
Ep. 101 - Event Storming
Resumo rápido
Sebas Ferrari, Ana Carolina e Alice, da Thaler, explicam como o Event Storming usa post-its coloridos, narrativas e eventos para fazer times de negócio e tecnologia construírem juntos o entendimento de um domínio complexo.
Capítulos
- 06:50Que problema o Event Storming resolve
- 08:25Modelar com narrativas em vez de estruturas prontas
- 20:57A coluna vertebral do workshop e a carga cognitiva inicial
- 23:27Post-its coloridos e a metáfora da pizza
- 30:24Ordenando eventos: a história da Cinderela e os eventos pivô
- 41:49Mapeando o estado atual (as-is) e as oportunidades de melhoria
- 52:15As saídas do workshop: glossário, linguagem ubíqua e arquitetura
Frases do episódio
“ele utiliza justamente o caos que a gente gera nessa folha em branco, que é um monte de eventos e tal, pra justamente emergir dali estrutura”
16:14
“é mais importante a participação e a colaboração das pessoas ali, do que estar certo já logo no começo”
21:39
“os eventos pivô são eventos que mudam a história de status, ou seja, são eventos que mudam o teu negócio”
35:31
O que você vai ouvir neste episódio
- O Event Storming promove o alinhamento visual rápido entre profissionais de tecnologia, design e especialistas de negócios.
- Ana Carolina Lima destaca como a facilitação visual auxilia designers de experiência a entenderem regras complexas de negócios.
- Sebastian Ferrari aborda o impacto da técnica na arquitetura de software e na definição clara de limites de domínio.
- Alice David Dos Santos compartilha a visão da engenharia na simplificação da comunicação direta com as áreas de produto.
- O mapeamento de eventos reduz ambiguidades e acelera a entrega de valor em times multidisciplinares e ágeis.
Temas discutidos
O Event Storming se conecta diretamente aos pilares de agilidade, produto e cultura organizacional ao quebrar silos entre diferentes disciplinas. Ao reunir UX designers, desenvolvedores e lideranças técnicas na mesma dinâmica, a prática estimula a comunicação empática e o entendimento compartilhado sobre o domínio do produto. Essa colaboração intensiva acelera a tomada de decisão estratégica e ajuda os times a resolverem problemas reais de forma alinhada às necessidades do negócio.
Para quem é este episódio
Este episódio beneficia desenvolvedores de software, designers de experiência e lideranças técnicas que buscam melhorar o alinhamento com áreas de negócios. Também é recomendado para facilitadores e pessoas de produto interessadas em técnicas colaborativas para detalhar domínios complexos.
Perguntas que este episódio ajuda a responder
O que é o Event Storming e qual o seu objetivo principal?
O Event Storming é uma oficina workshop focada em mapear rapidamente domínios de negócios complexos por meio de eventos. O objetivo principal é criar um entendimento compartilhado entre especialistas de negócios, designers e engenheiros de software, reduzindo ruídos de comunicação e identificando gargalos ou oportunidades no fluxo do produto.
Como o Event Storming ajuda na integração entre UX, desenvolvimento e negócios?
A prática reúne pessoas de diferentes especialidades para construir um modelo visual único da aplicação. Ao colocar profissionais de UX, engenharia e produto na mesma sala, o processo fomenta a empatia e garante que os aspectos visuais, técnicos e funcionais sejam compreendidos por todos sob a mesma perspectiva estratégica.
Qual é o papel da liderança técnica e da engenharia no Event Storming?
A engenharia e a liderança técnica utilizam os eventos identificados para estruturar uma arquitetura de software alinhada às necessidades do negócio. A participação ativa dos desenvolvedores evita suposições incorretas, facilita a identificação de limites de contexto e garante que a implementação reflita fielmente os processos operacionais mapeados.
Sobre este episódio
Este episódio do Love the Problem funciona como continuação direta do episódio anterior sobre Domain-Driven Design (DDD): o mesmo trio da Thaler, Sebas Ferrari (CTO e cofundador), Ana Carolina (UX designer) e Alice (desenvolvedora), volta ao podcast para aprofundar um termo que apareceu bastante naquela conversa, o Event Storming.
A discussão parte da pergunta que estrutura o programa: que problema o Event Storming resolve? A resposta é o gap de comunicação entre quem entende profundamente o domínio de um negócio e quem precisa construir a solução para ele. Em vez de começar com apresentações, documentos e estruturas prontas que vivem na cabeça de alguns stakeholders, o Event Storming propõe começar do zero, com uma folha em branco, e deixar que o entendimento emerja de narrativas contadas por meio de eventos, fatos que já aconteceram, sempre registrados no passado, como 'pagamento efetuado' ou 'conta paga'.
Os convidados detalham a mecânica prática da dinâmica, apoiada nas práticas de Alberto Brandolini, criador da técnica: a primeira diretriz é reduzir ao máximo a carga cognitiva inicial, evitando explicar o método antes de começar. Um facilitador reúne as pessoas certas, quem vive o domínio do problema e quem vai construir possíveis soluções, e conduz a sessão com uma notação de post-its coloridos: laranja para eventos, azul para atores e comandos (ações imperativas como comprar, cadastrar, debitar), roxo para sistemas e rosa para regras de negócio. A comparação recorrente ao longo da conversa é a de uma pizza: cada facilitador adapta a receita e tira ou acrescenta ingredientes, sem deixar de ser, no fim, um Event Storming.
Depois da fase caótica de despejar eventos sem ordem, o 'storming' que dá nome à técnica, o grupo organiza esses eventos numa sequência que conte uma história coerente. Uma prática citada é aquecer os participantes contando, em miniatura, a história da Cinderela com o mesmo método, antes de aplicar a mesma lógica ao problema real. Ao ordenar os eventos, surgem os eventos pivô: momentos que mudam o rumo do negócio, geralmente com um handoff entre áreas, como o fechamento de um carrinho de compras que dispara uma nova cadeia de pagamento e logística. É a partir desses pivôs que começam a emergir os contextos que organizam o domínio, pagamento, notificações, logística, e as fronteiras de linguagem entre eles.
A conversa também aborda as anotações auxiliares da dinâmica: hotspots, pequenos balões usados para registrar dúvidas que travariam a sessão se fossem discutidas ali mesmo, e marcações de oportunidades de melhoria, típicas do chamado Event Storming As-Is, voltado a mapear o estado atual de um processo para enxergar seu potencial evolutivo, uma ideia que os convidados conectam ao conceito de Cynefin, de Dave Snowden. Também existem diferentes tipos de Event Storming, do Big Picture organizacional, que mapeia processos e handoffs de uma empresa inteira sem entrar em sistemas técnicos, até o Event Storming de Software Design, mais técnico e detalhado, cada tipo pedindo a participação de perfis diferentes de pessoas.
Uma parte importante da conversa é dedicada às saídas concretas do workshop. Do ponto de vista de desenvolvimento, o material produzido, eventos, comandos, contextos e agregados, quase se transforma diretamente em insumo para pensar arquitetura, entidades e tecnologias. Do ponto de vista de design, o Event Storming funciona como um recurso valioso de discovery, que gera mais perguntas direcionadoras do que respostas prontas, e que os convidados relacionam ao double diamond e ao design thinking, com um paralelo possível (embora menos colaborativo) ao Service Blueprint. Em ambos os casos, o produto mais citado é o glossário compartilhado e a linguagem ubíqua que nasce da dinâmica, usada tanto para nomear variáveis e entidades no código quanto para escrever textos de interface alinhados ao domínio.
Sobre a prática de facilitação, os convidados comentam a diferença entre o formato presencial original, criado por Brandolini, e as adaptações necessárias para sessões remotas, e reforçam a importância de pausas regulares: um Event Storming completo costuma levar pelo menos quatro horas, com intervalos que ajudam o grupo a largar a busca por perfeição e retomar com um olhar mais fresco. Apesar do cansaço, o formato costuma deixar os participantes entusiasmados, porque saem da sessão com material concreto para trabalhar, em vez da sensação de estarem perdidos diante de um problema complexo.
O episódio fecha com reflexões sobre como a linguagem do domínio se torna prática à medida que é usada durante o workshop, de forma parecida a aprender um idioma na conversa, não na gramática, e recomendações para quem quiser se aprofundar no assunto, com destaque para o trabalho de Alberto Brandolini e o podcast Virtual DDD, que também explora sessões de Event Storming remoto com estudos de caso.
Transcrição completa
Este episódio é quase uma continuação do episódio anterior sobre Domain-Driven Design (DDD): dessa vez o assunto é o Event Storming, técnica que apareceu bastante naquela conversa e que agora ganha um episódio inteiro. Participam Sebas Ferrari, CTO e cofundador da Thaler, Ana Carolina, UX designer, e Alice, desenvolvedora, todos do mesmo time que gravou o episódio de DDD.
A conversa começa pela pergunta que guia o podcast: que problema o Event Storming resolve? A resposta central é o gap de entendimento entre quem domina o problema de negócio e quem vai construir a solução. Para ter esse entendimento é preciso uma linguagem comum, e é aí que o Event Storming entra: uma forma de modelar problema e solução ao mesmo tempo, de maneira colaborativa, por meio de narrativas e eventos. Em vez de começar com apresentações e estruturas prontas que já vivem na cabeça de alguns stakeholders, o grupo começa com uma folha em branco e vai contando histórias.
Esse processo é evolutivo: ele usa a favor o próprio caos gerado numa folha em branco cheia de eventos para, a partir dali, deixar emergir uma estrutura. É o contrário do modelo tradicional de consultoria, que parte de modelos mentais já prontos. Funciona bem justamente porque lida-se com sistemas sociotécnicos, em que a interação social e os sistemas técnicos se impactam mutuamente; por isso não adianta focar só na parte técnica esperando resolver o problema.
Sobre a estrutura da dinâmica, existe sim uma espinha dorsal, baseada nas práticas de Alberto Brandolini, criador do Event Storming. Um dos participantes fez um curso remoto com ele. A lição mais importante desse curso foi que é mais importante a participação e a colaboração das pessoas do que estar certo logo no começo. Por isso a primeira diretriz é reduzir ao máximo a carga cognitiva inicial: evita-se explicar o método logo de cara, e o facilitador leva as pessoas certas, quem vive o domínio do problema e quem vai construir possíveis soluções, para uma sessão com agenda, mas aberta ao improviso.
A notação funciona com post-its de cores diferentes, e a primeira e mais importante é o laranja, que representa eventos. A comparação usada é a de uma pizza: cada facilitador bota os toppings que preferir e adapta a receita ao contexto, sem deixar de ser uma pizza. Eventos são coisas que já aconteceram, sempre escritos no passado, conta paga, pagamento efetuado, cálculo processado, e são colocados por qualquer pessoa presente, não só por quem domina o assunto, para não virar um exercício elitizado. Essa etapa caótica de despejar eventos é o "storming" que dá nome à técnica; como ela nasceu presencial (folha grande, post-its físicos, canetas para todos), quando feita remotamente exige mais esforço para manter a colaboração viva.
Depois de gerar os eventos, o grupo os ordena de forma a contar uma história coerente. Uma prática ensinada por Brandolini é aquecer o grupo contando, em miniatura, a história da Cinderela com os mesmos post-its, para depois repetir a dinâmica com o problema real. Ao ordenar os eventos, identificam-se os eventos pivô, aqueles que mudam o rumo da história, geralmente com um handoff entre áreas, como o fechamento de um carrinho de compras que dispara pagamento e logística. A partir da ordenação e dos pivôs começam a emergir os contextos (pagamento, notificações, logística etc.), que delimitam a linguagem e mostram onde um contexto se comunica com outro por meio de um evento de integração.
Com os contextos nascem outras notações: atores e comandos (ações imperativas como comprar, cadastrar, debitar, em post-its azuis), sistemas (post-its roxos) e, quando surgem dúvidas que travariam a sessão, hotspots, pequenos balões que registram um ponto para resolver depois, como "conversar com o time de pagamento para entender a verificação". No mesmo espírito aparecem anotações de oportunidades de melhoria, prática típica do chamado Event Storming As-Is, que mapeia o estado atual do processo para enxergar seu potencial evolutivo, ideia que dialoga com o conceito de Cynefin, de Dave Snowden.
Também existe o post-it de regra de negócio, geralmente rosa, escrito pelos próprios domain experts, registrando condições como "se a pessoa for maior de 18 anos, então...". E o Event Storming não é uma técnica única: há pelo menos três tipos, do Big Picture, voltado a entender processos e handoffs de uma organização inteira, sem entrar em sistemas técnicos, até o Event Storming de Software Design, mais detalhado e técnico, cada um pedindo a participação de pessoas diferentes.
As saídas do workshop são discutidas em detalhe: primeiro, o glossário e a linguagem ubíqua construídos coletivamente, que alimentam tanto o código (nomes de variáveis, classes, entidades e agregados alinhados ao domínio) quanto os textos de interface e de UX writing. Do ponto de vista de desenvolvimento, o material serve quase por completo para pensar contextos, arquitetura e as tecnologias necessárias; comandos e eventos apontados no board já indicam quais serão os agregados e entidades do sistema. Do ponto de vista de design, o Event Storming funciona como um recurso valioso de discovery, que gera mais perguntas do que respostas prontas, mas direciona pesquisas mais aprofundadas depois, uma conexão explícita com o double diamond e o design thinking, e um paralelo possível com o Service Blueprint, embora este último seja menos colaborativo.
Sobre a prática da facilitação, destaca-se a importância dos intervalos: um Event Storming completo costuma exigir pelo menos quatro horas, e pausas de dez minutos ajudam o grupo a soltar a busca por perfeição e voltar com o olhar mais fresco. Apesar de cansativa, a dinâmica costuma deixar os participantes entusiasmados, porque saem da sessão com muito material concreto para trabalhar em vez da sensação de estarem perdidos.
Por fim, a conversa comenta como a linguagem do domínio vai se tornando prática à medida que o grupo a usa durante o workshop, de forma parecida a aprender um idioma na conversa em vez de na gramática, e explica por que o time evita termos técnicos como "aggregate" logo no início, preferindo o termo "conceito" para facilitar o entendimento de quem não é da tecnologia. Como referências para quem quiser se aprofundar, os participantes recomendam o trabalho de Alberto Brandolini e o podcast Virtual DDD, que também explora sessões de Event Storming remoto com estudos de caso fictícios.
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