanda relaciona ao conceito lean de autonomação, separando o que é trabalho da máquina do que é trabalho humano. Fatores como dificuldade de importar equipamentos, necessidade de treinamento e competitividade setorial podem atrasar a adoção dessas tecnologias, mas o alerta final é claro: sem políticas efetivas de retreinamento, o Brasil corre o risco de um "apagão de mão de obra", em que sobram vagas abertas e faltam profissionais preparados para ocupá-las.

Transcrição completa

Wanda apresenta um artigo publicado no G1, replicando uma reportagem da BBC News Brasil assinada por Laís Alegretti, intitulado "Trabalhadora ou Máquina? As 10 ocupações com maior e menor chance de sumir no Brasil". A partir dele, ela puxa o fio de um tema recorrente no podcast: o trabalho do futuro e como as organizações vivem, no presente, um movimento de transição para o trabalho do conhecimento do século 21.

O ponto de partida do artigo é forte: mais da metade das ocupações que existem hoje no Brasil pode desaparecer em cerca de duas décadas. A conclusão é de pesquisadores brasileiros que adaptaram para a realidade do país o modelo da Universidade de Oxford, calculando que 58,1% dos empregos no Brasil podem ser automatizados em cerca de 20 anos, considerando apenas as tecnologias já existentes, sem contar o que ainda está por vir. Um diferencial do estudo, na visão de Wanda, é incluir também os postos de trabalho informal, e não apenas os empregos com carteira assinada, o que o torna mais contextualizado para a realidade brasileira.

A pedido da BBC News Brasil, pesquisadores vinculados à consultoria e-Dados e à ISE Business School levantaram as 10 ocupações com maior chance de serem substituídas por máquinas. A lista inclui operadores de entrada de dados/digitadores e profissionais de nível médio de direito e afins (assistentes), ambos com 99% de chance de automação, agentes de seguros, operadores de máquina em geral e operadores de máquinas para equipamentos fotográficos, vendedores por telefone, despachantes aduaneiros, contabilistas e guarda-livros, secretários jurídicos, condutores de automóveis, táxis e caminhonetes, e balconistas e vendedores de loja. Wanda comenta cada item, questionando, por exemplo, se a categoria de assistente também reflete uma dinâmica de poder e hierarquia da sociedade brasileira, e se a entrada de condutores de automóveis na lista já antecipa o avanço dos carros autônomos.

Do lado oposto, a lista das 10 ocupações com menor probabilidade de automação, entre 0,4% e 0,7%, traz dietistas e nutricionistas, gerentes de hotéis, especialistas em métodos pedagógicos, médicos especialistas e médicos gerais, fonoaudiólogos e logopedistas, dirigentes de serviços de bem-estar social, psicólogos, trabalhadores do sexo, e dirigentes de serviços de educação. Wanda observa que essa lista concentra ocupações ligadas a saúde, bem-estar mental e social e educação, e cita, à parte, o livro "Sou Puta, Doutor" como referência para quem quiser aprofundar o tema do trabalho sexual, já indicado em um episódio anterior sobre diversidade.

O artigo explica o que diferencia os dois grupos: as ocupações com maior probabilidade de automação são tarefas muito bem definidas, que podem ser especificadas com precisão e exigem pouco juízo ou subjetividade humana, segundo Paulo Rocha e Oliveira, diretor-presidente da e-Dados e professor da ISE Business School. Wanda conecta esse ponto a uma palestra de Rodrigo Toledo no SGRio, sobre a pessoa trabalhadora do conhecimento do século 21, que resume em três verbos, aprender, ensinar ou criar, o que caracteriza um trabalho criativo. Já as profissões com menor chance de substituição são aquelas com muita interação e muita subjetividade humana, que envolvem saber lidar com pessoas e resolver situações onde as emoções são muito predominantes. O economista Bruno Ottoni, pesquisador do Idados e do Ibre/FGV, acrescenta que criatividade, originalidade, habilidades motoras finas e atuação em ambientes pouco estruturados também protegem uma ocupação, o que explica por que trabalhos como jardineiro ou empregada doméstica seguem pouco ameaçados no curto prazo, apesar de exigirem menor qualificação formal. Wanda pontua que, além da automação, existe também uma questão estrutural de poder, raça, gênero e recorte socioeconômico por trás de quais profissões são mais ou menos valorizadas.

Os cálculos usados no artigo têm como base o trabalho de Carl Benedict Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford, publicado originalmente com foco no mercado de trabalho dos Estados Unidos. A taxa brasileira de 58% fica um pouco abaixo da de outros países da América do Sul, como Uruguai (63%), Paraguai (63,7%) e Argentina (64,6%), e mais alta do que a de países europeus como Suécia e Reino Unido (47%), Irlanda e Holanda (48%) e Portugal (50%). Os pesquisadores apontam que a proporção de empregos automatizáveis tende a ser maior em países em desenvolvimento, por causa da maior proporção de ocupações que exigem pouca qualificação.

No Brasil, até 62% dos empregos informais podem desaparecer nas próximas duas décadas, contra 55% dos empregos formais. Segundo Ottoni, as pessoas com menor escolaridade, e, portanto, mais vulneráveis, como a população negra e moradores de regiões mais pobres do Nordeste e do Norte, são as que correm maior risco de automação. Rocha e Oliveira defendem que, mais do que pensar em profissões inteiras desaparecendo, é preciso olhar para quais tarefas dentro de cada ocupação podem ser feitas por máquinas: é a natureza do trabalho que muda, exigindo que humanos se concentrem no que os computadores não conseguem fazer. Wanda relaciona essa lógica ao conceito de autonomação do movimento Lean, separar claramente o que é trabalho da máquina do que é trabalho humano.

O consultor também lista fatores que podem atrasar a adoção dessas tecnologias pelas empresas brasileiras: a dificuldade de importar equipamentos, a necessidade de treinar funcionários para usá-los com eficiência, e a competitividade de cada setor: se os concorrentes não investem, a empresa também pode adiar o investimento. Os pesquisadores reforçam que os resultados não devem gerar pânico, mas funcionar como alerta: é por meio de políticas efetivas de retreinamento que o Brasil pode aliviar ou evitar a perda maciça de empregos. Ottoni argumenta que toda a sociedade, governos, empresas, terceiro setor, academia e o próprio trabalhador, precisa se preparar, porque a automação vai destruir empregos e criar vagas novas ao mesmo tempo, mas pode haver um descasamento entre quem está disponível e o que essas vagas exigem, gerando vagas abertas sem gente qualificada para preenchê-las e gente sem recolocação. A frase de fechamento do artigo, usada por Wanda para encerrar o episódio, é que as próprias empresas que não investirem em treinar sua equipe serão as mais afetadas por esse "apagão de mão de obra".

Wanda encerra convidando o público a refletir sobre como a automação vai impactar o seu próprio trabalho e a sua empresa no dia a dia.

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