
Ep. 119 - O futuro da Educação - com 42 São Paulo
Resumo rápido
Em uma gravação presencial após dois anos, Raquel, Lula, Bernardo e Karen Canaan (KK), fundadora da 42 São Paulo, discutem o que é educação de fato e como a 42 tenta resolver problemas de acesso, diversidade e dignidade no aprendizado em tecnologia.
Capítulos
- 04:07O que é a 42: escola gratuita de engenharia de software para maiores de 18 anos
- 09:12O que é educação, de fato: confundindo estrutura com essência
- 13:03Como a 42 derruba barreiras de acesso e atrai diversidade
- 19:09Fracasso, escola tradicional e o peso do sistema cis-heteronormativo
- 37:11Pensamento sistêmico e a impossibilidade de prever o futuro da educação
- 45:35Autorresponsabilidade, privilégio e o princípio "o zero não te elimina"
- 01:02:03Poder, colaboração e os convites finais para repensar a educação
Frases do episódio
O que você vai ouvir neste episódio
- O papel transformador da educação na sociedade e no desenvolvimento contínuo dos profissionais dentro das organizações.
- A utilização do ambiente de trabalho como uma plataforma ativa de aprendizagem e evolução constante de pessoas.
- Os fatores decisivos que influenciam o processo de aprendizagem para o futuro e crescimento das empresas.
- A preparação necessária para lidar com o novo entendimento sobre educação nas organizações contemporâneas.
Temas discutidos
A evolução dos processos de aprendizado está diretamente conectada à cultura organizacional e ao desenvolvimento de lideranças adaptativas. Em contextos ágeis, transformar o ambiente de trabalho em um espaço contínuo de capacitação impulsiona a inovação e a capacidade de resposta das empresas. Compreender a educação como um processo contínuo permite que profissionais e equipes evoluam constantemente, fortalecendo a cultura de aprendizagem e garantindo a sustentabilidade dos negócios em mercados dinâmicos.
Para quem é este episódio
Este conteúdo é ideal para líderes de recursos humanos, gestores de pessoas e especialistas em cultura organizacional. Esses profissionais encontrarão insights valiosos para transformar suas equipes, integrar o aprendizado ao cotidiano do trabalho e preparar suas organizações para as constantes transformações no ecossistema educacional e corporativo.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
Qual é o papel da educação no futuro das organizações?
A educação no contexto corporativo vai além do treinamento formal, atuando como um motor de transformação cultural e inovação. Ela permite que as organizações desenvolvam competências de forma contínua, preparando os colaboradores para lidar com mudanças complexas no mercado. Ao incentivar o aprendizado no dia a dia, as empresas criam ambientes adaptáveis e sustentáveis no longo prazo.
Como transformar o trabalho em uma plataforma de aprendizado?
Para utilizar o trabalho como plataforma de aprendizagem, as empresas devem criar um ambiente seguro que incentive a experimentação e a troca de conhecimentos. Isso envolve estruturar rotinas em que os desafios diários sirvam como oportunidades de desenvolvimento, conectando projetos práticos à evolução pessoal e profissional das pessoas da equipe.
Quais fatores influenciam os novos processos de aprendizagem?
Os novos processos educacionais dependem do engajamento individual, da cultura de compartilhamento da empresa e de metodologias focadas na prática. Além disso, exigem abertura da liderança para adaptar rotinas e valorizar o aprendizado contínuo. A integração desses fatores garante que o conhecimento adquirido seja aplicado diretamente na melhoria dos resultados operacionais da organização.
Sobre este episódio
Neste episódio 119 do Love the Problem, gravado presencialmente pela primeira vez em dois anos, os apresentadores Raquel e Lula recebem Bernardo, da K21, e Karen Canaan (KK), cofundadora da 42 São Paulo, para discutir o que significa educação e como repensá-la na prática.
A conversa parte de uma pergunta simples, o que representa educação para cada convidado, e chega a definições distintas: uma leitura inspirada em Hannah Arendt, de educação como o legado que deixamos para quem chega depois de nós, e uma leitura mais pessoal, de educação como processo contínuo de autoconhecimento e autorresponsabilidade. Dessas definições nasce a discussão central: a sociedade costuma confundir estrutura com conteúdo, achar que saúde é ir ao médico, que educação é frequentar uma sala de aula, e perder de vista a essência do que significa aprender.
A 42 é apresentada como um exemplo prático de outro caminho possível: uma escola gratuita de engenharia de software, sem processo seletivo tradicional, sem exigência de escolaridade prévia, sem professores institucionalizados e sem grade fixa de horários. O acesso se dá por sorteio seguido de um mês de imersão prática, avaliado pela adaptação e colaboração, não por notas. A liberdade extrema do modelo, decidir quando estudar, com quem, e por quanto tempo, é descrita como assustadora para quem nunca teve esse tipo de escolha, mas também como o que torna possível que pessoas de perfis muito diferentes, incluindo quem nunca imaginou trabalhar com programação, encontrem seu caminho ali.
Um dos fios mais fortes da conversa é a ressignificação do fracasso. Um dos convidados, pessoa trans, relata ter precisado "fracassar" dentro do sistema cis-heteronormativo tradicional para conseguir construir uma trajetória própria, e defende que o fracasso não deveria ser lido como falta de valor pessoal, mas como sintoma de um padrão que não serviu para aquela pessoa. Esse raciocínio é aplicado ao princípio "o zero não te elimina", central na cultura da 42: errar não tira ninguém do processo; o que importa é entender a intenção por trás do erro. O grupo reconhece, porém, que essa tolerância é mais fácil de sustentar para quem já tem privilégio social, e discute como levar esse mesmo espaço de acolhimento ao erro para quem historicamente nunca teve esse benefício.
A escola também é descrita como um espaço que substitui punição por responsabilização coletiva. O TIG (trabalho de interesse geral da comunidade) é dado como exemplo: em vez de simplesmente punir quem comete um deslize (como derramar água perto de computadores), a pessoa presta um serviço que devolve cuidado à comunidade, um mecanismo comparado, mais adiante na conversa, ao caso de um aluno que furtou um instrumento musical para conseguir uma bolsa em outra escola e foi afastado não como castigo, mas para assumir a responsabilidade pela própria escolha sem que isso custasse a confiança de todo o grupo.
O tema da escolha atravessa boa parte do episódio. O grupo debate o privilégio embutido na própria ideia de "ter opções": para muita gente, escolher é um luxo, e a sobrevivência não deixa espaço para isso. Ainda assim, defendem que mesmo em contextos de desigualdade extrema existe algum grau de agência, ilustrado por relatos de estudantes da 42 que romperam com trajetórias de origem, sem deixar de reconhecer que a estrutura social tensiona essas escolhas de formas muito desiguais dependendo de quem é a pessoa.
A conversa se conecta ainda a referências que já são recorrentes no podcast, como o pensamento sistêmico de Donella Meadows (citado a partir do livro "Thinking in Systems") e o conceito de organizações menos hierárquicas de Frederic Laloux, usados para argumentar que não é possível prever ou controlar sistemas complexos, sejam eles empresas, escolas ou a sociedade, olhando apenas para o todo, sem entender a complexidade de cada parte que o compõe.
Perto do fim, o grupo resume o diagnóstico que atravessa o episódio inteiro: o modelo atual "não está dando certo para ninguém", nem para quem está em posição de sucesso (daí a piada sobre minimizar o próprio esgotamento como "burnoutinho") nem para quem está fora dela. A saída proposta não é uma fórmula fechada, mas a disposição coletiva de aprender a construir o novo junto, a partir da prontidão de cada pessoa, não de metas ou certezas prontas.
O episódio termina com anúncios práticos, o lançamento de um "Trend Book" da 42 com estudos sobre educação e mercado de trabalho, e o convite para se inscrever no processo seletivo da 42 São Paulo, e com convites pessoais de encerramento: a ideia de que qualquer transformação relevante começa por uma autotransformação individual, e a proposta, inspirada em Paulo Freire e na pensadora Tatiana Nascimento, de habitar o próprio desconforto como parte da responsabilidade de quem ocupa lugares de privilégio.
Transcrição completa
A 42 é apresentada como uma escola de engenharia de software, gratuita, aberta a qualquer pessoa maior de 18 anos, sem processo seletivo nos moldes tradicionais. A conversa nasce de uma pergunta simples: o que representa educação para cada uma das pessoas na mesa? Uma das convidadas, ligada à filosofia de Hannah Arendt, define educação como a forma como escolhemos deixar o mundo para quem está chegando nele, o legado do que aprendemos e dos erros que cometemos, para que quem vem depois não precise repeti-los. Outra fala de educação como processo contínuo de autoconhecimento, autogestão e autorresponsabilidade, um "lifelong learning" cujo objetivo é se tornar, todos os dias, um ser humano melhor.
Dessas falas nasce a ideia de que educação está ligada a colocar o próprio potencial a serviço do mundo, e que isso vale tanto para quem ensina formalmente quanto para quem, no dia a dia do trabalho, educa colegas sem perceber. O grupo nota como a expressão "falta de educação" raramente é associada a escolas ou universidades, e discute como a sociedade costuma confundir estrutura com conteúdo: achar que saúde é ir ao médico, que lazer é pagar um parque de diversões, que educação é frequentar uma sala de aula. Professores atentos, dizem, deveriam existir para despertar a perspectiva de cada estudante, não para transmitir uma verdade absoluta.
A partir daí a pergunta central do episódio aparece: qual problema a educação está tentando resolver? E qual problema a 42 está tentando resolver? A resposta começa pela diversidade do público da escola, gente de todas as idades, classes sociais e trajetórias. A explicação é que a 42 não atraiu esse público com estratégia, mas derrubando barreiras: o medo de estudar e não passar, de passar e não conseguir pagar, a exigência de ensino médio completo. Não existe preparação prévia para entrar; existe apenas a disposição de estar ali e querer aprender.
Dentro da 42, ninguém diz o que, quando ou como aprender. A liberdade é total, envolvendo os horários, o ritmo, com quem conversar, e isso assusta quem nunca teve esse tipo de escolha. A escola funciona 24 horas, e cada pessoa constrói o próprio processo de aprendizagem. A ideia central é que o indivíduo não é um recipiente vazio a ser preenchido, mas alguém cheio de potencial que a educação ajuda a extrair. Isso muda vidas de pessoas que nunca haviam pensado em programar, incluindo candidatos de 69 anos, e contrasta com um mercado de tecnologia historicamente homogêneo, onde as mesmas universidades formam os mesmos perfis. Em vez de perguntar "como fico mais bem posicionado no mercado", a 42 provoca a pergunta "como aprendo o suficiente para me sentir seguro para escolher".
O grupo debate como a demanda por profissionais de tecnologia cresce mais rápido do que as instituições tradicionais conseguem formar gente, e como caminhos alternativos, como o da 42, respondem a essa lacuna de um jeito que as universidades não têm facilitado.
Um dos convidados, que se apresenta como uma pessoa trans, conecta essa discussão à própria trajetória: fala do ser humano como uma tecnologia que se desenvolve a si mesma, e de como a pedagogia da 42 leva primeiro a entender os próprios "códigos" internos antes de qualquer linguagem de programação. A partir daí, reconstrói a história da escola tradicional: originalmente um espaço pensado para oferecer as mesmas condições a todos, a mesma merenda, o mesmo acesso à informação, mas que foi se transformando sob a entrada do capitalismo e de uma estrutura social que passou a tratar quem não segue a linha do tempo esperada (entrar na universidade, se formar) como "fracassado". Ele relata que, como pessoa trans, precisou fracassar dentro do sistema cis-heteronormativo para conseguir criar algo além dele, e defende que o fracasso não diz respeito à falta de valor de uma pessoa, mas ao padrão que foi imposto e que fracassou nela. A escola, conclui, tem essa dualidade: pode fazer muito mal a algumas pessoas e muito bem a outras, e a 42 tenta ocupar esse segundo lugar.
A conversa também revisita a própria história do Love the Problem, citando o episódio 11, sobre pensamento sistêmico, gravado com Alisson Vale, como referência de conteúdo gratuito e sem pressão de tempo, algo que ecoa a lógica do processo seletivo da 42: não é um vestibular, e sim um sorteio seguido de um mês de imersão (a chamada "piscine"), avaliado pela capacidade de se adaptar, trocar e aprender junto, não por notas em provas. Quem não passa pode se inscrever de novo mais tarde, e é comum ver quem não passou ajudando quem está chegando na fase seguinte. O fracasso, dizem, faz parte do caminho, desde que a pessoa tenha "fit" com esse modelo pedagógico.
Outro fio da conversa é a ideia de dignidade recuperada pelo trabalho, não na chave de que "o trabalho dignifica o homem", mas na de que o trabalho é um espaço coletivo de construir algo que entrega valor à sociedade. É nesse contexto que surge o Lab Plural, iniciativa da Asterisco (empresa do ecossistema K21), voltada a redistribuição de renda e oportunidades para pessoas fora da zona de privilégio. O grupo destaca que diversidade não significa uniformidade: mesmo dentro de grupos minorizados há complexidade, histórias e gatilhos diferentes, e a cultura ágil tem servido como ferramenta para lidar com essa complexidade dentro das empresas, evitando o erro de tratar ações afirmativas como caixinhas que resolvem tudo. A marginalização, reforçam, raramente é escolha; é antes uma compulsoriedade social.
Daí nasce a metáfora da vida como escola: aprendizado, saúde e lazer não deveriam estar confinados a um lugar ou momento específico. Perguntar "quantas pessoas a 42 vai formar" é, segundo o grupo, a pergunta errada; o que importa é a prontidão de cada pessoa para aprender, não uma meta numérica.
A conversa segue para o tema da escolha: como trazer mais mulheres para a tecnologia começa em atitudes individuais, convidar uma amiga, participar, perguntar, e não em esperar que uma instituição resolva sozinha. Isso leva à ideia de "prontidão" como um processo, não um estado pronto e acabado: às vezes a pessoa está bem, às vezes não, e tudo bem. O grupo recusa tanto uma leitura meritocrática quanto uma leitura "salvacionista" do projeto da 42: ninguém salva ninguém; as pessoas se salvam a si mesmas.
Esse trecho conecta com o episódio favorito do Love the Problem entre os presentes, sobre pensamento sistêmico, e com o livro "Thinking in Systems", de Donella Meadows, que será tema da segunda temporada do podcast parceiro Segue o Flow. A ideia central citada é que não é possível prever o comportamento de um sistema complexo olhando só para o todo, sem entender que cada parte também é, em si, um sistema complexo, e que essa lente ajuda a entender por que a educação, o mercado e a sociedade não seguem uma linha reta previsível.
Volta então a pergunta sobre o que é educação: construção de futuro, coletiva e individual ao mesmo tempo. O grupo pondera sobre o risco de cair num discurso individualista e reforça que aprender também é coletivo, inclusive para quem se considera autodidata. É nesse ponto que fica claro que a 42 não tem professores institucionalizados: cada estudante avança em seu próprio ritmo dentro da grade curricular, por meio de projetos práticos de programação, mas sempre dependendo da comunidade. A tecnologia (Google, Stack Overflow, YouTube) tornou o autodidatismo mais fácil do que era vinte anos atrás, quando a alternativa era a biblioteca, mas o suporte humano continua fundamental para os momentos de trava e insegurança.
A camiseta usada por um dos convidados, estampada com "human coder", resume essa ideia: código se aprende sozinho; a parte humana se constrói em contato com os outros. Isso remete ao conceito de Ubuntu, "eu sou o que sou porque nós somos", e à constatação de que as organizações ainda não se enxergam como espaços de educação mútua, tratando "aprender" e "trabalhar" como coisas separadas, terceirizando a formação para áreas isoladas de "educação corporativa" em vez de tratar o próprio trabalho como lugar de aprendizado coletivo.
Essa reflexão puxa o tema da autorresponsabilidade: parar de terceirizar escolhas, desde a escolha de um emprego até a de como reagir a um conflito, e assumir que cada decisão, mesmo dentro de contextos desiguais, tem um espaço de escolha próprio. Um dos princípios centrais da 42, citado nesse trecho, é que "o zero não te elimina": errar um teste não tira a pessoa do processo. O grupo reconhece que essa tolerância ao erro é mais fácil de exercer por quem tem privilégio: uma mulher branca de classe média relata nunca ter sido "crucificada" por um erro de infância, ao contrário do que costuma acontecer com pessoas em posições mais vulneráveis. A 42 tenta abrir esse mesmo espaço de tolerância para o maior número possível de pessoas, reconhecendo que, no fundo, "ninguém tem a mínima ideia do que está fazendo" e que todo mundo está aprendendo junto.
O grupo também discute o privilégio embutido na própria ideia de "ter escolha": para muita gente, escolhas não existem, apenas a necessidade de sobreviver. É contado o caso de um aluno da 42 que precisou decidir entre aceitar uma vaga de desenvolvedor júnior ou continuar em uma iniciativa interna da escola (o 42Live), uma escolha boa, mas ainda assim uma escolha, algo que nem todo mundo tem a chance de fazer. Ainda assim, o grupo defende que mesmo em contextos de desigualdade extrema existe poder de escolha, ilustrado pelo relato de um estudante cujo pai foi preso por assassinato e cuja mãe dizia que a diferença estaria em quem ele escolhesse ouvir. Reconhece-se, ao mesmo tempo, que a estrutura social tensiona essas escolhas para lados diferentes dependendo do lugar de cada pessoa, e que alguém que escolhe o tráfico, por exemplo, também deve ser responsabilizado, mas dentro de uma leitura sistêmica, não policialesca.
Um exemplo consolida a ideia: o de um garoto que furtou um instrumento musical caro para conseguir uma bolsa maior em outra escola de música. A escola não abriu boletim de ocorrência, mas afastou o aluno, não como punição, e sim porque ele precisava arcar com a responsabilidade da escolha, sem que isso custasse a confiança de toda a comunidade (por exemplo, instalar câmeras ou revistar mochilas). A conclusão do grupo é que existem muitos sistemas de punição na sociedade e poucos sistemas voltados a construir responsabilidade e cuidado.
Essa lógica é comparada ao funcionamento do capitalismo, que opera aprisionando uns e fazendo com que uns ganhem mais às custas de outros, e à política de transferência de renda do governo Lula, citada como exemplo de como valorizar quem presta serviços informais (o exemplo dado é o de diaristas que passam a poder cobrar mais depois de um piso de renda garantido) pode desmontar, sem violência, uma estrutura de poder desigual. O convite do grupo é para tratar quem está do lado privilegiado não como inimigo, mas como alguém a ser trazido para perto, evitando polarizações do tipo "pretos contra brancos" ou "pessoas cis contra pessoas trans". O problema, argumentam, está na estrutura social que cria essas diferenças, não nas pessoas em si. A conversa cita ainda o livro "Reinventing Organizations", de Frederic Laloux, como referência para pensar a superação da lógica de mercado de "ganhar às custas do outro".
O grupo também reflete sobre o poder das palavras em tempos de cultura do cancelamento, defendendo a escolha de palavras que expressem discordância com respeito, pensando no outro. Isso leva de volta ao vocabulário interno da 42: a "cola" ali não é proibida se a pessoa souber explicar o que fez e como chegou até ali; o que importa é entender a intenção por trás de um erro, não simplesmente puni-lo. É descrito o TIG (trabalho de interesse geral da comunidade): quem comete um deslize, como derramar água perto dos computadores, presta um serviço à comunidade em vez de simplesmente ser penalizado, como forma de devolver cuidado ao invés de cumprir uma pena.
Uma analogia final envolve escolas de São Paulo que decidiram derrubar seus muros: ao contrário do temor de que as crianças fugiriam, elas não fogem do que não querem, porque a relação de confiança com o professor, não o muro, é o que as mantém ali. Essa ideia reforça o argumento de que a sociedade tem muitos sistemas de punição e poucos sistemas de construção de confiança e responsabilidade coletiva.
Rumo ao encerramento, o grupo resume que "não está dando certo para ninguém", nem para quem está em posição de sucesso, nem para quem está fora dela, e que empresas já testam a colaboração como valor sem ainda saber praticá-la de fato. A saída proposta não é uma fórmula pronta, mas uma disposição coletiva para aprender a construir o novo junto, o que os convidados chamam de "prontidão". É mencionado, de passagem, o hábito de minimizar o próprio esgotamento chamando-o de "burnoutinho", como sintoma de que ninguém, nem os mais bem-sucedidos, está de fato bem.
Como encerramento prático, é anunciado que a 42, em parceria com o Love the Problem, vai lançar um "Trend Book", na verdade três estudos sobre educação, mercado e empregabilidade, incluindo um texto da professora Lucilena Galvão, disponível no site do podcast. Os ouvintes também são convidados a se inscrever no processo seletivo da 42 São Paulo pelo site 42sp.org.br, que consiste em dois jogos simples de cerca de duas horas e meia; quem não é chamado pode tentar de novo seis meses depois.
Cada convidada deixa um convite final. Uma delas propõe que qualquer mudança que se queira ver no mundo comece por uma autotransformação, mudar-se para, por consequência, transformar o que está fora. O outro convidado, citando a pensadora Tatiana Nascimento, colega no Asterisco Lab e no Lab Plural, propõe encarar o desconforto, inclusive o desconforto do contato com quem pensa diferente, não como um campo minado, mas como fortaleza, reconstruindo tudo a partir do que já foi vivido. Ele conecta essa ideia ao pensamento de Paulo Freire, lembrando como o próprio educador foi ajustando sua linguagem ao longo da vida para incluir professoras ao lado dos professores, e propõe que pessoas em posição de privilégio aprendam a habitar esse desconforto como parte da própria responsabilidade. O episódio termina com os anfitriões celebrando a primeira gravação presencial do podcast em dois anos.
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